A BÍBLIA DA FEITIÇARIA

 O   Manual  Completo  dos  Feiticeiros

INTRODUÇÃO

 

 

A feitiçaria moderna, na Europa e nos EUA, é um fato. Ela não é mais uma relíquia subterrânea da qual a camada restante, e até mesmo a própria existência, é acirradamente disputada pelos antropologistas. Ela não é mais o passatempo bizarro de um punhado de excêntricos. Ela é a prática religiosa ativa de um número substancial de pessoas. Sobre o quão grande é este número não existe certeza, porque a Wicca, além do coven individual, não é uma religião hierarquicamente organizada. Onde organizações formais de fato existem, como nos Estados Unidos, isto se aplica à razões legais e tributárias, não para uniformidade dogmática ou o número de membros. Porém os números são, por exemplo, suficientes para manter uma variedade de periódicos ativos e para justificar a publicação de um corpo literário sempre crescente, em ambos os lados do Atlântico; portanto uma estimativa razoável seria a de que os adeptos da Wicca em atividade chegam agora à dezenas de milhares, no mínimo. E toda evidência sugere que o número está crescendo com regularidade.

A Wicca é ao mesmo tempo uma religião e uma Arte – aspectos que Margaret Murray distinguiu como “uma feitiçaria (Arte) ritual” e “feitiçaria operativa”. Como uma religião – tal como em qualquer outra religião, seu propósito é colocar o indivíduo e o grupo em harmonia com o princípio criativo Divino do Cosmos, e suas manifestações, em todos os níveis. Como uma Arte, seu propósito é atingir fins práticos por meios psíquicos, para propósitos bons, úteis e de cura. Em ambos os aspectos, as características distintas da Wicca são a sua atitude orientada na Natureza, sua autonomia em pequenos grupos sem qualquer vazio entre o sacerdotado e a “congregação”, e sua filosofia de polaridade criativa em todos os níveis, desde Deusa e Deus até Sacerdotiza e Sacerdote.

Este livro está relacionado ao primeiro aspecto – Wicca como uma religião, ritualmente expressada.

As feiticeiras, como um todo, gostam de ritual – e elas (*) são pessoas naturalmente alegres. Como os adoradores de outras religiões, elas crêem que o ritual apropriado as eleva e enriquece. Mas seus rituais tendem à ser mais variados do que em outros credos, variando desde o formal até o espontâneo e também diferenciando de coven para coven, segundo suas preferências individuais e as escolas de pensamento (Gardneriana, Alexandrina, ‘Tradicional’, Celta, Dianica, Saxônica, e daí para frente) nas quais eles se basearam.

(* Sendo a Tradição Mágica essencialmente feminina, eu traduzi Witch/es como Feiticeira/s, apesar de que uma tradução “normal” seria no masculino devido ao costume imposto pela sociedade em se dar preferência à este gênero ao se referir à coletividade humana).

Mas ao passo que o reavivamento Wicca do século vinte amadurece (e em muitos covens passa para sua Segunda geração), a animosidade entre escolas que frustrava seus primeiros anos tem diminuído considerávelmente. Os dogmáticos ainda se criticam entre si nos  periódicos – mas seu dogmatismo é condenado de forma crescente por outros correspondentes como sendo inútilmente separatista; e a maioria dos covens comuns está simplesmente entediada com isso. Os anos lhes tem ensinado que seus próprios caminhos funcionam – e se  (como nosso próprio coven) eles tem amigos de outros caminhos, estes também vieram à compreender que aqueles caminhos também funcionam.

Desta maior tolerância mútua surgiu um entendimento mais amplo da base comum da Wicca, seu espírito essencial que pouco tem à ver com os detalhes da forma. Também, com a troca de idéias através da palavra escrita e através do contacto pessoal mais aberto, há um corpo crescente de tradição compartilhada do qual todos podem usufruir.

 

É como uma contribuição para este crescimento que oferecemos nosso presente livro. Para ser válido, e útil, qualquer contribuição desse tipo deve ser um ramo brotando de modo saudável a partir do tronco mãe da nossa história racial, tanto quanto as formas específicas da prática Wicca como ela agora sustenta (em nosso caso as formas Gardneriana/Alexandrina); e isso é o que temos trabalhado para realizar.

Afortunadamente, existe uma estrutura que é comum para todos os caminhos Wicca, e deveras à muitos outros: as Oito Celebrações.  

 

O moderno calendário da feiticeira (qualquer que seja sua ‘escola’) tem sua raiz, como aquele de seus antecessores através dos séculos incontáveis, nos Sabás, celebrações sazonais que marcam pontos vitais no ano natural, pois a Wicca, como temos sublinhado, é uma religião e Arte orientada à Natureza. E uma vez que, para as feiticeiras, a Natureza é uma realidade de níveis múltiplos, seu ‘ano natural’ inclui muitos aspectos – agrícola, pastoral, vida selvagem, botânica, solar, lunar, planetária, psíquica – sendo que as marés e ciclos destes todos afetam ou refletem entre si. Os Sabás são os caminhos das feiticeiras para celebrar, e colocá-las em sintonia, com essas marés e ciclos. Pois homens e mulheres também são parte da Natureza de múltiplos níveis; e as feiticeiras se esforçam, consciente e constantemente, para expressar aquela unidade.

 

Os Sabás das feiticeiras são oito:

IMBOLG, 2 de Fevereiro (também chamado Candlemas, Oimelc, Imbolc).

EQUINÓCIO DA PRIMAVERA, 21 de Março (Alban Eilir).

BEALTAINE, 30 de Abril (Beltane, May Eve, Noite de Walpurgis, Cyntefyn, Roodmass).

PLENO VERÃO, 22 de Junho (Solstício de Verão, Alban Hefin; algumas vezes também chamado Beltane).

LUGHNASADH, 31 de Julho (August Eve, Lammas Eve, Véspera do Dia da Senhora).

EQUINÓCIO DE OUTONO, 21 de Setembro (Alban Elfed).

SAMHAIN, 31 de Outubro (Hallowe’en, Véspera do dia de Todos os Santos, Calan Gaeaf).

YULE, 22 de Dezembro (Solstício de Inverno, Alban Arthan).

 

Dentre estes, Imbolg, Bealtaine, Lughnasadh e Samhain são os ‘Sabás Maiores’; os Equinócios e Solstícios são os ‘Sabás Menores’. (As datas reais dos Equinócios e Solstícios podem variar em um dia ou dois no uso tradicional, e também de ano a ano em fato astronômico, ao passo que os Sabás Maiores tendem à envolver ambos “Véspera” e o “Dia” seguinte). Os Sabás Menores solar-astronômicos são ao mesmo tempo mais antigos e mais novos do que os Sabás Maiores naturais-de fertilidade – mais antigos no sentido em que eles foram a preocupação altamente sofisticada dos misteriosos povos Megalíticos que antecederam aos Celtas, Romanos e Saxões nas margens do Atlântico Europeu por milhares de anos; mais novos, no sentido que os Celtas – talvez a maior influência única ao dar à Antiga Religião o formato ritual verdadeiro no qual ela tem sobrevivido no Ocidente – não eram de orientação solar e celebravam apenas os Sabás Maiores, até o que Margaret Murray denominou como os “invasores solsticiais” (os Saxões e outros povos que se estenderam na direção oeste com a queda do Império Romano) se reuniu e interagiu com a tradição Celta. E ainda assim eles trouxeram apenas os Solstícios: “Os Equinócios, diz Murray, “nunca foram observados na Bretanha”. (Para algumas reflexões sobre como eles subsequentemente entraram no folclore Bretão, vide página 72 (do original) – e lembre-se de que, desde Murray, mais coisas se tem aprendido sobre astronomia Megalítica, que pode muito bem ter deixado enterradas as memórias do povo para serem revividas mais tarde).

Tudo isso é refletido no fato de que são os Sabás Maiores que tem nomes Gaélicos. Dentre as várias formas que as feiticeiras utilizam, nós escolhemos as Gaélico Irlandesas, por motivo pessoal e histórico – pessoal porque vivemos na Irlanda, onde aquelas formas possuem significados vivos; histórico, porque a Irlanda foi o único país Celta que nunca foi absorvido pelo Império Romano, e portanto é na mitologia Irlandesa e em sua antiga linguagem que os contornos da Antiga Religião podem ser muitas vêzes mais claramente discernidos (1). Mesmo a Igreja Celta permaneceu obstinadamente independente do Vaticano por muitos séculos (2).

 

(1) A Irlanda virtualmente escapou dos horrores da perseguição à feitiçaria. Dos séculos quatorze ao dezoito apenas um punhado de processos por feitiçaria estão registrados. “Na Inglaterra e na Escócia durante o período medieval e períodos posteriores de sua existência, a feitiçaria era uma ofensa contra as leis de Deus e do homem; na Irlanda Céltica as relações com o invisível não eram consideradas com tal aversão, e deveras possuíam a sanção de costume e antiguidade” (St John D. Seymour, Feitiçaria e Demonologia Irlandesa, p.4 – e Seymour era um teólogo cristão escrevendo em 1913.) Nem existe qualquer evidência de tortura sendo usada para extrair provas nos poucos processos Irlandeses por feitiçaria, exceto pelo açoitamento em 1324 de Petronilla of Meath, serviçal da Dama Alice Kyteler, por ordens do Bispo de Ossory, e que “parece ter sido conduzido ao que pode ser considerado uma maneira puramente não oficial” (ibid.,pp.18-19).

 

(2) Existe uma pequena comunidade russa Ortodoxa na Irlanda, baseada nos exilados da Russia; de modo interessante, “ela atraiu um grande número de Irlandeses convertidos, alguns dos quais consideram-na como a Igreja Irlandesa que existia desde antes da chegada de São Patrício até os anos que seguiram à invasão de Henrique e o estabelecimento das ligações com Roma” (Sunday Press, Dublin, 12 de Março de 1978).

 

Mais ainda, a Irlanda é ainda predominantemente agrícola e uma comunidade de dimensões humanas, onde as memórias do povo ainda florescem as quais em outros lugares morreram na selva de concreto. Arranhe a camada superior do Cristianismo Irlandês, e voce chega de uma vez à rocha sólida do paganismo. Mas o uso das formas Gaélico Irlandesas é apenas a nossa escolha, e não gostaríamos de impô-la à ninguém.

Por que escrevemos este livro, com suas sugestões detalhadas para rituais de Sabá, se não desejamos “impor” padrões à outras feiticeiras – o que nós muito certamente não fazemos ?

Nós o escrevemos porque oito anos dirigindo nosso próprio coven nos convenceu de que tal tentativa é necessária. E achamos que isso é necessário porque o Livro das Sombras, a antologia de Gerald Gardner de rituais herdados que – com o auxílio de Doreen Valiente – ele anexou junto à elementos modernos a fim de preencher os vazios e fazer um todo funcional, é surpreendentemente inadequado em um aspecto: os Oito Sabás.

O reavivamento da Wicca moderna, que se expande tão rápidamente, tem um débito enorme com Gerald Gardner, a despeito do tanto que ele possa ter sido criticado em certos aspectos. Seu Livro das Sombras é a pedra de fundação da forma Gardneriana da Wicca moderna, e também de seu ramo Alexandriano; e ele tem tido considerável influência sobre muitos covens Tradicionais. Doreen Valiente, também, merece a gratidão de cada feiticeira; algumas de suas contribuições ao Livro das Sombras se tornaram suas passagens mais estimadas – a Investidura, por exemploa declaração única e definitiva da filosofia Wicca. Mas por alguma razão, os rituais que o Livro determina para os Oito Sabás são deveras muito incompletos – nada tão completo e satisfatório como o resto. O resumo que Stewart deu à eles no Capítulo 7 de O Que As Feiticeiras Fazem (vide Bibliografia) pareceria incluir tudo o que Gardner teria que falar sobre eles. Tudo mais foi deixado à cargo da imaginação e criatividade dos covens.

Algumas feiticeiras podem sentir que isto é suficiente. A Wicca é, por fim, uma religião natural e espontânea, na qual todo coven é uma lei para si mesmo, e as formas rígidas são evitadas. Nada é exatamente o mesmo para dois Círculos em operação – e muito correto também, ou então a Wicca iria se fossilizar. Então por que não deixar estes rituais incompletos de Sabás como eles estão, usá-los como um ponto de partida e deixar cada Sabá tomar seu próprio curso ? Todo mundo conhece a “sensação” das estações ...

Nós sentimos que existem duas razões porque isso não é suficiente. Primeiro, os outros rituais básicos – traçar o Círculo, Atrair a [Influência da] Lua (?), a Investidura, a Lenda da Descida da Deusa, e outros – são todos substanciais, e tanto os novatos quanto os veteranos consideram-nos vivos e satisfatórios. A flexibilidade que uma boa Suma Sacerdotiza e um bom Sumo Sacerdote trazem à eles e os adornos planejados ou espontâneos que eles adicionam, meramente aperfeiçoam os rituais básicos e os mantém vibrantes e vívidos.  Se eles voltassem para o esboço inicial, as pessoas comuns seriam capazes de fazer este tanto com eles?

 

Segundo, em nossa civilização urbana, infelizmente não é verdade que todo mundo conhece a “sensação” das estações, exceto muito superficialmente. Até mesmo muitos moradores do campo, com seus carros, eletricidade, televisão e  supermercados padronizados de cidade (ou mesmo vila) comercial, estão notávelmente muito isolados do verdadeiro âmago da Natureza. O conhecimento arquirtípico das marés físicas e psíquicas do ano, que criaram tais conceitos como a rivalidade fraternal entre o Rei do Carvalho e o Santo Rei e sua união sacrificial com a Grande Mãe (apenas para tomar um exemplo) perfeitamente compreensível para nossos antepassados – conceitos que, junto com seu simbolismo, estão tão surpreendentemente espalhados no tempo e no espaço  que eles devem ser arquetípicos: este conhecimento está virtualmente perdido para a consciência moderna.

Os arquétipos não podem ser erradicados, assim como ossos e nervos não podem; eles são também parte de nós. Mas eles podem ficar tão profundamente enterrados que se exige um esforço deliberado para reestabelecer uma comunicação saudável e produtiva com eles.

A percepção de muitas pessoas sobre os ritmos sazonais está hoje limitada à tais manifestações superficiais como cartões de Natal, ovos de Páscoa, banho de sol, folhas de outono e sobretudos. E para ser honesto, os rituais de Sabá do Livro das Sombras não vão muito mais fundo.

Para retornar à nós mesmos. O nosso é um coven Alexandriano – se devemos amarrar uma etiqueta em volta de nossos pescoços, pois não somos sectaristas por temperamento e princípio e preferimos simplesmente nos denominar ‘witches’ (feiticeiras/os). Temos muitos amigos Gardnerianos e Tradicionais e consideramos seus métodos tão válidos quanto os nossos. Fomos iniciados e treinados por Alex e Maxine Sanders, fundamos nosso próprio coven em Londres no Yule de 1970 e dali para frente seguimos nosso próprio julgamento (em um período enfrentando uma ordem de dispensar o coven e retornar à Alex para ‘instruções complementares’). Vimo-nos referidos como Alexandrianos “reformados” – o que tem alguma verdade, no sentido em que aprendemos a separar o inegável trigo do lamentável joio. Outros covens e feiticeiras solitárias, se separaram do nosso, no processo normal de crescimento, e desde que nos mudamos da Londres lotada para os campos e montanhas da Irlanda em Abril de 1976 ainda criamos outros; portanto nossa experiência tem sido variada.

Nosso coven é organizado sobre as linhas Gardneriana/ Alexandrina habituais; nominalmente, ela se baseia na polaridade do psiquismo da masculinidade e feminilidade. Ele consiste, na extensão em que é possível, de “sociedades operativas”, cada uma formada de um witch feminino e um witch masculino. Os sócios operativos podem ser um casal, um par de amantes, amigos, irmão e irmã, pais e filhos/as; não importa se a sua relação seja de tipo sexual ou não. O que importa é seu gênero psíquico, de forma que na operação mágica eles sejam os dois polos de uma bateria. A sociedade operativa senior é, naturalmente, a de Suma Sacerdotiza e Sumo Sacerdote. Ela é prima inter pares, a primeira entre os iguais; o Sumo Sacerdote é seu igual complementar (de outra forma, sua “bateria”não iria produzir qualquer eletricidade), mas ela é a líder do coven e ele o “Príncipe Consorte”.

Esta questão da ênfase matriarcal na Wicca tem sido a causa de considerável discussão, mesmo entre feiticeiras – com tudo, desde as pinturas nas cavernas até Margaret Murray, sendo usado como munição nas tentativas de provar o que costumava ser feito, o que é a ‘verdadeira’ tradição. Tal evidência, honestamente examinada, é de fato importante – mas nós não achamos que ela seja a resposta completa. Deve-se dar mais atenção ao papel da Antiga Religião nas condições de hoje; em resumo, à quais trabalhos são os melhores agora, tanto quanto àqueles fatores que são atemporais. E tal como a observamos, a ênfase matriarcal é justificada em ambas estas considerações.

Primeiro, o aspecto atemporal. A Wicca, por sua verdadeira natureza, está especialmente relacionada com o desenvolvimento e o uso das “dádivas da Deusa” – as faculdades psíquica e intuitiva – e num grau pouco menor  com a “dádiva do Deus”- as faculdades lógico-linear conscientes. Nenhum pode funcionar sem o outro, e a dádiva da Deusa deve ser desenvolvida e exercitada em ambos witches masculino e feminina. Mas permanece o fato de que, em geral, a mulher tem um começo mais rápido com a dádiva da Deusa, tal como o homem em geral tem um começo mais rápido com a musculatura. E dentro do Círculo a Suma Sacerdotiza (embora ela chame para si a sua Suma Sacerdotiza para invocar) é o canal e a representante da Deusa.

Isso não é apenas um costume Wicca, é um fato da Natureza. “Uma mulher,” diz Carl Jung, “pode se identificar diretamente com a Mãe Terra, mas um homem não pode (exceto em casos psicóticos)”.(Obras Coletadas, volume IX, parte 1, 2a edição, parágrafo 193). Nesse ponto, a experiência Wicca apoia totalmente aquela da psicologia clínica. Se a ênfase Wicca é sobre a dádiva da Deusa (apoiada e energizada pela dádiva do Deus), então na prática ela deve ser também sobre a Sacerdotiza (apoiada e energizada pelo Sacerdote). (Para um estudo mais profundo sobre este relacionamento mágico, leia quaisquer dos romances de Dion Fortune – especialmente A Sacerdotiza do Mar e Magia da Lua).

Segundo, os aspectos do “agora” – as exigencias do nosso presente estado de evolução. Um livro inteiro poderia ser escrito sobre isso; aqui, podemos simplesmente super-simplificar a história considerávelmente – mas sem, acreditamos, distorcer sua verdade básica. De modo geral, até tres ou quatro mil anos atrás a raça humana vivia (como os outros animais embora em um nível muito complexo) através da “dádiva da Deusa”; em termos psicológicos, a atividade humana era dominada pelos

Da mente subconsciente, a consciência estando ainda no [plano] total secundário. A sociedade era geralmente matrilinear (o conhecimento descendendo através da mãe) e muitas vezes também matriarcal (governado pela mulher), com a ênfase sobre a Deusa, a Sacerdotiza, a Rainha, a Mãe (3). “Antes da civilização se estabelecer, a terra é uma divindade universal... uma criatura viva; uma mulher, porque ela recebe o poder do sol, é portanto animada e fertilizada... O elemento mais antigo e mais profundo em qualquer religião é o culto ao espírito da terra em seus muitos aspectos”. (John Michell, O Espírito da Terra, pag.4). À isso deve ser adicionado  - certamente ao passo que a consciência da humanidade aumentou – também o aspecto da Rainha do Céu; pois, para a humanidade nesta fase, a Grande Mãe foi o útero e o nutridor de todo o cosmos, matéria e espírito do mesmo modo (4).

 

(3) O Antigo Egito foi um exemplo de caderno à respeito do estágio de transição; ele era matrilinear porém patriarcal, ambas realeza e propriedade passando diretamente através da linha feminina. Todos os Faraós masculinos ocupavam o trono porque eles eram casados com as herdeiras: “A rainha era rainha por direito de nascença, o rei era rei por direito de casamento” (Margaret Murray, O Esplendor que era o Egito, pag.70), daí o hábito Faraônico de casar irmãs e filhas para manter o direito ao trono. A herança matrilinear era a regra em todos os níveis da sociedade e persistiu até o fim; este foi o porque de primeiro Júlio Cesar e depois Antônio desposaram  Cleopatra, o último Faraó – esta era a única maneira pela qual eles poderiam ser reconhecidos como regentes do Egito. Otávio (Augusto César) também se ofereceu para casar com ela, após a derrota e morte de Antônio, mas ela preferiu o suicídio (ibid.págs.70-71).Roma confrontou o mesmo princípio um século depois na outra margem de seu Império, na Bretanha, quando o escárnio dos Romanos sobre este (seja grosseiro ou deliberado) provocou a revolta furiosa dos Icenicos (?) Celtas sob Boudicca (Boadicea). (Vide Feiticeiras de Lethbridge, págs. 79-80).

 

(4) Os Ciganos Kalderash (um dos três principais grupos Romenos) mantém que O Del, O (masculino) Deus, não criou o mundo. “A terra (phu), isto é, o universo, existia antes dele; ela sempre existiu. ‘Ela é a mãe de todos nós’ (amari De) e é chamada De Develeski, a Divina Mãe. Nisto reconhece-se um traço do matriarcado primitivo”. (Jean-Paul Clébert, Os Ciganos, pág.134).

 

Devemos enfatizar  que esta interpretação não é um modo de voltar ao passado a fim de introduzir qualquer idéia de ‘inferioridade intelectual feminina’. Pelo contrário, como aponta a Pedra de Merlin (Os Papéis do Paraiso, pág.210), as culturas de adoração à Deusa produziram “invenções nos métodos de agricultura, medicina, arquitetura, metalurgia, veículos com rodas, ceramica, texteis e a linguagem escrita”- nas quais as mulheres desempenharam uma participação completa (às vezes, como com a introdução da agricultura, a lider). Seria mais verdadeiro dizer que o intelecto em desenvolvimento foi uma ferramenta para criar o máximo possível encima daquilo que era natural, ao invés de (como se tornou mais tarde) ferramenta muitas vezes usada para distorcê-la ou esmagá-la.

Mas a longa escalada da consciência estava acelerando – e súbitamente (em termos de escala de tempo evolutiva) a mente consciente foi lançada em sua ascenção meteórica para a ditadura sobre as questões e o meio ambiente da humanidade. Inevitávelmente, isso foi expresso no monoteísmo patricarcal – a regra do Deus, o Sacerdote, o Rei, o Pai. (No berço da civilização do Mediterrâneo, os portadores dessa nova perspectiva foram os povos Indo-Europeus patrilineares, adoradores de Deus que conquistaram ou se infiltraram nas culturas indígenas matrilineares, de adoração à Deusa; pois quanto à historia da tomada do controle, e seu efeito na religião e a subsequente relação entre os sexos, Papéis do Paraíso de Ms Stone, acima citado, vale a pena ser lido). Foi um estagio necessário, embora trágico de forma sangrenta, na evolução da humanidade, e este envolveu, de forma igualmente inevitável, um certo afastamento – muitas vezes uma vigorosa supressão da parte do Estabelecido- do livre exercício da dádiva da Deusa.

Isso é uma super-simplificação suficiente para deixar um historiador de cabelo em pé, porém alimento para a reflexão. E aqui tem mais. Aquele estágio da evolução já passou. O desenvolvimento da mente consciente (certamente dentre os melhores exemplos disponíveis para a humanidade) alcançou o seu ápice. Nossa próxima tarefa evolucionária é a de reviver a dádiva da Deusa em todo o seu potencial e combinar os dois – com perspectivas inimagináveis para a raça humana e o planeta em que vivemos. Deus não está morto; ele é um viúvo (grass-widower-?), aguardando a readmissão de seu Consorte exilado. E se a Wicca deve desempenhar seu papel nisto, uma ênfase especial sobre aquilo que é para ser redespertado é uma necessidade prática, de forma à restaurar o equilíbrio entre as duas Dádivas (5).

 

(5) Enquanto este livro ia ser impresso, nós lemos o livro novamente publicado de Annie Wilson A Virgem Sábia. Em sua Seção Quatro, “O Coração da Matéria”, ela lida em profundidade com esta questão da evolução da consciência e tem algumas coisas muito perspicazes para dizer sobre suas implicações psicológicas, espirituais e sexuais (no sentido mais amplo). Ela também conlui que uma nova síntese, de potencial excitantemente criativo, é não apenas possível mas urgentemente necessário se nós, no Ocidente, “devemos equilibrar nossa aguda desigualdade”. Essa é uma leitura muito útil para ter uma maior compreensão sobre a natureza, função e relacionamento entre homem e mulher.

 

Pois o equilíbrio é, e deve ser, o porquê enfatizamos ambas qualidades essenciais do homem e da mulher  num trabalho em sociedade na Wicca e a recomendação de a Suma Sacerdotiza ser reconhecida como “primeira entre os iguais’ em seu próprio relacionamento com seu Sumo Sacerdote  e o coven – um delicado equilíbrio com algumas associações, mas a nossa experiência própria (e nossa observação sobre outros covens) nos convence de que vale a pena buscar esse modo.

Alguém poderia também salientar que nesse tempo de agitação espiritual, e reavaliação religiosa em larga escala, o Catolicismo, o Judaismo, o Islã e muito do Protestantismo ainda se agarram obstinadamente ao monopolio masculino do sacerdotado como sendo ‘determinado por meio divino’; a Sacerdotiza ainda é banida, para o grande empobrecimento espiritual da humanidade. A Wicca pode também ajudar à recuperar este equilíbrio. E toda Sacerdotiza Wicca ativa sabe por sua própria experiência o quão grande é o vazio a ser preenchido – deveras, há ocasiões onde é difícil não ser engolfado por este (e mesmo ocasiões, que isso seja sussurrado, onde sacerdotes e ministros de outras religiões vêm à ela em caráter não-oficial para pedir auxílio, frustrados devido à sua própria falta de colegas femininas).

Após esta divagação necessária - voltemos à estrutura do coven.

O ideal de um coven, consistindo inteiramente de associações operativas é, naturalmente, raras vezes alcançado; sempre haverá um ou dois membros sem um par.

Um membro feminino é nomeado como a Donzela; ela é de fato uma Suma Sacerdotiza assistente para propósitos rituais –embora não necessariamente na esfera da liderança e autoridade. O  papel da Donzela varia de coven para coven, mas a maioria acha útil ter uma, para desempenhar um papel particular nos rituais. (A Donzela geralmente – em nosso coven, de qualquer forma – tem seu próprio parceiro de trabalho simplesmente como qualquer outro membro do coven).

Neste livro, nós admitimos a estrutura acima – Suma Sacerdotiza, Sumo Sacerdote, Donzela, alguns pares operativos e um ou dois membros sem par.

Com relação aos Sabás – em nosso coven nós iniciamos, como se poderia esperar, adotando o Livro das Sombras ao passo que cada um ingressava, aplicando imediatamente um pouco de criatividade ao material limitado que este oferecia e deixando-a se desenvolver dentro de uma celebração do coven. (Sejamos bem claros quanto à isto, senão toda esta análise séria irá confundir alguém; todo Sabá deveria se desenvolver dentro de uma celebração). Porém ao longo dos anos passamos à considerar isso inadequado. Oito boas celebrações, cada uma começando com um pouco de ritual parcialmente herdado e parcialmente espontâneo, não eram suficientes para expressar o prazer, o mistério e a magia do ciclo do ano, ou a vazante e o fluxo das marés psíquicas que subjazem neste. Elas eram como oito pequenas melodias, agradáveis mas separadas, quando o  que nós realmente queríamos era oito movimentos de uma sinfonia.

Então começamos à cavar e estudar, à buscar indícios sazonais em tudo, desde a Deusa Branca de Roberto Graves até Fasti de Ovid[io] (?), desde livros sobre tradições folclóricas até as teorias sobre os círculos de pedra, desde a psicologia Junguiana até a sabedoria sobre o clima. Férias arqueológicas na Grécia e Egito, e afortunadas visitas profissionais ao Continente, auxiliaram à ampliar nossos horizontes. Acima de tudo, talvez, o fato de nos movermos em meio ao campo, rodeados por plantas, árvores, colheitas, animais e  clima de interesse prático para nós, nos trouxe face a face com a Natureza manifesta em nossas vidas diárias; seus ritmos começaram à ser verdadeiramente os nossos ritmos.

Nós tentamos descobrir o padrão anual por trás de tudo isso e aplicar o que aprendemos aos nossos rituais de Sabá. E tal como o fizemos, os Sabás começaram à ter vida para nós.

Nós sempre tentamos extrair um  padrão, não impor um; e extraí-lo não é tão fácil. É uma tarefa complexa, porque a Wicca (6) é uma parte integral da tradição pagã ocidental; e as raízes desta tradição se espalharam amplamente, desde as terras Nórdicas até o Oriente Médio e o Egito, desde os estepes até o litoral do Atlântico. Enfatizar um fio da teia (digamos os Celtas, os Nórdicos ou os Gregos) e usar suas formas e símbolos particulares, porque voce está sintonizado com eles, é razoável e até mesmo desejável; mas isolar aquele fio, tentar rejeitar os outros como estranhos à este, é algo tão irreal e fadado ao fracasso quanto tentar apagar os genes dos pais de um bebê vivo. A Antiga Religião é também um organismo vivo. Seu espírito não é afetado pelo tempo, e a seiva que corre em suas veias não se altera – mas à qualquer tempo e lugar ele está em um estado particular de crescimento. Voce pode entrar em sintonia com aquele crescimento, encorajar e contribuir com ele e influenciar seu futuro; mas voce estará buscando problemas e desapontamento se voce distorcê-lo ou representá-lo de forma equivocada.

 

(6) Como a maioria das feiticeiras modernas, chamamos a Arte de “Wicca”. Isto se tornou um uso bem fundamentado e muito apreciado, e existem todas as razões para que assim continue – mas devemos ser também honestos e admitir que esta é efetivamente uma nova palavra, derivada de forma errada. O Inglês Antigo para ‘witchcraft’ era wicca-craeft, e não wicca. Wicca significava ‘um feiticeiro do gênero masculino’ (feminino wicce, plural wiccan), do verbo wiccian, “enfeitiçar, praticar feitiçaria”, o que o Oxford English Dictionary diz é “de origem obscura”. Para o OED, a trilha parece terminar aqui; mas a afirmação de Gardner que Wicca (ou, como ele a soletra, Wica) significa “a Arte do Sábio” é apoiada por Margaret Murray, que escreveu o tópico sobre Witchcraft na Encyclopaedia Britannica (1957). “O significado real desta palavra “witch” está aliado com ‘wit’, saber”. Robert Graves (A Deusa Branca, pág.173),discutindo sobre o salgueiro que na Grécia era consagrado à Hecate, diz: “Sua conexão com as feiticeiras é tão forte na Europa do Norte que as palavras ‘witch’ e ‘wicked’ (mau) são derivadas da mesma palavra antiga para salgueiro, que também expressa ‘wicker’ (vime). Para completar o quadro, ‘wizard’ (feiticeiro) realmente significava ‘um sábio’, sendo derivada do Inglês Médio Recente wys ou wis, ‘sábio’. Mas ‘warlock’, no sentido de ‘um witch masculino’, é Inglês Médio Recente de influência Escocesa e inteiramente depreciativo; sua raiz significa ‘traidor, inimigo, demônio’; e se os muito poucos witches masculinos modernos que se denominam warlocks se dessem conta de sua origem, eles se uniriam à maioria e compartilhariam o título de ‘witch’ com as suas irmãs.

 

Nós já salientamos que os Oito Sabás refletem dois temas distintos, com raízes históricas diferentes embora interativas: o tema solar e o tema da fertilidade natural. Eles não são mais separáveis, mas cada um deve ser compreendido caso ambos devam ser encaixados em nossa “sinfonia”.

À nós parecia que uma chave para esta compreensão seria reconhecer que dois conceitos da figura de Deus estavam envolvidas. A Deusa está sempre lá; ela muda seu aspecto (em ambos seus ciclos de fecundidade como a Mãe Terra e em suas fases lunares como a Rainha do Céu), mas ela está sempre presente. Entretanto o Deus, em ambos os conceitos, morre e é renascido.

Isto é fundamental. O conceito de um Deus sacrificado e renascido é encontrado em toda parte, voltando aos menores vestígios da pré-história; Osiris, Tammuz, Dionísio, Balder e Cristo são apenas algumas de suas formas posteriores. Contudo você procurará em vão através da história da religião por uma Deusa sacrificada e renascida – temporáriamente perdida de vista, talvez, como Perséfone, mas sacrificada, nunca. Tal conceito seria religiosamente, psicológicamente e naturalmente impensável (7).

 

(7) Nós cruzamos com apenas uma exceção aparente à esta regra. Na pág.468 de O Ramo Dourado Frazer diz: “Na Grécia, parece que a grande deusa Artemis tinha sua própria efígie anualmente enforcada em seu bosque sagrado de Condylea entre os montes Arcadianos, e lá dessa forma ela era conhecida pelo nome de O Enforcado”. Mas Frazer perdeu a idéia principal. “Artemis Enforcada” não é sacrifício – ela está no aspecto da Deusa Aranha Arachne/Ariadne/Arianrhod/(Aradia?), que desce para nos auxiliar por meio de seu fio mágico, e cuja teia espiral é a chave para o renascimento. (Vide James Vogh, O Décimo-Terceiro Zodíaco).

 

Daremos uma olhada, então, nestes dois temas de Deus.

A figura do Deus-Sol que domina os Sabás Menores dos solstícios e equinócios, é comparativamente simples; seu ciclo pode ser observado mesmo através de uma janela de um flat elevado. Ele morre e é renascido em Yule; começa à fazer o tecido (?) de  sua jovem maturidade, e a impregnar a Mãe Terra com ele, através do Equinócio da Primavera; brilha no ápice de sua glória no Meio do Verão; resigna-se com o poder decrescente, e a influência que diminui sobre a Grande Mãe, através do Equinócio de Outono; e novamente enfrenta a morte e o renascimento na maré de Yule.

O tema da fertilidade natural é muito mais complexo; ele envolve duas figuras de Deus – o Deus do Ano Crescente (que aparece vez e outra na mitologia como o Rei do Carvalho) (8) e o Deus do Ano Decrescente  (o Santo Rei). Eles são os gêmeos claro e escuro, cada um sendo o “outro self” do outro, eternos rivais, eternamente conquistando e sucedendo um ao outro. Eles competem eternamente pelo favor da Grande Mãe; e cada um, no ápice de seu reino de meio-ano, é sacrificialmente desposado com ela, morre em seu abraço e é ressucitado para completar o seu reinado.

 

(8) Sem dúvida, também relacionável ao Homem Verde ou Máscara Folhada cujas representações gravadas aparecem em tantas igrejas antigas.

 

‘Luz e escuridão’ não representam ‘bem e mal’; elas significam as fases expansiva e de contração do ciclo anual, uma tão necessária quanto a outra. A partir da tensão criativa entre as duas, e entre elas por um lado e a Deusa por outro lado, a vida é gerada.

Este tema de fato excede nos Sabás Menores de Yule e Meio de Verão. Em Yule o Santo Rei termina o seu reinado e cai para dar lugar ao Rei do Carvalho; no Meio de Verão o Rei do Carvalho é por sua vez substituido pelo Santo Rei.

Este é um livro de rituais sugeridos, não uma obra de análise histórica detalhada; assim sendo, aqui não é o lugar para explicar em profundidade simplesmente como nós extraímos o padrão acima. Porém acreditamos que qualquer pessoa que estude a mitologia Ocidental com uma mente aberta chegará inevitávelmente às mesmas conclusões gerais; e a maioria das feiticeiras provavelmente reconhecerá o padrão de imediato.

(Muitas delas poderão questionar muito razoávelmente: “Onde se encaixa o nosso Deus de Chifres nisto?” O Deus de Chifres é uma figura de fertilidade natural; as raízes de seu simbolismo remontam à épocas totêmicas e de caça. Ele é o Rei do Carvalho e o Santo Rei, os gêmeos complementares vistos como uma entidade completa. Nós sugeriríamos que Rei do Carvalho e o Santo Rei são uma sutileza que, desenvolvida na ampliação do conceito do Deus de Chifres como vida vegetal, tornou-se mais importante para o homem. Eles não o aboliram – eles meramente aumentaram nossa compreensão sobre ele.

No início de cada Seção deste livro, oferecemos maiores detalhes sobre o histórico de cada Sabá e explicamos como o utilizamos para criar o nosso ritual.

Mas para auxiliar à tornar mais claro o padrão geral, tentamos resumí-lo no diagrama da pág.26 (do original, que será traduzido à parte). Isto é apenas um resumo, mas o achamos muito útil, e esperamos que outras pessoas também o julguem útil. 

Um ou dois comentários sobre ele são necessários. Primeiro, os ‘aspectos da Deusa’- Nascimento, Iniciação, Consumação, Repouso e Morte – são aqueles sugeridos na obra de Grave Deusa Branca. (Os escritos de Robert Graves, e aqueles de Doreen Valiente, tem sido de mais utilidade para nós em nossa pesquisa do que talvez quaisquer outros). Deve ser novamente enfatizado que estes não significam o nascimento e a morte da própria Deusa (um conceito impensável, como destacamos) mas a face que ela mostra ao Deus e aos adoradores dela no decorrer do ano. Ela não sofre a experiência muito embora ela presida sobre estas.

Segundo, o posicionamento do casamento e renascimento sacrificial do Rei do Carvalho e do Santo Rei, em Beltaine e Lughnasadh respectivamente, podem parecer um pouco arbitrários. Porque este é um ciclo de fertilidade, o espaçamento real de seus ritmos varia de região para região; então naturalmente, devido aos calendários de uma croft(???) de uma Highland Escocesa e um vinhedo Italiano (por exemplo) não mantém o mesmo compasso um em relação ao outro. Os dois sacrifícios aparecem em vários tempos na Primavera e no Outono; assim ao planejar um ciclo coerente de Sabás, uma escolha teve que ser feita. Bealtaine parecia a escolha óbvia para  o casamento do Rei do Carvalho; mas o do Santo Rei (mesmo nos confinando aos Sabás Maiores, como parecia se encaixar) poderia ser ou Lughnasadh ou Samhain – sendo que em ambos, traços deste devem ser encontrados. Uma razão pela qual nós estabelecemos para Lughnasadh era a de que Samhain (Hallowe’en) já está tão carregado de significados e tradições que incorporar o sacrifício, casamento e renascimento do Santo Rei em seu ritual iria sobrecarregá-lo ao ponto de haver confusão. Cada Sabá, não importa o quão complexas sejam suas implicações,  deve ter um tema central e uma mensagem clara. Novamente, o sacrifício do Santo Rei é também aquele do Rei do Milho – um tema popular obstinadamente indestrutível, como muitos costumes simbólicos indicam; (9) e Lughnasadh, não o Samhain, marca a colheita. Finalmente, nós tentamos sempre que possível incluir em nossos rituais sugeridos a essência dos ritos do Livro das Sombras; e aquilo para Lughnasadh, secreto como é, realmente aponta para esta interpretação. Esta é a única ocasião quando a própria  Suma Sacerdotisa invoca a Deusa dentro de si mesma, ao invés de o Sumo Sacertdote o fazer por ela, talvez uma indicação de que neste Sabá ela está muito mais poderosamente no comando, e o Deus Sacrificial ainda mais vulnerável ? Para nós pareceu que sim.

 

(9) Leia Lar da Colheita de Thomas Tryon – um romance aterrador mas perspicaz, agora transformado em um filme muito bom.

 

Nota : Temos no original uma página com o resumo tal como acima mencionado.

 

Ao decidir como disponibilizar witches masculinos para os papéis de Deus Sol, Rei do Carvalho e Santo Rei, fomos governados por duas considerações: (1) que a Suma Sacerdotiza, como representante da Deusa, tem apenas um ‘consorte’ – seu parceiro de invocação, o Sumo Sacerdote – e que qualquer ritual que simbolize seu casamento deve ser com ele; e (2) que não é praticável ou desejável para o Sumo Sacerdote finalizar qualquer ritual simbólicamente ‘morto’, uma vez que ele é o líder masculino do coven sob a Suma Sacerdotiza e deve, por assim dizer, ser restaurado à disponibilidade no curso do ritual.

Em Bealtaine e Lughnasadh, portanto – os dois ritos de casamento e renascimento sacrificiais – nós temos o Sumo Sacerdote representando os papéis de Rei do Carvalho e Santo Rei, respectivamente. Em cada caso o ritual implica em seu casamento com a Grande Mãe, e sua ‘morte’; e antes de o drama ritual terminar, ele é renascido. O Deus Sol não é representado, como tal, nestes Sabás.

No Meio de Verão e Yule, contudo, todos os três aspectos do Deus estão envolvidos. No Meio de Verão o Deus Sol está no ápice de seu poder, e o Santo Rei ‘assassina’ o Rei do Carvalho. Em Yule,o Deus Sol passa pela morte e renascimento, e o Rei do Carvalho por sua vez ‘assassina’ o Santo Rei. Nessas duas ocasiões, a Deusa não é desposada, ela preside; e em Yule, adicionalmente, ela dá a luz ao Deus Sol renovado. Então para estes dois, nós temos o Sumo Sacerdote atuando como o Deus Sol, ao passo que o Rei do Carvalho e o Santo Rei são ritualmente escolhidos por sorteio (à menos que a Suma Sacerdotiza prefira nomeá-los) e coroados para seus papéis pela Donzela. Nós fomos cautelosos em incluir em cada ritual a dispensa formal do ator do Rei assassinado de seu papel (assim restaurando-o a seu lugar no coven para o resto do Sabá), e também uma explicação sobre o que acontece com o espírito do Rei assassinado durante seu meio ano vindouro de obscurecimento.

Este livro é sobre os Sabás. Mas os Esbás (reuniões não-festivas) e os Sabás tem uma coisa em comum: todos eles são realizados dentro de um Círculo Mágico, que é ritualísticamente construído , ou ‘lançado’, no início da reunião e ritualísticamente dispersado, ou ‘banido’, ao final. Estes rituais de abertura e fechamento, mesmo dentro da tradição Gardneriana/Alexandrina, tendem à variar em detalhes de coven  para coven e podem também variar de ocasião para ocasião no mesmo coven, conforme o trabalho à ser feito e a decisão intuitiva ou consciente da Suma Sacerdotiza. Não obstante, cada coven tem seus rituais básicos de abertura e fechamento, contudo flexíveis; e este os utilizará em Esbás e Sabás da mesma forma. Geralmente o ritual de abertura inclui, em adição ao ‘lançamento’ real do Círculo, ‘Atraindo a Lua (???)’ (invocação do espírito da Deusa para dentro da Suma Sacerdotiza feita pelo Sumo Sacerdote) e a recitação da Investidura (o pronunciamento tradicional da Deusa à seus seguidores).

Outra característica comum dos oito Sabás, como estabelecido pelo Livro das Sombras, é o Grande Rito, o ritual da polaridade masculino-feminino encenado pela Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote.

Já que este livro consiste de nossas sugestões detalhadas para os rituais dos oito Sabás, ele seria portanto incompleto caso nós não apresentássemos também o nosso modo particular de conduzir o Ritual de Abertura, o Grande Rito e o Ritual de Encerramento. Assim, nós os incluimos como Seções I, II e III. Nós não sugerimos que os nossos são ‘melhores’ do que os de outros covens; mas eles estão pelo menos no mesmo estilo como os nossos rituais de Sabás sugeridos, portanto colocando os últimos em contexto ao invés de deixá-los sem cabeça nem pés. Também, esperamos que alguns covens achem útil ter uma forma para o Grande Rito simbólico, que o Livro das Sombras falha em fornecer.

Esperamos que não seja mais necessário neste último estágio nos defendermos contra a acusação de ‘trair segredos’ ao publicar nossas versões dos rituais de abertura, fechamento e o Grande Rito. Os rituais Gardnerianos básicos tem estado em ‘domínio público’ por muitos anos até agora; e assim tantas versões desses três em particular (alguns deturpados, e pelo menos um – por Peter Haining – desavergonhadamente negro) tem sido publicadas, que não fazemos  qualquer pedido de desculpa por oferecer o que acreditamos serem versões coerentes e funcionais.

Além do mais, com a publicação de Feitiçaria para o Amanhã de Doreen Valiente, a situação da Wicca tem mudado. Sob o princípio de que ‘voce tem o direito de ser um pagão se voce quiser ser’, ela decidiu “escrever um livro que colocará a feitiçaria dentro do alcance de todos” (e ninguém é melhor qualificado para tomar aquela decisão do que o co-autor do Livro das Sombras). O Feitiçaria para o Amanhã inclui um  Liber Umbrarum, seu Livro das Sombras completamente novo e muito simples para pessoas que desejam se iniciar e organizar seus próprios covens. Agora, assim como Gardner antes dela, ela está sento tanto elogiada como atacada por sua iniciativa. Para nós próprios, nós o recebemos de todo o coração. Desde que Stewart publicou O Que As Feiticeiras Fazem, há nove anos atrás, temos estado (e ainda estamos) abarrotados de cartas de pessoas pedindo para serem postas em contato com um coven em sua localidade. Nós não tivemos condições de prestar ajuda à maioria delas, especialmente porque estão espalhadas por todo o mundo. Futuramente iremos fazer referência ao Feitiçaria para o Amanhã para estas. A necessidade é genuína, ampla e crescente; e deixá-la insatisfeita por razões de um ‘segredo’ alegado é algo negativo e não realista.

De forma interessante, o que Doreen Valiente fez pela Wicca Gardneriana em Feitiçaria para o Amanhã, Raymond Buckland também o fez para outra tradição, Wicca Saxônica, em A Àrvore, O Livro Completo de Feitiçaria Saxônica (vide Bibliografia). Aquelem também, inclui um Livro das Sombras simples porém abrangente e procedimentos para auto-iniciação e a fundação de seu próprio coven. Nós achamos que muitos dos rituais em A Àrvore são admiráveis, embora nos sentíssemos menos felizes com relação aos oito ritos de Celebrações, que são até mesmo mais insuficientes do que aqueles no Livro das Sombras Gardneriano, e se resumem a pouco mais do que breves declamações faladas; eles estão baseados na idéia de que a Deusa rege o verão, de Bealtaine a Samhain,e o Deus o inverno, de Samhain a Bealtaine – um conceito ao qual nós não conseguimos nos sintonizar. Perséfone, é recolhida ao submundo no inverno, é apenas um aspecto da Deusa – um fato que sua lenda enfatiza ao fazer dela a filha da Grande Mãe.

Contudo, para cada um o seu próprio; é presunção ser muito dogmático, estando do lado de fora, com relação às outras tradições da Arte. O que importa é que qualquer um que deseje seguir o caminho da Wicca mas não consegue fazer contato com um coven estabelecido, agora tem duas tradições Wicca válidas abertas à ele(a) em formato impresso. O que ele(a) fizer dos rituais depende de sua própria sinceridade e determinação – mas isto seria igualmente verdadeiro se ele(a) se unisse à um coven estabelecido da forma normal.

Referindo-se novamente à O Que As Feiticeiras Fazem, há uma desculpa que Stewart gostaria de apresentar. Quando ele o escreveu, como um feiticeiro de primeiro ano, ele incluiu material que ele compreendeu como sendo ou tradicional ou originado de seus professores. Ele agora sabe que muito deste foi de fato escrito para Gardner por Doreen Valiente. Ela foi suficientemente gentil ao dizer: “Eu naturalmente aceito que voce não sabia disso quando voce o publicou; como poderia saber?” Então estamos alegres, por esta vez, de ter a oportunidade de contar exatamente o que aconteceu.  E nós estamos gratos à ela por ter lido este manuscrito antes da publicação, à nosso pedido, para assegurar que nós nem a citamos sem reconhecimento e nem a citamos inadequadamente. (Uma desculpa similar, pelo jeito, ao vulto do já falecido Franz Bardon).

A ajuda de Doreen nos deu outra razão  para incluir os rituais de Abertura, o Grande Rito e o de Encerramento tanto quanto as oito Celebrações; este nos capacitou à fornecer respostas definitivas à maioria (esperamos) das perguntas que as pessoas tem feito durante o quarto de século que se passou à respeito das fontes dos vários elementos no Livro das Sombras (ou pelo menos aquelas seções dele dentro do objetivo deste livro) e as circunstâncias de sua compilação. Acreditamos que já está na hora disso ser feito. A confusão e interpretações errôneas (algumas vezes inocentes, algumas vezes deliberadas) já duraram muito tempo, levando até mesmo à um distinto historiador do oculto como nosso amigo Francis King à chegar a conclusões erradas – se compreensível – sobre isto.

Esclarecer as fontes e origens não é ‘retirar o mistério dos Mistérios’. Os Mistérios não podem, devido à sua natureza, nem ao menos serem descritos em palavras; eles podem apenas ser experimentados. Mas eles podem ser invocados e ativados pelo ritual eficaz. Jamais se deve confundir as palavras e atos do ritual com o próprio Mistério. O ritual não é o Mistério – é um meio de contatá-lo e experimentá-lo. Alegar ‘preservar os Mistérios’ como uma desculpa para falsificar a história e ocultar o plágio está errado e é um prejuízo tanto para os próprios Mistérios como para àquelas pessoas para as quais voce ensina. Isso inclui, por exemplo, declarar ter copiado o Livro das Sombras da sua avó muitos anos antes de este ter sido realmente compilado, ou então ditar a obra de outros professores para fazer os estudantes acreditarem que é sua própria obra.

Os rituais neste livro são dados para trabalho dentro de um recinto, mas todos eles podem ser facilmente adaptados para trabalho ao ar livre onde isto seja felizmente possível. Por exemplo, velas podem ser acesas em lanternas ou vasos, e fogueiras acesas onde for adequado e seguro. (se voce trabalhar vestido de céu – isso é, despido – uma fogueira ajuda !)

Devido à cada um destes rituais ser realizado apenas uma vez ao ano, óbviamente ninguém vai sabê-los de cor do jeito que os rituais de Esbá são conhecidos. Assim as declarações pelo menos serão lidas do texto. A visão varia, então cabe à pessoa nesta incumbência se deverá, e quando, trazer uma das velas do altar – ou, se ele ou ela necessitar ambas as mãos, em chamar outro witch para segura-la. Para evitar repetição, nós não temos nos referido à isso exceto onde a experiência nos ensinou que isto é particularmente necessário; por exemplo, quando a Suma Sacerdotiza cobre seu rosto com um véu (em algumas ocasiões, incidentalmente, desde que o véu seja longo o suficiente, ela deveria segurar o texto dentro dele).

Acreditamos que seja de grande ajuda, sempre que possível, fazer uma breve reencenação antecipadamente. Isto precisará levar apenas cinco minutos, antes de o Círculo ser consagrado. Nenhuma declamação é lida; tudo o que se requer é que o Sumo Sacerdote ou Suma Sacerdotiza tenha o texto em sua mão, e que passe rápidamente pela sequência, explicando, “Então eu faço isso, e voce faz aquilo, enquanto ela fica em pé ali . . .” e assim por diante, para se assegurar que todos tem a sequência básica e quaisquer movimentos importantes bem claros. Isso não deprecia o próprio ritual; na verdade, isto o faz se desenvolver muito mais fácilmente quando chegar a hora e evita ‘SHEEPDOGGING – (ficar conduzindo/monitorando - ???)’ ou preocupação excessivos à respeito de possíveis falhas.

 

Nós adicionais a terceira parte do livro – “Nascimento, Casamento e Morte” – porque, novamente, sentimos que há necessidade disto. Ao longo do ritmo universal das estações, transcorre o ritmo das nossas vidas individuais. Toda religião sente a necessidade de um conhecimento sacramental dos marcos naquelas vidas – a recepção de novos filhos, a união do homem com a esposa, a despedida solene aos amigos falecidos. A Wicca não é uma exceção, embora o Livro das Sombras Gardneriano não ofereça rituais para qualquer desses acontecimentos. Assim nós damos as nossas próprias versões de Wiccaning ( Nascimento - ???), Casamento e Requiem, na esperança que outras pessoas possa achá-los úteis.

 

                                               Adendo à Reimpressão de 1985

 

Desde que este livro foi publicado, nosso livro posterior O Caminho da Feiticeira surgiu (Robert Hale Ltd., 1984). Tanto quanto fornecer uma pesquisa geral sobre a prática da Arte, ele completa a tarefa que iniciamos aqui – a de estabelecer (novamente com a ajuda de Doreen Valiente) o formato e o texto exatos dos rituais de Gardner, a partir de seus manuscritos originais em posse de Doreen. Por exemplo, ele inclui sua própria versão mais completa do Grande Rito,e todas as passagens não rituais de seu Livro das Sombras.

Esperamos que os leitores considerem-no um volume útil e complementar ao presente.

Este livro foi escrito em Ballycroy, Co. Mayo, na costa Atlântica da Irlanda. Mas desde então, nosso trabalho tem exigido que nós mudássemos para mais perto de Dublin. Podemos receber correspondência através do endereço abaixo.

                                                                                                          JANET FARRAR

                                                                                                    STEWART FARRAR

Barfordstown Lodge,

Kells,

Co. Meath, Ireland.

 

Bealtaine de 1985.

 

 

                                                           A Estrutura

 

               I O Ritual de Abertura

 

Com este ritual básico Wicca, nós estabelecemos nosso Templo – nosso local de culto e trabalho mágico. Ele pode se situar numa sala de estar com os móveis arrastados para os cantos; ele pode se situar, se tivermos sorte suficiente, num aposento que tenha sido escolhido exclusivamente para este propósito e usado para nenhum outro; ele pode se situar, caso o tempo e a privacidade o permitam, ao ar livre. Mas em qualquer local onde realizarmos nosso Sabá, este (de uma forma ou outra) é seu começo essencial, da mesma forma que o Ritual de Encerramento apresentado na Seção III é a sua conclusão essencial.

O Ritual de Abertura é o mesmo para cada um dos Sabás; onde houverem diferenças de detalhes, ou de mobília ou decoração do Templo, as mesmas serão indicadas no início de cada Seção de Sabá.

 

                                               A Preparação

A área do Círculo é limpa e um altar é erguido no ponto ao Norte de sua circunferência. (vide desenho 1 – do original). Este altar pode ser uma mesa pequena (uma mesa de café é o ideal) ou meramente um pano estendido sobre o piso. Estão localizados sobre o altar:

 

            O pentáculo no centro

            a vela do Norte, atrás do pentáculo

            um par de velas do altar, uma em cada lado

            o cálice de vinho tinto ou mead (um tipo especial de bebida – N.doT.)

            a vara

            o chicote de fios aveludados

            uma tigelinha de água

            uma tigelinha com um pouco de sal dentro

            as cordas (vermelho, branco e azul, cada uma com nove pés de comprimento)

            a faca de cabo branco

            o athame individual de cada witch (faca de cabo preto)

            o incensador

            um sininho de mão

            um prato com bolos ou biscoitos

            a espada, no chão em frente ao altar, ou sobre o próprio altar.

 

Um suprimento do incenso escolhido, e fósforos ou um acendedor de cigarros, devem estar ao alcance da mão próximos ao altar. (Achamos que uma vela menor poderia ser útil para levar a chama de uma vela para outra).

Uma vela é posicionada em cada um dos pontos ao Leste, Sul e Oeste na circunferência do Círculo, completando as quatro velas ‘elementais’ que devem queimar durante todo o ritual. (As localizações elementais são Leste, Ar; Sul, Fogo; Oeste, Água; e Norte, Terra).

Música deve ser disponibilizada. Para nós mesmos, criamos uma pequena biblioteca de fitas cassette C-120 com música apropriada, transferidas de discos ou outros cassettes, com cada parte de música repetida tantas vezes o quanto necessário para preencher todos os sessenta minutos de um lado da fita. Fitas cassette são ideais, porque elas podem ser reproduzidas em qualquer aparelho desde um hi-fi estéreo, caso sua sala de estar tenha um, até um toca fita portátil caso voces se reunam em qualquer outro lugar. É uma boa idéia regular o volume para ajustar as passagens mais altas antes do ritual,de outra forma voce poderá ficar inesperadamente ensurdecido e ter que se virar com isso em um momento impróprio.

Assegure-se de antemão que o recinto esteja suficientemente aquecido – especialmente se, como nós mesmos e a maioria dos covens Gardnerianos/Alexandrianos, voces normalmente operam vestidos de céu.

Apenas um lugar fora do próprio Círculo precisa estar vazio – o quadrante Nordeste, porque o coven permanece lá para começar, aguardando que a Suma Sacerdotiza lhes permita a entrada.

Tire o fone do gancho, acenda o incenso e as seis velas, comece a música, e voces estarão  prontos para iniciar.

                                                          

 

O Ritual

 

 

A Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote ajoelham-se perante o altar, com ele à direita dela. O restante do coven permanece fora do quadrante Nordeste do Círculo.

A Suma Sacerdotiza coloca a tigelinha com água sobre o pentáculo, introduz a ponta de seu athame na água (vide Desenho 2 – no original) e diz:

   “Eu te exorciso, Oh criatura da água, que tu lances fora de ti todas as impurezas e máculas dos espíritos do mundo dos espectros; pelos nomes de Cernunnos e Aradia”. (Ou quaisquer outros nomes de Deus e Deusa que o coven utilize). (1)

 

(1) Ambas as consagrações estão muito vagamente baseadas naquelas de A Clavícula de Salomão, um grimório medieval, ou “gramática”, de prática mágica traduzido e editado por McGregor Mathers a partir de manuscritos do Museu Britânico e publicados em 1888. (Vide Bibliografia sobre Mathers). As palavras para a consagração das armas mágicas no Livro das Sombras de Gardner também seguem (e com muito mais proximidade) aquelas de A Clavícula de Salomão. Que estas eram empréstimo do próprio Gardner, mais do que parte do material tradicional que ele obteve do coven de New Forest que o iniciou, é sugerido pelo fato de que o Inglês deles corresponde àquele de Mathers, ao invés de derivar independentemente do Latim original. Não há problema naquilo; como a maioria dos empréstimos de Gardner, eles atendem à seus propósitos admirávelmente.

 

Ela deita seu athame e ergue a tigelinha de água com ambas as mãos. O Sumo Sacerdote coloca a tigelinha com sal sobre o pentáculo, introduz a ponta de seu athame no sal e diz:

   “Que as bênçãos estejam sobre esta criatura de sal; que toda a malignidade e obstáculo sejam lançadas fora daqui, e que todo bem entre aqui; razão pela qual eu te abençôo, que tu possas me auxiliar, pelos nomes de Cernunnos e Aradia”. (1)

 

 = (até aqui foi passado para o Fr.’.) =

 

Ele deita seu athame e derrama o sal dentro da tigelinha de água que a Suma Sacerdotiza está segurando. Então ambos depositam suas tigelinhas sobre o altar, e o Sumo Sacerdote sai do Círculo para permanecer com o coven.

A Suma Sacerdotiza traça o Círculo com a espada, deixando uma passagem na direção Nordeste (ao erguer sua espada à uma altura maior que as cabeças do coven assim que passa à frente das pessoas). Ela procede deosil (sentido horário) (2) de Norte a Norte, dizendo enquanto passa :

“Eu te conjuro, Oh Círculo de Poder, que sejais um local de reunião de amor, de prazer e verdade; um escudo contra toda crueldade e maldade; uma fronteira entre o mundo dos homens e os reinos dos Poderosos; uma fortaleza e proteção que preservará e conterá o poder que iremos gerar dentro de ti. Portanto eu te abençôo e te consagro, pelos nomes de Cernunnos e Aradia”.

Ela então abaixa a espada e admite o Sumo Sacerdote para dentro do Círculo com um beijo, girando com ele deosil.  O Sumo Sacerdote admite uma  mulher da mesma forma; aquela mulher admite um homem; e assim  por diante, até que todo o coven esteja no Círculo.

A Suma Sacerdotiza levanta a espada e fecha a passagem, traçando aquela parte do Círculo da mesma forma que ela fez com o resto dele (3).

 

(2) Todos os movimentos mágicos envolvendo rotação ou circulação são normalmente realizados no sentido horário, ‘o caminho do Sol’. Isso é conhecido como ‘deosil’, do Gaélico (Irlandes deiseal, Escocês deiseil, ambos pronunciados aproximadamente ‘jesh’l’) significando ‘para a direita’ ou ‘para o Sul’. (Na Irlanda se diz “Deiseal’ – ‘Que [isso ] possa ir para a direita’ (?) – quando um amigo espirra). Um movimento anti-horário é conhecido como ‘widdershins’ (Médio Alto Alemão widersinnes, ‘em uma direção contrária’) ou ‘tuathal’ (Irlandes tuathal pronunciado ‘twa-h’l’, Escocês tuaitheal pronunciado ‘twa-y’l’) significando ‘para a esquerda, para o Norte, em uma direção errada’. Um movimento mágico widdershins é considerado negro ou malévolo, à menos que ele tenha um significado simbólico preciso tal como uma tentativa de regressar no tempo, ou um retorno à fonte preparatória para renascimento; em tais casos ele é sempre ‘desenrolado’ no curso correto por um movimento deosil – tanto que um Highlander Escocês uma dança da espada tuaitheal, porque ela é uma dança de guerra, e a termina em deiseil para simbolizar vitória. (Vide páginas 118, 134 e 169 para exemplos em nossos rituais – N.do T.: no original). Nós estaríamos interessados em ouvir da parte de witches do hemisfério sul (onde naturalmente o Sol se move no sentido anti-horário) sobre seus costumes em movimentos rituais, orientação dos elementos e posicionamento do altar

 

(3) Normalmente, ninguém sai ou entra no Círculo entre os rituais de consagração e banimento; porém caso seja necessário, deverá ser aberta uma passagem através de um movimento circular ritual em widdershins (anti horário) do athame e fechado imediatamente após o uso com um movimento circular em deosil (horário). (Espada e athame são ritualmente intercambiáveis). Vide, por exemplo, a página 53.

 

A Suma Sacerdotiza então nomeia três witches para fortalecer o Círculo (que ela já estabeleceu no elemento Terra) com os elementos de Água, Ar e Fogo.

A primeira witch carrega a tigelinha de água consagrada ao redor do Círculo, deosil de Norte a Norte, aspergindo o perímetro enquanto ele/ela prossegue. Então ele/ela asperge cada membro do coven um após o outro. Caso o oficiente seja um homem, ele termina aspergindo a Suma Sacerdotiza, que então o asperge; se for uma mulher, ela termina aspergindo o Sumo Sacerdote, que então a asperge. O portador da água então repõe a tigelinha no altar.

A Segunda witch carrega o incensador [devidamente em brasas] ao redor do perímetro, deosil de Norte a Norte, e o recoloca no altar.

A terceira witch carrega uma as velas do altar ao redor do  perímetro, deosil de Norte a Norte, e a repõe sobre o altar.

Todos do coven erguem seus athames e ficam face ao Leste, com a Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote à frente (ele ficando à direita dela). A Suma Sacerdotiza diz :

Vós Senhores das Torres de Vigia do Leste, vós Senhores do Ar; eu vos convoco, incito e chamo, para testemunhar os nossos ritos e para proteger o Círculo”.

Enquanto ela fala, ela traça o Pentagrama de Invocação da Terra com seu athame no ar à sua frente, portanto : (4)

 

(desenho da Invocação – vide original,  página 39)

 

(4) Esse ritual das Torres de Vigia está óbviamente baseado no “Ritual Menor do Pentagrama” da Golden Dawn (vide Israel Regardie Golden Dawn, volume I, págs. 106-7 e, para material mais complexo sobre os Pentagramas de Invocação e Banimento, volume III, páginas 9-19). Incidentalmente, a Golden Dawn, e muitas witches, terminam os Pentagramas meramente retornando ao ponto de partida - isto é, omitindo o sexto traço de ‘selagem’. Como sempre, isto é um caso do que você “sente que é certo”.

 

Após traçar o Pentagrama, ela beija a lâmina de seu athame e o segura sobre seu coração por um ou dois segundos.

O Sumo Sacerdote e o resto do coven copia todos estes gestos com seus próprios athames; todos que estiverem sem athame usam seus dedos indicadores direitos.

A Suma Sacerdotiza e o coven ficam então frente ao Sul e repetem a chamada; dessa vez é para “Vós Senhores das Torres de Vigia do Sul, vós Senhores do Fogo ...”.

Eles então viram-se para o Oeste onde a chamada é para “Vós Senhores das Torres de Vigia do Oeste, vós Senhores da Água, vós Senhores da Morte e da Iniciação...”.

Eles então ficam de frente ao Norte, onde a chamada é mais extensa; a Suma Sacerdotiza diz:

Vós Senhores das Torres de Vigia do Norte, vós Senhores da Terra; Boreas,  tu guardião dos portais do Norte; tu Deus poderoso, tu Deusa gentil; nós vos convocamos, incitamos e chamamos, para testemunhar nossos ritos e proteger o Círculo.

Todos do coven recolocam seus athames sobre o altar, e todos exceto a Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote  se dirigem ao Sul do Círculo, onde ficam olhando de frente para o altar.

O Sumo Sacerdote procede agora com a ‘invocação (?) da Lua’ sobre a Suma Sacerdotiza. Ela fica de costas para o altar, com a vara em sua mão direita e o chicote na esquerda, seguros contra seu peito na ‘posição de Osíris’ – as duas hastes seguras em seus punhos cerrados, seus pulsos cruzados, e as hastes cruzadas novamente sobre estes. (Vide ilustração 10 -  do original, N.do T.). Ele se ajoelha diante dela.

O Sumo Sacerdote aplica na Suma Sacerdotiza o Beijo Quíntuplo, beijando-a no pé direito, pé esquerdo, joelho direito, joelho esquerdo, útero, seio direito, seio esquerdo e lábios. (Quando ele alcança o útero, ela abre seus braços na ‘posição de bênção’). Conforme vai executando, ele diz:

 

            “Benditos sejam teus pés,  que te conduziram nestes caminhos.

            “Benditos sejam teus joelhos, que se dobrarão sobre o altar sagrado.

            “Bendito seja teu útero, (5) sem o qual nós não existiríamos.

            “Benditos sejam teus seios, formados em beleza (6).

            “Benditos sejam teus lábios, que pronunciarão os Nomes Sagrados”.

 

(5) Quando uma mulher aplica o Beijo Quíntuplo à um homem (como no Sabá Imbolg) ela diz ‘falo’ ao invés de ‘útero’, beijando-o logo acima do pêlo púbico; e ‘peito, formado em força’ ao invés de ‘seios,  formados em beleza’.

 

(6) De um poema de Aleister Crowley, originalmente dedicado à Tyche, Deusa da Fortuna. Adaptado para o uso da Arte por Gardner, que o apreciava muito.

 

Para o beijo nos lábios, eles se abraçam, por toda extensão, com os pés tocando os pés do outro.

O Sumo Sacerdote se ajoelha novamente perante a Suma Sacerdotiza, que retoma a ‘posição de bênção’, mas com seu pé direito um pouquinho para frente. O Sumo Sacerdote invoca:

 

“Eu te invoco e te chamo, Poderosa Mãe de todos nós, portadora de toda criação; pela semente e raiz, pelo botão e caule, pela folha e flor e fruto, pela vida e amor eu te invoco à descer sobre o corpo desta tua serva e sacerdotiza”.

 

Durante esta invocação ela a toca com seu dedo indicador da mão direita sobre o seio direito dela, seio esquerdo e útero; os mesmos três novamente; e finalmente o seio direito. Ainda ajoelhado, ele então abre seus braços para fora e para baixo, com as palmas para frente,  e diz (6):

 

                        “Salve, Aradia! Do Chifre de Amaltéia.

                        Derramai vossa porção de amor; eu me inclino humilde

                        Perante a ti, eu te adoro até o fim,

                        Com sacrifício amoroso teu santuário adorno.

                        Teu pé é para meu lábio . . .

 

Ele beija o pé direito dela e continua :

 

                                                                       “. . . minha prece nascida

                        Sobre a fumaça crescente do incenso; então despendeis

                        Teu antigo amor, Oh Poderosa, descei

                        Para me ajudar, que sem ti estou abandonado”.

 

Ele então se levanta e dá um passo para trás, ainda olhando para a Suma Sacerdotiza.

A Suma Sacerdotiza traça o Pentragrama de Invocação da Terra no ar à frente dele com a vara, dizendo: (7)

 

                        “Da Mãe obscura e divina

                        Meu é o chicote, e meu é o beijo;

                        A estrela de cinco pontas de amor e êxtase ---

                        Aqui eu te encanto, neste sinal”.

 

(7) Da versão rimada de Doreen Valiente sobre o Encantamento.

 

Com isto o ritual da Invocação (?) da Lua está concluído; o próximo estágio é a Investidura do Poder (?) (8). A Suma Sacerdotiza deita a vara e o chicote sobre o altar, e ela e o Sumo Sacerdote ficam de face para o coven, com ele à esquerda dela. O Sumo Sacerdote diz:

_________

(8) A história da Investidura (Charge = investir, carregar – N.do T.) é como segue. Gardner esboçou uma primeira versão, muito similar àquela que damos aqui até “tudo em meu louvor” (sendo esta passagem de abertura adaptada dos rituais das feiticeiras Tuscanas (?) registrados na obra de Leland Aradia: O Evangelho das Feiticeiras) seguido de alguns extratos voluptuosamente verbalizados de Aleister Crowley. Doreen Valiente nos diz que ela “não achou que isto era realmente adequado para a Antiga Arte dos Sábios, por mais belas que as palavras possam ser ou o quanto alguém poderia concordar com o que elas diziam; então eu escrevi uma versão da Investidura em verso, conservando as palavras de Aradia, porque estas são tradicionais”. Esta versão em versos começava “Mãe obscura e divina . . .” , e sua primeira quadra ainda é usada como resposta da Suma Sacerdotiza à Invocação da Lua. Mas a maioria das pessoas pareceu preferir uma Investidura em prosa, então ela escreveu a versão final em prosa que damos aqui; ela ainda contém uma ou duas frases de Crowley (“Mantenha puro seu maior ideal”, por exemplo, é de seu ensaio A Lei da Liberdade, e “Nem eu exijo (nada em) sacrifício” é do Livro da Lei) mas ela integrou o todo para nos oferecer a declamação mais bem amada na Arte atualmente. Ela poderia ser chamada de um Credo Wicca. Nossa versão tem uma ou duas pequenas diferenças daquela de Doreen (tal como “witches” no lugar de “witcheries”)  mas nós as deixamos ficar, pedindo desculpas à ela.

 

(9) Pronunciado ‘Breed’. Se voce tem um nome de Deusa local, de qualquer forma adicione-a à lista. Enquanto moramos em County Wexford, costumávamos adicionar Carman, uma deusa de Wexford (ou heroína ou vilã, segundo sua versão) que deu ao condado e à cidade seu nome Gaélico de Loch Garman (Loch gCarman).

 

(10) No Livro das Sombras, segue aqui outra sentença: “Em seus altares a juventude de Lacedaemon em Esparta fez o devido sacrifício”. A sentença originou de Gardner, não de Valiente. Como em muitos covens, nós a omitimos. O sacrifício Espartano, embora ele tenha sido largamente descrito, era certamente um negócio horrendo (vide por exemplo Mitos Gregos de Robert Graves, paragrafo 116.4 ) e longe de atender à declaração posterior da Investidura “Nem eu exijo sacrifício”. Pelo jeito, a sentença também está verbalizada com imprecisão; Esparta estava na Lacedaemon (Lacedônia - ?), e não a Lacedaemon na Esparta.

________

Ouçam as palavras da Grande Mãe; ela à quem desde tempos antigos foi também conhecida entre os homens como Artemis, Astarte, Athena, Dione, Melusine, Afrodite, Cerridwen, Dana, Arianrhod, Isis, Bride (9), e por muitos outros nomes.”(10).

A Suma Sacerdotiza diz:

Sempre que tivermos necessidade de qualquer coisa, uma vez por mês e melhor ainda quando  a lua estiver cheia, então vos reunireis em algum lugar secreto e adorareis o espírito de mim, que sou Rainha de todas as feiticeiras. Lá vos reunireis, vós que estais satisfeitos em aprender toda feitiçaria, vós não conquistastes seus segredos mais profundos; à estes eu ensinarei coisas que ainda são desconhecidas. E vós sereis libertos da escravidão; e como sinal de que sois realmente livres, vós estareis nus em vossos ritos; e vós dançareis, cantareis, festejareis, fareis música e amor, tudo em meu louvor. Pois meu é o êxtase do espírito, e meu também é o prazer na terra; pois minha lei é amor sobre todos os seres. Mantenhais puro vosso mais alto ideal; esforçai-vos sempre em sua direção; não permitis que nada vos detenha ou desvie do caminho. Pois minha é a porta secreta que se abre para a Terra da Juventude, e meu é o cálice do vinho da vida, e o Caldeirão de Cerridwen, que é o Santo Graal da imortalidade. Sou a Deusa graciosa, que concede a dádiva do prazer no coração do homem. Sobre a terra, concedo o conhecimento do espírito eterno; e após a morte, eu concedo paz, e liberdade, e reunião com aqueles que partiram antes. Nem eu exijo sacrifício; pois observai, eu sou a Mãe de todos os viventes, e meu amor é derramado por sobre a terra”.

O Sumo Sacerdote diz :

Ouvi vós as palavras da Deusa da Estrela; ela cuja poeira em seus pés contém todas as hostes do céu, e cujo corpo circunda o universo”.

A Suma Sacerdotiza diz :

Eu que sou a beleza da terra verde, e a Lua branca entre as estrêlas, e o mistério das águas, e o desejo do coração do homem, chamo a tua alma. Apareceis e vinde a mim. Pois eu sou a alma da natureza, que dá vida ao universo. Todas as coisas se originam de mim, e para mim todas as coisas deverão retornar; e perante minha face, amada pelos Deuses e pelos homens, deixai teu Self (Ser, Eu - ?) divino mais íntimo ser abraçado no êxtase do infinito. Que minha adoração seja entre os corações que regozijam; pois observai, todos os atos de amor e prazer são meus rituais. E portanto que haja beleza e força, poder e compaixão, honra e humildade, regozijo e reverência dentro de vós. E tu que pensastes em buscar por mim, sabei que vossa busca e anseio não te auxiliará à menos que conheçais o mistério; que se aquilo que procuraste não encontraste dentro de ti, tu jamais o encontrareis fora de ti. Pois observai, eu tenho estado contigo desde o começo; e eu sou aquilo que é alcançado no fim do desejo”.

Esta é a conclusão da Investidura.

O Sumo Sacerdote, ainda de frente para o coven, ergue seus braços bem abertos e diz : (11)

 

                        “Bagahi laca bachahé

                        Lamac cahi achabahé

                        Karrelyos

                        Lamac lamec bachalyos

                        Cabahagi sabalyos

                        Baryolas

                        Lagozatha cabyolas

                        Samahac et famyolas

                        Harrahya!”

 

(11) Este estranho encantamento, primeiramente informado de ter surgido numa peça francesa do décimo terceiro século, é tradicional na feitiçaria. Seu significado é desconhecido – embora Michael Harrison em  As Raízes da Feitiçaria faz conhecer uma interessante ocorrência como isto sendo uma corruptela do Basco, e uma convocação para reunião em Samhain.

 

(12) Esta é a Invocação à Pan do Capítulo XIII do Magia da Lua de Dion Fortune, com o nome de Divindade do coven substituído pelo nome de Pan.

 

(13) Este é um antigo encantamento das witches bascas, significando “O bode acima – o bode abaixo’. Nós o encontramos na obra As Raízes da Feitiçaria de Michael Harrison, gostamos dele e o adotamos.

 

(14) Este cântico, a “Runa das Feiticeiras”, foi escrito por Doreen Valiente e Gerald Gardner juntos. As linhas “Eko, Eko” (às quais os covens geralmente inserem os nomes de seus próprios Deus e Deusa nas linhas 3 e 4) não eram parte de sua Runa original; ela nos conta: “Nós costumávamos usá-las como prefácio ao antigo cântico ‘Bagabi lacha bachabe’ “ (ao qual Michael Harrison também as atribui)  “porém não creio tampouco que elas eram originalmente uma parte deste cântico, elas eram parte de outro cântico antigo. Escrevendo de memória, ele ficou algo como isto :

 

                        Eko Eko Azarak

                        Eko Eko Zomelak

                        Zod ru koz e zod ru koo

                        Zod ru goz e goo ru moo

                        Eeo Eeo hoo hoo hoo!

 

Não, eu não sei o que elas significavam ! Mas creio que de alguma forma que ‘Azarak’ e “Zomelak’ são nomes de Divindades”. Ela adiciona: “Não há razão porque esta palavras não devam ser usadas como voce as tem usado”. Nós apresentamos aqui a versão à qual nós, e muitos outros covens, ficamos acostumados; as únicas diferenças são que o original apresenta “eu,  meu” ao invés de “nós, nosso”, e apresenta “Leste, então Sul e Oeste e Norte” e  “Na terra e ar e mar, Pela luz da lua ou sol”.

 

A Suma Sacerdotiza e o coven repetem “Harrahya!”

O Sumo Sacerdote e a Suma Sacerdotiza então viram seus rostos para o altar com seus braços erguidos, suas mãos fazendo a saudação ao “Deus de Chifres” (dedos indicador e mínimo esticados, polegar e dedos do meio dobrados para o meio da palma). O Sumo Sacerdote diz: (12)

 

                        “Grande Deus Cernunnos, voltai à terra novamente !

                        Vinde pela minha invocação e mostrai-vos aos homens.

                        Pastor de Cabras, sobre o caminho agreste da montanha,

                        Conduzi vosso rebanho perdido da escuridão para o dia.

                        Esquecidos estão os caminhos  de sono e noite –

                        Os homens procuram por eles, cujos olhos perderam a luz.

                        Abri a porta, a porta que não tem chave,

                        A porta dos sonhos, por  onde os homens vem à ti.

                        Pastor de Cabras, Oh atendei a mim!”

 

O Sumo Sacerdote e a Suma Sacerdotiza dizem juntos: (13)

 

                        “Akhera goiti – akhera beiti!”

 

- baixando suas mãos na segunda frase.

A Suma Sacerdotiza, seguida pelo Sumo Sacerdote, então conduzem o coven para a Runa das Feiticeiras – uma dança em deosil formando anel, olhando para dentro do círculo e segurando as mãos (palmas esquerdas para cima, palmas direitas para baixo), homens e mulheres alternados, na medida do possível. A Suma Sacerdotiza dá o compasso – e pode algumas vêzes largar a mão (?) do homem à sua frente, e trançar (abrir caminho por meio de ondas – N.do T.) o coven após ela, para dentro e para fora como uma serpente. Não importa o quão complexo seja o seu trançado, ninguém deve romper a corrente, mas todos devem continuar se movendo, ainda de mãos dadas, até que a linha desembarace a si mesma. Enquanto prossegue a dança em anel, todo o coven canta: (14)

 

                        “Eko, Eko, Azarak,            \

                        Eko, Eko, Zomelak,             \ ________ \    (repetido três vezes)   

                        Eko, Eko, Cernunnos,                      /                /

                        Eko, Eko, Aradia!               /

                        Noite sombria e lua brilhante,

                        Leste, então Sul, então Oeste, então Norte;

                        Ouvi à Runa das Feiticeiras –

                        Aqui viemos para vos invocar!

                        Terra e água, ar e fogo,

                        Vara e pentáculo e espada,

                        Trabalhai vós sob nosso desejo,

                        Ouvi vós à nossa palavra!

                        Cordas e incensário, chicote e faca,

                        Poderes da lâmina da feiticeira –

                        Despertai todos vós para a vida,

                        Vinde vós enquanto o encantamento é feito!

                        Rainha do céu, Rainha do inferno,

                        Caçadora de chifres da noite –

                        Emprestai teu poder ao encantamento,

                        E trabalhai tua vontade por rito mágico!

                        Por todo o poder da terra e do mar,

                        Por todo o poder da lua e do sol –

                        Como nós de fato queremos, que assim seja;

                        Cantai o encantamento, e que seja feito !

                        “Eko, Eko, Azarak,            \

                        Eko, Eko, Zomelak,             \ ________ \    (repetido até [estar _ ?] pronto)   

                        Eko, Eko, Cernunnos,                      /                /

                        Eko, Eko, Aradia!               /

 

(Nota : Literalmente Horned hunter seria “caçadora chifruda ou cornuda”, porém devido à inevitável interpretação maliciosa do português corrente, traduzi como ‘caçadora de chifres’, mas isso não significa que Ela cace chifres... )

 

Quando a Suma Sacerdotiza achar que é o momento (e, se ela esteve ‘costurando’, terá agora restaurado o coven à composição original em anel), ela ordenará :

 

                        “Abaixem !

 

Todo o coven se abaixa ao solo e senta em círculo com os rostos para dentro deste.

 

Este é o fim do Ritual de Abertura. Caso a assembléia fosse um Esbá, a Suma Sacerdotiza iria agora dirigir o trabalho específico à ser feito. Se isto é um Sabá, o ritual apropriado começa agora.

Um outro ritual breve deve ser realizado aqui, para completar o quadro: a Consagração do Vinho e dos Bolos. Isso tem lugar em todo Esbá, geralmente após o trabalho ser concluído e antes de o coven relaxar dentro do Círculo. Num Sabá, ambos vinho e bolos tem que ser consagrados se o Grande Rito for real (vide secção II); se o Grande Rito for simbólico, a consagração do vinho será uma parte integral deste, deixando apenas os bolos para serem consagrados pelo ritual usual.

 

                        Consagração do Vinho e dos Bolos

 

Um witch masculino ajoelha-se perante uma witch feminina em frente ao altar. Ele eleva o cálice de vinho para ela; ela segura seu athame apontando para baixo, e abaixa a ponta do athame penetrando o vinho. (Vide Ilustração 17).

O homem fala:

 

            “Como o athame é para o masculino, desta forma o cálice é para o feminino; e unidos, eles se tornam um em verdade”.

 

A mulher deposita seu athame sobre o altar e então beija o homem (que permanece ajoelhado) e aceita o cálice dele. Ela sorve o vinho, beija o homem novamente e passa o cálice novamente para ele. Ele sorve, se levanta e o entrega para outra mulher com um beijo.

O cálice é dessa forma passado ao redor de todo o coven, homem para mulher e mulher para homem (à cada vez com um beijo) até que todos tenham sorvido do vinho.

Caso haja mais trabalho para ser feito, o cálice é então retornado ao altar. Se o coven estiver agora pronto para relaxar dentro do Círculo, o cálice é posicionado entre eles assim que se sentarem no chão, e qualquer um poderá sorver deste caso ele ou ela o queira; o passar-e-beijar ritual é necessário apenas para a primeira rodada. Se o cálice for preenchido de novo durante este relaxamento, não será necessário que este seja reconsagrado. 

Para consagrar os bolos, a mulher ergue novamente seu athame, e o homem, ajoelhado perante ela, eleva o prato de bolos. (Vide Ilustração 3). Ela traça o Pentagrama de Invocação da Terra no ar sobre os bolos com seu athame, enquanto o homem diz:  (15)

 

            “Oh mais secreta Rainha, abençoai este alimento em nossos corpos; concedendo saúde, riqueza, força, prazer e paz, e aquela realização de amor que é perfeita felicidade.”

 

A mulher deposita seu athame sobre o altar, beija o homem e tira um bolinho do prato. Ela o beija novamente,e ele tira um bolinho. Ele então se levanta e passa o prato para outra mulher com um beijo.

O prato é então passado ao redor de todo o coven, homem para mulher e mulher para homem (à cada vez com um beijo) , até que todos tenham tirado um bolinho.

 

(15) Adaptado da Missa Gnóstica de Crowley.

 

                                                           I I   O Grande Rito

 

Dizer que o Grande Rito é um ritual de polaridade masculino/feminino é verdadeiro mas soa friamente técnico. Dizer que ele é um rito sexual é também verdadeiro mas soa (para os desavisados) como uma orgia. De fato ele não é nem algo frio nem uma orgia; assim vamos tentar colocá-lo nas devidas proporções.

Ele pode ser encenado em qualquer das duas formas. Ele pode ser (e nós acharíamos que ele é, geralmente na maioria dos covens) puramente simbólico – em cujo caso todo o coven está presente todo o tempo. Ou ele pode ser ‘real’ – isso quer dizer, envolvendo relação física – em cujo caso todos do coven exceto o homem e a mulher envolvidos deixam o Círculo e o recinto, antes de o ritual se tornar íntimo, e não retornam até que sejam convocados.

Porém seja ele simbólico ou ‘real’, as witches não fazem apologia à sua natureza sexual. Para elas/eles, sexo é sagrado – uma manifestação daquela polaridade essencial que atravessa e ativa todo o universo, do Macrocosmo ao Microcosmo, e sem a qual o universo seria inerte e estático – em outras palavras, não existiria. O casal que está encenando o Grande Rito está (cada um) se oferecendo, com reverência e prazer, como expressões dos aspectos do Deus e da Deusa da Fonte Essencial. “Como acima, é abaixo”. Eles estão se tornando, no melhor de suas capacidades, canais para aquela polaridade divina em todos os níveis, do físico ao espiritual. Eis o porque ele é chamado de O Grande Rito.

Eis também o porque de o Grande Rito ‘real’ ser encenado sem testemunhas – não pela vergonha, mas pela dignidade da privacidade. E eis porque o Grande Rito em sua forma ‘real’ deveria, nós achamos, ser encenado apenas por um casal casado ou por amantes cuja união tenha a força de um casamento; porque isto é um rito mágico, e um rito poderoso; e carregado com a intensidade do relacionamento corporal, por um casal cujo relacionamento seja menos estreito, este pode muito bem ativar conexões em níveis para os quais eles não estejam preparados e que podem se mostrar desequilibrados e perturbadores.

“Relação sexual ritual”, diz Doreen Valiente, “é deveras uma idéia muito antiga – provávelmente tão antiga quanto a própria humanidade. Óbviamente, ele é o verdadeiro oposto da promiscuidade. Relacionamentos para propósitos rituais deveriam ser feitos com um parceiro(a) cuidadosamente selecionado(a), na hora certa e no lugar certo . . . . Isso é amor e é apenas o amor que pode dar ao sexo o toque da magia”.  (Magia Natural, pag.110).

O Grande Rito Simbólico, contudo, é um ritual perfeitamente seguro e benéfico para dois witches experientes ao nível de amizade normal entre os membros do mesmo coven. Cabe à Suma Sacerdotiza decidir quem está apropriado.

Talvez um bom modo de expressá-lo seria dizer que o Grande Rito ‘real’ é magia sexual, ao passo que o Grande Rito simbólico é a magia do gênero (no caso, masculino e feminino – N.do T.)

A invocação do Grande Rito declara específicamente que o corpo da mulher participante é um altar, com seu útero e órgãos reprodutores como seus focos sagrados, e o reverencia como tal. Não deveria ser tão necessário enfatizar aos nossos leitores que isto nada tem a ver com qualquer ‘Missa Negra’ – porque a própria Missa Negra nada tinha a ver com a Antiga Religião. A Missa Negra era uma heresia Cristã , usando formas Cristãs pervertidas, realizadas por degenerados sofisticados e sacerdotes expulsos ou corruptos, no qual o altar vivo era usado para dessacralizar a Hóstia Cristã. Tal obscenidade é naturalmente estranha em absoluto ao espírito e intenção do Grande Rito.

Em muitas religiões pagãs sinceras e honradas, por outro lado, “existe uma figura genuinamente antiga – a mulher nua sobre o altar”,  ressalta Doreen Valiente, e prossegue: “Seria mais correto dizer, a mulher nua que é o [próprio] altar; porque este é o seu papel original . . . Este uso de um corpo nu de uma mulher viva como altar onde as forças da Vida são cultuadas e invocadas extende-se à um tempo anterior ao começo do Cristianismo; extende-se aos dias do antigo culto da Grande Deusa da Natureza, na qual todas as coisas eram uma unidade, sob a imagem de Mulher”. (Um ABC da Feitiçaria, pág.44).

De fato, não apenas o altar arquetípico mas toda igreja, templo ou sinagoga é o corpo da Deusa – psicológicamente, espiritualmente e em sua evolução histórica. Todo o simbolismo complexo da arquitetura eclesiástica comporta isso muito além de questionamento, ponto a ponto; qualquer um que disso duvide deveria ler o manual ricamente documentado de Lawrence Durdin-Robertson (se apresentado de modo confuso _ ?) O Simbolismo da Arquitetura do Templo.

Desta forma o simbolismo Wicca meramente faz vívida e naturalmente o que outras religiões fazem indiretamente e subconscientemente.

Nos Sabás, o Grande Rito é usualmente encenado pela Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote. Os Sabás são ocasiões especiais, picos de conscientização e significação elevados dentro do ano das witches; assim é adequando-se aquilo nestas celebrações que os líderes do coven devem assumir este papel importante sobre si mesmos em nome do coven. Contudo, procedimentos rígidos são estranhos ao Wicca, e pode muito bem haver ocasiões em que ambos decidam que um outro casal deva ser nomeado para o Grande Rito do Sabá.

 

                                               A Preparação

 

 

O único ítem extra necessário para o Grande Rito, seja simbólico ou ‘real’, é um véu de uma jarda quadrada. Deveria ser preferivelmente em uma das cores da Deusa – azul, verde, prata ou branco.

O cálice deve ser preenchido com vinho em prontidão.

A Suma Sacerdotiza pode também decidir por alterar a fita de música por algo especialmente apropriado – possivelmente alguma música com um significado pessoal para ela e seu parceiro. (Para propósito de simplificar estamos assumindo, aqui e a seguir, que são a Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote quem está conduzindo o Rito).

 

                                   O Ritual Simbólico

 

Se o caldeirão estiver no centro, será movido para o Sul do Círculo, à menos que o ritual  indique alguma outra posição.

O coven, exceto para a Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote, se posiciona ao redor do perímetro do Círculo, homem e mulher alternados na medida do possível, faces voltadas para o centro.

A Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote ficam de pé olhando um para o outro no centro do Círculo, ela de costas para o altar, ele de costas para o Sul.

O Sumo Sacerdote aplica o Beijo Quíntuplo na Suma Sacerdotiza.

A Suma Sacerdotiza então se deita olhando para cima, com seus quadris no centro do Círculo, sua cabeça na direção do altar e seus braços e pernas estendidos para formar o Pentagrama.

O Sumo Sacerdote busca o véu e o estende sobre o corpo da Suma Sacerdotiza, cobrindo-a dos seios aos joelhos.  Ele então se ajoelha olhando para ela, com seus joelhos entre os pés dela. (Vide ilustração 4 – do livro).

O Sumo Sacerdote chama uma witch feminina pelo nome, para que ela traga o athame [dele] do altar. A witch feminina assim o faz e permanece com o athame em suas mãos, uma jarda para Oeste dos quadris da Suma Sacerdotiza, olhando para ela.

O Sumo Sacerdote chama um witch masculino pelo nome , para que ele traga o cálice de vinho do altar. O witch masculino assim o faz e permanece com o cálice em suas mãos, uma jarda para Leste dos quadris da Suma Sacerdotiza, olhando para ela.

O Sumo Sacerdote conduz a Invocação:

 

“Auxiliai-me à erigir o antigo altar, ao qual em dias passados

todos adoravam;

O grande altar de todas as coisas.

Pois nos tempos antigos, a Mulher era o altar.

Assim era o altar preparado e posicionado,

E o local sagrado era o ponto dentro do centro do Círculo.

Assim como fomos desde há muito tempo ensinados que o ponto dentro do centro é

a origem de todas as coisas,

Por conseguinte devemos adorá-lo;

Por conseguinte à quem adoramos nós também invocamos.

Oh, Círculo de Estrelas,

Do qual nosso pai é apenas o irmão mais jovem,

Maravilha além da imaginação, alma do espaço infinito,

Perante quem o tempo fica envergonhado, a mente desconcertada , e a

compreensão obscurecida,

Não podemos nos realizar sob ti à menos que tua imagem seja amor.

Portanto pela semente e raiz, e caule e botão,

E folha e flor e fruto nós a ti invocamos,

Oh Rainha do Espaço, Oh Jóia de Luz,

Contínua dos céus;

Que seja sempre assim

Que os homens não falem de ti como Uma, mas como Nenhuma;

E que eles não falem de ti em absoluto, uma vez que sois contínua. (1)

Pois tu és o ponto dentro do Círculo, o qual  nós adoramos;

O ponto da vida, sem o qual nós não existiríamos.

E dessa forma são verdeiramente erigidos os santos pilares gêmeos; (2)

Em beleza e em força foram eles erigidos

Para a maravilha e a glória de todos os homens”.

 

O Sumo Sacerdote remove o véu do corpo da Suma Sacerdotiza, e o entrega para a witch feminina, da qual ele toma seu athame..

A Suma Sacerdotiza se ergue e fica ajoelhada olhando para o Sumo Sacerdote, e toma o cálice do witch masculino.

(Note que ambas estas entregas de mão em mão são feitas sem o beijo ritualístico costumeiro).

O Sumo Sacerdote continua a Invocação:

 

                        Altar de múltiplos mistérios, (3)

                        O Ponto secreto do Cïrculo sagrado –

                        Assim eu te assinalo como antigamente,

                        Com beijos de meus lábios ungindo”.

 

O Sumo Sacerdote beija a Suma Sacerdotiza nos lábios, e continua :

 

(1)   De “Oh Círculo de Estrêlas” até “uma vez que sois contínua”, esta invocação do Livro das Sombras é tomada da Missa Gnóstica em Magick de Aleister Crowley.

(2)   Os “santos pilares gêmeos” são Boaz e Jachin, que ladeavam a entrada ao Santo dos Santos no Templo de Salomão. Boaz (de cor preta) representa a Severidade (“força”), e Jachin (branco) a Misericórdia (“beleza”). Compare com a Árvore da Vida e a lâmina de Tarot da Suma Sacerdotiza. No Grande Rito, eles são claramente simbolizados pelas pernas da mulher-altar.

(3)   De “Altar de múltiplos mistérios” até fim, a Invocação foi escrita por Doreen Valiente, que também compôs uma versão completamente rimada.

 

“Abri para mim o caminho secreto,

 O caminho da inteligência,

 Além dos portões da noite e do dia,

 Além dos limites do tempo e do sentido.

 Além do correto mistério –

 Os cinco pontos verdadeiros da sociedade . . .”

 

A Suma Sacerdotiza eleva o cálice, e o Sumo Sacerdote abaixa a ponta de seu athame [mergulhando] no vinho. (Ambos usam ambas as mãos para fazer isso – vide Ilustração 19). O Sumo Sacerdote continua:

 

                        “Aqui onde a Lança e o Graal se umem,

                         E pés, e joelhos, e peitos, e lábios”.

 

O Sumo Sacerdote entrega seu athame para a witch feminina e então posiciona ambas as suas mãos em volta das mãos da Suma Sacerdotiza enquanto ela segura o cálice. Ele a beija, e ela sorve o vinho; ela o beija, e ele sorve o vinho. Ambos mantém suas mãos em volta do cálice enquanto fazem isto.

O Sumo Sacerdote então toma o cálice da Suma Sacerdotiza, e ambos ficam de pé.

O Sumo Sacerdote entrega o cálice para a witch feminina com um beijo, e ela sorve; ela passa o cálice para o witch masculino com um beijo, e ele sorve. A partir dele, o cálice é passado homem para mulher, mulher para homem, ao redor do coven, á cada vez com um beijo, do modo normal.

A Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote então consagram os bolinhos, que são circulados no modo normal.

                                   O Ritual ‘Real’

 

O Grande Rito ‘real’ segue o mesmo procedimento como o simbólico acima, com as seguintes exceções.

Os witches feminina e masculino não são convocados, e o athame e o cálice permanecem sobre o altar.

Quando o Sumo Sacerdote chega à “Para a maravilha e a glória de todos os homens” na Invocação, ele para. A Donzela então busca seu athame do altar e ritualmente abre uma passagem no Círculo próxima à porta do recinto. O coven forma uma fila e deixa a sala. A Donzela caminha até o limite do Círculo, sela ritualmente a passagem atrás dela, coloca seu athame no chão fora do Círculo e deixa a sala, fechando a porta atrás dela.

A Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote são então deixados a sós no recinto e no Círculo.

O Sumo Sacerdote continua a Invocação até o fim, mas os detalhes reais da encenação do Rito são agora são agora um assunto privativo para ele e a Suma Sacerdotiza. Nenhum membro do coven pode questioná-los sobre isso depois, direta ou indiretamente.

Quando eles estiverem prontos para readmitir o coven, o Sumo Sacerdote toma seu athame do altar, abre ritualísticamente a passagem, abre a porta e convoca o coven. Ele recoloca seu athame no altar.

A Donzela pega seu athame no caminho para dentro e ritualísticamente sela a passagem depois que o coven reentrou no Círculo. Ela repõe seu athame no altar.

Vinho e bolinhos são agora consagrados da forma normal.

 

                                   I I I     O  Ritual de Encerramento

 

Um Círculo Mágico, uma vez lançado, deve sempre e sem exceção ser banido quando a ocasião ou o propósito para o qual ele foi lançado está completado. (1) Seria falta de educação não agradecer, e cumprimentar em despedida, às entidades que você invocou para protegê-lo (o Círculo); é magia incorreta criar uma barreira no plano astral e então deixá-la desmantelada, um obstáculo perdido como um ancinho virado [com os dentes]  para cima num trecho de jardim; e é uma psicologia errada ter uma fé tão pequena em sua realidade e eficácia que você assume que ele vai se dissipar no momento em que você parar de pensar nele.

 

(1) O Rito de Hagiel, como descrito no Capítulo XIV de O Que As Feiticeiras Fazem, pode parecer quebrar esta regra; porém as circunstâncias especiais devem estar claras para os leitores atentos do mesmo. Para uma coisa, os Senhores das Torres de Vigia não são invocados.

 

                                               A Preparação

 

Estritamente falando, nenhuma preparação é necessária para o ritual de banimento do Círculo; mas duas provisões devem ser mantidas em mente, durante suas atividades dentro do Círculo, em antecipação à este.

Primeiro, se quaisquer objetos tiverem sido consagrados no Círculo, eles devem ser mantidos juntos – ou pelo menos cada um deles deve ser lembrado – de forma que eles possam ser coletados e carregados por alguém posicionado atrás do coven durante o banimento. Fazer os gestos de um Pentagrama de Banimento na direção de um objeto recentemente consagrado teria um efeito neutralizante.

Segundo, voce deve observar que pelo menos um bolinho, ou biscoito, e um pouco do vinho são conservados, de forma que estes possam ser retirados depois e lançados ou despejados como um oferenda à Terra.  (Vivendo na Irlanda, seguimos a tradição local ao fazer esta oferenda de um modo ligeiramente diferente; nós deixamos este material durante a noite em dois pratinhos, para fora em um peitoril de janela na direção oeste, para os sidhe (pronúncia Inglesa ‘shee’), ou duendes. Os sidhe, casualmente, são famosos por apreciarem um pouco de manteiga sobre o bolinho ou biscoito.)

                                               O Ritual

 

A Suma Sacerdotiza fica de frente para o Leste com seu athame em sua mão. O Sumo Sacerdote fica à sua direita, e o resto do coven fica atrás deles. Todos portam seus athames, caso os possuam,  com exceção da pessoa que estiver carregando os objetos recém-consagrados (se houver), que fica bem atrás. A Donzela (ou alguém nomedo pela Suma Sacerdotiza para este propósito) fica próxima à frente, pronta para soprar cada vela por vez.

A Suma Sacerdotiza diz:

 

            “Vós Senhores das Torres de Vigia do Leste, vós Senhores do Ar; nós vos agradecemos por terdes assistido aos nossos ritos; e antes de vós partirdes para vossos reinos agradáveis e aprazíveis, nós vos saudamos e nos despedimos . . . Saudações e adeus”.

 

Enquanto ela fala, vai traçando o Pentagrama de Banimento da Terra, com seu athame traçando no ar à sua frente, assim:

 

Banimento        (o desenho está no livro original, página 57)

 

Após traçar o Pentagrama, ela beija a lâmina de seu athame e o coloca sobre seu coração por um segundo ou dois.

O Sumo Sacerdote e o resto do coven imita todos estes gestos com seus próprios athames; e os que não tiverem athames usam seus dedos indicadores direitos. (Aquele que estiver portando os objetos consagrados não faz gesto algum). Todos dizem o segundo “Saudações e adeus” com ela.

A Donzela caminha para frente e sopra a vela do Leste.

Todo o procedimento é repetido de frente para o Sul, com a Suma Sacerdotiza dizendo:

 

   “Vós Senhores das Torres de Vigia do Sul, vós Senhores do Fogo; nós vos agradecemos . . .” etc.

 

Então para o Oeste, com a Suma Sacerdotiza dizendo:

 

   “Vós Senhores das Torres de Vigia do Oeste, vós Senhores da Água; vós Senhores da Morte e da Iniciação; nós vos agradecemos . . .” etc.

 

Então para o Norte, com a Suma Sacerdotiza dizendo:

 

   “Vós Senhores das Torres de Vigia do Norte, vós Senhores da Terra;Boreas, tu guardião dos portais do Norte; tu Deus poderoso, tu Deusa bondosa;  nós vos agradecemos . . .” etc.

 

Ao Norte, a Donzela meramente sopra a vela do Norte; por razões puramente práticas, ela deixa as duas velas do altar queimando até que as luzes do recinto sejam acesas.

Está encerrado o Sabá.

 

 

 

 

                                                   Os   Sabás

 

                         IV   Imbolg, 2 de Fevereiro

           

Nós temos chamado os quatro Sabás Maiores por seus nomes Celtas por consistência, e temos usado as formas Irlandês Gaélicas daqueles nomes pelas razões que apresentamos na página 14 (do original – N.do T.). Mas o Imbolg é mais usualmente conhecido, mesmo entre witches, pelo bonito nome de Candlemas sob o qual ele foi cristianizado – suficientemente compreensível,  porque esta Festa de Luzes pode e deve ser uma bela ocasião.

Imbolg é i mbolg (pronunciado “immol’g’, com uma vogal leve àtona entre o ‘l’ e o ‘g’) que significa ‘no ventre’. Isto é o reavivamento do ano, os primeiros movimentos fetais da Primavera no útero da Mãe Terra.  Como todos os Grandes Sabás Celtas, este é um festival de fogo – mas aqui a ênfase é sobre a luz mais do que sobre o calor, a centelha de luz fortalecedora que começa à trespassar a obscuridade do Inverno. (Bem ao sul, onde o inverno é menos severamente obscuro, a ênfase pode ser de outro modo; os Cristãos Armenos, por exemplo, acendem seu novo fogo sagrado do ano na Véspera de Candlemas, não na Páscoa como em outros lugares).

A Lua é a luz-símbolo da Deusa, e a Lua acima de tudo se relaciona com seu tríplice aspecto de Donzela, Mãe e Anciã (Encantamento, Amadurecimento e Sabedoria). A luz lunar é particularmente aquela da inspiração. Então é adequado que o Imbolg deva ser a festa de Brigid (Brid, Brigante) a radiante tríplice Deusa- Musa ,que é também a portadora da fertilidade; pois no Imbolg, quando os primeiros trompetes da Primavera podem ser ouvidos à distância, o espírito é avivado tanto quanto o corpo e a Terra.

Brigid (que também deu seu nome à Brigantia, o reino Celta no todo do Norte da Inglaterra sobre a linha de Wash até Staffordshire) é um exemplo clássico de uma divindade pagã cristianizada com pouca tentativa de ocultar o fato – ou como Frazer coloca em O Ramo Dourado (pag.177) (1), ela é “uma antiga deusa pagã da fertilidade, disfarçada em um manto cristão puído”. O Dia de Santa Brígida, Lá Fhéile Bríd (pronunciado aproximadamente ‘law ella breed’) na Irlanda, é em 1 de Fevereiro, a véspera do Imbolg.

A Santa Brigida histórica viveu cerca de 453-523 AD; mas suas lendas, características e lugares santos são aqueles da Deusa Brid, e os costumes folclóricos do Dia de Santa Brigida nas terras Celtas são evidentementes pré-cristãos.  É significativo que Brigid seja conhecida como “a Maria do Gael”, pois como Maria ela transcende os dados biográficos humanos para atender ao ‘anseio pela forma-de-Deusa’ dos homens (vide página 139 abaixo – No livro original). A tradição, incidentalmente, diz que Santa Brígida foi trazida por um feiticeiro e que ela tinha o poder de multiplicar comida e bebida para alimentar os necessitados -  incluindo a deliciosa habilidade de transformar a sua água de banho em cerveja.

A confecção das Cruzes de Santa Brígida de junco ou palha (e elas ainda são amplamente confeccionadas na Irlanda, tanto em casa como para as lojas de artesanato)”é provavelmente derivada de uma antiga cerimônia pré-cristã relacionada à preparação das sementes para o cultivo na Primavera” (The Irish Times, de 1 de Fevereiro de 1977).

Na Escócia, na véspera do Dia de Santa Brigida, as mulheres da casa confeccionavam um fardo de aveia no molde de roupa de mulher e o depositavam num cesto chamado ‘cama de Brigid’, lado a lado com um bastão de forma fálica. Elas então chamariam três vezes: “Brid chegou, Brid é bemvinda!” e deixariam velas queimando próximas à ‘cama’ por toda a noite. Caso as impressões em relevo do bastão fossem encontradas nas cinzas do chão da lareira pela manhã, o ano seria frutífero e próspero. O antigo significado é claro: com o uso de símbolos apropriados, as mulheres da casa preparam um lugar para a Deusa e a recepcionam cordialmente,e convidam o Deus fertilizador para vir e a impregnar. Elas então se retirariam discretamente – e, quando a noite acabasse, retornariam para buscar por um sinal da visita do Deus (sua pegada próxima ao fogo da Deusa da Luz?).  Se o sinal ali estiver, sua invocação terá sido bem sucedida, e o ano estará grávido da esperada doação.

Na Isle of Man, um ritual similar era conduzido; lá, a ocasião era chamada Laa’l Breeshey. No Norte da Inglaterra – a antiga Brigantia, Candlemas era conhecido como ‘o Dia de Festa das Esposas’.

O ritual de recepção é ainda parte de Lá Fhéile Bríd em muitos lares irlandeses. Philomena Rooney de Wexford, cuja família vive próximo à fronteira Leitrim-Donegal, nos conta que ela ainda volta para casa para este evento sempre que ela pode. Enquando seus avós ainda estavam vivos, a família inteira se reunia em sua casa na Véspera de Santa Brígida, 31 de Janeiro. Seu tio traria uma carroça cheia de juncos da fazenda e os levaria até a porta à meia noite. O ritual é sempre o mesmo.

 

“A pessoa que traz os juncos para a casa cobre sua cabeça e bate na porta. A Bean an Tighe (mulher da casa) manda alguém abrir a porta e diz à pessoa que entra “Fáilte leat a Bhríd” (“Benvinda, Brigid”), ao que o entrante responde “Beannacht Dé ar daoine an tighe seo” (“Deus abençoe as pessoas desta casa”). A água benta é aspergida nos juncos, e todos se unem para confeccionar as cruzes. Quando as cruzes são feitas, os juncos remanescentes são enterrados, e seguindo-se à isto todos se unem em uma refeição. Em 1 de Fevereiro as cruzes do ano passado são queimadas e repostas pelas recentemente confeccionadas”.

 

Na família de Philomena, dois tipos eram confeccionados. Sua avó, que veio de North Leitrim, fazia a Cruz Celta, de braços iguais e anexada à um círculo. Seu avô, que veio de South Donegal, fazia a cruz simples de braços iguais. Ela supõe que estes eram estilos locais tradicionais (2). Era atribuída grande importância à queima das cruzes do ano anterior. “Nós temos esta coisa (no sentido de costume – N.do T.) de que você nunca deve jogá-la fora, você deve queimá-la”. Aqui novamente está o tema recorrente através do ciclo ritualístico anual: a importância mágica do fogo.

 

(2) Os padrões locais das Cruzes de Brigid realmente variam consideravelmente. A cruz ‘simples’de Philomena de fato tem os quatro braços trançados em separado com suas raízes fora do centro,  produzindo um efeito de swástika (roda de fogo). Esse é tembém o nosso tipo em County Mayo, embora também tenhamos visto padrões diamante simples e múltiplos. Um tipo de County Armagh dado à nós por um amigo tem cada uma das peças da cruz consistindo de três feixes, entrelaçando com os outros três no centro, e temos visto tipos similares dos Counties Galway, Clare e Kerry; talvez memória das ‘Três Brigids’, a Tríplice Deusa Musa original ?: (Vide A Deusa Branca, págs.101, 394 e em outras partes). Um exemplo de County Derry tem cinco faixas ao invés de três, e um de West Donegal tem uma tríplice [haste_?] vertical e uma [haste_?] simples horizontal. Tal diversidade local demonstra o quão profundamente enraizado é o costume popular. A Cruz de Brigid na forma de roda-de-fogo, com braços de três faixas, é o símbolo da Radio Telefis Éireann.

 

(3) Estes pedaços de pano provávelmente simbolizam roupas. As ciganas, em sua famosa peregrinação anual à Saintes-Maries-de-la-Mer no sul da França em 24 e 25 de Maio, deixam peças de roupa, representando os ausentes ou doentes, na cripta-capela de sua padroeira Black Sara. “O cerimonial é claramente não original. O rito de pendurar artigos de vestuário é conhecido entre os Drávidas do norte da Índia que ‘acreditam de fato que a roupa branca(?) e vestes de uma pessoa doente tornam-se impregnadas de sua doença, e que o paciente será curado se a sua roupa branca for purificada pelo contacto com uma árvore sagrada’. Consequentemente, entre eles são vistas árvores ou imagens cobertas por trapos de roupas que eles chamam Chitraiya Bhavani, ‘Nossa Senhora dos Trapos’. Existe de forma similar uma ‘Árvore para Trapos’ (sinderich ogateh) entre os Kirghiz do Mar de Aral. Pode-se provavelmente encontrar outros exemplos desta profilaxia mágica”. (Jean-Paul Clébert, Os Ciganos, pág.143). Deveras pode-se encontrar. Gostaríamos de saber, por exemplo, porque os itinerantes irlandeses parecem sempre deixar alguma peça de roupa para trás nos arbustos nas cercanias de um campo abandonado. Estas estão notóriamente em desordem, é verdade, mas muitos destes itens de vestuário não são de forma alguma lixo. Um poço mágico próximo à cidade de Wexford não era consagrado à nenhum santo ou divindade, embora ainda assim fosse muito venerado; seu arbusto cheio de roupas, registra o historiador local Nicky Furlong, “foi cortado por um clérigo normalmente bem ajustado. Aquilo finalizou o culto secreto. (Ele morreu muito repentinamente mais tarde, que Deus lhe conceda o descanso).”

 

Na Irlanda, esta terra de poços mágicos (são listados mais de três mil poços santos irlandeses), há provavelmente mais poços de Brigid do que mesmo os de São Patrício - o que é difícilmente surpreendente, porque a senhora estava aqui primeiro há incontáveis séculos. Existe um tobar Bhríd (Poço de Brigid) quase uma milha de nossa primeira casa irlandesa, próximo a Ferns em County Wexford, num campo de fazenda na vizinhança; é uma fonte muito antiga, e sabe-se que a localidade foi sagrada para Brigid por bem uns mil anos, e sem dúvida por um tempo muito longo antes daquilo. O fazendeiro (lamentavelmente, por ele ser sensível à tradição) teve que tapar o poço com uma pedra porque ele se tornou um perigo para as crianças. Mas ele nos disse que sempre havia pedaços de tecido (3) sendo vistos amarrados à arbustos próximos, postos ali secretamente por pessoas que invocavam a ajuda de Brid como eles assim tem feito por tempos imemoriais; e nós podemos, literalmente, ainda sentir o poder do lugar ao colocar nossas mãos sobre a pedra. 

(Incidentalmente, se como a maioria das witches você acredita na magia dos nomes, você deveria pronunciar Brid ou Bride como ‘Bride’e não rimar com ‘hide’ como isso foi de alguma forma asperamente anglicizado -  por exemplo no próprio tobar Bhríd de Londres, Bridewell).

Na antiga Roma, Fevereiro era tempo de purificação – Februarius mensis, ‘o mês da purificação ritual’. Em seu início vinha a Lupercalia, quando os Luperci,os sacerdotes de Pan corriam através das ruas nus exceto por uma faixa de pele de bode e portando tiras (?) de pele de bode. Com estas eles atacavam todo mundo que passava, e em particular mulheres casadas, as quais se acreditava seriam tornadas férteis deste modo. Esse ritual era popular como também aristocrático (está registrado que Marco Antônio teria desempenhado o papel de Lupercus) e sobreviveu por séculos dentro da era cristã. As mulheres desenvolveram o hábito de se despirem também, para permitir aos Luperci mais raio de ação. O Papa Gelasius I, que reinou entre 492-6 AD, baniu este ritual animadamente escandaloso e enfrentou tamanho tumulto que teve que pedir desculpas. Ele foi finalmente abolido no início do século seguinte.

Lupercalia à parte, a tradição da purificação de Fevereiro continuou forte. Doreen Valiente diz em Um ABC da Feitiçaria Passada e Presente: “As sempre-verde (tipo de planta_?) para decoração Yuletide eram compostas de holly (tipo de planta), hera, mistletoe (tipo de planta), a bay (tipo de planta) de perfume adocicado e alecrim, e galhos verdes de (box tree_?) árvore. Em Candlemas, tudo tinha que ser coletado e queimado, ou maus espíritos assombrariam a casa. Em outras palavras, naquela ocasião uma nova maré da vida tinha começado a fluir através do mundo da natureza,e as pessoas deviam se livrar do passado e olhar para o futuro. A purificação da primavera era originalmente um ritual da natureza”.  Em algumas partes da Irlanda, nós achamos, existe uma tradição de deixar a árvore de Natal no lugar (despida de sua decoração mas mantendo suas luzes) até Candlemas; caso ela mantivesse seus espinhos verdes, boa sorte e abundância são assegurados pelo ano a seguir.

Uma outra estranha crença de Candlemas está propagada pelas Ilhas Britânicas, França, Alemanha e Espanha: que um bom tempo no Dia de Candlemas significa mais Inverno a chegar, porém mau tempo naquele dia significa que o Inverno acabou. Talvez este seja um tipo de reconhecimento de ‘madeira de toque’ do fato que Candlemas é o ponto de virada natural entre o Inverno e a Primavera, e assim ser impaciente sobre isto traz má sorte.

No Ritual de Candlemas do Livro das Sombras, a Suma Sacerdotiza invoca o Deus no Sumo Sacerdote, ao invés dele invocar a Deusa nela. Talvez isso também, como a tradição escocesa da ‘cama de Brigid’, seja realmente um convite sazonal para o Deus impregnar a Mãe Terra. Nós mantivemos este procedimento e retivemos a forma da invocação.

O Livro das Sombras também menciona a Dança Volta (décimo-sexto século); mas gostaríamos de saber se o que é realmente significativo é a dança muito mais antiga das feiticeiras na qual o homem e a mulher entrelaçam os braços de costas um para o outro. Tivemos portanto utilizado esta dança mais antiga.

Na tradição cristã, a Coroa de Luzes é muitas vezes portada por uma garota bem jovem, presumivelmente para simbolizar a extrema juventude do ano. Isso é perfeitamente válido, naturalmente; mas nós, com nosso encenamento da Deusa Tríplice, preferimos designá-lo para a Mãe – porque é a Mãe Terra que é vivificada no Imbolg.

 

                                    A Preparação

 

A Suma Sacerdotiza seleciona duas witches femininas que, com ela própria, representarão a Deusa Tríplice – Donzela (Encantamento), Mãe (maturidade) e Anciã (Sabedoria) -  e designa as três funções.

Uma Coroa de Luzes é preparada para a Mãe e deixada sobre o altar ou próximo. Tradicionalmente, a Coroa deveria ser de velas ou mechas enceradas (?), que são acesas durante o ritual; mas isso exige cuidado, e muitas pessoas podem ser reservadas quanto a isso. Se uma Coroa de velas ou mechas é confeccionada, ela deve ser construída firme o suficiente para sustentá-las sem balançar e deve incluir uma capa para proteger a cabeça dos pingos de cera derretida. (Voce pode fazer maravilhas com folhas de alumínio de cozinha).

Descobrimos que velas de bolo de aniversário, que podem ser compradas em pacotes em quase todos os lugares, fazem uma Coroa de Luzes ideal. Elas não pesam práticamente nada, difícilmente pingam e queimam durante um tempo suficiente para o ritual. Uma coroa de velas de aniversário muito simples pode ser confeccionada como segue. Pegue um rolo de fita auto-adesiva com largura de aproximadamente três quartos de polegada (o tipo de fita plástica com uma cor única é adequado) e corte num comprimento de quatro ou cinco polegadas a mais do que a circunferência da cabeça da dama. Pregue-a, com a parte colante para cima, numa mesa. Fixe as partes inferiores das velas ao longo desta, com espaçamentos de aproximadamente uma e meia polegadas, mas deixando umas boas três polegadas de cada extremidade da fita em vazio. Agora corte um segundo pedaço de fita do mesmo comprimento que o primeiro, mantenha-a esticada com o lado colante para baixo, e afixe-a cuidadosamente sobre a primeira fita, moldando-a ao redor da base de cada vela. Despregue as extremidades, e agora voce terá uma faixa de velas bem caprichada que pode ser fixada ao redor da cabeça, sendo as extremidades livres unidas por um alfinete de segurança na parte de trás. A faixa de velas deve ser fixada ao redor de um protetor de cabeça feito de folha de alumínio que tenha sido anteriormente moldado para a cabeça; a folha de alumínio pode ser recortada para combinar com a parte inferior da faixa. Voce pode ver o resultado do acabamento em uso na Ilustração 5 (do livro original); naquele caso, ela foi ainda mais aperfeiçoada ao encaixar a folha de alumínio e a faixa de velas dentro de uma coroa de cobre já existente.

(Incidentalmente, aquela coroa de cobre – vista mais de perto na Ilustração 10 [do livro original] – com sua frente em lua crescente foi confeccionada para Janet pelo nosso amigo artesão em cobre Peter Clark de Tintine, The Rower, County Kilkenny. Peter fornece belos equipamentos ritualísticos em cobre ou bronze, seja do estoque ou confeccionada conforme suas requisições).

Uma forma alternativa da Coroa de Luzes, evitando o risco dos pingos de vela, seria um trabalho de pessoa especialista em aparatos mais complexos – uma coroa incorporando um número de bulbos de lâmpadas brilhantes, soldadas em suas guias (?), com pilhas pequenas escondidas sob um pedço de pano no tipo Legião Estangeira caindo sobre o pescoço; a ‘tomada liga-desliga’ sendo um clip ‘crocodilo’ pequeno, ou simplesmente duas extremidades de fio não encapadas que podem ser curvadas para fazerem contacto. Esta coroa de lâmpadas pode ser conservada de ano para ano, e decorada com folhagem fresca à cada vez. (Isso realmente exige, contudo, alguma experiência na construção, tanto referente à distribuição do peso das pilhas quanto aos componentes e fiação; muitas lâmpadas em paralelo causarão um belo efeito de luz no primeiro minuto e então vão se gastar rápidamente devido à drenagem excessiva da carga). Se voce não gostar de nenhuma destas, a terceira possibilidade é uma coroa incorporando pequenos espelhos – tantos deles quanto possível, voltados para fora a fim de captar a luz.

Um fardo de palha no comprimento de um pé à dezoito polegadas, com uma peça transversal de palha para os braços, deve ser vestida com roupas de mulher – um vestido de boneca servirá, ou simplesmente um pano pregado em volta. Se voce possui uma boneca de milho de forma adequada para vestir (uma Cruz de Brigid é o ideal), isso pode ser ainda melhor. (Vide Ilustração 6 – do livro). Esta figura é chamada de uma ‘Biddy’ – ou, caso você prefira o Gaélico, ‘Brídeóg” (pronunciado ‘breed-oge’).

Voce também necessita de uma vara fálica, que pode ser um simples bastão mais ou menos no mesmo comprimento da Biddy; embora, já que os rituais do Livro das Sombras frequentemente designam uma vara fálica como sendo distinta da vara ‘normal’do coven, valha a pena voces mesmos confeccionarem uma versão permanente. A nossa é um pedaço de galho fino com um pinho em cone afixado na ponta, e faixas preta e branca fazendo espirais em direções opostas ao  longo da haste. (Vide Ilustração 6 – do livro).

A Biddy e a vara devem estar prontas ao lado do altar, junto com duas velas apagadas dentro dos porta-velas.

Também ao lado do altar está um buquê de folhagem (tão primaveril quanto possível e incorporando flores da primavera se voce poder obtê-las) para a mulher que representa a Donzela; e uma echarpe ou manto de cor escura para a Anciã.

A vassoura (o tradicional besom -?-, vassoura feita com o cabo e vários ramos pequenos) também está ao lado do altar.

O caldeirão, com uma vela queimando dentro dele, é posicionada ao lado da vela do Sul. Próximo ao caldeirão são colocadas três ou quatro ramos de vegetação sempre verde ou seca como holly, hera, mistletoe, bay, alecrim ou box (?).

Se, como nós, voce segue a tradição de manter a Árvore de Natal (sem suas decorações, mas com suas luzes) na casa até Candlemas, ela deveria, se possível, estar no recinto onde o Círculo é realizado, com todas as suas luzes acesas.

 

                                                           O Ritual

O Ritual de Abertura é mais curto para o Imbolg. O Sumo Sacerdote não Invoca a Lua sobre a Suma Sacerdotiza, nem ele faz a invocação “Grande Deus Cernunnos”; e a Investidura não é declamada até mais tarde.

Após a Runa das Feiticeiras, todos os parceiros operativos (incluindo a Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote) dançam um de costas para o outro em pares, com seus braços entrelaçados nos cotovelos um do outro. Witches sem companhia dançam à sós, embora dali a pouco os parceiros se soltam e recombinam com aqueles que estão solitários, de forma que todos possam participar.

Quando a Suma Sacerdotiza decide que a dança já durou o suficiente, ela a suspende, e o coven se organiza ao redor do Círculo olhando para dentro. O Sumo Sacerdote fica em pé de costas para o altar,e a Suma Sacerdotiza fica de frente para ele.

O Sumo Sacerdote aplica à Suma Sacerdotiza o Beijo Quíntuplo; ela então por sua vez aplica-lhe o Beijo Quíntuplo. O Sumo Sacerdote toma a vara em sua mão direita e o chicote em sua esquerda, e assume a Postura de Osíris (vide página 40 – do livro original).

A Suma Sacerdotiza, olhando para o Sumo Sacerdote enquanto ele permanece perante o altar, invoca (4):

                                   “Terrível Senhor da Morte e Ressurreição,

                                    Da Vida, e o Doador da Vida;

                                    Senhor dentro de nós mesmos, cujo nome é Mistério de Mistérios,

                                    Encorajai nossos corações,

                                    Deixai tua Luz se cristalizar em nosso sangue,

                                    Realizando em nós ( ? ) ressurreição;

                                    Pois não existe parte de nós que não seja dos Deuses.

                                    Descei, nós a ti oramos, sobre teu servidor e sacerdote.”

 

(4) As linhas 3 – 5 desta invocação são da Missa Gnóstica de Crowley

 

O Sumo Sacerdote traça o Pentagrama de Invocação da Terra no ar, na direção da Suma Sacerdotiza, e diz:

                                   “Bendito(a) seja.”

 

O Sumo Sacerdote dá um passo para o lado, enquanto a Suma Sacerdotiza e as mulheres do coven preparam a ‘cama de Brigid’. Elas colocam a Biddy e a vara fálica lado a lado no centro do Círculo, com as cabeças na direção do altar. Elas colocam as velas em um e outro lado da ‘cama’ e acendem as velas. (Vide Ilustração 6 – do livro). 

A Suma Sacerdotiza e as mulheres ficam de pé ao redor da  ‘cama’ e dizem juntas:

“Brid chegou – Brid é bemvinda!”  (Repetido três vezes).

O Sumo Sacerdote deposita sua vara e seu chicote sobre o altar. A Suma Sacerdotiza reune as duas mulheres selecionadas; ela e as outras duas assumem agora seus papéis de Deusa Tríplice. (Vide Ilutração 5 – do livro). A Mãe fica em pé de costas para o centro do altar, e o Sumo Sacerdote a coroa com a Coroa de Luzes; a Donzela e a Anciã arrumam o cabelo dela de modo vistoso, e o Sumo Sacerdote acende as velas sobre a Coroa (ou acende as lâmpadas).

A Anciã fica de pé agora ao lado da Mãe, à sua esquerda, e o Sumo Sacerdote e a Donzela cobrem com o xale ou manto os ombros dela.

A Donzela fica de pé agora ao lado da Mãe, à sua direita, e o Sumo Sacerdote coloca o buquê em suas mãos.

O Sumo Sacerdote vai para o Sul, onde fica olhando para as três mulheres. Ele declama :

 

            “Contemplai a Deusa das Três Formas;

             Ela que é sempre Três – Donzela, Mãe e Anciã;

             Ainda assim ela é sempre Uma.

             Pois sem a Primavera não pode haver nenhum Verão,

             Sem Verão, nenhum Inverno,

             Sem Inverno, nenhuma nova Primavera”.

 

O Sumo Sacerdote então pronuncia a Investidura de forma integral, desde “Ouvi as palavras da Grande Mãe” diretamente até “aquilo que é obtido ao fim do desejo” – porém substituindo “ela, dela” por “eu, mim, meu”.

Quando ele tiver terminado, a Donzela pega a vassoura e abre seu caminho devager em deosil ao redor do Círculo, varrendo de forma ritual para limpar de tudo o que está velho e desgastado. A Mãe e a Anciã caminham atrás dela em imponente procissão. A Donzela então repõe a vassoura ao lado do altar, e as três mulheres retomam seus lugares em frente ao altar.

O Sumo Sacerdote então vira esse ajoelha perante o caldeirão. Ele pega cada um dos ramos de sempre verde (?) por vez, põe fogo em cada um com a vela do caldeirão, assopra o ramo para apagar e o coloca dentro do caldeirão ao lado da vela. (Esta queima simbólica é tudo o que se pode recomendar para dentro de um recindo pequeno, devido à fumaça; ao ar livre, ou em um recinto de grandes dimensões, eles podem ser queimados completamente).

Assim que vai fazendo isso, ele declama:

 

            “Assim nós banimos o inverno,

             Assim nós damos boas vindas à primavera;

             Diga adeus para o que está morto,

             E saúde cada coisa viva.

             Assim nós banimos o inverno,

             Assim nós damos boas vindas à primavera!”

 

O Sumo Sacerdote vai até a Mãe, sopra as velas ou desliga as lâmpadas da Coroa de Luzes e a remove da cabeça da Mãe.  Com este sinal, a Donzela deixa seu buquê, e a Anciã deixa seu xale ou manta, ao lado do altar, e o Sumo Sacerdote também deixa ali a Coroa de Luzes.  

O Sumo Sacerdote caminha para o lado,  e as três mulheres pegam a Biddy, a vara fálica e as velas (as quais elas apagam) do centro do Círculo e as depositam ao lado do altar.

O Grande Rito é agora encenado.

Após os Bolos e o Vinho, um jogo adequado para o Imbolg é o Jogo da Vela. Os homens sentam em formação de anel olhando para dentro, próximos o suficiente para alcançar um ao outro, e as mulheres ficam de pé atrás deles. Os homens passam uma vela acesa no sentido deosil de mão em mão, enquanto as mulheres (sem pisar para dentro do círculo de homens) curvam-se para frente e tentam apagá-la. Quando uma mulher consegue fazer isso, ela dá três batidinhas com o chicote no homem que estava segurando a vela naquele instante, e ele aplica nela o Beijo Quíntulo em resposta. A vela é então novamente acesa e o jogo continua.

Se o costume de manter a Árvore de Natal até Candlemas tiver sido observado, a Árvore deverá ser retirada da casa e descartada tão rápido quanto possível após o ritual.

 

V   Equinócio da Primavera, 21 de Março

 

“O Sol”, como declara Robert Graves, “se arma no Equinócio da Primavera”. Luz e sombra estão em equilíbrio, mas a luz está dominando a escuridão. Este é basicamente um festival solar, recém-chegado na Antiga Religião na Europa Celta e Teutônica. Embora a influência Teutônica – os “invasores solsticiais” de Margaret Murray – tenha adicionado Yule e o Meio de Verão aos Quatro Grandes Sabás dos Celtas pastoris, a nova síntese ainda abraçava apenas seis Festivais. “Os Equinócios”, diz Murray, “nunca foram observados na Bretanha” (exceto, como sabemos agora, pelos povos Megalíticos pré-Celticos – vide página 14 – do original).

Ainda que os Equinócios estejam agora inquestionavelmente conosco; pagãos modernos, quase universalmente, celebram os oito Festivais, e ninguém sugere que os dois Equinócios são uma inovação imaginada por Gerald Gardner ou pelos românticos da Renovação Druida. Eles são uma parte genuína da tradição pagã tal como esta existe hoje, mesmo se suas sementes foram sopradas a partir do Mediterrâneo e germinaram no solo dos séculos ocultos, juntamente com muitos outros elementos frutíferos. (Aos puristas Wicca que rejeitam qualquer coisa que se origine da Grécia ou Roma clássicas, do Antigo Egito, da Qaballah Hebraica ou da Aradia Tuscan (Toscana - ?), seria melhor que parassem de celebrar os Equinócios também). A importação de tais conceitos é sempre um processo complexo. A compreensão popular sobre o Equinócio da Primavera nas Ilhas Britânicas, por exemplo, deve ter sido importada principalmente com a Páscoa Cristã. Porém a Páscoa trouxe em sua bagagem, por assim dizer, as sugestões pagãs do Mediterrâneo sobre o Equinócio da Primavera.

A dificuldade que enfrentam as Witches em decidir simplesmente como celebrar o Sabá do Equinócio da Primavera não é a de que  as associações ‘estrangeiras’ são de fato estranhas às associações nativas mas que elas se  sobrepõe com estas, expressando temas que tem há muito tempo se agregado aos Sabás nativos mais antigos. Por exemplo, o tema do casamento sacrificial nas terras do Mediterrâneo tem fortes ligações com o Equinócio da Primavera. O austero ritual da deusa frígia Cybele, no qual a auto-castração, morte e ressurreição de seu filho/amante Attis era marcado por adoradores castrando-se a si mesmos para se tornarem seus sacerdotes, era de 22 a 25 de Março. Em Roma esses ritos aconteciam no ponto onde agora se ergue [a Basílica de] São Pedro na Cidade do Vaticano. De fato, em locais onde o culto de Attis era difundido, os cristãos locais costumavam celebrar a morte e ressurreição de Cristo na mesma data; e pagãos e cristãos costumavam brigar cruelmente devido a qual dos seus deuses era o verdadeiro protótipo e qual era a imitação. Na pura cronologia, não deveria ter havido disputa, porque Attis veio da Frígia muitos séculos antes de Cristo; mas os cristãos tinham o argumento irreplicável de que o Demônio astutamente forjou falsificações à frente da verdadeira Vinda de forma à iludir a humanidade.

A Páscoa – a morte aceita por Jesus, sua descida ao Inferno e ressurreição – pode ser vista como a versão cristã do tema do casamento sacrificial, pois ‘Inferno’ é nesse sentido a visão do monoteísmo patriarcal sobre o inconsciente coletivo, o aspecto feminido odiado, a Deusa, no qual o Deus sacrificado é mergulhado como o prelúdio necessário ao renascimento. A “Angústia do Inferno” [vivida por] Cristo, como descrita no Evangelho apócrifo de Nicodemo, envolvia  o seu resgate das almas dos justos da senda (?) de Adão “que adormeceram desde o início do mundo” e a ascensão dos mesmos para o Céu. Despido do dogma teológico, isto pode ter um significado positivo – a reintegração dos tesouros enterrados do inconsciente (‘a dádiva da Deusa’) com a luz da consciência analítica (‘a dádiva do Deus’).

A primavera, também, era uma estação especial em tempos clássicos e pré-clássicos para uma forma do casamento sacrificial que era também mais gentil e mais positivo do que o culto de Attis – o Hieros Gamos, ou casamento sagrado. Neste, a mulher identificava a si mesma com a Deusa, e o homem mergulhava na Deusa através dela, doando da sua  masculinidade mas não a destruindo, e emergindo da experiência espiritualmente revitalizado. O Grande Rito, seja simbólico ou real, é obviamente o hieros gamos das witches; e então, como agora, ele chocou muitas pessoas que não o compreenderam (1). Para um profundo comentário Junguiano sobre o hieros gamos, vide a obra Mistérios da Mulher de M. Esther Harding).

Mas no Norte, onde a Primavera chega mais tarde, estes aspectos realmente pertenciam ao Bealtaine ao invés de ao Equinócio não observado; e é em Bealtaine, como veremos, que posicionamos nosso ritual correspondente ‘Caça  ao Amor’(?). Talvez seja significativo que a Páscoa (devido ao método lunar complexo de datá-lo) reflita esta sobreposição ao cair em qualquer [dia] começando logo após o Equinócio até um pouco antes de Bealtaine. A Páscoa [Easter], pelo jeito, tomou este nome da deusa Teutônica Eostre, cujo nome é provavelmente ainda uma outra variante de Ishtar, Astarte e Aset (o nome egípcio correto ‘Isis’ sendo a forma grega). Os ritos de primavera de Eostre trazem uma aparência familiar àqueles da Ishtar babilônica. Outra peça de ‘bagagem’ pagã !

 

(1) Os oponentes mais selvagens do hieros gamos e tudo o que ele defendia eram naturalmente os profetas hebreus. Suas críticas contra “prostituição” e “meretrício seguindo a deuses estranhos”, com o que abunda o Antigo Testamento, eram políticas, e não éticas. O culto à Deusa que os rodeava, e ao qual as famílias hebraicas comuns ainda se apegavam por séculos juntamente com o culto oficial de Yahweh, era uma ameaça direta ao sistema patriarcal que eles estavam tentando impor. Pois à menos que cada mulher fosse uma propriedade exclusiva de seu marido, e virgem no casamento, como se poderia ter certeza da paternidade ? E a paternidade inquestionável era a pedra fundamental de todo o sistema. Dessa forma eis a pena de morte bíblica por adultério, para noivas descobertas como não-virgens e até mesmo para as vítimas de estupro (à menos que elas não fossem nem casadas nem noivas, em cujo caso elas tinham que se casar com o estuprador); a crueldade com que os hebreus, “segundo a palavra do Senhor”, massacraram a população inteira das cidades conquistadas de Canaã, homens, mulheres e crianças (exceto para algumas virgens atraentes, as quais “a palavra do Senhor” os permitiam raptar como esposas); e mesmo a reescritura Levítica do mito da Criação para dar sanção divina à superioridade masculina (é interessante que a Serpente e a Árvore eram ambas símbolos da Deusa universalmente reconhecidos). Desta antiga batalha política, o Cristianismo (excedendo até mesmo o Judaísmo e o Islã) herdou o ódio pelo sexo, o ascetismo deformado e o desprezo por mulheres que o tem molestado [desde_ ?] os caminhos de São Paulo e que ainda está longe do seu fim. (Vide novamente os Papéis do Paraíso de Merlin Stone). 

 

Mas se no aspecto de fertilidade humana o Equinócio de Primavera deve se curvar perante Bealtaine, ele pode apropriadamente reter o aspecto de fertilidade de vegetação, mesmo se no Norte ele marque um estágio diferente deste. Ao redor do Mediterrâneo, o Equinócio é o tempo de germinação; no Norte, é tempo de semear. Como um festivel solar, também, ele deve partilhar com os Sabás Maiores o eterno tema de fogo e luz, que tem sobrevivido fortemente no folclore da Páscoa. Em muitas partes da Europa, em particular a Alemanha, as fogueiras da Páscoa são acesas com o fogo obtido pelo sacerdote, em locais tradicionais no topo da colina muitas vezes conhecidos localmente como ‘Montanha da Páscoa”. (Restos de costumes mais antigos em maior escala –vide sob Bealtaine, pág.82 – do original). Tão distante quanto a luz iluminar, acredita-se que a terra será frutífera e os lares seguros. E, como sempre, as pessoas saltam por sobre as brasas que estão apagando, e o gado é conduzido sobre elas.

O Livro das Sombras diz que para este festival, “o símbolo da Roda deve ser colocado sobre o Altar, ladeado com velas queimando, ou fogo de alguma forma”. Então, assumindo que este seja um dos elementos tradicionais genuínos que foram dados à Gardner, podemos apreender que as witches Britânicas, ao absorver os Equinócios ‘não-nativos’ em seu calendário, usaram o símbolo da roda de fogo que também se apresenta em muitos costumes folclóricos de meio de verão através da Europa.

Uma pista de que a roda de fogo solar é uma genuína tradição equinocial, e não meramente uma escolha para ‘preencher vazio’ [da parte] de Gardner, pode ser encontrada no costume de carregar trevos no Dia de São Patrício – que cai em 17 de Março. Segundo a explicação costumeira, o trevo tornou-se o emblema nacional da Irlanda porque São Patrício uma vez usou seu formato de três folhas para ilustrar a doutrina da Trindade. Mas o Oxford English Dictionary diz que esta tradição é ‘tardio’; e de fato a primeira referência impressa à esta se deu em uma obra de botânica do século dezoito. E o Dicionário Inglês-Irlandês de Dinneen, definindo seamróg, diz que seu uso como um emblema nacional na Irlanda (e, incidentalmente, em Hanover, na pátria dos “invasores solsticiais”) é provavelmente “uma sobrevivência do trignetra, um símbolo da roda ou sol cristianizada”, e adiciona que a variedade de quatro folhas “é acreditada como trazendo sorte, relacionada à um antigo símbolo apotropaico (?) inserido em um círculo (símbolo do sol ou da roda)”.

O trevo do Dia de São Patrício se tornou padronizado como o trevo amarelo menor (Trifolium dubius ou minus), mas nos dias de Shakespeare ‘trevo’ (‘shamrock’) significava madeira marrom amarelada, Oxalis acetosella; e Dinneen define seamróg como “um trevo, trefoil, clover, um feixe de grama verde”. A obra Complete Herbal de Culpeper diz que “todas as madeiras marrom amareladas (Sorrel) estão sob o domínio de Venus”.  Assim as folhas tríplices verde primavera na abotoadura da lapela do irlandês no equinócio nos remete de volta não apenas ao Deus Sol mas também, através da moderna tela da Trindade, à Deusa Tríplice. (Artemis, a Deusa Grega Tríplice da Lua, alimentou suas gazelas (?) com trevos).

E com relação à afortunada variedade de quatro folhas -  qualquer psicólogo Junguiano (e os Senhores das Torres de Vigia !) lhe dirão que o círculo dividido em quatro é um símbolo arquetípico de totalidade e equilíbrio. A roda de fogo solar, a cruz Celta, o trevo de quatro folhas, o Círculo Mágico com suas quatro velas cardinais, o hieróglifo egípcio niewt significando ‘cidade’, o pãozinho de Páscoa hot-cross (???), a basílica Bizantina – todos conduzem a mesma mensagem além do tempo, muito mais antiga do que o cristianismo.

O ovo de Páscoa é, também, pré-cristão. Ele é o Ovo do Mundo, disposto pela Deusa e aberto pelo calor do Deus Sol; “e o chocar do mundo era celebrado a cada ano no Festival do Sol na Primavera” (Graves, A Deusa Branca,  págs. 248-9).  Originalmente, ele era um ovo de serpente; o caduceu de Hermes retrata as serpentes acasaladas, Deusa e Deus, que o produziram. Mas sob a influência dos mistérios Órficos, como Graves salienta, “uma vez que o galo era a ave Órfica da ressurreição, sagrada ao filho de Apolo, Esculápio o curador, os ovos de galinha tomaram o lugar dos ovos de serpente nos mistérios Druídicos posteriores e eram pintados de escarlate em honra ao Sol; e se tornaram ovos de Páscoa”. (Ovos decorados cozidos em uma infusão de flores eram rolados pelas encostas de morros na Irlanda no Domingo de Páscoa).

Stewart escreveu em O Que Fazem as Bruxas: “O Equinócio de Primavera é óbviamente uma ocasião para decorar o quarto com narcisos silvestres e outras flores de primavera,e também para honrar uma das mulheres mais jovens nomeando-a como a Rainha da Primavera do coven e mandá-la de volta para casa mais tarde com uma braçada de flores”. Nós nos mantivemos com este pequeno costume agradável.

                                                            A Preparação

 

Um símbolo da roda é colocado no altar; pode ser qualquer coisa que se considere adequada – um disco recortado pintado de amarelo ou dourado e decorado com flores de primavera, um espelho circular, uma bandeja redonda de latão ou bronze; a nossa é um prato de bateria de 14 polegadas, muito bem polido e com um buquê de narciso silvestre ou prímula em seu orifício central.

A túnica do Sumo Sacerdote (se houver) e acessórios devem apresentar o simbolismo do Sol; qualquer metal que ele porte deve ser de ouro, dourado, latão ou bronze.

O altar e o ambiente devem ser decorados com flores de primavera – particularmente aquelas amarelas como o narciso silvestre, prímula, gorse ou forsítia (?) (ambas plantas com flores amarelas). Um buquê deverá estar pronto para ser entregue à Rainha da Primavera e uma coroa de flores para sua coroação.

O caldeirão é colocado no centro do Círculo,com uma vela apagada dentro dele. Uma vela pequena está pronta no altar para a Donzela transportar o fogo para o Sumo Sacerdote.

Uma vara fálica está pronta sobre o altar.

Uma quantidade de cordas, sendo a metade do número de pessoas presentes, está preparada sobre o altar, amarradas juntas em seu ponto central em um único nó. (Caso haja um número ímpar de pessoas, adicione uma antes de dividir por dois; por exemplo, para nove pessoas pegue cinco cordas).

Se voces gostarem, podem levar um prato com ovos cozidos, com as cascas pintadas (tudo em escarlate, ou decorados como quiserem), sobre o altar – um para cada pessoa e mais um para o sidhe ou oferenda à terra. Estes poderão ser distribuidos durante a festa.

 

                                                           O Ritual

 

O Ritual de Abertura procede como de costume, porém sem a Runa das Feiticeiras.

O Sumo Sacerdote fica em pé ao Leste, e a Suma Sacerdotiza no Oeste, um olhando para o outro tendo ao meio o caldeirão. A Suma Sacerdotiza porta a vara fálica em sua mão direita. O resto do coven se distribui ao redor do perímetro do Círculo.

A Suma Sacerdotiza diz :

 

                        “Nós acendemos este fogo hoje

                         Na presença dos Sagrados,

                         Sem malícia, sem ciúmes, sem inveja,

                         Sem temor de nada sob o Sol

                         Exceto os Altos Deuses.

                         A Ti invocamos, Oh Luz da Vida,

                         Sejais Tu uma chama brilhante perante nós,

                         Sejais Tu uma estrela guia acima de nós,

                         Sejais Tu um suave caminho sob nós,

                         Acendei  em nossos corações

                         Uma chama de amor pelos nossos vizinhos,

                         Aos nossos inimigos,  aos nossos amigos, à todos os nossos parentes,

                         À todos os homens por toda a terra.

                         Oh piedoso Filho de Cerridwen,

                         Desde a criatura mais humilde que existe

                         Até o Nome que é o maior de todos”.

 

(2) Adaptado por Doreen Valiente de duas bênçãos escocesas gaélicas na obra Carmina Gadelica de Alexander Carmichael (vide Bibliografia – no original). Carmichael, que viveu de 1832 a 1912, reuniu e traduziu uma rica coletânea de orações e bênçãos gaélicas, comunicadas de boca em boca nas Highlands e Ilhas da Escócia. Como Doreen diz, “Esta bela poesia antiga é realmente puro paganismo com uma fina camada cristã”. A Carmina Gaelica de seis volumes, embora um tesouro para possuir, é cara; felizmente uma seleção das traduções em Inglês foi publicada como um recente livro de bolso, O Sol Dança (vide Bibliografia). As duas fontes que Doreen usou aqui serão encontradas nas páginas 231 e 49 do volume I de Carmina Gadelica, e nas páginas 3 e 11 de O Sol Dança; Carmichael as obteve de esposas de praticantes (?) em North Uist e Lochaber, respectivamente.

 

A Suma Sacerdotiza segura o vara fálica no alto e caminha vagarosamente deosil ao redor do caldeirão para ficar de frente ao Sumo Sacerdote. Ela diz:

   “Oh Sol, estejais Tu armado para conquisar a Escuridão!”

A Suma Sacerdotiza entrega a vara fálica ao Sumo Sacerdote e então caminha para um dos lados.

O Sumo Sacerdote segura no alto a vara fálica em saudação e a repõe sobre o altar.

A Donzela acende a vela pequena em uma das velas do altar e a entrega ao Sumo Sacerdote. A Donzela então vai para um dos lados.

O Sumo Sacerdote carrega a vela pequena até o caldeirão e acende a vela do caldeirão com esta. Ele devolve a vela pequena para a Donzela, que a apaga com um sopro e a recoloca sobre o altar, pegando por sua vez as cordas.

A Donzela entrega as cordas ao Sumo Sacerdote.

A Suma Sacerdotiza organiza a todos ao redor do caldeirão, homem de frente para mulher tanto quanto for possível. O Sumo Sacerdote distribui as pontas das cordas conforme as instruções dela, retendo uma extremidade da última corda para si e entregando a outra extremidade desta para a Suma Sacerdotiza. (Caso haja um número ímpar de pessoas, com mais mulheres do que homens, ele mesmo segura duas extremidades de corda ou, com mais homens que mulheres, entrega duas extremidades de corda para a Suma Sacerdotiza; em qualquer caso, ele deve estar ligado à duas mulheres ou ela à dois homens).

Quando todos estiverem segurando uma corda, todos puxam as cordas bem esticadas, com o nó central sobre o caldeirão. Eles então começam a circular deosil na Dança da Roda, para a Runa das Feiticeiras, aumentando a velocidade, sempre mantendo as cordas esticadas e o nó sobre o caldeirão.

A Dança da Roda continua até que a Suma Sacerdotiza grite “Abaixem!” , e todo o coven senta em circulo ao redor do caldeirão. O Sumo Sacerdote recolhe as cordas (sendo cauteloso para não deixa-las cair sobre a chama da vela) e as recoloca sobre o altar.

O caldeirão é então movido para o lado da vela do Leste, e o Grande Rito é encenado.

Após o Grande Rito, o Sumo Sacerdote nomeia uma witch feminina como a Rainha da Primavera e a faz ficar de pé em frente ao altar. Ele a coroa com a coroa de flores e lhe aplica o Beijo Quíntuplo.

O Sumo Sacerdote então convoca a cada homem por sua vez para aplicar na Rainha da Primavera o Beijo Quíntuplo. Quando o último homem o tiver realizado, o Sumo Sacerdote oferece à Rainha da Primavera o seu buquê.

O caldeirão é recolocado no centro do Círculo e, iniciando com a Rainha da Primavera, todos pulam o caldeirão, à sós ou em casais – não se esquecendo de fazer um pedido.

Terminados os saltos sobre o caldeirão, a festa começa.

 

              VI   Bealtaine, 30 de Abril

 

Na tradição celta, os dois maiores festivais de todos são Bealtaine e Samhain – o início do Verão e o começo do Inverno. Para os celtas, como também para todos os povos de cultura pecuária, o ano tem duas estações, não quatro; divisões mais sutis eram mais de interesse de cultivadores agrícolas do que criadores de gado. Beltane, a forma anglicizada, corresponde à palavra Bealtaine (pronunciada ‘b’yol-tinnuh’, rimando aproximadamente com ‘winner’) do irlandês-gaélico moderno, o nome do mês de Maio, e à palavra Bealtuinn (pronunciada ‘b’yal-temn’, com o ‘n’ como ‘ni’ em ‘onion’) do escocês-gaélico, significando Dia de Maio.

O significado original é ‘Bel-fire’- o fogo do deus celta ou proto-celta variadamente conhecido como Bel, Beli, Balar, Balor ou o Belenus latinizado – nomes que podem ser retrocedidos até o Baal do Oriente Médio, que simplesmente significa ‘Senhor’ (1). Alguma pessoas sugeriram que Bel é o equivalente britânico-celta do Cernunnos gaulês-celta; isso pode ser verdadeiro no sentido em que ambos são divindades arquetípicas do princípio masculino, esposos da Grande Mãe, mas nós sentimos que a evidência  aponta para eles sendo diferentes aspectos daquele princípio. Cernunnos é sempre representado como o Deus de Chifres; ele é acima de tudo uma divindade da natureza, o deus dos animais,o Pan celta.  (Herne o Caçador, que assombra o Grande Parque Windsor com sua Caçada Selvagem, é um Cernunnos inglês mais recente, como seu nome sugeste). Ele é também algumas vezes visto como uma divindade ctônica (do submundo),o Plutão celta. Originalmente, o Deus de Chifres era sem dúvida o totem animal tribal, cuja união com a Grande Mãe teria sido o principal ritual de fertilidade do período totêmico. (Vide a obra de Lethbridge Feiticeiras; Investigando uma Religião Antiga, págs. 25-27).

 

(1) De interesse familiar para nós: o nome de solteira de Janet era Owen,e a tradição da família owen afirma descender dos senhores de Canaã de Shechem, que por si mesmos afirmavam serem da semente de Baal.

 

Bel, por outro lado, era ‘O Brilhante’, deus de luz e fogo. Ele possuía qualidades como o Sol (escritores clássicos o igualavam à Apolo) mas ele não era, estritamente falando, um Deus-Sol; como temos destacado, os Celtas não eram orientados pelo Sol. Nenhum povo que cultuasse o Sol como um deus o daria um nome feminino – e grian (gaélico irlandês e escocês para ‘Sol’) é um nome feminino. Assim existe Mór, um nome irlandês personalizado para o Sol, como na saudação “Mór dhuit’ – ‘Que o Sol te abençôe’. Pode parecer uma diferença sutil, mas um símbolo de deus  não é sempre considerado como a mesma coisa que o próprio deus por seus adoradores. Os cristãos não adoram um cordeiro ou uma pomba, nem os antigos egípcios adoravam um babuíno ou um falcão; embora os dois primeiros sejam símbolos de Cristo e do Espírito Santo, e os outros dois de Thot e Horus. Para alguns povos, o Sol era um deus, mas não para os Celtas com seu Sol feminino, muito embora Bel/Balor, Oghma, Lugh, e Llew possuíssem atributos solares. Uma oração popular tradicional gaélico-escocesa (vide Miscelânea Céltica, de Kenneth Jackson, item 34) se refere ao Sol como “mãe feliz das estrelas”, se erguendo “como uma jovem rainha em flor”. (Para maior evidência de que o calendário ritual dos Celtas pagãos era orientado para o ano da vegetação natural e da criação de gado, e não para o ano solar e a agricultura, vide o Ramo Dourado de Frazer, págs. 828-830).

Simbólicamente, ambos os aspectos de Cernunnos e o de Bel podem ser vistos como modos de visualizar o Grade Pai que impregna a Grande Mãe (2). E estes são os dois temas que dominam o festival May Eve/May Day através do folclore celta e britânico: fertilidade e fogo.

 

(2) Sempre existe sobreposição. O gigante Cerne Abbas recortado na relva Dorset é uma figura de Baal, como mostrado por seu bastão e falo Hercúleos, e seu nome local, Helith, é claramente o Grego helios (Sol); ainda assim ‘Cerne’ é claramente igual a Cernunnos. E o Baal Hammon de Carthage era também um Baal ou Bel verdadeiro (sua consorte Grande Mãe  tinha o nome de Tanit – compare à Dana irlandesa e à Don, de Gales); ainda assim ele possuia chifres.

 

Os fogos de Bel eram acesos nos topos das colinas para celebrar o retorno da vida e da fertilidade ao mundo. Nas Highlands escocêsas até recentemente no século dezoito, Robert Graves nos conta (A Deusa Branca, pág.416), o fogo era aceso ao se prefurar uma tábua de carvalho, “mas apenas no acendimento do fogo (need-fire_?) de Beltane,  ao qual era atribuída virtude miraculosa . . . Este originalmente culminava no sacrifício de um homem representando o deus-Carvalho”. (É interessante que em Roma as Virgens Vestais, guardiãs do fogo sagrado, costumavam atirar manequins feitos de juncos dentro do Rio Tiber na lua cheia de Maio como sacrifícios humanos simbólicos).

Na Irlanda pagã ninguém podia acender um fogo de Bealtaine até que o Ard Ri, o Alto Rei, tivesse acendido o primeiro na Colina Tara (Tara Hill). Em 433 AD, São Patrício demonstrou uma perspicaz compreensão do simbolismo quando ele acendeu um fogo na Colina Slane, a dez milhas de Tara, antes que o Alto Rei Laoghaire acendesse a sua; ele não poderia ter feito uma declaração mais dramática da usurpação da liderança espiritual sobre toda a ilha. São David fez um gesto histórico similar em Gales no século seguinte.

Incidentalmente, muito do simbolismo de Tara como o foco espiritual da antiga Irlanda é imediatamente reconhecível por qualquer um que tenha operado em um Círculo Mágico. Tara é Meath (Midhe, ‘centro’) e era o assento dos Altos Reis; seu plano de terreno é ainda visível como  grandes aterros gêmeos circulares. O Salão de Banquete ritual de Tara tinha um vestíbulo central para o próprio Alto Rei, circundado por quatro vestíbulos com a frente voltada para dentro que eram distribuídos entre os quatro reinos provinciais; ao Norte para Ulster, ao Leste para Leinster, ao Sul para Munster, e ao Oeste para Connacht. Eis o porque as quatro províncias são tradicionalmente conhecidas como ‘quintos’, devido ao Centro vital que as completa, como o Espírito completa e integra a Terra, o Ar, o Fogo e a Água. Mesmo as ferramentas elementais do ritual estão representadas, nos Quatro Tesouros da Tuatha Dé Danann: a Pedra do Fál (Destino) que gritou alto  quando o legítimo Alto Rei sentou nela, a Espada e Lança de Lugh, e o Caldeirão do Dagda (o Deus Pai).

Todos os quatro eram símbolos masculinos, como se poderia esperar numa sociedade guerreira; mas as fundações matrilineares arquetípicas ainda brilharam na inauguração de um rei menor, regente de uma tuath ou tribo. Este era “um casamento simbólico com a Soberania, um rito de fertilidade para o qual o termo técnico era banais rígi ‘casamento real’ “. O mesmo costumava ser verdadeiro com os Altos Reis: “A legendária Rainha Medb, cujo nome significa ‘intoxicação’, era originariamente uma personificação de soberania, pois nos foi dito que ela foi a esposa de nove reis da Irlanda, e em qualquer outro lugar, que sómente aquele que tivesse se casado com ela poderia ser rei. Sobre o Rei Cormac foi dito . . . ‘até que Medb tivesse dormido com o rapaz, Cormac não foi rei da Irlanda’”. (Dillon e Chadwick, em Os Reinos Celtas, pág.125).

É fácil perceber, então, porque Tara teria que ser o ponto de ignição para o fogo de Bel regenerativo para a comunidade; e o mesmo teria sido verdadeiro com relação aos focos espirituais correspondentes em outras terras. A Irlanda meramente veio a surgir como o país onde os detalhes da tradição tem sido mais claramente preservados.

(Sobre o total simbolismo complexo de Tara, a obra de Reese Herança Celta apresenta uma leitura fascinante para feiticeiras e ocultistas).

Uma característica do festival do fogo de Bealtaine em muitas terras era pular a fogueira. (Nós dizemos ‘era’, mas ao discutir costumes populares sazonais o tempo passado (do verbo) difícilmente prova ser inteiramente justificado). Jovens pularam fogueira para trazer para si maridos ou esposas; proporcionando aos viajantes a garantia de uma viagem segura; mulheres grávidas a assegurar um parto confortável, e assim por diante. O gado era conduzido por cima de suas cinzas – ou através de duas fogueiras destas – para assegurar uma boa produção de leite. As propriedades mágicas do festival do fogo formam uma crença persistente, como nós também veremos sob os do Meio de Verão,  Samhain e Yule. (Ambos os gaélicos escocês e irlandês, incidentalmente, tem um dizer, ‘apanhado entre dois fogos de Bealtaine’, o que significa ‘apanhado em um dilema’).

Falando sobre gado – o dia seguinte, 1o de Maio, era um dia importante na antiga Irlanda. Naquele dia as mulheres, crianças e boiadeiros levavam o gado para os pastos de verão, ou ‘booleys’(buaile ou buailte), até Samhain. A mesma coisa ainda acontece, nas mesmas datas, nos Alpes e outras partes da Europa. Outra palavra gaélico irlandesa (e escocêsa) para pasto de verão é áiridh;e Doreen Valiente sugere (Feitiçaria para o Amanhã, pág.164) que “há apenas uma possibilidade de que o nome ‘Aradia’ é celta em origem”, conectado à esta palavra. Na feitiçaria do norte da Itália que, como Leland (vide Bibliografia – no original) mostrou,  deriva de raízes etruscas, Aradia é a filha de Diana (ou, como os próprios etruscos a chamam, Aritimi, uma variante do grego Artemis). Os etruscos floresceram na Tuscany (Toscana_?) aproximadamente do oitavo ao quarto século antes de Cristo, até os romanos conquistarem a última de suas cidades-estados, Volsinii, em 280 AC. Do quinto século em diante,  eles tiveram muito contacto com os celtas gauleses, algumas vezes como inimigos, algumas vezes como aliados; assim pode muito bem ser que os celtas trouxeram Aradia para lá. ‘Filha’, no desenvolvimento dos panteões, muitas vezes significa ‘versão posterior’ – e na lenda de Aradia, Aradia aprendeu muito de sua sabedoria através de sua mãe, o que corresponderia com o fato indubitável que a brilhante civilização etrusca era admirada e invejada pelos seus vizinhos celtas.  É interessante que, em ambos escocês e irlandes, áiridh ou uma leve variante desta também significa ‘valor, mérito’.

E no caso em que qualquer um pense que Aradia chegou à Bretanha apenas através das pesquisas de Leland do século dezenove – na forma ‘Herodias’ela aparece como um nome inglês de deusa das feiticeiras no Canon Episcopi do décimo século.

Voltemos ao Bealtaine. O carvalho é a árvore do Deus do Ano Crescente (que vai amadurecendo – N.doT.); o pilriteiro, nesta estação, é a árvore da Deusa Branca. O forte tabu folclorico relativo à quebrar galhos de pilriteiro ou de trazê-los para dentro de casa é tradicionalmente suspenso na Véspera de Maio, quando galhos deste podem ser cortados para o festival da Deusa. (Fazendeiros irlandeses, e mesmo construtores de estradas que fazem terraplanagem, ainda são relutantes em cortar pilriteiros solitários; um pilriteiro ‘encantado’ (?) colocou-se no  meio de um pasto na fazenda em que vivíamos em Ferns, Condado de Wexford, e exemplos respeitados similares podem ser vistos por todo o país).

Contudo, se voce quiser flores para seu ritual (por exemplo, como arranjos nos cabelos das feiticeiras), voce não poderá estar certo de encontrar pilriteiros floridos tão cedo quanto na Véspera de Maio, e voce provavelmente terá que se contentar com as folhas novas. Nossa própria solução é usar [a planta] blackthorn,  cujas flores aparecem em Abril, à frente das folhas. O blackthorn (sloe) é também uma árvore da  Deusa nesta estação – mas ela pertence à Deusa em seu aspecto sombrio, devorador, como o amargo de seu fruto de outono poderia sugerir. Ela costumava ser considerada como ‘a árvore das feiticeiras’ – no sentido malévolo – e azarenta. Porém temer o aspecto sombrio da Deusa é não perceber a verdade de que ela consome apenas para dar um novo nascimento. Se os Mistérios pudessem ser resumidos em uma sentença, ela poderia ser esta: “No âmago da Mãe Brilhante está a Mãe Sombria, e no âmago da Mãe Sombria está a Mãe Brilhante”. O tema sacrifício-e-renascimento do nosso ritual de Bealtaine reflete esta verdade, também, para simbolizar os dois aspectos em equilíbrio, nossas mulheres portam pilriteiro em folha e blackthorn em flôr, entrelaçados.

Outro tabu suspenso na Véspera de Maio era aquele antigo tabu britânico de caçar a lebre. A lebre, tanto quanto sendo um animal da Lua, tem uma boa reputação pela [randiness_? e] fecundidade; também a tem o bode, e ambos figuram no aspecto sacrificial das tradições de fertilidade em May Day. A Caçada do Amor é uma forma difundida desta tradição; está subjacente na lenda da Lady Godiva e a da deusa teutônica Eostre ou Ostara de quem a Páscoa recebeu seu nome, tanto quanto os festivais populares como a cerimônia ‘Obby Oss’ de May Day em Padstow, Cornwall. (Sobre a tentadora e misteriosa figura da mulher da caçada do amor “nem vestida nem despida, nem a pé nem a cavalo, nem na água nem em terra seca, nem com nem sem um presente”, que é “facilmente reconhecida como o aspecto Véspera de Maio da deusa do Amor-e-Morte”, vide Graves, A Deusa Branca, pág.403 em diante).

Mas à parte da – ou melhor, em ampliação da – encenação desses mistérios de Deusa e Deus-Rei, Bealtaine para as pessoas comuns era um festival de sexualidade e fertilidade humana destituido de vergonha. Maypole, nozes, e a ‘toga de verde’ eram símbolos francos do penis, testículos, e a cobertura de uma mulher por um homem. Dançar ao redor do maypole (mastro enfeitado para o festival – N.doT.), procurar nozes na floresta, ‘casamentos de folhagem verde’(?) e ficar em pé toda a noite para assistir o nascer do sol de Maio, eram atividades inequívocas, eis o porque os Puritanos os suprimiram com tal horror pio. (O Parlamento tornou os maypoles ilegais em 1644, mas eles voltaram com a Restauração; em 1661 um maypole com 134 pés de altura foi erguido em Strand).

Robin Hood, a Jovem Marian e João Pequeno desempenharam um grande papel no folclore de May Day; e muitas pessoas com sobrenomes tais como Hodson, Robinson, Jenkinson, Johnson e Godkin devem sua ancestralidade à algum May Eve distante nas florestas.

Ramos e flores costumavam ser trazidos da floresta na manhã de Maio para decorar as portas e janelas da vila, e jovens carregariam guirlandas em procissão, cantando. As guirlandas eram geralmente de argolas cruzadas. Sir J.G.Frazer escreveu no início deste século: “Parece que uma argola envolta em rowan e marigold (tipos de planta) do brejo, e mantendo suspensas duas bolas entre esta, é ainda carregada em May Day por aldeões em algumas partes da Irlanda. As bolas, que são algumas vezes cobertas com papel dourado e prateado, são relatadas como tendo originalmente representado o sol e a lua”. (O Ramo Dourado, pág.159). Pode ser – porém Frazer, esplêndido pioneiro que era, muitas vezes parecia estar (ou, no clima de seu tempo, discretamente fingia estar) cego ante o simbolismo sexual.

Outro costume da manhã de Maio na Irlanda era ‘deslizar [a mão] nos poços’. Voce iria até o poço de um vizinho próspero (presumivelmente antes de ele se levantar e estar por perto) e deslizaria [a mão] na superfície da água, para adquirir a sorte dele para voce. Em outra variação deste costume, voce deslizaria [a mão] no seu próprio poço, para assegurar uma boa produção de manteiga para o ano – e também, como se pode advinhar, para antecipar-se a qualquer vizinho que estivesse atrás da sua sorte.

A memória popular sobrevive de maneiras curiosas. Um amigo de Dublin – um bom católico por volta de seus cinquenta anos – nos conta que quando ele era um garoto em County Longford ao norte, seu pai e sua mãe costumavam levar as crianças para fora na meia noite na Vespera de Maio, e toda a família dançaria despida em meio às jovens plantações. A explicação que era dada às crianças era que isso os protegeria de pegar resfriados pelos próximos doze meses; mas seria interessante saber se os próprios pais acreditavam que isso era o verdadeiro motivo ou se estavam sabendo da fertilidade das plantações e estariam dando às crianças uma ‘respeitável’ explicação no caso de elas falarem – particularmente aos ouvidos do sacerdote. Nosso amigo também nos conta que as sementes eram sempre plantadas por volta de 25 de Março para assegurar uma boa colheita; e 25 de Março costumava ser considerado como o Equinócio da Primavera (compare 25 de Dezembro para o Natal ao invés do solstício astronômicamente exato).

“Uma das superstições mais difundidas na Inglaterra era a de que lavar o rosto com o orvalho da manhã de Maio embelezaria a pele”, diz a Encyclopaedia Britannica. “Pepy faz referência à prática em seu Diário, e mais tarde em 1791 um jornal de Londres reportou que ‘ontem’, sendo primeiro de Maio, um certo número de pessoas entrou nos campos e banhou suas faces com o orvalho da grama com a idéia que isso as tornaria mais belas’”. A Irlanda tem a mesma tradição.

Mas retornemos à folhagem verde. Hoje, a superpopulação e não a baixa população é o problema da humanidade; e atitudes mais iluminadas relativas aos relacionamentos sexuais (embora ainda se desenvolvendo de maneira não uniforme) dificilmente seriam compatíveis com o método orgia folhagem-verde (?) de produção de uma nova safra de Hodsons e Godkins. Mas ambas a alegre franqueza e o obscuro mistério podem e devem ser expressados. Eis com o que todos os Sabás se relacionam.

Em nosso rito de Bealtaine, nós tecemos o tanto quanto pudemos do simbolismo tradicional, evitando sobrecarregá-lo e estragar o fio de sua lâmina com obscuridade – ou, pior ainda, tirar a graça dele. Deixamos o leitor discernir sobre o tecido. Mas talves seja válido mencionar que a declamação do Sumo Sacerdote, “Eu sou um gamo de sete cornos,” etc., consiste daquelas linhas da Canção de Amergin que pertence, segundo a designação de Robert Graves, às sete árvore-meses no ciclo do Rei do Carvalho.

Nós adicionamos um pequeno rito bem separado que nos foi sugerido pela leitura de Fasti de Ovid. Em 1 de Maio os romanos prestavam homenagem à seus Lares, ou deuses do lar; e pareceu apropriado para nós fazer o mesmo na noite quando o fogo de Bel é apagado e novamente aceso. Todas as casas, para ser honesto, possuem objetos que são efetivamente Lares. A nossa inclui uma Venus de Milo de um pé de altura adquirida pelos pais de Stewart antes de ele nascer; levemente desgastada, duas vezes quebrada em dois e emendada,  ela veio a se tornar uma Guardiã do Lar muito amada e um verdadeiro Lar. Ela agora sorri Helenisticamente por sobre nossos ritos de Bealtaine. Outras witches podem também achar que esta pequena homenagem anual é um agradável costume para se adotar.

                                                            A Preparação

O caldeirão é colocado no centro do Círculo, com uma vela acesa dentro deste; isto representa o fogo de Bel (Bel-fire).

Ramos de pilriteiro e blackthorn decoram o altar, e ornamentos de ambas as plantas combinadas (com os espinhos retirados) são elaborados para as witches femininas. (Uma aplicação de spray de cabelo sobre as flores feita anteriormente ajudará a evitar que as pétalas caiam). O pilriteiro e o blackthorn devem ser colhidos na própria Véspera de Maio, e é costume pedir desculpas e explicar para cada àrvore [o motivo] enquanto voce corta as plantas.

Se folhas de carvalho puderem ser encontradas nesta estação na sua área, um ornamento destas é feito para o Sumo Sacerdote, em seu papel como Rei do Carvalho. (Uma coroa permanente de carvalho é um acessório útil para o coven – vide sob Yule, pág.145 – do original – N.doT.).

Um cachecol  ou pedaço de gaze verde, pelo menos com uma jarda quadrada de tamanho, é colocado junto ao altar.

Tantos tocos de vela quanto o número de pessoas no coven são colocados junto ao caldeirão.

Os ‘bolos’ para consagração nesta ocasião devem ser um prato de nozes.

Caso voces estejam incluindo o rito para o Guardião da Casa, este (ou estes) é (são) posicionado(s) na borda do Círculo próximo à vela do Leste, com um ou dois joss-sticks (pedaços de madeira / palitos _ ?) num suporte prontos para serem acesos no momento apropriado. (Se o seu Guardião não for móvel, um símbolo deste pode permanecer em seu lugar; por exemplo, caso seja uma árvore em seu jardim, traga para dentro um ramo desta – novamente com a desculpa e a explicação apropriadas).

                                                           O Ritual

Após a Runa das Feiticeiras, as pessoas do coven se espalham ao redor da área do Círculo entre o caldeirão e o perímetro e começam um bater de palmas suave e rítmico.

O Sumo Sacerdote toma o cachecol verde, pega-o na sua extensão como se fosse uma corda e segura uma extremidade em cada mão. Ele começa a se mover na direção da Suma Sacerdotiza, fazendo como se fosse lançar o cachecol por sobre os ombros dela e puxá-la para ele; mas ela vai para trás se afastando dele, provocativamente.

Enquanto o coven continua com seu bater de palmas rítmico, a Suma Sacerdotiza continua à esquivar-se do Sumo Sacerdote perseguidor. Ela o chama com gestos e o provoca mas sempre se afasta para trás antes que ele possa capturá-la com o cachecol. Ela ondula para dentro e para fora do coven, e as outras mulheres passam pelo caminho do Sumo Sacerdote para ajudá-la à se esquivar dele.

Após um certo tempo, digamos após duas ou três ‘voltas’ no Círculo, a Suma Sacerdotiza permite que o Sumo Sacerdote a capture lançando o cachecol  por sobre sua cabeça em seus ombros e puxando-a para ele. Eles se beijam e se separam, e o Sumo Sacerdote entrega o cachecol para outro homem.

O outro homem então persegue a sua parceira, que se esquiva deste, acena para ele e o provoca exatamente da mesma forma; o bater de palmas segue durante todo o tempo. (Vide Ilustração 12). Após um certo tempo ela, também, se permite ser capturada e beijada.

O homem então entrega o cachecol para outro homem, e o jogo de perseguição continua até que todos os casais no coven tenham participado.

O último homem então entrega o cachecol de volta para o Sumo Sacerdote.

Mais uma vez o Sumo Sacerdote persegue a Suma Sacerdotiza; mas desta vez o compasso é muito mais lento, quase imponente, e o esquivar e os acenos dela são mais solenes, como se ela o estivesse tentando para o perigo; e desta vez as outras não interferem. A perseguição continua até que a Suma Sacerdotiza se posicione entre o caldeirão e o altar, de face para o altar e a dois ou três passos deste. Então o Sumo Sacerdote pára com suas costas voltadas para o altar e a captura com o cachecol.

Eles se abraçam solenemente porém sem reservas; mas após alguns segundos do beijo, o Sumo Sacerdote deixa o cachecol cair de suas mãos, e a Suma Sacerdotiza o solta e dá um passo para trás.

O Sumo Sacerdote se ajoelha, senta-se sobre seus calcanhares e abaixa sua cabeça, queixo sobre o peito.

A Suma Sacerdotiza abre seus braços, assinalando para que cesse o bater de palmas. Ela então chama duas mulheres pelos nomes e as posiciona uma em cada lado do Sumo Sacerdote, olhando para o centro [no caso o S.Sacerdote] de forma que as três olhem por cima dele. A Suma Sacerdotiza pega o cachecol, e as três o esticam entre elas por sobre o Sumo Sacerdote. Elas o abaixam lentamente e então o soltam, de modo que ele cubra a cabeça dele como um manto.

A Suma Sacerdotiza manda as duas mulheres voltarem para seus lugares e chama dois homens pelos nomes. Ela os instrui para apagarem as duas velas do altar (não a vela da Terra), e quando eles assim o tiverem feito, ela os manda de volta para seus lugares.

A Suma Sacerdotiza então se vira e se ajoelha próximo ao caldeirão, de face para este. Ela gesticula para que o resto do coven se ajoelhe em volta do caldeirão com ela.

Apenas o Sumo Sacerdote permanece onde ele está em frente ao altar, ajoelhado porém ‘morto’.

Quando todos estiverem posicionados, a Suma Sacerdotiza apagará a vela dentro do caldeirão e ficará em silêncio por um momento. Então ela diz :

O fogo de Bel está extinto, e o Rei do Carvalho está morto. Ele abraçou a Grande Mãe e morreu por seu amor; então assim tem sido, ano após ano, desde que o tempo começou. Ainda mais se o Rei do Carvalho está morto – aquele que é o Rei do Ano Crescente – tudo está morto; os campos não tem produção, as árvores não tem frutos, e as criaturas da Grande Mãe não tem juventude (?). O que faremos, portanto, para que o Rei do Carvalho possa viver novamente ?

O coven responde :

“Reacender o fogo de Bel!”

A Suma Sacerdotiza diz :

“Que assim seja”.

A Suma Sacerdotiza pega um toco de vela, se levanta, vai até o altar, acende o toco de vela com a vela da Terra e se ajoelha novamente próximo ao caldeirão. Ela reacende a vela do caldeirão com seu toco de vela. (Vide Ilustração 7 – do original). Ela então diz :

“Peguem um toco de vela cada um de vocês e o acendam com o fogo de Bel”.

O coven assim o faz; e finalmente a Suma Sacerdotiza acende um segundo toco de vela para si mesma. Chamando as duas mulheres originais para acompanhá-la, ela se levanta e se vira para olhar o Sumo Sacerdote. Ela gesticula para que as duas mulheres levantem o cachecol da cabeça do Sumo Sacerdote; elas assim o fazem (Vide Ilustração 8 – do original) e colocam o cachecol no chão.

A Suma Sacerdotiza manda as duas mulheres de volta para seus lugares e chama os dois homens. Ela os instrui para reacenderem as velas do altar com seus tocos de vela. Quando eles assim o tiverem feito, ela os manda de volta para os seus lugares.

Ela então entrega um de seus tocos de vela para o Sumo Sacerdote (que durante todo o tempo até agora não se moveu) e diz:

“Volte para nós, Rei do Carvalho, para que a terra possa ser frutífera.”

O Sumo Sacerdote se levanta, e aceita o toco de vela. Ele diz :

           “Eu sou um gamo de sete cornos;

Eu sou uma grande enchente numa planície;

Eu sou um vento sobre as águas profundas;

Eu sou uma lágrima brilhante do sol;

Eu sou um falcão sobre um rochedo;

Eu sou amável entre as flores;

Eu sou um deus que faz a cabeça em chamas (?) com fumaça”

A Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote conduzem uma dança circular à volta do caldeirão, o resto do coven os seguindo, todos carregando seus tocos de vela. A atmosfera se torna alegre. Enquanto dançam, eles cantam :

            “Oh, não conte ao Sacerdote ( /padre_?) sobre a nossa Arte,

              Ou ele poderia chamá-la de pecado;

              Mas nós estaremos nas florestas por toda a noite,

              Conjurando o Verão para vir !

              E nós lhe trazemos as novas de viva voz

              Para as mulheres, gado e plantação (?) –

              Agora o Sol está vindo do Sul

              Com Carvalho, e Freixo, e Arbusto!” (3)

 

Eles repetem Com Carvalho, e Freixo, e Arbusto!” ad lib. (do Latim - à vontade_?) até que a Suma Sacerdotiza sopre seu toco de vela e o coloque no caldeirão. O resto faz o mesmo. Então todo o coven se dá as mãos e circulam cada vez mais rápido. De vez em quando a Suma Sacerdotiza chama por um nome ou nomes [dos componentes] de um par, e quem quer que seja chamado se desliga do círculo, salta o caldeirão e se reúne ao círculo. Quando todos tiverem saltado, a Suma Sacerdotiza grita “Abaixem! ” e todos se sentam.

Aquilo, à parte do Grande Rito, é o final do ritual de Bealtaine; mas se for para o Guardião da Casa ser homenageado, este ritual é feito de forma muito adequada enquanto o resto do coven estiver relaxando. O ritual do Guardião é naturalmente realizado pelo casal, ou pessoa, em cuja casa o Sabá estiver sendo realizado – que podem ou não ser a Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote. Se for uma pessoa só, seu ou sua parceiro(a) de trabalho poderá lhe assistir; caso ele ou ela não tenha parceiro, a Suma Sacerdotiza ou o Sumo Sacerdote poderá fazer este papel.

 

(3) Esta (o único item substancial no ritual de Bealtaine do Livro das Sombras) é uma versão levemente modificada do verso 5 do poema de Rudyard Kipling Uma Canção da Árvore, da estória “Espada de Weland” em Puck of Pook’s Hill. Este é um dos mais felizes empréstimos de Gerald Gardner, e estamos seguros que a variação de Kipling não importa.

 

O casal se aproxima da vela do Leste, enquanto o resto do coven se mantém sentado mas voltam suas faces para o Leste acompanhando-os.

Uma pessoa do casal acende a tocha (? / vela ?) em frente ao Guardião, enquanto o outro diz:

            “Guardião desta Casa, vigiai-a durante o ano por vir, até que novamente o fogo de Bel seja extinto e reacendido. Abençoe esta casa, e seja abençoado por ela; permiti que todos os que vivem aqui, e todos os amigos que aqui são bemvindos, prosperem sob este teto. Que assim seja!”

Todos dizem:

            “Que assim seja!”

O casal se reune ao coven.

 

Bealtaine e Samhain são ‘Noites das Travessuras’ tradicionais – que Doreen Valiente denominou “os tempos de intervalos, quando o ano estava oscilando sobre suas juntas, as portas do Outro Mundo estavam abertas, e qualquer coisa poderia acontecer”. Então quando tudo estiver feito, o Grande Rito celebrado, e o vinho e as nozes partilhados, esta é a noite para os castigos (nesse contexto, ‘castiguinhos’ conforme o tipo de brincadeira – N.do T.). Ao impor pequenas tarefas ou ordálias bizarras, a criatividade da Suma Sacerdotiza poderá sair de controle – sempre sendo lembrado, naturalmente, que é privilégio do Sumo Sacerdote planejar uma punição para ela.

 

Um comentário final; se voces estiverem realizando seu festival de Bealtaine ao ar livre, o fogo de Bel que é aceso deve ser uma fogueira. Este deve ser deixado pronto com um [tipo de] acendimento que pegue rápido. Mas o velho fogo de Bel que a Suma Sacerdotiza apaga deve ser uma vela, protegida se necessário dentro de uma lanterna. Isso não seria praticável, à menos que o Sabá fosse um acontecimento em larga escala, apagar uma fogueira no meio do ritual.

Caso voces morem em uma área onde a atividade da feitiçaria é conhecida e respeitada – ou pelo menos tolerada – e possam fazer uso de um topo de colina, o súbito esplendor de um fogo de Bealtaine na escuridão poderá estimular algumas memórias folclóricas (atavismos_?) interessantes.

Mas se voce acender de fato uma fogueira – nesta ou em qualquer outra ocasião, tenha um extintor de incêncio ao alcance da mão em caso de emergência. Feiticeiras que provocam incêndios em matas ou florestas perderão rápidamente qualquer respeito que tenham conquistado no local; e muito certamente seu direito também.

 

              VII   Meio do Verão, 22 de Junho

 

A significação do Deus-Sol do Sabá do Meio do Verão é,  literalmente, tão clara quanto o dia. No Solstício de Verão, ele está em sua forma mais alta e mais brilhante, e seu dia está na sua mais longa extensão. As feiticeiras, naturalmente e corretamente, saúdam-no e honram-no no pico de seu ciclo anual, invocando-o para “pôr para longe os poderes da escuridão” e para trazer fertilidade para a terra. O Meio do Verão é talvez o mais celebrado de todos os Festivais, no sentido de que ele regozija na total efusão da abundância do ano, o apogeu da luz e calor.

Mas o ciclo do Sabá, mesmo nas alturas de sua alegria, sempre leva em conta o que se encontra por trás e à frente. Como os antigos gregos declaravam: “Panta rhei, ouden menei” (1) – “Tudo flui, nada é estático”. A vida é um processo, não um estado; e os Sabás das feiticeiras são essencialmente um meio de se colocar em sintonia com aquele processo.

 

(1)  Heráclito, c.513AC.

 

Assim no Meio do Verão, o aspecto do ‘processo’ é refletido no outro tema de Deus – aquele do Deus do Carvalho e do Rei do Holly. No Meio do Verão, o Rei do Carvalho, Deus do Ano Crescente, é derrubado pelo Rei do Holly, seu gêmeo, o Deus do Ano Minguante, porque o irradiante pico do verão é também, por sua verdadeira natureza, o início do reinado do Rei do Holly, com sua inexorável progressão rumo ao nadir escuro do meio do inverno, quando ele por sua vez morrerá nas mãos do ressucitado Rei do Carvalho.

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ERRATA : Holly é o nome de uma planta. Assim, deste ponto para trás, onde estiver “Santo Rei” leia-se “Rei do Holly (a planta)”. N.do T.

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A morte do Rei do Carvalho no meio do verão tem tomado muitas formas na mitologia. Ele foi queimado vivo, ou cegado com uma estaca de mistletoe (um tipo de planta), ou crucificado numa cruz em T; e nos tempos antigos o ator humano representando o Rei do Carvalho era assim sacrificado de verdade. Sua morte era seguida de uma vigília de sete dias. Mas o próprio Rei do Carvalho, como Deus do Ano Crescente, retirou para as estrelas circumpolares, a Corona Borealis, a Caer Arianrhod celta – aquela roda giratória dos céus que os antigos egípcios chamavam ikhem-sek, ‘não-conhecendo-destruição’, porque suas estrelas nunca desapareciam abaixo do horizonte mesmo no meio do inverno. Aqui ele aguardava seu renascimento igualmente inevitável.

Robert Graves sugere que a estória bíblica de Sansão (um herói folclórico do tipo Rei do Carvalho) reflete este padrão; após ser destituído de seus poderes, ele é cegado e enviado para trabalhar em um moinho giratório. (Alguém poderia também sugerir que Dalila, que preside sobre sua queda, representa a Deusa como Morte-em-Vida e que, ao rebaixá-la à vilã, o patriarcalismo hebreu esqueceu ou suprimiu a sequela – de que no devido curso, como Vida-em-Morte, ela seria destinada à presidir sobre sua restauração).

Graves salienta, mais ainda, que “uma vez que na prática medieval São João Batista, que perdeu sua cabeça no Dia de São João” (24 de Junho), “encampou o título e os costumes do Rei do Carvalho, era natural deixar Jesus, como o piedoso sucessor de João, encampar o Rei do Holly . . . ‘Dentre todas as árvores que estão na floresta, a holly porta a coroa’. . . A identificação do pacífico Jesus com o holly ou o holly-carvalho deve ser lamentada como poéticamente inepta, exceto na extensão em que ele declarou que ele viera para trazer não a paz mas a espada”. (A Deusa Branca, págs.180-181).

Qualquer ritual significativo de Sabá de Meio de Verão deve abraçar ambos os temas-de-Deus, pois os solstícios são pontos importantes a respeito deles. Mas e sobre a Deusa ? Qual é o seu papel no drama do Meio do Verão ?

A Deusa, como temos ressaltado, não é parecida ao Deus no sentido em que ela nunca está sujeita à morte e ressurreição. De fato, ela nunca muda – ela meramente apresenta faces diferentes. No solstício de Inverno ela apresenta seu aspecto Vida-em-Morte; embora seu corpo-Terra pareça frio e estático, ainda assim ela concede o nascimento ao novo Deus-Sol e preside sobre a substituição do Rei do Holly pelo Rei do Carvalho com sua promessa de vida renovada. No solstício de verão ela apresenta o seu aspecto Morte-em-Vida; seu corpo-Terra é exuberantemente fecundo e sensual, saudando sua consorte do Deus-Sol no zênite de seus poderes – ainda assim ela sabe que este é um zênite transitório, e ao mesmo tempo ela preside sobre a morte do Rei do Carvalho e o entronamento de seu gêmeo obscuro (porém necessário, e portanto não malévolo). No Meio do Verão a Deusa dança a sua magnífica Dança da Vida; mas mesmo enquanto ela dança, ela sussurra para nós : “Panta rhei, ouden menei”.

O Meio do Verão é tanto um festival de fogo quanto um festival de água, sendo o fogo o aspecto-Deus e a água o aspecto-Deusa, tal como o ritual deve esclarecer. O Meio do Verão é também algumas vezes chamado Beltane, porque fogueiras são acesas como ocorre na Véspera de Maio; tem sido sugerido que São Patrício foi amplamente responsável por isto na Irlanda, porque ele trocou a ‘noite da fogueira’ da Irlanda para a Véspera de São João a fim de diminuir a importância das implicações pagãs da Véspera de Maio (2). Ele pode deveras ter trocado a ênfase, mas ele dificilmente poderia ter alterado o nome, porque Bealtaine significa Maio em irlandês; o uso do nome para Meio do Verão pode ter surgido apenas em países de língua não-gaélica (?).

 

(2) Através da maior parte da Irlanda, a noite para a fogueira comunal do Meio de Verão é 23 de Junho, a véspera do Dia de São João. Porém em alguns lugares ela é tradicionalmente em 28 de Junho, a véspera do Dia de São Pedro e São Paulo, algumas vezes conhecido como  ‘Noite da Pequena Fogueira’. Nós não conseguimos encontrar a razão para esta curiosa diferença, mas possivelmente isso teria algo a ver com o antigo calendário Juliano. Em 1582 o Papa Gregório XIII varreu dez dias para tornar o calendário astronômicamente correto, e é o calendário Gregoriano que o mundo ainda utiliza hoje. (Ele não foi adotado pela Inglaterra, Escócia e Gales até 1752 – em cuja ocasião onze dias tiveram que ser retirados – e foi generalizado na Irlanda por volta de 1782). Mas é notório que em muitas partes da Europa antigos costumes populares que escaparam do encampamento oficial do cristianismo tendem à se fixar no antigo calendário (vide, por exemplo, a página 124 – do original). [A véspera de] São Pedro e São Paulo está mais próxima do Solstício do Meio do Verão do que [a véspera de] São João se a reforma Gregoriana for ignorada. Assim talvez um costume pagão arraigado, que em alguns lugares ignorava aquela reforma, estava lá meramente apegado ao dia de santo importante mais próximo para torná-lo tão respeitável quanto se pudesse conseguir.

 

De qualquer forma, o Meio do Verão era um importante festival do fogo através da Europa, e mesmo entre os àrabes e Berbers (membros de certa tribo muçulmana – N.do T.) do norte da África; ela era menor, e teve um desenvolvimento tardio nos países celtas, porque eles não eram originalmente ou naturalmente de orientação solar. Muitos dos costumes sobreviveram nos tempos modernos e muitas vezes envolvem o giro, ou rolamento morro a baixo, de uma roda flamejante como um símbolo solar. Como em Bealtaine e Samhain (deveras, em todo Festival) a própria fogueira tem sido sempre considerada como possuindo grande poder mágico. Nós já mencionamos (em Bealtaine) o costume de saltar a fogueira e conduzir o gado entre estas. As cinzas da fogueira eram também espargidas sobre os campos. Na Irlanda um torrão de terra queimada da fogueira da Véspera de São João era um encantamento de proteção. Em países que cultivam flax (tipo de planta) acreditava-se que a altura alcançada ao se pular a fogueira seria uma previsão da altura que seria alcançada pelo flax em seu crescimento. Os marroquinos esfregavam uma pasta feita com as cinzas em seus cabelos para evitar a calvície. Outro costume propagado através da Europa era o de fortalecer os olhos ao se olhar o fogo através de feixes de larkspur (uma planta) ou outras flores seguras na mão.

O capítulo LXII do Ramo Dourado de Frazer é uma mina de informações sobre as tradições do festival do fogo.

Para as feiticeiras modernas, o fogo é uma característica central do Sabá do Meio de Verão tal como é o de Bealtaine.  Porém uma vez que o caldeirão (que na Véspera de Maio contém o fogo de Bealtaine) é utilizado no Meio do Verão para a água com a qual a Suma Sacerdotiza asperge o seu coven – e é referido como ‘o caldeirão de Cerridwen’, reafirmando seu simbolismo de Deusa – nós acessamos outra tradição de longa existência ao sugerir fogueiras gêmeas para o rito do Meio do Verão (ou velas gêmeas como seu equivalente caso o festival seja dentro de um recinto). Mágicamente, passar entre elas é considerado como o mesmo que passar sobre uma única fogueira e, se voce estiver conduzindo gado através destas como um encantamento para uma boa produção de leite, isso é óbviamente mais prático !

Dentre todos os Sabás, o Meio de Verão em climas temperados é aquele [mais adequado] para se realizar ao ar livre caso as instalações e a privacidade o permitirem; para a observância da tradição de se estar vestido de céu, ele e o Lughnasadh podem ser comprovados como sendo únicos. Mas tal como em relação aos outros Sabás, nós descrevemos o nosso ritual como [apropriado] para celebração dentro de recinto – apenas porque a adaptação de um ‘script’de  uso interno para uso ao ar livre á mais fácil do que fazer do outro modo.

 

Páginas com fotografias- (do original, na sequência) :

1.      O altar

2.      (verso da página) O Ritual de Abertura : Consagrando a Água e o Sal

3.   (verso da página, à direita) Consagrando os bolos

4.   O Grande Rito : “Ajudai-me à erguer o antigo altar”

5.   Imbolg : A Deusa Tríplice – Donzela, Mãe e Anciã

6.   Imbolg : O Leito de Brigid

7.   Bealtaine : “Reacenda o fogo de Bel!”

8.   Bealtaine : Renascimento do Rei do Carvalho

9.   (Confronto _?) Meio do Verão : O Rei do Carvalho foi derrotado pelo Rei do Holly, e a Deusa realiza sua Dança do Meio do Verão ao Sol

10. A Vara e o Chicote seguros na ‘Posição de Osiris’

 

Em se falando de vestir-se de céu – uma tradição do Meio de Verão pode ser de interesse para qualquer mulher que esteja ansiosa para conceber e que possua um canteiro de vegetais. Ela deve passar pelo meio deste estando despida na Véspera do Meio do Verão e também apanhar um pouco de Erva de São João (?), caso haja disponível. (Caso o seu canteiro de vegetais seja de alguma forma semelhante ao nosso, sapatos poderiam ser considerados como uma variação permissível da nudez!) Esta é uma intrigante imagem-reflexo do antigo e difundido rito da fertilidade no qual as mulheres caminhavam nuas em meio aos campos para assegurar uma colheita abundante, muitas vezes enfatizando sua magia simpática (no sentido de sintonizar energias análogas – N.do T.) ao ‘montar’ (um discreto eufemismo) ‘vassouras’ fálicas. (Vide pág.86 a respeito de uma sobrevivência disto no século XX).

                                                           A Preparação

 

O caldeirão é colocado diretamente em frente ao altar, com um pouco de água dentro dele e decorado com flores. Um ramo de heather é posicionado ao lado deste, pronto para a Suma Sacerdotiza aspergir água com o mesmo. (À parte deste ramo, heather é uma boa planta, simbólicamente, para decorações do Círculo nesta noite; heather vermelha é a flor apaixonada do Meio de Verão, e heather branca representa a influência moderadora – a vontade controlando ou direcionando a paixão).

Duas coroas, uma de folhas de carvalho e uma de folhas de holly, são confeccionadas e posicionadas ao lado do altar. O Sumo Sacerdote (que representa o Deus Sol) também deve ser coroado,  mas do início do ritual; sua coroa deve ter coloração dourada, e ele pode adicionar quaisquer outros acessórios ou ornamentos que acentuem o simbolismo solar.

A Suma Sacerdotiza e a Donzela podem portar coroas feitas de flores de verão.

As duas velas do altar, em seus suportes, podem ser usadas no momento apropriado como as ‘fogueiras’; ou duas outras velas em suportes podem ser mantidas à disposição. Ao ar livre, naturalmente, duas pequenas fogueiras serão deixadas preparadas para um rápido acendimento – uma à meio caminho entre o centro do Círculo e a vela do Leste, outra à meio caminho entre o centro e a vela do Oeste. (O Círculo ao ar livre será, naturalmente, muito maior, deixando espaço para a dança entre e ao redor das fogueiras).

Um cachecol de cor escura é deixado próximo ao altar, pronto para uso como uma venda.

Alguns canudos são deixados sobre o altar – tantos quanto for o número de homens no Sabá, exceto para o Sumo Sacerdote. Um deles é maior do que o resto, e  outro mais curto. (Se a Suma Sacerdotiza, por seus próprios motivos, decidir nomear os dois Reis ao invés de sorteá-los, os canudos naturalmente não serão necessários).

 

                                                           O Ritual

 

Após a Runa das Feiticeiras, a Donzela recolhe os canudos do altar e os segura em sua mão de forma que todas as extremidades se projetem separadamente, mas ninguém pode ver quais são o maior e o menor. A Suma Sacerdotiza diz :

Que os homens façam o sorteio”.

Cada homem (exceto o Sumo Sacerdote) puxa um canudo da mão da Donzela e o mostra para a Suma Sacerdotiza. A Suma Sacerdotiza aponta para o homem que tirou o canudo maior e diz :

“Vós sois o Rei do Carvalho, Deus do Ano Crescente. Donzela, traga sua [dele] coroa!”

A Donzela coloca a coroa de folhas de carvalho na cabeça do Rei do Carvalho.

A Suma Sacerdotiza aponta para o homem que tirou o canudo menor e diz :

“Vós sois o Rei do Holly, Deus do Ano Minguante. Donzela, traga sua [dele] coroa!”

A Donzela coloca a coroa de folhas de holly na cabeça do Rei do Holly.

A Suma Sacerdotiza conduz o Rei do Carvalho para o centro do Círculo, onde ele fica em pé de face para o Oeste. O resto do coven fica em volta dele, olhando para o centro, com exceção da Suma Sacerdotiza e do Sumo Sacerdote, que ficam em pé de costas para o altar em um e outro lado do caldeirão.

A Suma Sacerdotiza diz :

“Com o Deus Sol no ápice de seu poder e majestade o crescimento do ano está completado, e o reino do Rei do Carvalho é finalizado. Com o Deus Sol no ápice de seu esplendor, o declínio do ano começa; o Rei do Holly deve matar seu irmão o Rei do Carvalho, e reger sobre minha terra até o [ponto] mais profundo do inverno, quando o seu irmão nascerá novamente”.

O Rei do Holly move-se até a frente do Rei do Carvalho, olhando para ele, e coloca suas mãos sobre os ombros do Rei do Carvalho, pressionando para baixo. O Rei do Carvalho cai de joelhos. Nesse meio tempo a Donzela pega o cachecol, e ela e o Rei do Holly vendam [os olhos do] Rei do Carvalho. O resto do coven volta para o perímetro do Círculo e se senta, olhando para dentro.

A Suma Sacerdotiza pega seu athame e move-se para frente;(3) o Rei do Holly toma seu lugar (dela) perante o altar, do outro lado do caldeirão a partir do Sumo Sacerdote. A Suma Sacerdotiza, com o athame na mão, dança deosil ao redor do Rei do Carvalho ajoelhado (vide Ilustração 9) enquanto o Sumo Sacerdote declama o seguinte poema, firmemente e claramente, enfatizando a batida e mantendo o ritmo :

            “Dance, Senhora, dance – sobre a tumba do Rei do Carvalho,

             Onde ele repousa por meio ano em teu útero tranquilo.

 

            “Dance, Senhora, dance – no nascimento do Rei do Holly,

             Que matou seu gêmeo pelo amor da Terra.

 

            “Dance, Senhora, dance – ao poder do Deus Sol

             E seu toque de ouro sobre o campo e a flor.

 

            “Dance, Senhora, dance – com tua lâmina na mão,

             Que chamará o Sol para abençoar tua terra.

 

            “Dance, Senhora, dance – na Roda de Prata,

             Onde o Rei do Carvalho repousa, [com] suas feridas para curar.

 

            “Dance, Senhora, dance – para o reinado do Rei do Holly,

             Até que seu irmão o Carvalho se erga novamente.

 

            “Dance, Senhora, dance – no céu iluminado pelo luar

            Para o Nome Tríplice pelo qual os homens te conhecem.

 

            “Dance, Senhora, dance – na Terra que se transforma

             Para o Nascimento que é Morte, e para a Morte que é Nascimento.

 

            “Dance, Senhora, dance – para o Sol nas alturas,

             Pois seu esplendor candente, também, deve morrer.

 

            “Dance, Senhora, dance – para a longa maré do ano,

             Pois através de toda mudança deves tu residir.”

 

(3) Isso está se ajustando simbólicamente [ao fato] que  a Suma Sacerdotiza, simbolizando a Deusa, deve realizar a Dança do Meio do Verão; mas se ela achar que alguma outra de suas witches femininas é uma dançarina particularmente talentosa e poderia fazer isso com maior eficácia, ela poderá delegar a tarefa para esta.

 

- e agora, acelerando o ritmo -

 

            “Dance para o Sol em glória,

             Dance para a passagem do Rei do Carvalho,

             Dance para o triunfo do Rei do Holly –

             Dance, Senhora, dance -

             Dance, Senhora, dance -

             Dance, Senhora, dance . . . “

 

O coven se une ao cântico “Dance, Senhora, dance”, até uma rápida batida insistente, até que o Sumo Sacerdote sinalize à eles para parar e ele próprio também pare.

A Suma Sacerdotiza termina sua dança ao colocar seu athame sobre o altar. Ela e a Donzela ajudam o Rei do Carvalho a se levantar, e elas o conduzem, ainda vendado, para que ele se ajoelhe perante a vela do Oeste.

O Sumo Sacerdote então diz :

“O espírito do Rei do Carvalho partiu [do meio] de nós, para repousar no Caer Arianrhod, o Castelo da Roda de Prata; até que, com a virada do ano, virá a estação quando ele voltará a reinar novamente. O  espírito partiu; portanto deixai que o homem entre nós que acolheu aquele espírito seja liberado de sua tarefa”.

A Donzela remove a venda do Rei do Carvalho, e a Suma Sacerdotiza remove sua coroa de folhas de carvalho. Elas as colocam sobre cada um dos lados da vela do Oeste e então ajudam o homem a se levantar; ele se vira e novamente se torna um integrante do coven.

O Sumo Sacerdote diz :

“Que brilhem os fogos do Meio do Verão!”

A Donzela e o Rei do Holly pegam as duas velas do altar e as colocam sobre a linha Leste-Oeste, equidistante do centro e quatro ou cinco pés separadas. Nesse meio tempo a Suma Sacerdotiza se reune ao Sumo Sacerdote no altar. (Ao ar livre, a Donzela e o Rei do Carvalho acendem as duas fogueiras).

A Donzela então pega o athame do Sumo Sacerdote do altar e fica de pé ao lado da vela de meio do verão que está no lado oeste, olhando para o Leste. O Rei do Holly pega o cálice de vinho e fica de pé ao lado da vela de meio do verão que está no lado leste, olhando para o Oeste.

O Grande Rito simbólico é então encenado pela Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote – a Suma Sacerdotiza se posicionando entre as duas velas, e a Donzela e o Rei do Holly entregando o athame e o cálice no momento apropriado.

Após o Grande Rito e a passagem do cálice, o Sumo Sacerdote fica de pé perante o altar com a vara em sua mão direita e o chicote na sua esquerda, cruzados sobre seu peito na Postura de Osíris. A Suma Sacerdotiza olha de frente para ele, e invoca alegremente : (4)

 

(4) Escrito por Doreen Valiente, até “Águas da Vida”.

 

“Poderoso do Céu, Poder do Sol, nós te invocamos em teus antigos nomes  - Michael, Balin, Arthur, Lugh; vinde novamente como no passado à esta tua terra. Elevai a tua brilhante lança de luz para nos proteger. Expulsai os poderes da escuridão. Daí-nos amáveis florestas e campos verdes, orquídeas florescentes e milho maduro. Trazei-nos para permanecer sobre tua colina de visão e mostrai-nos o caminho para os amáveis reinos dos Deuses”.

Ela então traça o Pentagrama de Invocação da Terra em frente ao Sumo Sacerdote com seu dedo indicador direito. O Sumo Sacerdote ergue ambas as suas mãos para o alto e então mergulha a vara na água dentro do caldeirão. Ele então o segura ao alto, dizendo :

“A Lança para o Caldeirão, a Lança para o Graal, o Espírito para a Carne, o Homem para a Mulher, o Sol para a Terra”.

O Sumo Sacerdote deposita a vara e o chicote sobre o altar e se une ao resto do coven. A Suma Sacerdotiza pega o ramo de heather (um tipo de planta) e fica de pé próximo ao caldeirão. Ela diz :

“Dançai vós perante o Caldeirão de Cerridwen, a Deusa, e sejais vós abençoados com o toque desta água consagrada; ao mesmo tempo que o Sol, o Senhor da Vida, se ergue em sua força no sinal das Águas da Vida!”

O coven, conduzido pelo Sumo Sacerdote, começa à se mover deosil ao redor do Círculo, fora das duas velas. Assim que cada pessoa passa por ela, a Suma Sacerdotiza o(a) asperge com água com o seu ramo de heather. Quando ela tiver aspergido a todos, ela se une ao círculo de pessoas em movimento.

A Suma Sacerdotiza então ordena que todos– a sós ou em dupla à cada vez – passem entre as velas de meio do verão e que façam um desejo enquanto passam. Quando todos tiverem passado, a Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote passam juntos entre as velas. Então eles se viram para trás e pegam as duas velas e as devolvem ao altar a fim de deixar espaço livre para a dança.

A Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote então conduzem o coven em uma dança espontânea e alegre, até que a Suma Sacerdotiza decida que está na hora da etapa festiva do Sabá.

 

              VIII   Lughnasadh, 31 de Julho

 

Lughnasadh (pronunciado ‘loo-nus-uh’) significa ‘a comemoração de Lugh’. Em sua pronúncia simplificada, Lúnasa, isto é irlandês gaélico para o mês de Agosto. Como Lunasda ou Lunasdal (‘loo-nus-duh’, ‘-dul’), isto é escocês gaélico para Lammas, 1o de Agosto; e o equivalente Manx é Laa Luanys ou Laa Lunys. Na Escócia, o período de uma quinzena antes de Lunasda até uma quinzena depois é conhecido como Iuchar, enquanto que na Península Dingle (?) de County Kerry a segunda quinzena é conhecida como An Lughna Dubh (o festival de Lugh obscuro) – sugerindo “que eles são ecos de um cálculo lunar através do qual Lughnasa teria sido celebrado em conjunção com uma fase da lua”. (Máire MacNeill, O Festival de Lughnasa, pág.16).

Através das Ilhas Britânicas (não apenas na ‘orla Celta’ mas também em lugares tais como County Durham e Yorkshire), os costumes populares de Lughnasadh se anexaram quase inteiramente ao Domingo anterior ou Domingo posterior ao 1o de Agosto – não meramente através da cristianização mas porque eles envolviam grandes ajuntamentos de pessoas, muitas vezes em montanhas ou grandes colinas, o que era possível apenas nos dias de lazer que a cristandade tinha convenientemente providenciado.

Do que sobreviveu de Lughnasadh nestas ilhas, a Irlanda oferece uma verdadeira mina de ouro, parcialmente porque, como já destacamos, na Irlanda a cultura rural tem sido muito menos deteriorada pela cultura urbana do que em qualquer outra parte, mas também por outra razão histórica. Durante os séculos quando a religião católica era proscrita ou perseguida, o campesinato irlandês, privado de seus templos de adoração, agarrou-se o mais fervorosamente possível aos lugares sagrados em céu aberto, que era tudo o que lhe foi deixado. Assim, atendendo à um apelo muito mais antigo que o cristianismo, os sacerdotes e as pessoas escalaram juntos as sagradas alturas ou buscaram os poços mágicos, para marcar aqueles pontos de mutação no ano da Mãe Terra que eram importante para eles por demais para não serem reconhecidos meramente porque suas igrejas não tinham teto ou eram requeridas por um credo forasteiro. Em altitudes tais como em Croagh Patrick eles ainda praticam.

O livro de Máire MacNeill, citado acima, reune uma surpreendente riqueza destes sobreviventes – setecentas páginas de costumes, folclore e lendas de raiz que não se deveria deixar faltar por qualquer estudante sério dos Oito Festivais.

Quem foi Lugh? Ele foi um deus de fogo e luz do tipo Baal/Hércules; seu nome pode ser originário da mesma raiz do latim para lux, significando luz (o que também nos oferece Lucifer, ‘o portador da luz’). Ele é realmente o mesmo deus que Baal/Beli/Balor, porém uma versão porterior e mais sofisticada sobre ele. Em mitologia, a substituição histórica de um deus por uma forma posterior (seguindo-se à invasão, por exemplo, ou um avanço revolucionário na tecnologia) é muitas vezes relembrado como a matança, cegueira ou castração do mais velho por parte do mais novo, ao passo que a continuidade essencial é reconhecida ao transformar o mais novo no filho ou neto do mais velho. (Se a divindade substituída for uma deusa, ela muitas vezes ressurge como a esposa do recém-chegado). Portanto Lugh, na lenda irlandesa, foi o líder dos Tuatha Dé Danann (‘os povos da Deusa Dana’), os últimos mas não únicos (?) conquistadores da Irlanda no ciclo mitológico, enquanto que Balor era rei dos Fomors, aos quais os Tuatha Dé derrotaram; e na batalha Lugh cegou Balor. Ainda de acordo com a maioria das versões, Balor era seu avô, e Dana/Danu era a esposa de Balor. (Neste caso, o casamento rebaixou (?) Balor, não Dana).

Outras versões fazem de Lugh o filho de Balor. O folclore da nossa própria ilha [também_?] o faz, aparentemente; como Máire MacNeill (ibid., pág.408) registra : “De Ballycroy em Mayo vem um dizer proverbial em tempestades (no original consta como thunder-storms literalmente – N.do T.) :

            ‘Tá gaoth Lugha Lámhfhada ag eiteall anocht san era.’

            ‘Seadh, agus drithleógai a athar. Balor Béimeann an t-athair.’

            (O vento do Longo-braço de Lugh está voando no ar hoje à noite.’

             ‘Sim, e as centelhas de seu pai, Balor Béimann.’)”

 

Lugh, então, é Balor em toda parte novamente – e certamente associado à uma revolução tecnológica. Na lenda da vitória dos Tuatha Dé, Lugh poupa a vida de Bres, um líder inimigo capturado, em troca de conselhos sobre aragem, plantio e colheita. “A história certamente contém um mito de colheita no qual o segredo da prosperidade agrícola é arrancado de um deus poderoso e relutante por Lugh” (Macneill, ibid., pág.5).

A inteligência superior e a versatilidade de Lugh são indicadas por seus títulos Lugh Lámhfhada (pronunciado ‘loo law-vawda’) e Samhioldánach (‘sawvil-dawnoch’, com o ‘ch’ como em ‘loch’), “igualmente habilidoso em todas as artes”. Seu equivalente galês (neto de Beli e Don) é Llew Llaw  Gyffes, variadamente traduzido como “o leão com a mão firme” (Graves) e “o luminoso com a mão hábil” (Gantz).

Significativamente, Lugh é muitas vezes a divindade padroeira de uma cidade, tal como Carlisle (Luguvalium), Lyon na França, Leyden na Holanda e Legnica (Alemão, Liegnitz) na Polônia. As cidades eram desconhecidas dos primeiros celtas; suas primeiras cidades (Continentais) eram para conveniência comercial em negócios com as civilizações mediterrâneas, das quais elas as copiaram; para fortalezas [para] exigir tributos das rotas de comércio; ou mais tarde, como resultado da absorção do Celta Galês nos padrões do Império Romano. Sobre os Celtas Bretões,  um escritor tão recente quanto Strabo (Estrabão_?)  (55 AC – 25 DC) poderia ainda dizer: “Suas cidades são as florestas. Eles cercam uma grande área de árvores derrubadas e erguem cabanas para abrigar a si mesmos e seus animais, nunca com a intenção de permanecer muito tempo nestes lugares”. Então na época em que os celtas começaram a nomear cidades, Balor foi sobrepujado por Lugh – à parte do fato que uma grande proporção da população daquelas cidades seria composta por artesãos, naturalmente devotos à Lugh Samhioldánach.

Falando de conquistas – elas ocorreram naturalmente com a chegada do cristianismo, também. Um exemplo fundamental é São Miguel, que era uma forma posterior do Lúcifer que ele ‘derrotou’. T.C.Lethbridge, em Feiticeiras: Investigando uma Antiga Religião, mostrou como muitas igrejas paroquiais de São Miguel coincidem com locais onde Lugh, o Lúcifer Celta ou ‘portador da luz’, teria sido cultuado (igrejas pré-Reforma, isto é; construtores de igrejas pós-Reforma  parecem Ter perdido todo o senso de magia dos locais). (1) E Miguel, na tradição mágica, rege o elemento fogo.

 

(1) Sobre todo o assunto pertinente à magia dos lugares, não apenas locais de culto mas também (por exemplo) sobre tais coisas como fogos de Bealtaine, a obra de Tom Graves Agulhas de Pedra é práticamente leitura essencial para feiticeiras que desejam não meramente sentir mas compreender e experimentar construtivamente o seu relacionamento com a Terra como um organismo vivo.

 

Que Lugh também é um tipo do deus que se submete à morte e ressurreição em um casamento sacrificial com a Deusa, isso é mais claramente percebido na lenda da sua manifestação gaulesa (?), Llew Llaw Gyffes. Esta estória aparece como parte de O Romance de Math o Filho de Mathonwy no Mabinogion; Graves oferece a tradução de Lady Charlotte Guest sobre este texto em A Deusa Branca.

Graves também declara (ibid., pág.178): “A forma anglo-saxônica da Lughomass, missa em honra do Deus Lugh ou Llew, era hlaf-mass, ‘missa do pão’, com referência à colheita de milho e ao assassinato do Rei do Milho.” Os Tailltean Games, realizados na Irlanda em Lughnasadh, eram origináriamente jogos funerários, tradicionalmente em honra de Tailte falecida mãe de criação de Lugh; mas como Graves ressalta (pág.302), esta tradição “é mais recente e corrompida”. Os jogos da vigília eram claramente para honrar o próprio Lugh sacrificado. E à menos que se compreenda o significado do tema casamento sacrificial,  se poderia ficar confuso com a aparente contradição que uma antiga tradição irlandesa também se refere aos feitos das núpcias (?) de Lugh em Tailtiu; de certa forma, isto é também um obscurecimento de uma estória semi recordada, pois aquele que se casa com a Deusa na colheira já é o seu consorte do Ano Minguante. Como Máire MacNeill corretamente declara (ibid., pág.424): “Lughnasa, eu sugeriria, era um episódio no ciclo de uma estória de casamento divino mas não necessáriamente a [ocasião_?) nupcial.”

Então em Lughnasadh nós temos o paralelo de outono para o casamento sacrificial em Bealtaine com o Deus do Ano Crescente. À nível humano, é interessante que os ‘casamentos nas florestas verdes’ de Bealtaine’ foram  comparados aos ‘casamentos de Teltown’ (i.e., Tailltean) em Lughnasadh, casamentos experimentais que poderiam ser dissolvidos após um ano e um dia pelo casal retornando ao local onde a união foi celebrada e partindo em direções opostas um ao outro para o Norte e o Sul. (o handfasting [união de um casal_?] Wicca tem a mesma provisão: o casal pode dissolver a união após um ano e um dia  retornando à Suma Sacerdotiza que os uniu e informando-a). Teltown  (Tailteann no irlandês moderno, Tailtiu no irlandês antigo) é uma vila em County Meath, onde a tradição relembra um ‘Morrinho do Dote da  Noiva [?]” e um ‘Casamento Vazio’. A Feira de Tailltean parece ter se tornado nos séculos mais recentes um mero mercado de casamento, com garotos e garotas mantidos separados até que os contratos fossem assinados; porém sua origem deve ter sido muito diferente.

Ela deriva, de fato, do óenach, ou reunião tribal, dos tempos pagãos – da qual o óenach de Tailtiu era a mais importante, sendo associada com o Grande Rei, cujo assento real de Tara dista apenas 15 milhas. (MacNeill, ibid.,págs.311-338). Essas reuniões eram uma mistura de assuntos tribais, corrida de cavalos, competições atléticas e ritual para assegurar boa sorte; e Lughnasadh era uma ocasião favorita para esses eventos. O óenach Leinster de Carman, a deusa de Wexford (MacNeill, ibid. págs.339-344), por exemplo, era mantida às margens do Rio Barrow durante a semana que começava com a celebração de Lughnasadh, para garantir à tribo “milho e leite, mast (vara de pesca_?) e peixe, e para ficar livre da agressão de qualquer forasteiro”. (Gearóid Mac Niocaill, A Irlanda Antes dos Vikings, pág.49) “Tais tradições profundamente enraizadas não poderiam ser descartadas e tiveram necessáriamente que ser toleradas e cristianizadas o máximo possível. Portanto em 784 o óenach de Teltown (Tailtiu) foi santificado pelas relíquias de Erc of Slane”. Mac Niocaill também diz (pág.25) que Columcille – melhor conhecido fora da Irlanda como São Columba é acreditado por ter conquistado Lughnasadh “convertendo-a em uma ‘Festa dos Lavradores’, não aparentemente com qualquer grande sucesso”.

O comportamento ritual do Rei, como a personificação sagrada da tribo,  era particularmente importante. Em Lughnasadh, por exemplo, a dieta do Rei de Tara tinha que incluir peixe provindo do Boyne, carne de caça de Luibnech, bilberries (?) de Brí Léith próximo de Ardagh, e outros ítens obrigatórios (Mac Niocaill, pág.47). (Os bilberries são significativos; vide abaixo).

Uma lista formidável dos tabus que cercam o Rei Sagrado Romano, o Flamen Dialis, é dada por Frazer (O Ramo Dourado, pág.230). Graves (A Deusa Branca, pág.130)  salienta o que Frazer omite – que o Flamen, uma figura do tipo Hércules, devia sua posição ao seu casamento sagrado com a Flamenica; ele  não poderia se divorciar dela, e se ela morresse, ele deveria renunciar. É o papel do Rei Sagrado curvar-se ante a Rainha-Deusa.

Isso nos faz retornar diretamente à Lughnasadh, ao que Graves segue: “Na Irlanda este Hércules era chamado Cenn Cruaich, ‘o Senhor do Monte’, mas após sua sucessão por um rei sagrado mais benigno era lembrado como Cromm Cruaich (‘O Inclinado do Monte’)”.

Crom Cruaich (a pronúncia moderna comum), também chamado Crom Dubh (‘O Inclinado Negro’), era um deus sacrificial particularmente associado com Lughnasadh; o último domingo em Julho é ainda conhecido como Domhnach Chrom Dubh (‘o Domingo de Crom Dubh’) muito embora ele tenha sido cristianizado. Naquele dia em todo ano, milhares de peregrinos escalam  a montanha sagrada da Irlanda, cujo cume pode ser visto através da nossa janela [do quarto] de estudo (?) – o Croagh Patrick de 2.510 pés (Cruach Phádraig) em County Mayo, onde se diz que São Patrício jejuou por quarenta dias e derrotou uma hoste de demônios. (2) A observância costumava ser de três dias,  começando em Aoine Chrom Dubh, a sexta feira precedente. Esta ainda é a mais espetacular peregrinação da Irlanda.

 

(2) Enquanto estávamos escrevendo isso, o mais respeitado jornal da Irlanda até mesmo sugeriu que Domhnach Chrom Dubh deveria substituir o 17 de Março (o atual Dia de São Patrício) como a data nacional da Irlanda. O Dia de São Patrício de 1979 foi celebrado em meio à uma nevasca;  nós assistimos a parada de Dublin e nos sentimos profundamente tristes pelos majorettes (?) molhados e gelados, vestidos com pouco mais que túnicas trançadas e sorrisos corajosos. Dois dias depois, o The Irish Times, com uma manchete entitulada “Por que 17 de Março?”, perguntava: “Não seria melhor para todos se o feriado nacional fosse celebrado quando o nosso clima é mais ameno? Existe um dia que é, se não históricamente, ao menos no sentido lendário, apropriado e do ponto de vista climático mais aceitável. Este é o último domingo de Julho, Garland Sunday ou Domhnach Chrom Dubh”. Citando a obra de Máire MacNeill O Festival de Lughnasa para sustentar este argumento, ele terminava: “Se qualquer interesse, portanto, quiser patrocinar outra data, e uma válida, para recordar nosso Santo, os arquivos folclóricos oferecem uma pronta resposta.” A dádiva da Irlanda para a continuidade pagã-cristã é claramente indestrutível; somos tentados à nos perguntar se, nesta época de mudança religiosa, isto funcionará em ambos os modos !

 

O sacrifício do próprio Crom parece ter sido encenado em tempos muito antigos através do sacrifício de substitutos humanos em uma pedra fálica rodeada por doze outras pedras (o número tradicional de companheiros do rei-herói sacrificial). O Livro de Leinster do décimo-primeiro século diz, com desagrado cristão:

                        “Em uma fileira se erguem

                         Doze ídolos de pedra;

                         Amargamente para encantar o povo

                         A figura de Crom era de ouro”.

Isso era em Magh Sléacht (‘O Plano de Adoração’), geralmente considerado como sendo à volta de Killycluggin em Country Cavan, onde existe um círculo de pedras e os restos fragmentados de uma pedra fálica esculpida com decorações da Idade do Ferro – para manter a tradição de que São Patrício derrubou a pedra de Crom.

Mais tarde parece que o sacrifício teria sido o de um touro, sobre o que existem muitas pistas, embora apenas uma possa ser específicamente relacionada à Crom Dubh. Isto provém da costa  norte da Baía de Galway. “Ela fala da tradição de um animal [do qual a carne servia de alimento] que teve sua pele retirada e que foi tostado até as cinzas em honra de Crom Dubh em seu dia de celebração, e que isso teve que ser feito por todos os chefes de família”. (MacNeill, idib, pág.407) Muitas lendas falam da morte e ressurreição de um touro sagrado (ibid, pág.410). E, aceitando que Croagh Patrick deve ter sido uma montanha sacrificial, muito antes de São Patríco a ter conquistado, não podemos evitar de cogitar se existe significado no fato que Westport, a cidade que domina suas abordagens, tem por seu nome gaélico Cathair na Mart, ‘Cidade dos Bifes’.

Mas subjazendo à todas as lendas que temos mencionado até então existe um tema de fertilidade mais antigo, que brilha através de muitos dos costumes de festivais ainda lembrados. Balor, Bres e Crom Dubh são todos formas do Deus Mais Antigo, à quem pertence o poder para produzir. Juntamente vem seu filho/outro self (alter ego ?), o brilhante Deus Jovem, Horus para seu Osíris – o Lugh com vários talentos, que arranca dele à força os frutos daquele poder. Mesmo a lenda colorida de São Patrício ecoa esta vitória. “São Patrício deve ser um personagem tardio nas lendas mitológicas e deve ter substítudo um ator anterior. Se restaurarmos Lugh ao papel tomado por São Patrício, as lendas imediatamente vão adquirir um novo significado”. (MacNeill, ibid, pág.409).

Nas lendas de sua fertilidade-vitória (e também sem dúvida, como Máire MacNeill ressalta, uma vez no ritual encenado de Lughnasadh), Crom Dubh é muitas vezes enterrado até o pescoço no solo por três dias e então liberado uma vez que os frutos da colheita tenham sido garantidos.

Um sinal do sucesso do rito é dado através – dentre todas as coisas – do humilde bilberry (whortle-berry, blaeberry). Domhnach Chrom Dubh tem outros nomes (incluindo Domingo das Coroas de Flores_? e Domingo do Alho), e um deles é Domingo de Fraughan, do gaélico fraochán ou fraochóg para o bilberry. Naquele dia ainda, os jovens vão colher bilberries, com várias festividades tradicionais, embora infelizmente o costume pareça estar desaparecendo. As formas da tradição tornam muito claro que os bilberries eram considerados como uma dádiva recíproca do Deus, um sinal de que o ritual de Lughnasadh foi bem sucedido; sua profusão ou o contrário disso era tomado como uma previsão sobre as proporções da colheita. O fato de que os dois rituais são complementares ainda subjaz em nossa localidade pelo fato que, enquanto os adultos escalam o Croagh Patrick no Domhnach Chrom Dubh, as crianças estão escalando as montanhas da península Curraun, logo ao se cruzar a baía, para colher bilberries.

Um outro sítio de Fraughan Sunday é Carrigroe próximo à Ferns em Country Wexford, uma montanha de 771 pés de altura ao lado da qual se localizava nossa primeira casa irlandesa. Com memória viva, grandes agrupamentos de pessoas costumavam se reunir lá para colher flores, que seriam colocadas na Cama do Gigante, uma plataforma na rocha que forma o cume. (Nossa Ilustração 11 foi fotografada naquela rocha). A associação com fertilidade é específica na piada feita para nós por mais de um vizinho – que metade da população de Ferns foi concebida na Cama do Gigante; embora sem dúvida aquele ritual particular se tornou mais privativo que público!

(Incidentalmente, as memórias populares do significado mágico daquela pequena montanha estão guardadas em um ditado local não escrito, passado para nós independentemente por pelo menos dois vizinhos,  sendo que ambos esclareceram que eles estavam comentando sobre nossa presença lá como feiticeiros: “Por tanto quanto o Carrigroe perdure, [sempre] haverá pessoas que sabem”. Nós certamente achamos isto mágicamente sobrecarregado).

Através da Bretanha e Irlanda, não obstante o cristianismo, os atos de amor nas florestas verdes da Véspera de Maio que tanto chocaram os Puritanos encontraram seu alegre eco não apenas entre os bilberries mas [também] nos campos de milho de Lammas (Lughnasadh); sobre cujo tema, se voces apreciam canções em seus Sabás, a obra de Robert Burns Foi em uma noite de Lammas

                                   “Espigas (?) de milho, e ramos (?) de cevada,

                                    E espigas de milho são boas (?);

                                    Eu nunca esquecerei aquela noite alegre,

                                    Entre as espigas com Annie”

- é tanto apropriada como agradável.

(N.doT.: - Esta estrofe está provávelmente em Inglês arcaico, daí as dúvidas).

 

As Três Machas – a Deusa Tríplice em seu aspecto de batalha – aparece como a padroeira triuna do festival de Lughnasadh, trazendo-nos de volta ao tema sacrificial. Outra indicação é que foi em Lammas que o Rei William Rufus sucumbiu devido à flecha ‘acidental’ de Sir Walter Tyrell em New Forest em 1100 – uma morte que, como Margaret Murray e outros tem convincentemente discutido, foi de fato seu sacrifício ritual voluntário ao fim de seu prazo como Rei Divino e foi assim compreendido e honrado pelo seu povo. (O verso infantil “Quem Matou Cock Robin?” é tida como comemorativo à este evento).

Mas e quanto ao tema do casamento sacrificial como um conceito único, ao invés de dois temas separados de sacrifício e sexualidade? Isso desapareceu inteiramente na tradição irlandesa ?

Não muito. Em primeiro lugar, aquela tradição tal como chegou à nós é principalmente uma tradição de Deus-e-Herói, embora com a Deusa pairando poderosamente ao fundo; e esta chegou até nós na maior parte através de monges cristãos medievais que anotaram um corpo de lenda oral (embora surpreendentemente de forma solidária) – escribas cujo condicionamento talvez tenha tornado difícil à eles reconhecer indícios da Deusa. Mas os indícios lá estão – principalmente no tema recorrente da rivalidade dos dois heróis (deuses) acerca de uma heroína (deusa). Este tema não está confinado aos celtas irlandeses; ele aparece, por exemplo, na lenda de Jack o Tinkard(?), que pode ser considerado como um Lugh Cornish (referente à língua celta – N.do T.). E significativamente – tanto com o Rei do Carvalho quanto com o Rei do Holly, estes heróis são muitas vêzes bem sucedidos opcionalmente.

E o que é o enterro de Crom Dubh até o pescoço por três dias na Mãe Terra, e sua liberação quando sua fertilidade (dela) está assegurada, senão um casamento sacrificial e um renascimento ?

Assim, em nosso próprio ritual de Lughnasadh, nós nos ativemos àquele tema. Quando nosso coven experimentou pela primeira vez a encenação da Caça-ao-Amor do Casamento Sacrificial, no Bealtaine de 1977, achamos que foi bem sucedida; ela retratou o tema vívidamente mas sem austeridade. Nós não vimos razão porque ela não poderia ser repetida, com modificações apropriadas à estação da colheita, em Lughnasadh; e eis o que fizemos.

Devido à Suma Sacerdotiza em Lughnasadh invocar a Deusa em si e detém esta invocação até após a ‘morte’ do Rei do Holly, achamos muito mais apropriado no Ritual de Abertura que o Sumo Sacerdote declare a Investidura para ela; ele cita a Deusa, ao invés da Suma Sacerdotiza falar como a Deusa.

Normalmente, nós gostamos de dar um papel ativo no ritual para tantas pessoas quanto possível; porém será notado que neste rito de Lughnasadh, os homens (à parte do Sumo Sacerdote) praticamente nada tem a fazer entre a Caça-ao-Amor e a dança circular final. Isso é para manter a tradição que rodeia a morte do Rei do Milho; em muitos lugares isso era um mistério entre as mulheres da tribo e sua solitária vítima sagrada, que à nenhum outro homem era permitido testemunhar. Em nosso Sabá, os homens podem sempre ter sua própria [vítima] de volta durante as ‘punições’ da encenação da festa ! (???)

A Declamação do Sumo Sacerdote “Eu sou uma lança empenhada em batalha...” é novamente retirada da Canção de Amergin – desta vez de acordo com a designação de Graves para a segunda metade do ano.

                                                            A Preparação

Um pãozinho é colocado sobre o altar; o mais adequado é um filão macio ou ‘bap’.

Um cachecol ou pedaço de gaze verde de pelo menos uma jarda quadrada é colocado próximo ao altar.

Se música de fita cassette for usada, a Suma Sacerdotiza poderá desejar dispor de uma parte de música para o ritual  principal, mais outro de um ritmo insistente – até mesmo primitivo – para sua (dela) Dança do Milho uma vez que esta, diferentemente da Dança do Meio de Verão, não é acompanhada por canto.

O Sumo Sacerdote deve ter uma coroa de Holly combinada com espigas de uma colheita de grãos. As mulheres podem portar coroas de colheitas de grãos de milho, talvez entrelaçadas com papoulas vermelhas. Grãos, papoulas e bilberries, se disponíveis, são particularmente adequados para o altar, com outras flores sazonais.

O caldeirão, decorado com ramos de grãos , está próximo à vela do Leste, o quadrante do renascimento.

                                                           O Ritual

No ritual de abertura, a Invocação (?) da Lua é omitida. O Sumo Sacerdote aplica na Suma Sacerdotiza o Beijo Quíntuplo e então ele próprio imediatamente conduz a Investidura,substituindo “ela, dela” por “eu, mim, meu”.

Após a Runa das Feiticeiras, o coven se espalha ao redor do Círculo e inicia um bater de palmas suave, ritimado.

O Sumo Sacerdote pega o cachecol verde, segura-o em sua extensão como uma corda com uma extremidade em cada mão. Ele começa à se mover na direção da Suma Sacerdotiza, fazendo como se fosse jogar o cachecol por sobre seus ombros e puxá-la para si; mas ela vai para trás se distanciando dele, de forma provocativa.

Enquanto o coven prossegue com seu bater de palmas ritimado, a Suma Sacerdotiza continua à esquivar-se do Sumo Sacerdote perseguidor. Ela acena para ele e o provoca mas sempre caminha para trás antes que ele possa capturá-la com o cachecol. Ela se move para dentro e para fora do coven, e as outras mulheres se interpõe no caminho do Sumo Sacerdote para ajudá-la à se esquivar dele.

Após um certo tempo, digamos após duas ou três ‘voltas’ pelo Cïrculo, a Suma Sacerdotiza permite que o Sumo Sacerdote a capture jogando o cachecol por sobre sua cabeça para trás de seus ombros e puxando-a para si. Eles se beijam e se separam, e o Sumo Sacerdote passa o cachecol para outro homem.

O outro homem então persegue sua parceira, que se esquiva dele, acena para ele e o provoca exatamente da mesma forma; o bater de palmas prossegue por todo o tempo. (Vide Ilustração 12). Após um certo tempo ela, também, se permite ser capturada e beijada.

O homem então passa o cachecol para outro homem, e o jogo de perseguição continua até que todos os casais no recinto tenham tomado parte.

O último homem devolve o cachecol para o Sumo Sacerdote.

Uma vez mais o Sumo Sacerdote persegue a Suma Sacerdotiza; mas dessa vez o compasso é mais lento, quase majestosamente, e ela se esquivando e acenando mais solenemente, como se ela o estivesse tentando ao perigo; e dessa vez os outros não intervém. A perseguição continua até que a Suma Sacerdotiza se posiciona de frente ao altar e à dois ou três passos deste; o Sumo Sacerdote pára com suas costas para o altar e a captura com o cachecol.

Eles se abraçam solenemente mas sem reservas; mas após alguns segundos depois do beijo, o Sumo Sacerdote deixa o cachecol cair de suas mãos, a Suma Sacerdotiza o libera e dá um passo para trás.

O Sumo Sacerdote cai de joelhos, senta sobre seus calcanhares e abaixa sua cabeça, queixo sobre o peito.

A Suma Sacerdotiza abre seus braços, sinalizando para que cesse o bater de palmas. Ela então convoca duas mulheres pelos seus nomes e as posiciona uma em cada lado do Sumo Sacerdote, olhando para dentro, de modo que as três fiquem  numa altura superior à dele. A Suma Sacerdotiza pega o cachecol, e todas as três o esticam entre si por sobre o Sumo Sacerdote. Elas o abaixam lentamente e então o soltam, de forma que cubra a cabeça dele como uma mortalha.

O coven agora se espalha ao redor do perímetro do Círculo, olhando para dentro.

A Suma Sacerdotiza pode então, se o desejar, mudar a música do cassette para seu tema de dança preferido ou sinalizar para que um outro alguém o faça.

Ela então pega o pãozinho do altar e o segura por um momento bem acima da cabeça inclinada do Sumo Sacerdote. Ela então vai para o meio do Círculo, segura o pãozinho bem ao alto na direção do altar e invoca:

   “Oh Mãe Poderosa de todos nós, que traz toda fartura, daí-nos frutos e grãos, rebanhos e manadas, e filhos para a tribo, que possamos ser poderosos. Pela rosa do teu amor, (3) descei vós sobre o corpo de tua serva e sacerdotiza aqui.”

 

(3) O Livro das Sombras diz “by thy rosy love” (pelo teu amor róseo – neste caso, auspicioso). Doreen Valiente questionava esta “frase muito sem sentido” com Gardner na ocasião, sugerindo que isto poderia ser uma corrupção de “by thy rose of love” (pela tua rosa de amor) ou “by the rose of thy love”  (pela rosa do teu amor) – a rosa sendo um símbolo da Deusa tanto quanto a flor nacional da Bretanha. Nós seguimos a segunda de suas sugestões.

 

Após um momento de pausa, e suavemente a princípio, ela inicia sua Dança do Milho, todo o tempo carregando o pão como um objeto sagrado e mágico. (4) (Vide Ilustração 13).

 

(4) Como a Dança do Meio do Verão, a Dança do Milho pode ser delegada pela Suma Sacerdotiza para outra mulher se ela desejar. Nesse caso, ela entregará o pão para a dançarina após a invocação e o receberá de volta após a dança, antes de ela tomar seu lugar de frente ao Sumo Sacerdote.

 

Ela termina sua dança ficando de pé olhando para o Sumo Sacerdote (que ainda está imóvel e ‘morto’) com o pão entre suas mãos, e dizendo:

“Reunam-se em volta, Oh Filhos da Colheita!”

O resto do coven se reúne em torno da Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote ajoelhado. (Se a Suma Sacerdotiza e a Donzela não souberem suas falas de cor, a Donzela poderá trazer o texto e uma vela do altar e ficar ao lado da Suma Sacerdotiza onde ambas possam ler o mesmo, já que ambas as mãos da Suma Sacerdotiza estão ocupadas).

A Suma Sacerdotiza diz:

   “Observai, o Rei do Holly está morto – ele que é também o Rei do Milho. Ele abraçou a Grande Mãe, e morreu de seu amor; assim tem sido, ano após ano, desde que o tempo começou. Mas se o Rei do Holly está morto – ele que é o Deus do Ano Minguante – tudo está morto; tudo que dorme em meu útero da Terra dormiria para sempre. O que faremos, portanto, para que o Rei do Holly possa viver novamente?”

A Donzela diz:

   “Daí-nos para comer o pão da Vida. Então os que dormem serão conduzidos ao renascimento”.

A Suma Sacerdotiza diz:

   “Que assim seja”.

(A Donzela pode agora recolocar o texto e a vela do altar e retornar para seu lugar ao lado da Suma Sacerdotiza).

A Suma Sacerdotiza parte pequenos pedaços do pão e dá um pedaço para cada witch, que o come. Ela mesma ainda não come um pedaço mas mantém o suficiente em suas mãos para pelo menos mais três porções.

Ela convoca as duas mulheres originais para ficarem de pé em cada lado do Sumo Sacerdote. Quando elas estiverem em posição, ela gesticula para que elas levantem o cachecol da cabeça do Sumo Sacerdote; elas o fazem e colocam o cachecol sobre o chão.

A Suma Sacerdotiza diz:

   “Voltai para nós, Rei do Holly, para que a terra seja frutífera”.

O Sumo Sacerdote se levanta e diz:

   “Eu sou uma lança empenhada na batalha;

     Eu sou um salmão na lagoa (?);

     Eu sou uma colina de poesia;

     Eu sou um porco selvagem  implacável;

     Eu sou um estrondo ameaçador do mar;

     Eu sou uma onda do mar;

    Quem além de mim conhece os segredos dos dolmens não abatidos?”

(dolmen – pedra erguida como em Stonehenge)

 

A Suma Sacerdotiza então dá a ele um pedaço do pão e toma para si um pedaço; ambos comem, e ela repõe o restante do pão sobre o altar. A Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote então conduzem uma dança circular, desenvolvendo o passo de maneira que ele se torne mais e mais alegre, até que a Suma Sacerdotiza grite “Para baixo!” e todos sentam.

O Grande Rito é então encenado.

A parte remanescente do pão, após o Círculo ter sido banido, torna-se parte da oferenda à Terra juntamente com o remanescente do vinho e bolos.

 

              IX   Equinócio de Outono, 21 de Setembro

 

Os dois Equinócios são, como já ressaltamos, tempos de equilíbrio. Dia e noite estão equalizados, e a maré do ano flui regularmente. Mas enquanto o Equinócio da Primavera manifesta o equilíbrio de um atleta pronto para ação, o tema do Equinócio de Outono é o do descanso após o trabalho. O Sol está prestes à ingressar no signo de Libra, a Balança. Nas Estações da Deusa, o Equinócio da Primavera representa Iniciação; o Equinócio de Outono, Repouso. A safra foi colhida, ambos grão e fruto, mesmo que o Sol – embora mais suave e menos intenso do que era – ainda está conosco. Com aptidão simbólica, ainda há uma semana a seguir antes de Michaelmas, o festival de Michael/Lucifer, Arcanjo do Fogo e da Luz, ao qual devemos começar à dizer au revoir ao seu esplendor.

Doreen Valiente (Um ABC do Witchcraft, pág.166) ressalta que as aparências espectrais mais frequentes de certas assombrações recorrentes estão em Março e Setembro, “os meses dos Equinócios – períodos bem conhecidos para os ocultistas como sendo tempos de stress psíquico”. Isto pareceria contradizer a idéia de os Equinócios serem tempos de equilíbrio; embora o paradoxo seja apenas aparente. Tempos de equilíbrio, de atividade suspensa, são por sua natureza as ocasiões quando o véu entre o visível e o invisível é diáfano. Estas são também as estações quando os seres humanos ‘mudam a marcha’ para uma fase diferente, e portanto tempos de turbulência tanto psicológica quanto psíquica. Esta é toda a maior razão para nós reconhecermos e compreendermos o significado daquelas fases naturais, de forma que sua turbulência nos animem ao invés de nos angustiar.

Se observarmos o Calendário da Árvore que Robert Graves mostrou para sustentar tanto do nosso simbolismo mágico e poético Ocidental, nós descobriremos que o Equinócio de Outono vem um pouquinho antes do fim do mês do Vinho e do começo do mês da Hera. Vinho e Hera são as únicas das árvores-mês que crescem espiraladas – e a espiral (especialmente a espiral dupla, enrolar e desenrolar) é um símbolo universal de reencarnação. E o pássaro do Equinócio de Outono é o Cisne, outro símbolo da imortalidade da alma – tal como é o ganso selvagem, cuja variedade doméstica é o tradicional prato de Michaelmas.

Incidentalmente, a amora é um substituto frequente para o Vinho no simbolismo dos países do norte. A tradição popular em muitos lugares, particularmente no Oeste da Inglaterra, insiste que as amoras não devem ser comidas após o fim de Setembro (que também é o fim do mês do Vinho) porque elas então se tornam propriedade do Demônio. Poderíamos advinhar que isso significa:  “Não tente se agarrar à espiral entrante uma vez que ela acabou – olhe adiante para o que se projeta”? (1)

 

(1) Na Irlanda, por outro lado, o último dia para colher amoras é a Véspera de Samhain. Após aquilo, o Pooka (vide página 122) “cospe nelas”, eis aqui um de seus nomes – Púca na sméar, ‘o duende da amora’.

 

Lughnasadh marcou a verdadeira colheita da safra de grãos, mas em seu aspecto sacrificial; o Equinócio de Outono marca a conclusão da colheita, e ação de graças por abundância, com ênfase no retorno futuro daquela abundância. Este Equinócio era a ocasião dos Mistérios Eleusinos, os maiores mistérios da antiga Grécia; e embora todos os detalhes não sejam conhecidos (os iniciados guardaram bem os segredos), os rituais de Eleusis certamente se basearam no simbolismo da colheita do milho. É dito que o climax tem sido o de mostrar ao iniciado uma simples espiga de grãos, com a advertência:  “Em silêncio é recebida a semente da sabedoria”.

Para o nosso próprio Sabá de Outono, então, nós tomamos os seguintes temas inter-relacionados: a conclusão da colheita, uma saudação ao poder decrescente do Sol; e um reconhecimento de que Sol e colheita, e também homens e mulheres, compartilham o ritmo universal de renascimento e reencarnação. Como diz a declamação no Livro das Sombras: “Portanto os Sábios não choram, mas regozijam”.

No ritual do Livro das Sombras para este festival, os únicos itens substanciais são a declamação da Suma Sacerdotiza “Adeus, Oh Sol...” e o Jogo da Vela, ambos os quais nós preservamos.

 

                                                           A Preparação

Sobre o altar está um prato contendo uma única espiga de trigo ou outro cereal colhido, coberto por um pano.

O altar e o Círculos estão decorados com pinhos em cone, grãos, [um tipo de] nozes de carvalho, papoulas vermelhas (símbolo da Deusa do Milho Demeter) e outras flores, frutos e folhas de outono.

                                                           Ritual

Após a Runa das Feiticeiras, o coven se arruma ao redor do perímetro do Círculo, olhando para dentro.

A Donzela pega o prato coberto do altar, coloca-o no centro do Círculo (deixando-o coberto) e retorna ao seu lugar.

A Suma Sacertdotiza diz:

   “Agora é o tempo do equilibrio, quando Dia e Noite se confrontam um com o outro como iguais. Porém  nesta estação a Noite está crescendo e o Dia está minguando; pois nada permanece sempre sem mudança, nas marés da Terra e do Céu. Sabei e lembrai, que tudo aquilo que cresce deve também decrescer, e tudo aquilo que decresce deve também crescer. Em recordação do que, dancemos a Dança do Partir e Retornar!”

Com a Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote conduzindo, o coven dança lentamente widdershins (anti-horário), de mãos dadas mas não fechando o anel cabeça-à-cauda. Gradualmente a Suma Sacerdotiza conduz para dentro em uma espiral até que o coven esteja próximo ao centro. Quando ela estiver pronta, a Suma Sacerdotiza pára e instrui a todos para se sentarem formando um anel apertado próximo ao prato coberto, olhando para dentro.

    A Suma Sacerdotiza diz:

   “Contemplai o mistério: em silêncio é recebida a semente da sabedoria”.

Ela então retira o pano do prato, revelando a espiga de grãos. Todos contemplam a espiga de grãos por um momento em silêncio (Vide Ilustração 14).

Quando ela estiver pronta, a Suma Sacerdotiza se levanta e vai para a vela do Leste. O Sumo Sacerdote se levanta e vai para a vela do Oeste e um olha para o outro por entre o coven sentado. A Suma Sacerdotiza declama: (2)

 

(2) Escrito por Doreen Valiente. Na Irlanda, ao invés de “para a Terra da Juventude”, nós dizemos “to Tír na nÓg” (pronunciado ‘teer nuh noge’) que significa literalmente a mesma coisa mas tem poderosas associações legendárias – um Elíseo celta visualizado como uma ilha mágica fora da Costa Oeste da Irlanda, “onde a felicidade pode ser obtida por um penny (divisão de moeda – N.do T.)”

 

   “Adeus, Oh Sol, Luz que sempre retorna,

    O Deus oculto, que ainda assim sempre permanece.

    Ele agora parte para a Terra da Juventude

    Através dos Portais da Morte

    Para habitar entronado, o juiz dos Deuses e homens,

   O líder cornudo das hostes do ar.

   Porém, como ele permanece invisível fora do Círculo,

   Assim ele reside dentro da semente secreta –

   A semente do grão recém colhido, a semente da carne;

   Escondida na terra, a maravilhosa semente das estrelas.

   Nele está a Vida, e a Vida é a Luz do homem,

   Aquilo que nunca nasceu,e nunca morre.

  Portanto os Sábios não choram, mas regozijam.”

 

A Suma Sacerdotiza ergue ambas as mãos para o alto em bênção para o Sumo Sacerdote, o qual responde com o mesmo gesto.

Suma Sacerdotiza e Sumo Sacerdote reúnem-se ao coven (que agora fica de pé) e o lidera em uma dança lenta deosil (horário), gradualmente formando espiral para fora na direção do perímetro do Círculo. Quando ela julgar que o movimento da espiral foi suficientemente enfatizado, a Suma Sacerdotiza fecha o anel pegando a mão da última witch da corrente e acelera o passo até que o coven esteja circulando rápido e alegremente. Após um momento ela grita “Para baixo!” e todos sentam.

A Donzela repõe o prato com a espiga de grão sobre o altar, e o pano que o cobria ao lado do altar.

O Grande Rito é agora encenado, seguido por vinho e bolos.

Após o vinho e os bolos é a hora do Jogo da Vela, tal como descrito na página 71 para o Imbolg; e aquilo deve levar a pessoa ao correto estado de ânimo para a etapa da festa.

 

              X   Samhain, 31 de Outubro

 

A véspera de 1o de Novembro, quando o Inverno celta começa, é a contraparte obscura da Véspera de Maio que saúda o Verão. Mais do que isso, o 1o de Novembro para os celtas era o próprio início do ano, e a festa de Samhain era a sua Véspera de Ano Novo, o momento misterioso que não pertencia nem ao passado nem ao presente, nem à este mundo nem ao Outro. Samhain (pronunciado ‘sow-in’, o ‘ow’ rimando com ‘cow’) é o irlandês gaélico para o mês de Novembro; Samhuin (pronunciado ‘sav-en’, com o ‘n’ como o ‘ni’ em ‘onion’) é o escocês gaélico para Todos os Santos, 1o de Novembro.

Para os antigos pastores, cuja criação de rebanho era sustentada apenas por uma agricultura primitiva ou simplesmente nada, manter rebanhos inteiros alimentados durante o inverno simplesmente não era possível, assim o estoque mínimo de criaçãoera mantido vivo, e o resto era abatido e salgado – o único jeito, então, de preservar a carne (aqui, sem dúvida, o uso tradicional do sal em ritual mágico como um ‘desinfetante’ contra males espirituais ou psíquicos). Samhain era a ocasião onde este abate e preservação era feito; e não é difícil imaginar que situação nervosamente crítica esta era. O estoque de criação correto – ou suficiente – fora selecionado ? Seria o inverno vindouro longo e árduo ?  E caso fosse, o estoque de criação iria sobreviver à este, ou a carne estocada alimentaria a tribo durante o inverno ?

As colheitas, também, tinham que serem todas recolhidas por volta de 31 de Outubro, e tudo o  que ainda não tinha sido colhido seria abandonado – por causa do Pooka (Púca), um mau espírito mutante noturno que se deliciava em atormentar os humanos, o qual se acreditava passar a noite de Samhain destruindo ou contaminando tudo o que ficou sem ser colhido. O disfarce favorito do Pooka parece ter sido a forma de um feio cavalo negro.

Portanto à incerteza econômica era adicionado um sentido psiquicamente sinistro, pois na virada do ano – o velho perecendo e o novo ainda por nascer – o Véu era muito fino. Os portais dos sidh-mounds (túmulos dos mortos_?) eram abertos, e nessa noite nem humanos nem fadas precisavam de qualquer palavra mágica para vir e ir. Nessa noite, também, os espíritos dos amigos mortos buscavam o calor do fogo do Samhain e a comunhão com seus parentes vivos. Esta era a Féile na Marbh (pronunciado ‘fayluh nuh morv’), a Festa dos Mortos,e também Féile Moingfhinne (pronunciado ‘fayluh mong-innuh’), a Festa d’Aquela de Cabelos Brancos, a Deusa da Neve. Isto era “um retorno parcial ao chaos primordial . . . a dissolução da ordem estabelecida como um prelúdio para a sua recriação em um novo período de tempo”, como Proinsias mac Cana diz em Mitologia Celta.

Então Samhain era por um lado um tempo de propiciação, advinhação e comunhão com os mortos, e por outro lado, uma festa desinibida para se comer, beber e a afirmação desafiadora de vida e fertilidade na própria cara da obscuridade que se aproxima.

Propiciação, nos velhos dias quando se sentia que a sobrevivência dependia desta, era um assunto severo e sério. Pode haver pouca dúvida de que à um só tempo ela envolvia sacrifício humano – de criminosos poupados para este propósito ou, na outra extremidade da balança, de um rei idoso; há pouca dúvida, também, que estas mortes rituais eram através do fogo, pois na mitologia celta (e, consequentemente, Nórdica) muitos reis e heróis morrem em Samhain, muitas vezes numa casa em chamas, pegos em cilada pelos ardis de mulheres sobrenaturais. O afogamento pode suceder à queima, tal como com os Reis de Tara do sexto século, Muirchertach mac Erca e Diarmait mac Cerbaill (1).

 

(1)Estes dois são interessantes. Em Lebor Gabála Érenn, Parte V (vide Bibliografia sobre

MacAlister), nós encontramos (em tradução do Irlandês Antigo): “Agora a morte de Muirchertach foi desta maneira; ele foi afogado num tonel de vinho, depois sendo queimado, na noite de Samhain no topo de Cletech sobre o Boyne; de onde St.Cairnech disse : -

 

            ‘Eu tenho medo da mulher

            à volta da qual muitas rajadas vão brincar;

            para o homem que será queimado no fogo,

            ao lado do Cletech o vinho irá afogá-lo.”

 

A mulher era Sín (pronunciado ‘Sheen’, e significando ‘tempestade’) a amada feiticeira de Muirchertach por causa da qual St.Cairnech o amaldiçoou; os homens da Irlanda ladearam o rei e Sín contra o Bispo. O Rei achava que ela era “uma deusa de grande poder”, mas ela dizia que, embora ela possuísse grande poder mágico, ela pertencia à raça de Adão e Eva. Sín é claramente uma sacerdotiza da Deusa Negra, presidindo sobre um sacrifício popularmente aprovadoà despeito de sua mágoa pessoal. (A versão de que ela trouxe o fim do Rei em vingança pelo assassinato de seu pai [pelo rei] parece uma racionalização posterior). Sobre sua própria morte subsequente o Lebor diz: “Sín, filha de Sige dos montes-sídh de Breg, morreu repetindo seus nomes -

 

            ‘Suspiro, Gemido, Rajada sem reprovação,

             Vento Rude e Gelado,

             Sofrimento, Pranto, um dito sem falsidade -   

             Estes são os meus nomes em qualquer estrada.’”

 

A estória de Muirchertach e Sín é contada na obra Herança Celta de Reese, da pág.338 em diante, e na obra Mulheres dos Celtas de Markale, págs. 167-8.

Diarmait mac Cerbaill, segundo o Lebor, foi assassinado por Black Aed mac Suibne após um reinado de vinte e um anos (o tradicional múltiplo de sete do rei sacrificado?). O Lebor diz que Aed “paralizou, incomodou, matou, queimou e rápidamente o afogou”, o que novamente tem todas as características de sacrifício ritual; e Gearóid MacNiocaill diz que Diarmait “era quase certamente um pagão” (A Irlanda Antes dos Vikings, pág. 26).

 

Mais tarde, naturalmente, o sacrifício propiciatório se tornou simbólico, e as crianças inglesas ainda sem noção do que estão fazendo, encenam este simbolismo na Noite de Guy Fawkes, que foi trazido desde a fogueira de Samhain. É interessante que, como assassino fracassado de um rei, o Guy queimado é em certo sentido o substituto do rei.

Ecos do sacrifício real de Samhain podem ter sido mais tarde substituidos pelo sacrifício de animais. O nosso Garda (policial) da vila, Tom Chambers, um bem informado estudante da história e folclore de County Mayo, nos diz por da memória viva que o sangue de frango era aspergido nos cantos das casas, dentro e fora, na Véspera de Martinmas como um encantamento protetor. Agora Martinmas é 11 de Novembro – que é 1o de Novembro conforme o antigo calendário Juliano, um deslocamento que muitas vezes aponta para a sobrevivência de um costume particularmente não oficial (vide nota de rodapé na página 95). Então este pode ter sido originalmente uma prática de Samhain.

O fim do costume do sacrifício real de fato é talvez comemorado na lenda da destruição de Aillen mac Midgna, do sidhe Finnachad, de quem se diz ter incendiado Tara real em todo Samhain até que Fionn mac Cumhal finalmente o matou. (Fionn mac Cumhal é um herói do tipo Robin Hood, cujas lendas são relembradas por toda a Irlanda. As montanhas acima da nossa vila de Ballycroy são chamadas a cadeia [de montanhas] de Nephin Beg, que Tom Chambers verte do Irlandês Antigo como ‘o pequeno lugar de repouso de Finn’.)

A noite das fogueiras e fogos de artifício da Irlanda ainda é Hallowe’en, e algumas das sobrevivências inconscientes são notáveis. Quando nós moramos em Ferns em County Wexford, dentre muitas das crianças que nos abordavam de surpresa no Hallowe’en esperando por maçãs, nozes ou “dinheiro para o Rei, dinheiro para a Rainha” estava incluida uma que estava mascarada como “o Homem de Preto”. Ele nos desafiaria com “Eu sou o Homem de Preto – voces me conhecem?”- ao que tínhamos que responder “Eu seu quem voce é, mas voce é o Homem de Preto”. Gostaríamos de saber se ele perceberia que uma das peças de evidência significativamente recorrentes nos julgamentos de bruxaria do período de perseguição é que “o Homem de Preto” era o Sumo Sacerdote do coven, cujo anonimato deve ser obstinadamente protegido.

Na Escócia e em Gales, fogueiras de Samhain familiares individuais costumavam ser acesas; elas eram chamadas Samhnagan na Escócia e Coel Coeth em Gales e eram construídas com dias de antecedência no campo mais elevado próximo à casa. Isso ainda era um costume florescente em alguns distritos quase dentro da memória viva, embora nesse tempo ele tenha se tornado (como a noite da fogueira na Inglaterra) em maior parte uma celebração de crianças. O hábito das fogueiras de Hallowe’en também sobreviveu em Isle of Man.

Frazer, em O Ramo Dourado (pág.831-3), descreve várias destas sobrevivências Escocesas, de Gales e Manx, e é muito interessante que, tanto nestes como nos costumes da fogueira de Bealtaine correspondentes que ele registra (págs. 808-14), há muitos traços da escolha de uma vítima sacrificial por sorteio – algumas vezes através da distribuição de pedaços de um bolo recém assado. Em Gales, uma vez que a última centelha da fogueira de Hallowe’en era extinta, todos “súbitamente ficariam nas pontas dos pés, gritando no tom mais alto de suas vozes ‘A leitoa negra colhe e se apossa de trás!’ “ ( ? ? ? ) (Frazer pode ter adicionado que na mitologia de Gales a leitoa representa a Deusa Cerridwen em seu aspecto obscuro). Todos estes rituais de escolha da vítima desde há tempos se suavizaram em uma mera brincadeira, mas Frazer não tinha dúvidas sobre seu severo propósito original. O que uma vez fora um sério ritual mortal na grande fogueira tribal tornou-se um jogo nas festas entre outros nas famílias.

Falando sobre isso, em Callander (familiar aos telespectadores britânicos de poucos anos atrás como o ‘Tannochbrae’ da  Estante do Dr Finlay) um método levemente diferente prevalesceu na fogueira de Hallowe’en. “Quando o fogo tinha se apagado”, diz Frazer, “as cinzas eram cuidadosamente recolhidas na forma de um círculo,  e uma pedra era colocada dentro, próxima à circunferência, para cada pessoa das várias famílias interessadas na fogueira. Na manhã seguinte, se fosse cogitado que qualquer uma dessas pedras foi deslocada ou danificada, as pessoas ficavam seguras de que a pessoa representada pela pedra era fey, ou devota, e que esta não poderia viver doze meses  a partir daquele dia”. Seria isso um estágio intermediário entre o antigo rito da vítima sacrificial e o atual costume da festa de Hallowe’en da animada advinhação através do modo pelo qual saltam as nozes tostadas no fogo ?

O aspecto divinatório de Samhain é compreensível por duas razões. Primeiro, o clima psíquico da estação o favorecia; e segundo, a ansiedade acerca do inverno vindouro o exigia. Originalmente os Druidas eram “fartados com sangue e carne frescos até que entravam em transe e profetizavam”, lendo as profecias do ano vindouro para a tribo (Cottie Burland, As Artes Mágicas); mas na sobrevivência do folclore a advinhação se tornou mais pessoal. Em particular, jovens mulheres buscavam identificar o futuro marido, pelo jeito assando nozes [e interpretando _?_ o modo como saltavam] (vice acima) ou conjurando sua imagem num espelho. Em County Donegal, uma garota lavaria sua camisola tres vezes em agua corrente e a penduraria em frente ao fogo da cozinha para secar à meia-noite na Véspera de Samhain, deixando a porta aberta; seu futuro esposo seria trazido para entrar e virá-lo. Uma fórmula alternativa dizia que a agua para lavar deveria ser trazida “de um poço onde noivas e enterros passam por cima”. Outro método difundido era para uma garota cobrir sua mesa com uma refeição tentadora, à qual o ‘fetch’ de seu futuro marido viria e, tendo comido, ficaria preso à ela. (O ‘fetch’ é naturalmente o corpo astral projetado – implicando que em Samhain não apenas o véu entre a matéria e o espírito era muito fino mas também o astral estava menos firmemente preso ao físico).

As nozes e maçãs de Hallowe’en ainda tem seu aspecto divinatório na tradição popular; mas como a junção das nozes de Bealtaine, seu significado original era o de fertilidade, pois Samhain, também, era um tempo de liberdade sexual deliberada (e cheia de propósitos tribais). Este aspecto de fertilidade ritual é, como se poderia esperar, refletido nas lendas de deuses e heróis.  O deus Angus mac Óg, e o herói Cu Chulainn, ambos tinham casos em Samhain com mulheres que poderiam se transformar em pássaros; e em Samhain o Dagda (o ‘Deus Bom’) se casava com a Morrigan (o aspecto sombrio da Deusa) enquanto ela caminhava sobre o Rio Unius, e também com Boann, deusa do Rio Boyne.

Samhain, como os outros festivais pagãos, era tão profundamente enraizado na tradição popular que o cristianismo teve que tentar vencê-lo. O aspecto de comunhão com os mortos, e com outros espíritos, foi cristianizado como Todos os Santos, transferido de sua data original de 13 de Maio para 1o de Novembro, e extendido para toda a Igreja pelo Papa Gregório IV em 834. Mas seus sobretons pagãos continuavam inconfortávelmente vivos, e na Inglaterra a Reforma aboliu Todos os Santos. Este não foi formalmente restaurado pela Igreja da Inglaterra até 1928, “na assunção de que todas as antigas associações pagãs de Hallowe’en estavam por fim realmente mortas e esquecidas; uma suposição que era certamente prematura” (Doreen Valiente, Um ABC da Bruxaria).

Com relação à própria festa – no sentido de banquete, a comida original era naturalmente uma proporção do gado recentemente abatido, assado no fogo purificador de Samhain, e sem dúvida tendo a natureza dos ‘primeiros frutos’ ritualisticamente oferecidos; o fato de que o sacerdotado recebia a primeira chamada para estes para propósitos divinatórios, e que o que eles não utilizariam provia uma festa para a tribo, aponta para isso.

Em séculos posteriores, a comida ritual conhecida como ‘sowens’ era consumida. Robert Burns refere-se à esta em seu poema Hallowe’en :

                                   “Till butter’d sowens, wi’ fragrant lunt,

                                     Set a’ their gabs a-steerin’. . .”

- e em suas próprias notas ao poema, diz “Sowens, com manteiga ao invés de leite para eles, é sempre a Ceia do Hallowe’en”. O Dicionário de Inglês Oxford define Sowens como ‘um artigo de dieta antigamente em uso comum na Escócia (e em algumas partes da Irlanda), consistindo de matéria farinácea extraída do farelo ou cascas de sementes de carvalho imersos na água, deixado para fermentar levemente e preparado por cozimento”, e diz que isto provávelmente deriva de sugh ou subh , ‘seiva’. Talvez – mas é interessante que ‘sowen’é próximo o suficiente da pronúncia de ‘Samhain’.

Na Irlanda, ‘barm brack’, um pão ou bolo marrom escuro feito com frutas frescas é tanto uma característica de Hallowe’en quanto o pudim [doce_?] o é com relação ao Natal e retém a função divinatória sazonal ao incorporar símbolos com a sorte que aquele que prova e guloseima, sortudo ou não, encontra em sua fatia. O papel de embrulho de um barm brack comercial à nossa frente neste momento apresenta um desenho tipo bruxa-e-vassoura  e a informação: “Contém – anel, casamento em doze meses; ervilha, pobreza; feijão, riqueza; bastão, baterá na parceira da vida; trapo, solteirona ou solteiro”. As lojas estão cheias deles a partir do meio de Outubro. Para o barm brack caseiro, o ítem essencial é o anel. O bolo tem que ser cortado e passado com manteiga por uma pessoa casada, fora da vista daqueles que o estarão comendo.

Para quaisquer amigos mortos cujos espíritos poderão estar visitndo, as famílias irlandesas costumavam deixar um pouco de tabaco e um prato de mingau de aveia – e algumas cadeiras vazias – próximo ao fogo.

Paul Huson, em seu livro interessante porém mágicamente amoral, Controlando a Bruxaria, diz : “A Ceia Silenciosa pode ser realizada em honra dos falecidos estimados, e vinho e pão podem ser cerimoniosamente oferecidos à eles, o último na forma de um bolo feito em nove segmentos similar ao quadrado da Terra”. Ele provávelmente se refere ao Quadrado de Saturno, que tem nove segmentos como um jogo-da-velha (e que o próprio Huson apresenta na página 140 do seu livro). Existem quadrados mágicos também para Júpiter (dezesseis segmentos), Marte (vinte e cinco), Sol (trinta e seis), Vênus (quarenta e nove), Mercúrio (sessenta e quatro), e Lua (oitenta e um), mas nenhum para a Terra. Em qualquer caso, Saturno seria mais sazonalmente apropriado; ele tem fortes ligações com ambos o Rei do Holly e o Senhor do Desgoverno – de fato os três se sobrepõe e resultam um bom negócio.

Uma coisa Samhain tem sempre sido, e ainda o é : uma festa lasciva e sem reservas, uma Noite de Travessuras, o começo do reinado daquele mesmo Senhor do Desgoverno, que tradicionalmente dura desde agora até Candlemas – embora com sérios sub-tons. Não é que nós nos rendamos à desordem mas, como o Inverno começa, nós parecemos o ‘caos primordial’ na face de modo que podemos reconhecer  nisso as sementes de uma nova ordem. Ao desafiá-lo, e mesmo rindo com ele, nós proclamamos nossa fé de que a Deusa e o Deus não podem, devido à sua própria natureza, permitir que ele nos varra para longe.

Como, então, celebrar o Samhain como feiticeiros do século vinte ?

Uma sugestão imediata que se tornou nosso hábito, e que outros podem julgar útil, é ter duas celebrações – uma sendo o ritual de Samhain para o próprio coven, e a outra sendo a festa de Hallowe’en para o coven, as crianças e os amigos. As crianças esperam por alguma diversão no Hallowe’en, e assim também (nós descobrimos) amigos e vizinhos realmente esperam algo das feiticeiras no Hallowe’en. Então monte uma festa e ofereça à eles – abóboras, máscaras, vestidos de fada, brincadeiras (?), música, ‘castiguinhos’(relativos à jogos específicos), tradições locais – tudo. E faça o ritual de Samhain de seu coven numa noite em separado.

Surge aqui uma dúvida geral : o quão importante é realizar os Sabás nas noites tradicionais exatas ? Nós diríamos que é preferível, mas não vital. Devemos encarar o fato de que tanto para os Esbás quanto para os Sabás, muitos covens tem que se reunir em noites em particular – geralmente nos fins de semana – por motivos de trabalho, viagens, preocupações com bebês e daí em diante. Mesmo a Investidura admite isso ao dizer “melhor que seja quando a lua está cheia” – e não “deve ser”. E com relação aos Sabás, a maioria das feiticeiras não se sentem mal ao realizá-los (digamos) no Sábado mais próximo da data verdadeira.

Na revista Quest de Março de 1978, “Diana Demdike’ faz uma boa idéia sobre o assunto de celebrar festivais antes ou depois da data verdadeira. “É sempre melhor estar atrasado do que adiantado”, ela  diz, “pois sabendo disso ou não, voce está trabalhando com os poderes das marés mágicas da terra, e essas começam no ponto solar real em tempo, então trabalhar assim dessa forma antes significa que voce se encontra no ponto mais baixo da maré anterior, não muito útil”.

Em Samhain, para ser prático, existe uma consideração adicional : em muitos lugares (incluindo a América, Irlanda e partes da Bretanha) a privacidade em 31 de Outubro não pode ser garantida. Ter o seu sério ritual de Samhain perturbado por crianças exigindo “guloseimas ou travessuras”, ou “dinheiro para o Rei, dinheiro para a Rainha”, ou pelos seus vizinhos balançando abóboras iluminadas no seu jardim da frente e corretamente aguardando por serem convidados para uma bebida não é claramente uma boa idéia. Assim “melhor seria” talvez transferir seu Sabá de Samhain por uma noite ou duas, e encarar a própria Noite de Hallowe’en com as nozes e maçãs apropriadas, pouca mudança e garrafas prontas para fazer, ou melhor lançar (?_ gíria) uma festa. Não é próprio das feiticeiras fazer qualquer coisa que possa parecer desencorajar, ou mesmo excluí-las, de tais celebrações tradicionais.

De fato, as tradições locais devem sempre ser respeitadas – tudo o mais caso seja genuinamente existente. Eis o porque, aqui em nosso County Mayo, nós acendemos a nossa fogueira de Meio de Verão na Véspera de São João, 23 de Junho, quando muitos outros pontilham a paisagem em sua extensão como estrelas alaranjadas no crepúsculo; nós acendemos a nossa fogueira de Lughnasadh em Domhnach Chrom Dubh, o último domingo de Julho, que ainda recebe seu nome de um dos Deuses antigos, e ao qual os muitos costumes dos festivais de Lughnasadh que sobrevivem no Oeste da Irlanda estão ligados; e fazemos nossa festa de Samhain uma festa ao ar livre, caso o tempo permita, pois Hallowe’en é noite de fogueira familiar através da Irlanda.

Porém voltemos ao próprio ritual de Samhain, que é nossa preocupação aqui. Quais dos antigos elementos devem ser incluidos ?

Propiciação – não. A propiciação reduz os Deuses à um nível humano de insignificância, no qual eles tem que ser subornados e alegrados desviando-os de seus modos caprichosos de rancor e mau humor. Isso pertence à um estágio muito primitivo da Antiga Religião, e sobreviveu, sentimos, mais ‘por exigência popular’ do que por sabedoria sacerdotal. As modernas feiticeiras não temem os Deuses, as expressões do poder e ritmo cósmicos; elas os respeitam e cultuam e trabalham para compreender e colocar-se em sintonia com eles. E ao rejeitar a propiciação como superstição, uma vez compreensível mas agora superado, elas não estão traindo a antiga sabedoria, elas a estão realizando; muitos dos antigos sacerdotes e sacerdotizas (que possuíam uma compreensão mais profunda do que alguns de seus mais simples seguidores) teriam indubitávelmente sorrido em modo de aprovação. (Embora, em lealdade para com aqueles ‘simples seguidores’, nós devemos adicionar que muitos ritos que para o estudante moderno parecem propiciação não eram de fato nada desse tipo mas eram magia simpática; vide O Ramo Dourado, pág.541).

Mas a comunhão com os amados falecidos, a advinhação, a festividade, o humor, a afirmação da vida – muito certamente sim. Esses estão todos de acordo com o ponto do Samhain sobre os ritmos naturais, humanos e psíquicos do ano.

Sobre a questão da comunhão com os mortos, deve-se sempre ser lembrado que eles são convidados, não invocados. Retirada e descanso entre encarnações é um processo de estágio por estágio; o quanto cada estágio dura, e quais experiências necessárias (voluntárias ou involuntárias) são passadas em cada estágio, é uma estória muito individual, sendo que a totalidade desta jamais pode ser conhecida mesmo pelo mais íntimo dos amigos ainda encarnados do indivíduo. Então forçar a comunicação com ele ou ela pode bem ser infrutífero, ou mesmo danoso; e sentimos que este é o erro que muitos espiritualistas cometem, não importa o quão sincero e genuinamente dotado alguns de seus médiuns possam ser. Assim, como Raymond Buckland coloca (A Árvore, o Livro Completo da Bruxaria Saxônica, pág.61): “As feiticeiras não ‘chamam de volta’ os mortos. Elas não realizam sessões – sendo que estas pertencem ao Espiritismo. Elas, contudo, crêem que, se os próprios mortos assim o quiserem, eles retornarão no Sabá para compartilhar o amor e a celebração desta ocasião”.

Qualquer convite aos amigos mortos, em Samhain ou qualquer outra ocasião, deve ser feito com esta atitude em mente.

Como Stewart salientou em O Que as Bruxas Fazem: “De todos os oito festivais, é neste que o Livro das Sombras insiste mais enfáticamente a respeito do Grande Rito. Caso não seja possível na ocasião, o livro diz que o Sumo Sacerdote e a Suma Sacerdotiza devem celebrá-lo eles mesmos tão rápido quanto for conveniente, ‘de forma simbólica, ou se possível na realidade’. O caso presumívelmente é que uma vez que o ritual de Hallowe’en é intimamente relacionado com a morte e os mortos, ele deveria terminar com uma solene e intensa reafirmação da vida”.

No presente livro, nós assumimos que o Grande Rito é sempre possivel nos Sabás, ao menos em sua forma simbólica. Mas nós achamos que a insistência do Livro das Sombras em seu significado particular em Samhain é válido, e provávelmente uma genuína tradição da Arte. Assim nós buscamos, em nosso ritual, por um modo de oferecer à este aquela ênfase especial – aqui o plano do coven circundante, o que para nós alcança o efeito desejado.

Se o Grande Rito ‘real’ for usado, naturalmente o coven estará fora do recinto, e qualquer meio de ênfase deve ser deixado para a Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote que o encenam. Mas a ênfase ainda pode ser, assim falando, transmitida para o coven no seu retorno; aqui a estratégia de a Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote abençoarem o vinho e os bolos imediatamente após o retorno, e o Sumo Sacerdote entregando-os pessoalmente para cada mulher, e a Suma Sacerdotiza para cada homem, ao invés da circulação habitual. Nós sugerimos que essa entrega pessoal deve ser conduzida também se o Grande Rito for simbólico.

 

                                                           A Preparação

O caldeirão está posicionado no centro do Círculo, com carvão incandescente dentro de uma tampa de estanho ou de outro recipiente dentro deste, e incenso para lançar. (O incensário habitual sobre, ou próximo ao altar, pode ser utilizado no momento apropriado, mas um outro em separado é melhor).

Para a Suma Sacerdotiza, prepare um tabbard (?) branco simples de chiffon (tipo de tecido) ou filó (tecido de terylene tal como vendido para cortinas podem servir, embora o chiffon seja mais bonito). O padrão é fácil – dois quadrados ou retângulos costurados juntos ao longo da parte superior e laterais, mas deixando aberturas para pescoço e braços no centro da parte superior, e partes superiores das laterais. Um refinamento à mais pode ser um terceiro quadrado ou retângulo do mesmo tamanho, com sua parte superior costurada à parte superior dos outros dois ao longo dos ombros e parte posterior da abertura para o pescoço; isto pode ficar suspenso atrás como um manto, ou ser jogado para cima e puxado por sobre a cabeça e face como um véu. (Vide diagrama e também Ilustrações 7, 11, 16 e 17).

   (Incidentalmente, nós fizemos uma seleção desses tabards (?) de chiffon,com mantos/véus e laço apropriado ao longo das costuras e bainhas, em várias cores para vários propósitos ritualísticos. Eles podem ser vestidos ou por sobre os robes ou sobre o corpo vestido de céu, são baratos e simples de fazer e são notávelmente efetivos).

Para o Senhor do Desgoverno, faça uma vara de poder (?), tão simples ou elaborada como voce queira. Mais elaborado é o bastão do bobo da corte tradicional encimado com uma cabeça de boneca e decorado com sininhos. O mais simples é um bastão liso com um balão de borracha (ou mais tradicionalmente, uma bexiga de porco inflada) amarrada em uma ponta. Este é deixado pronto ao lado do altar.

Círculo, altar e caldeirão são decorados com folhagem e frutos da temporada – dentre os quais maçãs, e se possível nozes no ramo, devem aparecer com proeminência.

 

(ilustração do livro com a veste apresentando véu e aberturas para braços e pescoço)

 

Todos os Sabás são festas, mas Samhain é naturalmente especial. Comida e bebida devem estar prontas para o fim do ritual. Nozes devem ser incluidas, mesmo se voce conseguir apenas aquelas com casca no mercado ou pacotes de amendoim do armazém. A tradição de tostá-los para prever o futuro a partir do modo em que estes saltam (uma forma de advinhação melhor abordada com um estado de espírito leve !) é aplicável apenas se voce tiver um fogo aberto (?) no recinto.

Nota pessoal : nós temos uma gata chamada Suzie que (à parte de nossos muitos gatos) é o nosso familiar auto-nomeado. Ela é muito sensitiva e insiste em estar presente em todos os rituais; no momento em que estabelecemos o Círculo ela dispara da porta para poder entrar. Ela se comporta muito bem mas ainda não aprendeu à aceitar que a festa vem depois do ritual. Então nós temos que esconder a comida em uma tábua lateral até o momento certo. Se voce estiver na mesma situação, fique alerta !

                                                           O Ritual

 A Suma Sacerdotiza veste seu tabard branco para o ritual de abertura, com o véu jogado para trás, caso ela tenha um.

Após a Runa das Feiticeiras, o Sumo Sacerdote e a Suma Sacerdotiza pegam seus athames. Ele fica de pé de costas para o altar, ela de frente para ele do outro lado do caldeirão. Eles então traçam no ar simultâneamente o Pentagrama de Invocação da Terra com seus athames, um na direção do outro, após o que deitam seus athames – o dele sobre o altar, o dela próximo ao caldeirão.

A Suma Sacerdotiza lança incenso no carvão dentro do caldeirão. Quando ela estiver satisfeita ao ver que ele está queimando, ela fica em pé – ainda de frente ao Sumo Sacerdote, do outro lado do caldeirão. Ela chama um wicca masculino para que traga uma das velas do altar e a segure ao lado dela (de modo que ela ainda possa ler suas palavras quando, mais tarde, ela puxar o véu por sobre sua face). Ela declama (2):

 

(2) Escrito por Gerald Gardner.

 

            “Terrível Senhor das Sombras, Deus da Vida, e o Doador da Vida –

             Ainda que seja o conhecimento sobre ti, o conhecimento da Morte.

             Totalmente abertos, eu oro a ti, os Portais pelos quais tudo deve passar.

             Deixai nossos entes queridos que partiram antes

             Retornar esta noite para serem felizes conosco.

             E quando chegar a nosssa vez, como deve ser,

             Oh tu o Confortador, o Consolador,o Doador de Paz e Descanso,

             Entraremos em teus reinos alegremente e sem medo;

             Pois sabemos que quando descansados e revigorados entre nossos entes amados

             Seremos novamente renascidos por tua graça, e pela graça da Grande Mãe.

             Que seja no mesmo local e no mesmo tempo que nossos entes queridos,

             E que possamos nos reunir, e saber, e lembrar,

             E amá-los novamente.

             Descei, a ti oramos, em teu servo e sacerdote”.

 

A Suma Sacerdotiza então caminha deosil ao redor do caldeirão e aplica ao Sumo Sacerdote o Beijo Quíntuplo.

Ela retorna ao seu lugar, frente ao Sumo Sacerdote do outro lado do caldeirão, e se o seu tabard tiver um véu, ela agora o puxa para frente de modo a cobrir sua face. Ela então chama cada witch feminina por vez, pelo nome, para virem para frente e também aplicarem ao Sumo Sacerdote o Beijo Quíntuplo.

Quando todas tiverem feito isso, a Suma Sacerdotiza conduz o coven para que todos fiquem em pé ao redor do perímetro do Círculo, homem e mulher alternados, com a Donzela próxima à vela do Oeste. Assim que todos estiverem nos lugares, a Suma Sacerdotiza diz :

            “Observai, o Oeste é Amenti, a Terra dos Mortos, para a qual muitos de nossos entes amados partiram para repouso e renovação. Nesta noite, nós mantemos comunhão com eles; e assim como a nossa Donzela permanece em [atitude de_?_] boas vindas próximo ao portal Ocidental,eu chamo a todos vós, meus irmãos e minhas irmãs da Arte, para manter a imagem desses entes amados em seus corações e mentes, de forma que nossas boas vindas os possa alcançar.

            “Há mistério dentro de mistério; pois o lugar de repouso entre vida e vida é também Caer Arianrhod, o Castelo da Roda de Prata no eixo das estrelas giratórias além do Vento do Norte. Aqui reina Arianrhod, a Senhora Branca, cujo nome significa Roda de Prata. Para isso, em espírito, nós chamamos os nossos entes queridos. E que a Senhora os conduza movendo-se no sentido anti-horário para o centro. Pois o caminho espiral entrante para Caer Arianrhod conduz para a noite, e repouso, e é contra o caminho do Sol”.

A Donzela caminha, lentamente e com dignidade, no sentido widdershins (anti-horário) ao redor do Círculo, formando lentamente uma espiral para dentro, fazendo três ou quatro circuitos para alcançar o centro. Durante isto, o coven mantém absoluto silêncio e se concentram em dar boas vindas aos seus amigos falecidos.

Quando a Donzela atinge o centro, ela fica frente à Suma Sacerdotiza do outro lado do caldeirão e pára. A Suma Sacerdotiza eleva sua mão direita até a altura do ombro, por sobre o centro do caldeirão, com a palma aberta e olhando para a esquerda. A Donzela posiciona sua própria palma [da mão] direita aberta tocando e cobrindo a mão da Suma Sacerdotiza. A Suma Sacerdotiza diz :

            “Aqueles que voce traz consigo são verdadeiramente benvindos ao nosso Festival. Possam eles permanecer conosco em paz. E voce, Oh Donzela, retorne pelo caminho espiral para ficar com nossos irmãos e irmãs; mas deosil (horário) – pois o caminho do renascimento,saindo de Caer Arianrhod, é o caminho do Sol”.

Donzela e Suma Sacerdotiza quebram seu contacto de mãos, e a Donzela caminha lentamente e com dignidade em uma espiral deosil (horário) de volta para seu lugar ao lado da vela do Oeste.

A Suma Sacerdotiza aguarda até que a Donzela esteja em seu lugar e então diz :

            “Que todos nos aproximemos das paredes do Castelo”.

O Sumo Sacerdote e o coven movem-se para dentro, e todos (incluindo a Suma Sacerdotiza e a Donzela) sentam-se formando um anel fechado ao redor do caldeirão. A Suma Sacerdotiza renova o incenso.

Agora é a hora da comunhão com os amigos falecidos – e para isso nenhum ritual estabelecido pode ser iniciado, porque todos os covens diferem em suas abordagens. Alguns preferem sentar em silêncio ao redor do caldeirão, olhando fixamente para a fumaça do incenso, falando sobre o que eles vêem e sentem. Outros preferem circular de mão em mão um espelho mágico ou uma bola de cristal. Outros covens podem ter um médium talentoso e pode usá-lo(a) como um canal. Qualquer que seja o método, a Suma Sacerdotiza o direciona.

Quando ela achar que esta parte do Sabá preencheu o seu propósito, a Suma Sacerdotiza retira o véu de seu rosto e ordena que o caldeirão seja carregado e colocado ao lado da vela do Leste, o quadrante do renascimento. (Ele deve ser colocado ao lado da vela, não em frente à este, para deixar espaço para o que segue).

O Sumo Sacerdote agora toma a palavra para dar a explicação. Ele diz ao coven, informalmente mas sériamente, que, como o Samhain é um festival dos mortos, ele deve incluir uma forte reafirmação da vida – tanto por parte do próprio coven quanto por parte dos amigos falecidos que estão se movendo rumo à reencarnação. Ele e a Suma Sacerdotiza encenarão agora, portanto, o Grande Rito, como é o costume em todo Sabá; mas como esta é uma ocasião especial, haverá leves diferenças para enfatizá-lo. Ele explica estas diferenças, de acordo com a forma que o Grande Rito irá tomar.

Se o Grande Rito fôr simbólico, o cálice e o athame serão posicionados no chão, não carregados; e a Donzela e o resto do coven caminharão lentamente deosil ao redor do perímetro do Círculo durante todo o Rito. Quando este terminar, Sumo Sacerdote e Suma Sacerdotiza primeiramente oferecerão o vinho um ao outro do modo usual; porém o Sumo Sacertote então oferecerá pessoalmente o vinho à cada mulher, após o que a Suma Sacerdotiza oferecerá pessoalmente o vinho à cada homem. Então eles consagrarão os bolos e oferecê-los pessoalmente do mesmo modo. O propósito disto (o Sumo Sacerdote explica) é passar adiante o poder de vida criado pelo Grande Rito diretamente para cada membro do coven.

Se o Grande Rito fôr ‘real’, uma vez que a Donzela e o coven tenham retornado para o recinto, Sumo Sacerdote e Suma Sacerdotiza consagrarão o vinho e os bolos e os ministrarão pessoalmente da mesma forma.

Terminadas as explicações, o Grande Rito é encenado.

Posteriormente, e antes da festa, resta apenas uma coisa a ser feita. A Suma Sacerdotiza pega o bastão de ofício do Senhor do Desgoverno e o apresenta para um witch masculino escolhido (preferivelmente um com senso de humor). Ela diz à ele que ele é agora o Senhor do Desgoverno e que até o resto do Sabá ele está privilegiado para interromper os procedimentos como ele achar que deve ser e para “tirar o sarro” de qualquer um, incluindo ela mesma e o Sumo Sacerdote.

O resto do programa é dedicado à festividade e aos jogos. E se voces, como nós, tem o hábito de reservar uma pequena oferenda de comida e bebida  mais tarde para os sidhe ou seus equivalentes locais – nesta noite de todas as noites, fiquem certos que isso é algo particularmente gostoso e generoso !

 

              XI   Yule, 22 de Dezembro

 

No Solstício de Inverno, os dois temas-de-Deus do ciclo anual coincidem – ainda mais drasticamente do que o fazem no Solstício de Verão.Yule, (que, segundo o Venerável Bedes, provém do nórdico Iul significando ‘roda’) marca a morte e o renascimento do Deus-Sol; ele também marca a conquista do Rei do Holly, Deus do Ano Minguante, por parte do Rei do Carvalho, Deus do Ano Crescente. A Deusa, que era a Morte-em-Vida no Meio do Verão, agora apresenta seu aspecto de Vida-na-Morte; pois embora nessa estação ela seja a “senhora branca leprosa”, Rainha da escuridão fria, ainda assim este é o seu momento de dar a luz ao Filho da Promessa, o Filho Amante que a refertilizará e trará de volta a luz e o calor para o reinado dela.

A estória da Natividade é a versão cristã do tema do renascimento do Sol, pois Cristo é o Deus-Sol da Era Cristã. O nascimento de Jesus não está datado nos Evangelhos, e não foi até AD 273 que a Igreja deu o passo simbólicamente sensível de fixá-lo oficialmente no meio do inverno, para alinhá-lo com os outros Deuses-Sóis (tal como o Mitras persa, também nascido no Solstício de Inverno). Tal como São Crisóstomo, Arcebispo de Constantinopla, explicou um século depois com uma elogiada franqueza, a Natividade “do Sol da Virtude” fôra fixada de forma que “enquanto os pagãos estavam ocupados com seus ritos pagãos, os cristãos poderiam realizar seus ritos sagrados sem perturbação”.

“Profano”ou “sagrado” dependia do seu ponto de vista, porque ambos estavam celebrando básicamente a mesma coisa – o ciclo da maré anual da escuridão em direção à luz. Santo Agostinho reconheceu o significado solar do festival quando ele instigou os cristãos à celebrá-lo para aquele que criou o Sol, mais do que  para o próprio Sol.

Maria em Belém é novamente a Deusa como a Vida-na-Morte. Jerome, o maior estudioso dos Padres cristãos, que viveu em Belém de 386 até sua morte em 420, nos conta que havia também um bosque de Adonis (Tammuz) ali. Já Tammuz, amado da Deusa Ishtar, era o modelo supremo naquela parte do mundo do Deus Morto e Ressucitado. Ele era (como muitos de seu tipo) um deus de vegetação ou milho; e Cristo absorveu este aspecto deste tipo tanto quanto o aspecto solar, como sugere o Sacramento do Pão. Assim como Frazer ressalta (O Ramo Dourado,  pág.455), é significativo que o nome Belém significa ‘a Casa de Pão’.

A ressonância entre o ciclo do milho e o ciclo do Sol é refletido em muitos costumes: por exemplo, a tradição escocesa de manter a Donzela do Milho (o último punhado colhido) até Yule e então distribuindo-o entre o gado para fazê-lo se desenvolver todo o ano; ou, no outro sentido, a tradição alemã de espalhar as cinzas do Tronco de Yule pelos campos, ou de manter seus restos carbonizados para atá-los ao último fardo da próxima colheita (1). (Aqui novamente nos encontramos com as propriedades mágicas de tudo à respeito do fogo do Sabá, incluindo suas cinzas; pois o Tronco do Yule é, em essência, a fogueira do Sabá trazida para dentro [da casa] pelo frio do inverno).

 

(1) A transferência mágica da fertilidade de uma estação para outra através de um objeto físico encantado – particularmente por grãos ou seus produtos, ou pelos subprodutos do fogo – é um costume universal. Falando sobre o templo de Afrodite e Eros no declive ao norte da Akrópolis, onde residia a ‘Afrodite dos Jardins’, Geoffrey Grigson nos conta: “Foi à este templo que duas garotas, duas crianças, faziam uma visita ritual em toda primavera, trazendo com elas, do templo de Atenas no topo, pães moldados como falos e cobras. No templo de Afrodite os pães adquiriam o poder da fecundidade. No outono eles eram levados de volta à Akropolis, e eram esmigalhados nas sementes, para assegurar uma boa produção após a próxima semeadura. (A Deusa do Amor,  pág.162).

 

Mas retornemos à Maria. Era difícilmente surpreendente que, para a cristandade permanecer como uma religião viável, a Rainha do Céu tinha que ser readmitida à algo como o seu verdadeiro status, com uma mitologia e uma devoção popular que em muito excedia (algumas vezes até mesmo conflitante com) os dados bíblicos sobre Maria. Ela tinha que receber aquele status, porque ela respondia ao que Geoffrey Ashe chama “um anseio em forma de Deusa” – um anseio que quatro séculos de cristianismo pronunciadamente machista-chauvinista, em ambos os níveis divino e humano, tornaram insuportável. (Deve ser enfatizado que o machismo-chauvinismo da Igreja não foi inaugurado por Jesus, que tratava as mulheres como seres totalmente humanos, mas pelo misogenista doentio e odiador do sexo São Paulo).

A deificação virtual de Maria veio com alarmante velocidade, iniciada pelo Conselho de Éfeso em 431 “entre grande júbilo popular devido, sem dúvida, à influência que o culto da virgem Artemis ainda havia na cidade” (Enciclopédia Britânica, tópico ‘Éfeso’). Significativamente, isto concidia íntimamente com a supressão determinada do culto à Ísis, que tinha se espalhado através do mundo conhecido. Daí para frente, os teólogos lutaram para disciplinar Maria, permitindo sua hyperdulia (‘super-veneração’, uma versão graduada, única para ela, da dulia, veneração, consentida ao santos), mas não latria (a adoração que era monopólio do Deus masculino). Eles manipularam para criar, através dos séculos, uma síntese oficial da Rainha do Céu, pela qual eles realizaram o notável feito duplo de dessexualizar a Deusa e desumanizar Maria. Mas eles não podiam abafar o seu poder; é para ela que o adorador comum (não sabendo nem se preocupando com nada à respeito da distinção entre hyperdulia e latria) se volta, “agora e na hora da nossa morte”.

ERRATA :  Onde se encontra “Senhora Branca Leprosa” é provável  que o adjetivo se refira à cor, embora a mesma não conste nos dicionários comuns.

 

Xxx

 

O protestantismo foi  para o outro extremo e em graus variados tentou mais uma vez banir a Deusa por completo. Tudo que este conseguiu foi a perda da magia, a qual o catolicismo, seja de que forma distorcida e mutilada fosse, [ainda] mantia; pois a Deusa não pode ser banida.

(Para uma compreensão mais aprofundada sobre o fenômeno Mariano consulte as obras de Ashe A Virgem e de Marina Warner À Parte de Todo o Seu Sexo (?) (Alone of All Her Sex).

a Deusa no Yule também preside sobre o outro tema de Deus- aquele do Rei do Carvalho e do Rei do Holly, que também sobreviveu na tradição popular do Natal, embora muito da teologia oficial o ignorasse. Na maré de Yule há um jogo, o brilhante São Jorge matou o negro ‘Cavaleiro Turco’ e então imediatamente gritou que havia matado seu irmão. “Sombra e Luz, inverno e verão, são complementares um ao outro. Então vem o misterioso ‘Doutor’, com sua garrafa mágica,  que ressucita o homem morto, e tudo termina com música e regozijo. Há muitas variações locais deste jogo, mas a ação é substancialmente a mesma em toda extensão”. (Doreen Valiente Um ABC da Feitiçaria – págs. 358-60). O jogo em Yule ainda sobrevive localmente – por exemplo em Drumquin, County Tyrone, onde jovens fazendeiros exoticamente mascarados e fantasiados vão de casa em casa encenando o antigo tema com palavras e ações trazidas desde seus ancestrais; a Radio Telefís Éireann fez um filme excelente sobre isto como sua obra para o Festival da Harpa Dourada  de 1978.

Muitas vezes, naturalmente, o equilíbrio harmonioso dos gêmeos da escuridão e da luz, do minguar e crescer necessários, tem sido distorcido em um conceito de Bem-versus-Mal. Em Dewsbury, Yorkshire, durante aproximadamente sete séculos, os sinos da igreja tem badalado ‘o Badalar do Demonio’(?) ou  ‘A Passagem do Velho Rapaz’ (?) na última hora da Véspera de Natal, alertando ao Príncipe do Mal que o Príncipe da Paz está vindo para destruí-lo. Então, a partir da meia-noite, eles dão salvas e saúdam o Nascimento. Um valioso costume, face à isto – mas de fato ele encobre uma triste degradação do Rei do Holly.

Suficientemente curioso, o nome popular ‘Old Nick’ (Velho Nick) para o Demonio reflete a mesma degradação. Nik era um nome para Woden, que é muito  uma figura do Rei do Holly  - tal como o Papai Noel é, de outra forma, São Nicolau (que no folclore primitivo não era transportado por renas mas cavalgava um cavalo branco através do céu – como Woden). Assim Nik, Deus do Ano Minguante, foi cristianizado de duas formas: como Satan e como o mais alegre dos santos. A Dança do Chifre de Bromley, de Abbot (agora um rito de Setembro, outrora um rito de Yule) é baseada na igreja paroquial de São Nicolau, o que sugere uma continuidade direta desde os dias quando o patrono da localidade não era Nicolau, mas Nik. (Sobre Nik e São Nicolau, consulte a obra de Doreen Valiente ABC da Feitiçaria, págs.258-9).

Incidentalmente, na Itália o lugar do Papai Noel é tomado por uma bruxa, e uma dama bruxa neste. Ela é chamada Befana (Epifania), e ela voa nas redondezas na Décima Segunda Noite em sua vassoura, trazendo presentes para as crianças através das chaminés.

Uma extraordinária versão persistente do tema Rei do Carvalho/Rei do Holly no Solstício de Inverno é a caçada ritual e a matança dos wren (uma espécie de pássaro) – uma tradição folclórica considerada isolada no tempo e no espaço praticada nas antigas Roma e Grécia e nas atuais Ilhas Britânicas. O wren, ‘pequeno rei’ do Ano Minguante, é morto por sua contraparte do Ano Crescente, o robin de peito vermelho, que o encontra escondido num arbusto de hera (ou algumas vezes na Irlanda, num arbusto de holly, como é adequado ao Rei do Holly). A árvore do robin é o vidoeiro, que segue o Solstício de Inverno no calendário celta das árvores. No ritual representado, os homens caçavam e matavam os wren com galhos de vidoeiro.

Na Irlanda, o dia dos ‘Garotos Wren’ é o Dia de São Estéfano (?), 26 de Dezembro. Em alguns locais (a vila de pescadores de Kilbaha, em County Clare no estuário Shannon, por exemplo), os Garotos Wren são grupos de músicos adultos, cantores e dançarinos em trajes coloridos, que vão de casa em casa portando a pequena efígie de um wren em um arbusto de holly. Em County Mayo os Garotos (e garotas) Wren são festas de crianças, que também carregam arbustos de holly, batem em nossas portas e recitam seus temas para nós :

                        “O wren, o wren, o rei dos pássaros,

                          No Dia de Estéfano foi capturado no furze; (*)

                          Levante a chaleira e abaixe a panela,

                          E nos dê algum dinheiro para enterrar o wren”.

( * - tipo de arbusto)

 

Costumava-se dar ‘um penny’, mas a inflação deturpou a tradição. Toda a decoração de holly na Irlanda deve ser retidada da casa após o Natal; é considerado fator propício ao azar permitir que estes símbolos do Ano Minguante continuem.

A aparente ausência de uma tradição de Meio de Verão correspondente, onde se esperaria por uma caçada ao robin, é enigmática.

Mas pode haver um traço disso na curiosa crença Irlandesa sobre uma Kinkisha (Cincíseach), uma criança nascida em Pentecostes (Cincís), sendo que tal pessoa está fadada ou a matar ou a ser morta – à menos que a ‘cura’ seja aplicada. Essa ‘cura’ é capturar um pássaro e esmagá-lo até a morte dentro da mão da criança (enquanto se recita três Ave Marias). Em alguns locais pelo menos, o pássaro tem que ser um robin, e nós achamos que esta é provavelmente a tradição original, pois Pentecostes é uma festividade móvel, caindo em qualquer data desde 10 de Maio até 13 de Junho – isso é, rumo ao final do reinado do Rei do Carvalho. Pode ser que há muito tempo atrás, uma criança nascida nessa estação corria o risco de se tornar um sacrifício substituto para o Rei do Carvalho, e que escapada melhor do que encontrar uma reposição na forma de seu próprio pássaro substituto, o robin de peito vermelho ? E o perigo de ‘matar ou ser morto’ pode ser uma recordação do destino de matar do Rei do Carvalho no Meio do Inverno e de ser morto no Meio do Verão. (2)

O robin do Ano Minguante nos leva até Robin Hood, aparecendo em ainda outro festival sazonal. “Em Cornwall”,  Robert Graves nos conta, “Robin” significa falo. ‘Robin Hood’ é um nome campestre para campion vermelho (‘campion’significa ‘campeão’), talvez porque sua pétala fendida sugere um casco de carneiro, e porque Campeão Vermelho era um título do deus das Bruxas. . . . ‘Hood’ (ou Hod ou Hud) significava ‘tronco’ – o tronco colocado atrás do fogo – e era nesse tronco, cortado do carvalho sagrado, que se acreditou uma vez que Robin residia – daí ‘montaria [ou cavalo_?] de Robin Hood’, o parasita da madeira que escapava quando o tronco de Yule era queimado. Na superstição popular o próprio Robin escapou por cima da chaminé na forma de um robin e, quando Yule terminou, saiu como Belin contra seu rival Bran, ou Saturno – que tinha sido ‘Senhor do Desgoverno’ nos festejos da  maré de Yule. Bran se escondeu da perseguição no arbusto de hera disfarçado como um Wren de Crista Dourada; mas Robin sempre o capturava e enforcava”. (A Deusa Branca, pág.397).

A menção do calendário celta de árvores (e de A Deusa Branca de Graves, sua análise moderna mais detalhada) nos traz de volta ao aspecto da Deusa e do Deus-Sol. Como será visto no nosso diagrama na página 26, as “Cinco Estações da Deusa” de Graves estão distribuidas ao longo do ano, mas duas delas (Morte e Nascimento) estão juntas em dias consecutivos no Solstício de Inverno, 22 e 23 de Dezembro. O último é um ‘dia extra’, que não pertence à qualquer uma das treze árvores-mês. Antes dele vem Ruis, a árvore-mês mais antiga, e após vem Beth, a árvore-mês vidoeiro. O padrão, cujo simbolismo valerá o estudo (embora preferívelmente no contexto do ano civil completo) é tal como segue, ao redor do Solstício de Inverno :

25 de Novembro – 22 de Dezembro : Ruis, a árvore mais antiga; uma árvore de julgamento e do aspecto sombrio da Deusa, com flores brancas e fruto negro (“Antiga é a árvore da Senhora – não a queime, ou serás amaldiçoado”). Pássaro, a gralha (rócnat); a gralha, ou corvo, é o pássaro profético de Bran, a divindade do Rei do Holly, que também está ligado aos wren na Irlanda, enquanto que em Devonshire o wren é o ‘cuddy vran’ ou ‘pardal de Bran’. Côr, vermelho-sangue (ruadh). Uma linha da Canção de Amergin: “Eu sou uma onda do mar” (para peso).

22 de Dezembro. Estação da Morte da Deusa: Árvore, o teixo,  (idho), e a palmeira. Metal, o chumbo. Pássaro,  águia (illait). Côr, muito branco (irfind).

23 de Dezembro O Dia Extra; Estação do Nascimento da Deusa: Árvore, fir (?) prateada (ailm), a Árvore de Natal original; também mistle-toe (?). Metal, prata. Pássaro, lapwing (?) (aidhircleóg), o piebald trapaceiro. Côr, piebald (algo como pintado ou malhado) (alad). Amergin pergunta: “Quem além de mim conhece os segredos dos dolmens não abatidos (?) ?”

24 de Dezembro – 20 de Janeiro: Beth, a árvore vidoeiro; uma árvore de começo e  o exorcismo dos maus espíritos. Pássaro, faisão (besan). Côr, branco (bán). Amergin proclama: “Eu sou um cervo de sete chifres (?)” (para força).

O renascimento do Solstício de Inverno, e a parte da Deusa neste, foram retratados no antigo Egito através de um ritual no qual Isis circundava o santuário de Osíris sete vezes, para representar seu lamento por ele e suas andanças em busca dos membros espalhados de seu corpo. O texto de sua canção fúnebre para Osiris, no qual sua irmã Nephthys (que em um sentido é seu próprio aspecto obscuro) se reunira à ela, pode ser encontrado em duas versões de alguma forma diferentes em O Ramo Dourado, pág.482, e na obra de Esther Harding Mistérios da Mulher, págs.188-9. Typhon ou Set, o irmão/inimigo que o matou, era afastado pelo sacudir do sistro (tipo de sino_?) de Isis, para trazer o renascimento de Osiris. A própria Isis era representada pela figura de uma vaca com o disco solar entre seus chifres. Para o festival, as pessoas decoravam a parte externa de suas casas com lâmpadas de óleo que queimavam toda a noite. À meia noite, os sacerdotes emergiam de uma capela interna gritando “A Virgem concebeu ! A luz está aumentando !” e mostrando a imagem de um bebê aos adoradores. O posicionamento na tumba do Osiris morto era em 21 de Dezembro, após seu longo ritual de mumificação (que começava, interessantemente, em 3 de Novembro – virtualmente em Samhain); em 23 de Dezembro sua irmã/esposa Isis deu a luz à seu filho/outro self Horus. Osiris e Horus representam ao mesmo tempo os aspectos de Deus solar e vegetal; Horus é ambos o Sol renascido (os gregos o identificaram com Apolo) e o ‘Senhor das Colheitas’. Um outro nome de Horus, ‘Touro de Tua Mãe’, nos lembra que o Deus-criança da Deusa é, em outro ponto do ciclo, seu amante e fecundador, pai no devido curso de seu próprio self renascido.

As lâmpadas queimando toda a noite na véspera do Meio de Inverno sobrevivem, na Irlanda e em outros lugares, como uma única vela queimando na janela na Véspera de Natal, acesa pela pessoa mais jovem da casa – um símbolo da saudação microcósmica ao Macrocosmo, não diferente do lugar extra deixado na mesa de Pesach de uma família judia (em cuja mesa, incidentalmente, o filho mais jovem com sua pergunta “Pai, porque esta noite é diferente de todas as outras noites?”, também tem um papel importante a desempenhar).

A proprietária do pub da nossa vila oferece sua própria saudação microcósmica, seguindo uma tradição que ela nos diz que foi outrora difundida entre os donos de hospedarias irlandeses. Ela limpa um banco de estábulo, coloca palha fresca e deixa ali alguma comida, uma garrafa de vinho e uma mamadeira com leite- de modo que haverá ‘vaga na hospedaria’. Ela fica tímida para falar sobre isso mas lamenta que o costume pareça estar acabando.

Um amigo que viveu com os eskimós na Groenlândia, onde o cristianismo oprimiu um equilíbrio anterior bem integrado de crença e modo de vida, nos conta como os rituais do Solstício de Inverno morreram sem ser significativamente repostos. Pode-se dificilmente dizer que os eskimós celebram o Natal, em comparação com o festival tal como é conhecido nos países cristãos ‘antigos’; embora os ritos de solstício tradicionais (que aparentemente eram ocasiões memoráveis) não são mais observados pois eles dependem de cálculo exato do solstício através de observação estelar – uma habilidade que a geração atual não mais possui. Tudo para as bênçãos da civilização tecnológica !

 

Legendas das ilustrações : Pág.145 – Quando a privacidade permitir, os rituais ao ar livre são os melhores;  segue – (12) Lughnasadh e Bealtaine: A Caça do Amor, (13) (acima) Lughnasadh: A Dança do Milho, (14) (abaixo) Equinócio de Outono: “Observai o mistério”; (15) Quando uma Suma Sacerdotiza tem mais dois covens formados fora do seu próprio, ela é autorizada à se denominar ‘Bruxa Rainha’ e à usar o número apropriado de fivelas em sua liga [de meia] de bruxa; (16) Yule: A Deusa lamenta a morte do Deus Sol; (17) Consagrando o Vinho; (18) Espada e Athame simbolizam o elemento Fogo em nossa tradição. Outras os atribuem ao Ar; (19) O Grande Rito Simbólico: “Aqui onde a Lança e o Graal se unem”;  (20) (outro lado) A Lenda da Descida da Deusa: “Tal era a sua beleza que a própria Morte se ajoelhou e deitou sua espada e coroa aos seus pés”

 

Em Atenas, o ritual do Solstício de Inverno era o Lenaea, o Festival das Mulheres Selvagens. Aqui, a morte e o renascimento do deus da colheita Dionísio era encenado. No passado sombrio este tem sido um ritual de sacrifício do deus,e as nove Mulheres Selvagens picaram seu representante humano em pedaços e o comeram. Porém pelos tempos clássicos os Titãs se tornaram os sacrificadores, a vítima tendo sido substituida por um cabrito,e as nove Mulheres Selvagens se tornaram lamentadoras e testemunhas do nascimento. (Vide A Deusa Branca, Pág.399). As Mulheres Selvagens também aparecem nas lendas nórdicas; como as Waelcyrges (Valkírias) elas cavalgavam com Woden em sua Caçada Selvagem.

No ritual de Yule do Livro das Sombras, apenas o renascimento do Deus-Sol é apresentado, com o Sumo Sacerdote invocando a Deusa para “nos trazer o Filho da Promessa”. O tema Rei do Holly/Rei do Carvalho é ignorado – uma estranha omissão em vista de sua persistência no folclore da estação.

Nós combinamos os dois temas em nosso ritual, escolhendo o Rei do Carvalho e o Rei do Holly por sorteio, pois no Meio do Verão, imediatamente após o ritual de abertura – porém adiando o ‘assassinato’ do Rei do Holly para após a morte e renascimento do Sol.

Surge um problema a respeito da coroa do Rei do Carvalho; enquanto que no Meio do Verão as folhas de carvalho e holly são ambas disponíveis, em Yule as folhas de carvalho não estão. Uma solução seria armazenar folhas de carvalho de antemão no Verão ou Outono, pressioná-las e laqueá-las e fabricar uma coroa permanente do Rei do Carvalho para uso na maré de Yule. Outra solução, talvez menos frágil, é fabricar sua coroa permanente de frutos (?) de carvalho quando estiverem em sua temporada. Ou voce pode usar as folhas de inverno do Olmo ou Carvalho Sempre Verde (Quercus iex). Tudo isso falhando, faça a coroa de galhos desfolhados de carvalho mas torne-os brilhantes com ouro falso (?) de Natal ou outra decoração disponível.

Em Yule, a Deusa é a ‘senhora branca leprosa’, Aquela de Cabelo Branco, Vida-em-Morte; assim, sugerimos que a Suma Sacerdotiza deveria novamente usar o chiffon branco ou tabard de filó (?) que nós descrevemos para Samhain. Uma adição dramaticamente efetiva, se ela possuir um ou isso possa ser disponibilizado, é uma peruca de branco puro, preferivelmente comprida. Se o seu coven operar vestido de céu, ela tirará o tabard antes do Grande Rito porém retenha a peruca se ela estiver usando uma, porque ela simboliza seu aspecto sazonal.

O lamento da Suma Sacerdotiza “Retorne, oh, retorne! . . .”, é uma forma ligeiramente adaptada do lamento de Isis por Osiris acima mencionado.

Se, isso é mais que provável, voces tiverem uma árvore de Natal na sala, quaisquer luzes sobre ela deverão ser apagadas antes do Círculo ser lançado. O Sumo Sacerdote poderá então acendê-las imediatamente após ele acender a vela do caldeirão.

Caso haja uma lareira aberta no recinto, um Tronco de Yule poderá ser queimado durante o Sabá. Este deverá ser, naturalmente, de carvalho.

 

                                   A Preparação

O caldeirão é posicionado próximo à vela do Sul, com uma vela ainda não acesa dentro deste e envolto com holly, hera e mistletoe.

Coroas para o Rei do Carvalho e o Rei do Holly estão prontas ao lado do altar. Um pouco de palha é colocada sobre o altar – tantos ramos quanto houverem homens presentes ao Sabá, exceto para o Sumo Sacerdote. Um deles é maior do que o resto e o outro é menor. (Tal como no Meio do Verão, se a Suma Sacerdotiza decidor por nomear os dois Reis ao invés de sortear, as palhas não serão necessárias).

Uma venda para os olhos do Rei do Holly está preparada próximo ao altar.

Um sistro (?) para a Suma Sacerdotiza é colocado sobre o altar. O Sumo Sacerdote vestirá um tabard branco e, caso ela assim escolha, uma peruca branca.

Caso haja uma árvore de Natal com luzes no recindo, as luzes deverão ser apagadas.

Caso haja uma lareira aberta na sala, será produzido fogo até que esteja vermelho e brilhante, e um Tronco de Yule é colocado sobre este um pouco antes de o Círculo ser lançado.

 

                                   O Ritual

Após a Runa das Feiticeiras, a Donzela traz as palhas do altar e as segura em sua mão de forma que todas as pontas estejam com seus comprimentos variados mas ninguém deve saber qual é o galho mais curto e qual é o mais longo. A Suma Sacertotiza diz :

            “Que os homens façam o sorteio.”

Cada homem (exceto o Sumo Sacerdote) retira um galho da mão da Donzela e o mostra à Suma Sacerdotiza. A Suma Sacerdotiza aponta para o homem que tirou o ramo curto, e diz :

            “Vós sois o Rei do Holly, Deus do Ano Minguante. Donzela, traga sua coroa!”

A Donzela coloca a coroa de folhas de holly sobre a cabeça do Rei do Holly.

A Suma Sacertotiza aponta para o homem que tirou o ramo comprido, e diz :

            “Vós sois o Rei do Carvalho, Deus do Ano Crescente. Donzela, traga sua coroa!”

A Donzela coloca a coroa de folhas de carvalho sobre a cabeça do Rei do Carvalho.

Enquanto a coroação prossegue, o Sumo Sacerdote se deita sobre o chão no centro do Círculo, curvado em uma posição fetal. Todos fingem não vê-lo fazer isso.

Quando a coroação termina, o Rei do Carvalho diz :

            “Meu irmão e eu fomos coroados e estamos preparados para nossa disputa. Mas onde está o nosso Senhor o Sol?”

A Donzela responde :

“Nosso Senhor o Sol está morto!”

Se o tabard da Suma Sacerdotiza tiver um véu, ela o puxa por sobre sua face.

O coven se arruma ao redor do perímetro do Círculo.

A Suma Sacerdotiza pega o sistro, e a Donzela pega uma vela. Elas caminham juntas vagarosamente so redor do Sumo Sacerdote, deosil, sete vezes. A Donzela segura a vela de forma que a Suma Sacerdotiza possa ler o seu texto, e conta silenciosamente “Um’, “Dois”, e assim até chegar à “Sete”, assim que cada circuito for completado. Enquanto elas seguem, a Suma Sacerdotiza chacoalha seu sistro e lamenta :

            Retorne, oh, retorne!

            Deus do Sol, Deus da Luz, retorne!

            Teus inimigos fugiram – tu não tens inimigos.

            Oh amável auxiliar, retorne, retorne!

            Retorne para tua irmã, tua esposa, que te ama!

            Nós não seremos separados (?).

            Oh meu irmão, meu consorte, retorne, retorne!

            Quando eu não te vejo,

            Meu coração lamenta por ti,

            Meus olhos buscam por ti,

            Meus pés viajam pela Terra procurando por ti!

            Deuses e homens pranteiam juntos por ti.

            Deus do Sol, Deus da Luz, retorne!

            Retorne para tua irmã, tua esposa, que te ama!

            Retorne! Retorne! Retorne!”

 

Quando os sete circuitos forem completados, a Suma Sacerdotiza deposita seu sistro sobre o altar e se ajoelha próximo ao Sumo Sacerdote, com suas mãos repousando sobre o corpo dele e suas costas voltadas para o altar. (Vide Ilustração 16.)

O coven, exceto a Donzela, se dá as mãos e se move vagarosamente deosil ao redor da Suma Sacerdotiza e do Sumo Sacerdote.

A Donzela fica em pé próximo ao altar e declama: (3)

 

(3) Escrito por Doreen Valiente, com palavras sugeridas por um hino de Natal em Carmina Gadelica, recolhida por Alexander Carmichael de Angus Gunn, um cottar (?) de Lewis. (Vide Carmina Gadelica, Volume I, Página 133, ou O Sol Dança, Página 91). “Foi o primeiro cântico ou invocação que eu já escrevi para Gerald”, nos diz Doreen – no Yule de 1953, ela acha. Ele deu à ela a tarefa de escrever palavras para o ritual da véspera sem aviso, após o almoço, “deliberadamente me lançando no maior extremo para ver o que eu poderia fazer”.

 

“Rainha da Lua, Rainha do Sol,

Rainha dos Céus, Rainha das Estrelas,

Rainha das Águas, Rainha da Terra,

Trazei a nós o Filho da Promessa!

É a Grande Mãe que dá a luz à Ele;

É o Senhor da Vida que nasce novamente;

Escuridão e lágrimas serão afastadas quando o Sol chegar cedo!”

 

A Donzela dá uma pausa em sua declamação, e a Suma Sacerdotiza fica de pé, trazendo o Sumo Sacerdote para seus pés. Se ela estiver velada, ela retira novamente o véu de sua face. A Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote olham um para o outro, entrelaçando suas mãos entre si, e começam a girar deosil dentro do coven.

O círculo do coven se torna mais animado e veloz.

A Donzela prossegue :

                        “Sol Dourado da colina e da montanha,

                         Ilumine a terra, ilumine o mundo,

                         Ilumine os mares, ilumine os rios,

                         Cessem os lamentos, alegria  para o mundo!

                         Bendita seja a Grande Deusa,

                         Sem começo, sem fim,

                         Perpétua pela eternidade, Io Evo! He(4)! Bendita seja !

                        Io Evo! He ! Bendita seja !

                        Io Evo! He ! Bendita seja ! . . .

 

(4) Pronunciado ‘Yo ayvo, hay’ (o ‘ay’ como em ‘day’). Um grito da Bacanália Grega. Para algumas ponderações acerca de seu possível significado sexual, vide a obra de Doreen Valiente Magia Natural, Página 92.

 

O coven se une ao cântico “Io Evo! He(4)! Bendita seja !”, e a Donzela deixa seu texto e a vela e se une ao círculo. O cântico e o círculo continuam até que a Suma Sacerdotiza grite “Sentem-se!”

Quando todos estiverem sentados, o Sumo Sacerdote levanta novamente e vai para o altar para buscar uma vela ou toco de vela. Ele a leva até o caldeirão e com ela acende a vela dentro do caldeirão. Então ele devolve a vela ou toco de vela original para o altar. Se houver uma árvore de Natal com lâmpadas, ele agora acende as lâmpadas.

Ele então toma seu lugar em frente ao altar, onde a Suma Sacerdotiza se une à ele, e ambos ficam em pé olhando para o coven sentado.

A Suma Sacerdotiza diz :

“Agora, no auge do inverno, o declínio do ano está terminado, e o reinado do Rei do Holly é finalizado. O Sol renasceu e o crescimento do ano começa. O Rei do Carvalho deve matar seu irmão o Rei do Holly e reger sobre a minha terra até o ápice do verão, quando seu irmão se erguerá novamente.”

O coven fica de pé e, exceto para os dois Reis, se afastam rumo ao perímetro. No centro do Círculo, os dois Reis ficam de pé olhando um para o outro, o Rei do Carvalho de costas para o Oeste e o Rei do Holly de costas para o Leste.

O Rei do Carvalho coloca suas mãos sobre os ombros do Rei do Holly, pressionando para baixo. O Rei do Holly cai de joelhos. Entrementes, a Donzela traz o cachecol, e ela e o Rei do Carvalho vendam os olhos do Rei do Holly. Ambos agora se afastam do Rei do Holly ajoelhado; a Suma Sacerdotiza caminha vagarosamente deosil ao redor dele, três vezes. Ela então se une novamente ao Sumo Sacerdote em frente ao altar.

O Sumo Sacerdote diz:

“O espírito do Rei do Holly partiu do meio de nós, para repousar em Caer Arianrhod, o Castelo da Roda de Prata; até que, com a  passagem do ano, chegará a estação quando ele retornará a reger novamente. O espírito se foi; portanto que o homem dentre nós que abrigou aquele espírito seja dispensado de sua tarefa.”

A Suma Sacerdotiza e a Donzela vão adiante novamente e ajudam o Rei do Holly à se levantar. Elas o conduzem para a vela do Oeste, onde a Donzela retira sua venda e a Suma Sacerdotiza retira sua coroa, deixando estes ao lado da vela. O homem se vira e novamente se torna um membro comum do coven.

O Grande Rito é agora encenado, a Donzela ficando perto como athame e o Rei do Carvalho com o cálice. (Se o Sabá for realizado com todos vestidos de céu, a Donzela primeiramente ajudará a Suma Sacerdotiza à tirar seu tabard  - que, sendo branco, pode então perfeitamente ser usado como o véu colocado sobre seu corpo para a primeira parte do Grande Rito).

Após o vinho e os bolos, o caldeirão é movido para o centro do Círculo, e todos saltam sobre ele do modo costumeiro antes do estágio da festa começar.

No dia seguinte, quando a fogueira (se houver) estiver fria, as cinzas do Tronco de Yule devem ser recolhidas e espalhadas pelos campos ou jardim – ou, se voce mora na cidade e não tem nem uma jardineira de peitoril de janela, no parque mais próximo ou terra cultivada.

 

Nascimento, Casamento e Morte

 

                                                    XII Wiccaning

 

Este é um livro de rituais sugeridos para aqueles que necessitem usá-los e que os acha adequados. Portanto não é local para debater a difícil questão da educação religiosa dos filhos. Porém acreditamos que um ponto deve ser levantado.

Os cristãos, quando tem seus filhos cristianizados, fazem tudo aquilo com a intenção de comprometê-las ao cristianismo, preferívelmente por toda a vida – e à própria marca particular de cristandade dos pais, referente àquilo. A crença comum é que os filhos endossarão aquele compromisso através da confirmação, quando estiverem mais velhos o suficiente para concordar conscientemente (embora sem julgamento maduro). Para ser justo, estes pais – quando eles não estão meramente seguindo uma convenção social – muitas vezes agem deste modo porque eles acreditam sinceramente que isto é essencial para a segurança das almas de seus filhos. Eles foram educados para acreditar nisso e muitas vezes foram ameaçados para crer nisso. (Uma jovem amiga nossa cristã, com a gravidez avançada, foi advertida pelo médico que a criança poderia nascer morta; ela soluçou em nossos braços, aterrorizada de que seu bebê poderia ir para o Inferno se ele não vivesse o suficiente para ser batizado. Ela estava teológicamente errada, mesmo em termos de sua própria crença; mas seu terror era muito típico. Nós estamos felizes em dizer que seu bebê menino, embora tardiamente, nasceu bem e com saúde).

Essa crença, de que existe apenas um tipo de bilhete para o Céu e que um bebê deve recebê-lo à toda velocidade para sua própria segurança, é naturalmente desconhecida para o Wicca. A crença Wicca na reencarnação nega isso em qualquer caso. Mas aparte daquilo, as bruxas mantém o ponto de vista que era virtualmente universal antes da era do monoteísmo patriarcal – nominalmente, que todas as religiões são modos diferentes de expressar as mesmas verdades e que sua validade para qualquer indivíduo em particular depende de sua natureza e necessidades.

Uma cerimônia Wicca para o filho de uma família de bruxos não compromete, portanto, a criança com qualquer caminho, mesmo o caminho Wicca. É similar à cristianização no sentido em que ela invoca a proteção Divina para a criança e afirma ritualmente o amor e o cuidado com que a família e amigos desejam rodear o recém nascido. Ela difere da cristianização no sentido que ela reconhece específicamente que, quando a criança amadurece e se torna adulta, ela decidirá, e deveras o deve fazer, sobre seu próprio caminho.

Wicca é acima de tudo uma religião natural – assim os pais bruxos naturalmente tentarão comunicar aos seus filhos o prazer e a realização que sua religião os oferece, e toda a família inevitavelmente compartilhará em seu modo de vida. Compartilhar é uma coisa; impor ou ditar é outra e, longe de assegurar uma ‘salvação’ da criança, pode muito bem adiá-la – se, como fazem as bruxas, voce considerar a salvação não como um tipo de transação instantânea mas como um desenvolvimento ao longo de muitas vidas.

Nós compusemos nosso ritual de wiccaning (presumívelmente wiccaning se refere ao nascimento dos bebês e sua criação) nesse contexto, e achamos que a maioria das bruxas concordará com esta atitude.

Nós sabíamos que a idéia de ter padrinhos – amigos adultos que manterão um contínuo interesse pessoal no desenvolvimento da criança – era uma idéia popularmente justificável; e achamos  que uma cerimônia de wiccaning também poderia permitir isso. Primeiramente, nós chamamos estes amigos adultos de ‘patrocinadores’, para evitar confusão com a prática cristã. Mas numa consideração maior nós percebemos que ‘patrocinador’ era uma palavra fria e que não havia nenhuma razão porque ‘padrinho’ e ‘madrinha’ (se ‘deus’ pode incluir ‘deusa’) não poderia servir para as bruxas tanto quanto para os cristãos. Por fim, dadas as diferenças de credo (e os cristãos diferenciam-se entre si, Deus sabe), incluindo a diferença de atitude que já mencionamos, a função é a mesma.

Os padrinhos não devem necessáriamente serem eles próprios bruxos; isso cabe aos pais. Mas eles devem ao menos ser simpatizantes com a intenção do rito e terem lido o mesmo completamente de antemão, para assegurar que eles podem fazer as promessas necessárias com toda sinceridade. (O mesmo se aplicaria, por fim, às bruxas que fossem convidadas por amigos cristãos para serem padrinhos num batismo na igreja).

Se a Suma Sacerdotiza e/ou o Sumo Sacerdote estiverem eles mesmos na condição de padrinhos, eles farão as promessas um para o outro nos momentos apropriados do ritual.

Há uma estória relacionada à este nosso ritual que é ao mesmo tempo engraçada e triste. Nós o escrevemos originalmente em 1971, e demos uma cópia à um Sumo Sacerdote amigo que achamos que iria gostar de recebê-lo. Um par de anos depois, um amigo bruxo americano estava nos visitando, e aconteceu de nós descrevermos nosso wiccaning para ele em conversação. Ele riu e disse : “Mas eu li este ritual. Da última vez que estive em Londres, ( nome ) o mostrou para mim. Ele disse que o havia conseguido de uma fonte tradicional muito antiga”.

Porém tais irresponsabilidades são estórias apócrifas lançadas; e elas não fazem bem à Wicca de forma nenhuma. Além do mais, nós temos desde então revisado o ritual superficialmente sob a luz da experiência – então pessoas que conhecem o original irão agora nos acusar de ‘adulterá-lo com tradição’ ? Isso poderia ocorrer !

 

Seguindo padrões Wicca, nós sugerimos que o Sumo Sacerdote deveria presidir no wiccaning de uma menina, e a Suma Sacerdotiza no de um menino. A fim de evitar extensas repetições, nós apresentamos o ritual completo para uma menina, e então indicamos as diferenças para um menino.

 

                                                           Preparação

Caso o coven normalmente opere vestido de céu, a decisão se o ritual será vestido de céu ou de robe ficará nesta ocasião com os pais. Em qualquer caso, a Suma Sacerdotiza portará os símbolos da Lua, e o Sumo Sacerdote os símbolos do Sol.

O círculo é marcado com flores e folhagem, e o caldeirão colocado no centro, preenchido com o mesmo, e talvez com frutas também.

Óleo para consagração é colocado preparado sobre o altar.

Apenas incenso muito leve deve ser usado – preferívelmente joss-sticks (em palito_?).

Presentes para a criança são colocados ao lado do altar e comida e bebida para uma pequena festa no Circulo após o ritual.

Os pais devem escolher de antemão um ‘nome oculto’ para a criança. (Isso é amplamente para o benefício próprio da criança; crescendo em uma família de bruxos, ele ou ela quase certamente gostará de ter um ‘nome wicca’ privativo assim como fazem a Mamãe e o Papai – e em caso negativo, este pode ser silenciosamente esquecido até que e à menos que seu usuário queira usá-lo novamente).

                                                           O Ritual para uma Menina

O Ritual de Abertura prossegue como usual até o fim da invocação do “Grande Deus Cernunnos”, exceto que todos, incluindo os pais e a criança, está no Circulo antes do encantamento, sentados em semi-círculo próximo ao caldeirão e olhando de frente ao altar – deixando espaço para a Suma Sacerdotiza lançar(encantar) o Círculo ao redor deles. Apenas a Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote estão em pé, para conduzir o Ritual de Abertura. Para encurtar movimentos excessivos que poderiam assustar a criança, a Suma Sacerdotiza lança o Círculo com seu athame, não a espada; e ninguém se move com ela, ou copia seus gestos, quando ela invocar os Senhores das Torres de Vigia. Ela e o Sumo Sacerdote circulam os elementos.

Após a invocação “Grande Deus Cernunnos”, a Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote consagram o vinho. Eles não o provam mas colocam o cálice sobre o altar.

O Sumo Sacerdote fica então de pé em frente ao altar, olhando para o caldeirão. A Suma Sacerdotiza permanece pronta para lhe entregar o óleo, vinho e água.

O Sumo Sacerdote diz :

Nós nos reunimos neste Círculo para pedir a bênção do poderoso Deus e da gentil Deusa sobre ( nome ), a filha de ( nome ) e ( nome ), de forma que ela possa crescer em beleza e força, em prazer e sabedoria. Há muitos caminhos, e cada um precisa encontrar o seu próprio; portanto nós não pretendemos comprometer (nome) com qualquer caminho enquanto ela ainda for muito jovem para escolher. Por outro lado nós devemos pedir ao Deus e à Deusa, que conhecem todos os caminhos, e à quem todos os caminhos levam, para abençoá-la, protege-la e prepará-la ao longo dos anos de sua infancia; de forma que finalmente quando ela estiver realmente crescida, ela saberá sem dúvida ou medo qual caminho é o dela e ela o trilhará alegremente.

“ (nome), mãe de (nome), traga-a adiante para que ela possa ser abençoada”.

O pai ajuda a mãe à levantar,e ambos conduzem a criança ao Sumo Sacerdote, que a toma em seus braços (com firmeza, ou ela se sentirá insegura – muitos clerigos cometem este erro!). Ele pergunta:

“ (nome), mãe de (nome), esta tua filha tem também um nome oculto ?”

A mãe responde:

“Seu nome oculto é ( nome ).”

O Sumo Sacerdote então unge a criança na testa com óleo, marcando um pentagrama e dizendo:

“Eu te aplico o óleo, (nome civil), e te concedo o nome oculto de (nome)”.

Ele repete a ação com o vinho, dizendo :

“Eu te aplico o vinho, (nome oculto), em nome do poderoso Deus Cernunnos”.

Ele repete a ação com a água, dizendo :

“Eu te aplico a água, (nome oculto), em nome da gentil Deusa Aradia”.

O Sumo Sacerdote devolve a criança para a mãe e então conduz os pais e a criança por cada uma das Torres de Vigia ao redor, dizendo :

“Vós Senhores das Torres de Vigia do Leste (Sul, Oeste, Norte), nós trazemos perante vós (nome), cujo nome oculto é (nome), e que foi devidamente ungida dentro do Circulo Wicca. Ouvi todos vós, portanto, que ela está sob a proteção de Cernunnos e Aradia”.

O Sumo Sacerdote e a Suma Sacerdotiza tomam seus lugares olhando para o altar, com os pais e a criança entre eles. Eles erguem seus braços e invocam um por vez:

Sumo Sacerdote: “Poderoso Cernunnos, concedei sobre esta criança o dom da força”.

Suma Sacerdotiza: “Gentil Aradia, concedei sobre esta criança o dom da beleza”.

Sumo Sacerdote: “Poderoso Cernunnos, concedei sobre esta criança o dom da sabedoria”.

Suma Sacerdotiza: “Gentil Aradia, concedei sobre esta criança o dom do amor ”.

O Sumo Sacerdote, a Suma Sacerdotiza e os pais viram-se para olhar para dentro do Circulo, e o Sumo Sacerdote então pergunta :

“Há duas pessoas no Círculo que assumam a condição de padrinhos de ( nome ) ?”

(Caso ele e a Suma Sacerdotiza estejam sob a condição de padrinhos, ele perguntará, ao invés : “Há alguma pessoa no Círculo que assuma comigo a condição de padrinhos de ( nome )?” e a Suma Sacerdotiza responde : “Eu me unirei à vos”. Eles então olham um para o outro e falam as perguntas e as promessas um para o outro).

Os padrinhos caminham adiante e ficam de pé, a madrinha de frente para o Sumo Sacerdote, e o padrinho de frente para a Suma Sacerdotiza.

O Sumo Sacerdote pergunta para a madrinha :

“Vós, ( nome ), promete ser uma amiga para ( nome ) ao longo de sua infância, à auxiliá-la e guiá-la quando ela precisar; e de acordo com seus pais, à cuidar dela e amá-la como se ela fosse de seu próprio sangue, até que pela graça de Cernunnos e Aradia ela esteja preparada para escolher o seu próprio caminho?”

A madrinha responde :

“Eu, ( nome ), assim prometo”.

A Suma Sacerdotiza pergunta ao padrinho :

“Vós, ( nome ), promete . . .” etc., tal como acima.

O padrinho responde :

“Eu, ( nome ), assim prometo”.

O Sumo Sacerdote diz :

 

            “O Deus e a Deusa a abençoaram;

              Os Senhores das Torres de Vigia a reconheceram;

              Nós seus amigos a recebemos com boas vindas;

              Portanto, Oh Círculo de Estrelas,

              Brilhai em paz sobre ( nome ),

              Cujo nome oculto é ( nome ).

              Que assim seja.

 

Todos dizem :

“Que assim seja”.

O Sumo Sacerdote diz :

“Que todos se sentem dentro do Círculo”.

Todos se sentam, exceto o Sumo Sacerdote e a Suma Sacerdotiza, que provam e passam adiante o vinho já consagrado na maneira usual e então consagram e passam adiante os bolos na maneira usual.

Eles então trazem os presentes e a comida e bebida da festa e sentam-se junto com os outros, e o procedimento se torna informal.

 

                                               O Ritual para um Menino

A diferença básica se o bebê for um menino é que o Sumo Sacerdote e a Suma Sacerdotiza trocam as tarefas. Ela faz a declaração de abertura e realiza a unção, o Sumo Sacerdote entregando a ela o óleo, vinho e água. Ela apresenta a criança às Torres de Vigia.

A invocação ao Deus e da Deusa para seus dons de força, beleza, sabedoria e amor, contudo, é feita exatamente como para uma menina, e na mesma ordem.

A Suma Sacerdotiza convoca os padrinhos e toma a promessa do padrinho; o Sumo Sacerdote então toma a promessa da madrinha.

A Suma Sacerdotiza pronuncia a bênção final.

 

                                                    XIII Handfasting

 

Um handfasting é um casamento de bruxos. Stewart explicou sobre o handfasting com mais detalhes no Capítulo 15 de  O Que As Bruxas Fazem, assim sendo não repetiremos aquela explicação aqui. Todas as versões demasiado diferentes do ritual de handfasting que nós temos encontrado (incluindo aquela em destaque na obra O Que As Bruxas Fazem) foram elaboradas em anos recentes e são uma mistura de pedaços de tradição (tal como saltar sobre a vassoura) com as idéias do próprio criador. Na extensão em que sabemos, nenhum ritual de handfasting detalhado e provávelmente antigo existe no papel.

Assim quando nós fomos convidados à conduzir um handfasting para dois de nossos membros uns poucos dias após seu casamento legal, nós decidimos que também escreveríamos o nosso próprio ritual, uma vez que nenhum daqueles que nós conhecíamos bem nos satisfazia.

Como muitos outros bruxos e ocultistas, nós descobrimos no inesquecível romance de Dion Fortune A Sacerdotiza do Mar (Aquarian Press, Londres, 1957) uma mina de ouro de materiais para rituais elaborados e nos beneficiamos dos resultados. Então, para o handfasting de nossos amigos, nós incorporamos algumas das palavras do Sacerdote da Lua para Molly no Capítulo XXX da Sacerdotiza do Mar (1); nós sentimos que elas quase poderiam ter sido escritas para o propósito. Elas são as quatro citações abaixo, de “Afrodite Dourada vinde não como a virgem . . .” até “eles se tornaram a substância do sacramento”. Nossa única alteração ao original foi para substituir “noiva” por “sacerdotiza” em um ponto; isso pareceu uma emenda legítima para um ritual de handfasting.

 

(1) Capítulo 14 da edição de capa mole (Star, Londres, 1976).

 

Essas passagens estão incluidas aqui graças à gentil permissão da Sociedade da Luz Interior, que detém o copyright das obras de Dion Fortune. A responsabilidade pelo contexto sob o qual elas foram utilizadas é, naturalmente, inteiramente nossa e não da Sociedade; mas nós gostamos de pensar que, se a falecida Srta.Fortune estivesse capacitada de estar presente, nós teríamos recebido a sua bênção.

Um outro ponto : na apresentação dos símbolos dos elementos, nós atribuimos a Vara ao Ar, e a Espada ao Fogo. (Vide Ilustração 18). Esta é a tradição que nós seguimos – porém outras atribuem a Vara ao Fogo e a Espada ao Ar. A atribuição Vara/Fogo, Espada/Ar foi uma ‘cortina’deliberada perpretado pela Golden Dawn inicial, que infelizmente ainda não morreu de morte natural; isso nos parece contrário à natureza óbvia dos instrumentos em questão. Entretanto, muitas pessoas foram educadas acreditando que a ‘cortina’era a tradição genuina, de forma que agora, para estas, esta parece ser a correta. Elas devem naturalmente adicionar o texto da apresentação de modo adequado.

 

                                                           A Preparação

O Círculo é delineado, e o altar decorado com flores; mas um portal é deixado ao Nordeste do Círculo, com flores à mão para fechá-lo.

A vassoura é mantida pronta ao lado do altar.

O caldeirão, preenchido com flores, é posicionado próximo à vela do Oeste – o  Oeste representando a Água, o elemento do amor.

 

                                                           O Ritual

O Ritual de Abertura é conduzido normalmente, exceto que (a) a noiva e o noivo permanecem fora do portal, que ainda não está fechado, e (b) a Investidura não é dada ainda.

Após a invocação “Grande Deus Cernunnos”, a Suma Sacerdotiza traz para dentro o noivo,e o Sumo Sacerdote a noiva, cada um com um beijo. O Sumo Sacerdote então fecha o portal com flores, e a Suma Sacerdotiza fecha-o ritualmente com a espada ou o athame.

A Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote ficam de costas para o altar. O noivo olha para a Suma Sacerdotiza e a noiva para o Sumo Sacerdote, no centro do Círculo.

A Suma Sacerdotiza pergunta :

“Quem vem para se unir na presença da Deusa ?

Qual é o teu nome, Oh Homem?”

O noivo responde :

“Meu nome é ( nome )”.

O Sumo Sacerdote pergunta :

“Quem vem para se unir na presença do Deus ?

Qual é o teu nome, Oh Mulher?”

A noiva responde :

“Meu nome é ( nome )”.

A Suma Sacerdotiza diz :

“ ( nome ) e ( nome ), nós vos saudamos com alegria.”

O coven se reune ao redor da noiva e do noivo para a Runa das Feiticeiras; então todos retornam para seus lugares.

A Suma Sacerdotiza diz :

“Unidade é equilíbrio, e equilíbrio é unidade. Ouvi então, e compreendei.”

Ela pega a vara e continua :

“a vara que eu seguro é o símbolo do Ar. Sabei e recordai que este é o elemento da Vida, da inteligência, da inspiração que nos move adiante. Por esta vara do Ar, nós trazemos para o vosso handfasting o poder da Mente.”

Ela abaixa a vara. O Sumo Sacerdote pega a espada e diz :

“A espada que eu seguro é o símbolo do Fogo. Sabei e recordai que este é o elemento da Luz, da energia, do vigor que corre nas nossas veias. Por esta espada do Fogo, nós trazemos para o vosso handfasting o poder da Vontade.”

Ele abaixa a espada. A Suma Sacerdotiza pega o cálice e diz :

“O cálice que eu seguro é o símbolo da Água. Sabei e recordai, que este é o elemento do Amor,  do crescimento, do frutificar da Grande Mãe. Por este cálice da Água, nós trazemos para o vosso handfasting o poder do Desejo.”

Ela abaixa o cálice. O Sumo Sacerdote pega o pentáculo e diz :

“O pentáculo que eu seguro é o símbolo da Terra. Sabei e recordai, que este é o elemento da Lei, da duração, da compreensão que não pode ser abalada. Por este pentáculo da Terra, nós trazemos para o vosso handfasting o poder da Firmeza.”

Ele abaixa o pentáculo e continua :

“Ouvi as palavras da Grande Mãe . . . “ etc., para introduzir a Investidura.

A Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote conduzem a Investidura, na maneira usual. Quando estiver acabado, o Sumo Sacerdote diz :

“Afrodite Dourada vinde não como a virgem, a vítima, mas como a Despertadora, a Desejada. Como espaço exterior ( ? ) ela chama, e o Todo-Pai começa [à fazer-lhe] a corte. Ela O desperta para o desejo, e os mundos são criados. Quão poderosa é ela, Afrodite dourada, a despertadora da humanidade!”

A Suma Sacerdotiza diz :

“Mas todas estas coisas são uma coisa. Todas as deusas são uma deusa,e nós a chamamos Ísis, a Toda-mulher, em cuja natureza todas as coisas naturais são encontradas; virgem e desejosa alternadamente; doadora da vida e aquela que traz a morte. Ela é a causa de toda a criação, pois ela despertou o desejo do Todo-Pai, e por sua causa Ele criou. De forma semelhante, os sábios chamam todas as mulheres de Ísis.”

O Sumo Sacerdote diz :

“Na face de toda mulher, que o homem busque as características da Grande Deusa, observando suas fases através do fluxo e do retorno das marés às quais sua alma responde; ouvindo o seu chamado”.

A Suma Sacerdotiza diz :

“Oh filha de Ísis, adorai a Deusa, e em seu nome dê o chamado que desperta e rejubila. Assim serás tu abençoada pela Deusa, e viverás com a plenitude da vida. Que a Noiva revele a Deusa para aquele que a ama. Que ela assuma a coroa do submundo. Que ela se eleve  toda gloriosa e dourada do mar do primordial e chame a ele para vir adiante, para vir à ela. Que ela faça estas coisas em nome da Deusa, e ela será igual à Deusa sobre ele; pois a Deusa falará através dela. Toda-poderosa será ela no Interno, como Perséfone coroada; e toda-poderosa no Externo, como Afrodite Dourada (2). Assim ela será uma sacerdotiza aos olhos do adorador da Deusa, que por sua fé e dedicação descobrirá a Deusa nela. Pois o rito de Ísis é vida, e aquilo que é feito como um rito irá se manifestar em vida. Pelo rito a Deusa é invocada e trazida para seus adoradores; seu poder penetra neles, e eles se tornam a substância do sacramento.”

 

(2) Não podemos resistir à notar aqui uma crença que ainda se prolonga no Oeste da Irlanda propenso à vendavais – que uma noiva recém-casada tem o poder de acalmar uma tempestade no mar. Como uma vizinha (morando, como nós, à uma milha do Atlântico) nos disse : “Eu creio que possa haver alguma verdade nisso. Uma noiva tem uma certa bênção ao seu redor.”

 

O Sumo Sacerdote diz para a noiva :

“Diga depois de mim : ‘Pela semente e a raiz, pelo botão e o caule, pela folha e flor e fruto, pela vida e o amor, em nome da Deusa, eu, ( nome ), te tomo, ( nome ), em minha mão, meu coração e meu espírito, no pôr do sol e ascenção das estrelas (3). A morte não nos separará; pois na plenitude do tempo nós nasceremos novamente no mesmo tempo e no mesmo local como cada um; e nós nos encontraremos, e saberemos, e lembraremos, e amaremos novamente.’”

 

(3) À seu próprio critério, o casal pode terminar o seu compromisso aqui, omitindo a última sentença de “A morte não nos separará . . . “ caso ainda não percebem seu caminho como um compromisso de almas-gêmeas (?), que jamais deve ser assumido sem uma cuidadosa avaliação. (Vide O Que As Bruxas Fazem, Capítulo 15.) A Igreja Mormon, incidentalmente, tem a mesma provisão; os Mormons tem duas formas de casamento – uma para a vida, e a outra (chamada de “Ir ao Templo”) para a eternidade. Cerca de cinquenta por cento escolhem pela última forma.  

 

A noiva repete cada frase após o Sumo Sacerdote, tomando a mão direita do noivo em sua própria mão direita enquanto ela fala.

A Suma Sacerdotiza diz para o noivo :

“Diga depois de mim : ‘Pela semente e a raiz, pelo botão e o caule . . .’” etc., como acima.

O noivo repete cada frase após a Suma Sacerdotiza, segurando a mão direita da noiva na sua própria.

Se o casal quiser trocar alianças, isso é feito agora.

O Sumo Sacerdote diz :

“Que o sol e a lua e as estrelas, e esses nossos irmãos e irmãs, sejam testemunhas; que ( nome ) e   ( nome ) se uniram na presença do Deus e da Deusa. E possam o Deus e a Deusa abençoá-los, como nós mesmos o fazemos.”

Todos dizem :

“Que assim seja.”

A Suma Sacerdotiza pega a vassoura e a coloca no chão perante o casal, que salta sobre esta de mãos dadas. A Suma Sacerdotiza então pega a vassoura e ritualmente varre o Círculo lançando fora todas as más influências.

O casal agora encena o Grande Rito, e é inteiramente de sua escolha se este será simbólico ou real. Se for real, a Suma Sacerdotiza conduz o coven para fora do recinto, ao invés de a Donzela como é usual.

Após o Grande Rito, o casal consagra o vinho e os bolos (ou apenas os bolos se o Grande Rito foi simbólico, em cujo caso o vinho já terá sido consagrado). Os procedimentos então se tornam informais.

Se a festa incluir um bolo de casamento, diz a tradição que este é o único momento quando a espada ritual do coven pode ser usada para cortar de verdade.

 

                                                    XIV Requiem

 

Na primeira vez em que perdemos um membro do coven por motivo de morte, este é o Requiem que foi executado para ela. ‘Perdemos’ é uma palavra imprópria, naturalmente; sua contribuição para a construção da nossa mente-grupo permaneceu, e em nossas encarnações por vir nós bem podemos ser aproximados novamente. Mas o fim de um capítulo necessita ser reconhecido e absorvido e a necessidade de dizer au revoir com amor e dignidade tem sido universal desde que o homem de Neanderthal acomodou seus mortos para repousar num leito de flores.

Dois temas simbólicos pareceram expressar o que nós quisemos dizer. O primeiro era a espiral, que desde os primórdios do ritual permaneceu como os processos paralelos de morte-renascimento e iniciação-renascimento; rebobinando nosso caminho de volta para a fonte, o útero universal, a Grande Mãe, as profundezas do inconsciente coletivo – encontrando a Mãe Negra face a face e sabendo que ela é também a Mãe Brilhante – e então desenrolar nosso caminho de volta do encontro rejuvenecidos e transformados. Essa espiral para dentro e para fora naturalmente tomou a forma de uma dança; e a espiral para dentro pareceu novamente chamar por aquele uso raro de um movimento widdershins, empregado no ritual Wicca apenas quando este tiver um propósito simbólico preciso (como nos nossos rituais do Equinócio de Outono e Samhain). Ele seria seguido naturalmente por um movimento deosil da espiral para fora.

O outro tema era aquele do cordão de prata. Muitas e muitas vezes, pessoas que experimentaram a projeção astral tem falado sobre o cordão de prata, o qual estas tem visto tecendo, e infinitamente extensível, entre os corpos astral e físico. Na morte física, todas as tradições confirmam, o cordão é rompido. Este é um processo natural, o primeiro estágio da retirada da Individualidade imortal dos corpos físico, astral inferior e superior, e mental menor da Personalidade que o tem abrigado durante uma encarnação. Todo bloqueio ou interrupção dessa retirada é um mal funcionamento, como uma anormalidade; isso pode ser causado por alguma obsessão, e isso explica algumas ‘assombrações’. Na maioria dos casos (certament, nós achamos, naquele da nossa amiga) não há tal retardo indevido. Porém mesmo se nenhuma ajuda for necessária para suavizar a retirada, é conveniente que isso seja simbolizado no rito.

A tradição também mantém que as belas palavras de Eclesiastes 12, versículos 6-7, se referem à este processo; assim as temos utilizado em nosso Requiem, substituindo ‘Deusa’ para ‘Deus’ – o que, em vista da nossa filosofia declarada, esperamos que não ofenda ninguém.

A Segunda parte do ritual é a encenação da Lenda da Descida da Deusa ao Submundo, que aparece no Livro das Sombras como um tipo de epílogo ao ritual de iniciação a segundo grau. Onde Gardner o conseguiu, nem mesmo Dorieen Valiente o sabe. “Eu não tinha nada o que fazer com relação à escrever isto”, ela nos conta. “Se o velho Gardner escreveu isto por si mesmo ou se ele o herdou, eu não sei. Eu suspeito um pouco de ambos, a saber, que ele herdou o esboço disto e o anotou com suas próprias palavras. Isso é, como voce diz, uma versão da estória de Ishtare lendas similares; e isso se relaciona ao ritual de iniciação de maneira óbvia.”

Iniciação e renascimento são processos íntimamente paralelos, assim achamos que a Lenda enriqueceu nosso Requiem tal como o rito do segundo grau. As palavras faladas da Lenda são dadas em O Que Fazem As Bruxas e (numa forma um pouco menor) em Bruxaria Hoje de Gardner, mas nós as repetimos para totalidade, intercaladas com os movimentos apropriados, que o Livro das Sombras deixa para a imaginação. Se a Lenda for toda encenada frequentemente –e não houver necessidade de confiná-la à iniciação do segundo grau, nós achamos que é fácil e proveitoso, aprendê-las. Para obter o máximo da Lenda, é ainda melhor se os três atores aprenderem as partes deste diálogo de memória e as falarem por si próprios, ao invés de deixar toda a fala para o Narrador como fizemos abaixo. Porém, à menos que eles a saibam de cor, é melhor deixá-las para o Narrador, porque para os três atores carregarem livros em suas mãos isso vai estragar o efeito.

Finalmente, a Suma Sacerdotiza anuncia a festa de amor, com uma despedida de fechamento para o amigo falecido.

Gostaríamos de fazer um comentário sobre o rito tal como o experimentamos da primeira vez. O momento de quebrar o prato teve um efeito inesperado sobre todos nós; foi como se ele ecoasse em todos os planos de uma só vez. Nosso membro mais jovem respirou com dificuldade ruidosamente, e todos nós nos sentimos assim. Um cético poderia dizer que o som abrupto da quebra, carregado com simbolismo tal como estava, ofereceu um choque psicológico; mas mesmo se isso fosse tudo, seria ainda válido – concentrar nossa percepção de grupo sobre o significado do que estávamos fazendo em um instante intenso e simultâneo.

Quando o ritual acabou, nós sentimos uma alegria calma que nenhum de nós conhecia desde que nossa amiga ficou doente. Raras vezes estivemos tão conscientes de um ritual sendo bem sucedido e reverberando majestosamente muito além dos limites do nosso Círculo.

No texto abaixo, nós usamos ‘ela’ ao longo deste, para simplicidade. Se o Requiem for usado para um homem, pode ser considerado apropriado trocar os papéis do Sumo Sacerdote e da Suma Sacerdotiza para a primeira parte do ritual, até a Lenda; como sempre, é uma questão sobre o que se considera correto para o coven envolvido.

 

                                                           A Preparação

A decoração do Círculo e do altar para um Requiem será uma questão de gosto individual, dependendo das circunstâncias, a época do ano e o caráter e as associações do amigo que está sendo recordado.

Um pequeno prato de barro (uma caneca ou xícara com asa pode servir) é colocado ao lado do altar, com um cordão de prata amarrado à este, também um martelo para quebrar o prato, e um pano para quebrá-lo dentro.

Para a Lenda da Descida da Deusa, jóias e um véu são colocados próximos ao altar para a Deusa,e uma coroa para o Senhor do Submundo. Um colar é colocado sobre o altar.

 

                                                           O Ritual

O ritual de abertura procede como usual, até o final da invocação “Grande Deus Cernunnos”. A Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote ficam de frente para o coven estando em frente ao altar.

A Suma Sacerdotiza diz :

“Nós nos reunimos hoje em tristeza e alegria. Estamos tristes porque um capítulo foi encerrado; ainda assim estamos alegres, porque, através do encerramento, um novo capítulo pode começar.

“Nós nos reunimos para marcar o passamento de nossa amada irmã, ( nome ), para quem esta encarnação terminou. Nós nos reunimos para encomendá-la aos cuidados da bênção do Deus e da Deusa, que ela possa repousar, livre de ilusão ou pesar, até que chegue o tempo para seu renascimento neste mundo. E sabendo que isto será assim, nós sabemos, também, que a tristeza é nada e que a alegria é tudo.”

O Sumo Sacerdote permanece em seu lugar, e a Suma Sacerdotiza conduz o coven em uma dança espiral, vagarosamente para dentro em um sentido widdershins, mas não fechando muito apertado.

O Sumo Sacerdote diz :

“Nós te invocamos, Ama, Mãe negra estéril; tu à quem toda a vida manifesta deve retornar, quando seu tempo tiver chegado; Mãe negra da imobilidade e repouso, perante a qual os homens estremecem porque não te compreendem. Nós te invocamos, que és também Hecate da Lua minguante, Senhora negra da sabedoria, a quem os homens temem porque a tua sabedoria se ergue acima da própria sabedoria deles. Nós, os filhos ocultos da Deusa, sabemos que não há nada a temer em teu abraço, do qual ninguém escapa; que quando caminhamos em tua escuridão, como todos devemos, isso é nada mais que caminhar novamente para dentro da luz. Portanto, em amor e sem medo, nós encomendamos a ti ( nome ), nossa irmã. Tomai-a, protegei-a, guiai-a; deixai-a entrar na paz das Terras do Verão (?_ Summerlands), que ficam entre vida e vida. E sabei, como tu sabeis todas as coisas, que nosso amor vai com ela.”

O Sumo Sacerdote traz o prato, o cordão, o martelo e o pano. A dança pára, e o coven se divide para admitir o Sumo Sacerdote ao centro da espiral, onde ele deita o pano ao solo e o prato sobre este. Ele entrega a extemidade solta do cordão para a Donzela.

A Suma Sacerdotiza diz :

“Ou seja o cordão de prata destado, ou seja o prato dourado quebrado, ou seja o jarro  quebrado na fonte, ou seja a roda quebrada na cisterna; então o pó retornará à terra assim como era; e o espírito retornará à Deusa que o concedeu.”

O Sumo Sacerdote desata o cordão de prata, e a Donzela o puxa para cima. O Sumo Sacerdote então embrulha o prato com o pano e o quebra com o martelo. Ele repõe o pano dobrado com os pedaços do prato dentro deste, e o martelo, ao lado do altar. O coven fecha novamente.

A Donzela carrega o cordão de prata e, durante a seguinte invocação, prosseguindo deosil ao redor do Círculo, oferece-o primeiro aos Senhores das Torres de Vigia do Oeste (os Senhores da Morte e da Iniciação) e então aos Senhores das Torres de Vigia do Leste (os Senhores do Renascimento). Ela então deposita o cordão ao solo em frente à vela do Leste e se une ao Sumo Sacerdote no altar (sempre prosseguindo deosil).

Nesse meio tempo a Suma Sacerdotiza conduz novamente a dança, curvando [a fila] para trás deosil para desenrolar a espiral, até que esta seja novamente um círculo completo, que continua se movendo deosil.

Tão logo ele tenha recolocado o pano e o martelo ao lado do altar, o Sumo Sacerdote olha para o coven e diz :

“Nós te invocamos, Aima, Mãe fértil brilhante; tu que sois o útero do renascimento, de quem procede toda a vida manifesta, e em cujo seio transbordante (?) todos são nutridos. Nós te invocamos, que sois também Perséfone da lua crescente, Senhora da Primavera e de todas as coisas novas. Nós te encomendamos ( nome ), nossa irmã. Tomai-a, protegei-a, guiai-a; trazei-a na plenitude do tempo para um novo nascimento e uma nova vida. E concedei que naquela nova vida ela possa ser amada novamente, como nós seus irmãos e irmãs a temos amado.”

O Sumo Sacerdote e a Donzela se reunem ao coven circundante, e a Suma Sacerdotiza inicia a Runa das Feiticeiras, à qual o resto se reune. Quando tiver acabado, a Suma Sacerdotiza ordena “Sentem-se”, e o coven se senta formando um anel e olhando para o centro.

A Suma Sacerdotiza então sorteia os papéis para a Lenda da Descida da Deusa ao Submundo: o Narrador, a Deusa, o Senhor do Submundo e o Guardião dos Portais. A Deusa é adornada com jóias e velada e mantém-se na extremidade do Círculo no Sudeste. O Senhor do Submundo coloca sua coroa, pega a espada e fica de costas para o altar. O Guardião dos Portais pega seu athame e a corda vermelha e fica de frente para a Deusa.

O narrador diz :

“Nos tempos antigos, nosso Senhor, o [Deus] Cornudo, era (como ainda o é) o Consolador, o Confortador. Mas os homens o conheciam como o terrível Senhor das Sombras, solitário, severo e justo. Mas Nossa Senhora a Deusa resolveria todos os mistérios, mesmo o mistério da morte; e ela então iniciou uma jornada rumo ao submundo. O Guardião dos Portais a desafiou . . .. “

O Guardião dos Portais desafia a Deusa com seu athame.

“. . . Dispa-te de teus ornamentos, ponde de lado tuas jóias; pois nada poderás tu trazer contigo para esta nossa terra.’”(1)

 

(1) Uma vez que todas as palavras da Lenda são faladas pelo Narrador, nós não repetimos “O Narrador diz” à todo tempo. Se os três atores puderem falar suas próprias linhas de memória, muito melhor.

 

A Deusa retira seu véu e suas jóias; nada pode ser deixado sobre ela. (Se o Requiem exigir robes, apenas o robe liso pode ser deixado sobre ela.) Ele então a prende com a corda vermelha na maneira da iniciação do primeiro grau, com o centro da corda ao redor da frente de seu pescoço, e as pontas passadas sobre seus ombros para prender juntos os seus pulsos atrás de sua cintura.

“Assim ela retirou seus ornamentos e suas jóias e foi amarrada, como deve ser com todo ser vivente que busca penetrar nos reinos da Morte, a Poderosa.”

O Guardião dos Portais conduz a Deusa para ficar face ao Senhor do Submundo. O Guardião então caminha para o lado.

“Tal era a sua beleza que a própria Morte se ajoelhou, e deitou sua espada e sua coroa aos seus pés . . . “

O Senhor do Submundo se ajoelha perante a Deusa (vide Ilustração 20), deposita sua espada e sua coroa ao solo em cada um dos lados dela, então beija seu pé direito e seu pé esquerdo.

“. . . e beijou seus pés, dizendo: ‘Benditos sejam os teus pés, que trouxeram a ti por estes caminhos. Morai comigo; mas deixai-me colocar minhas mãos frias sobre teu coração.’ “

O Senhor do Submundo ergue suas mãos, palmas para frente, e as segura à umas poucas polegadas do coracão da Deusa.

“E ela respondeu: ‘Eu não te amo. Por que tu fazes com que todas as coisas que eu amo, e nas quais me delicio, declinar e morrer?”

O Senhor do Submundo abre seus braços para fora e para baixo, com as palmas das suas mãos para frente.

“Senhora’, respondeu a Morte, ‘é a idade e o destino, contra os quais não tenho auxílio. A idade faz com que todas as coisas declinem; mas quando os homens morrem ao final do tempo, eu lhes concedo descanso, paz e força, de modo que eles possam retornar. Porém tu, tu és amável; não retornai, morai comigo.’ Mas ela respondeu: ‘Eu não te amo.’”

O Senhor do Submundo se ergue, vai para o altar e pega o açoite. Ele se vira de frente à Deusa.

“Então disse a Morte: ‘Como tu não recebeste minhas mãos sobre o teu coração, tu deves ajoelhar perante o açoite da Morte.’ ‘É o destino – melhor assim,’ ela disse, e ela se ajoelhou. E a Morte a açoitou delicadamente.”

A Deusa se ajoelha de frente para o altar. O Senhor do Submundo lhe aplica três, sete, nove e vinte e um golpes delicados com o açoite.

“E ela gritou: ‘Eu conheço aa dores do amor.’”

O Senhor do Submundo repõe o açoite sobre o altar, ajuda a Deusa à se erguer e se ajoelha de frente à ela.

“E a Morte a ergueu, e disse: ‘Bendita seja’. E ele lhe aplicou o Beijo Quíntuplo, dizendo: ‘Apenas assim pudeste tu alcançar a alegria e o conhecimento.’”

O Senhor do Submundo aplica à Deusa o Beijo Quíntuplo (mas sem as palavras usuais pronunciadas). Ele então desamarra seus pulsos, colocando a corda no chão.

E ele a ensinou todos os seus mistérios e deu a ela o colar que é o círculo do renascimento.”

O Senhor do Submundo pega o colar do altar e o coloca ao redor do pescoço da Deusa. A Deusa então pega a coroa e a recoloca sobre a cabeça do Senhor do Submundo.

“E ela lhe ensinou o mistério do cálice sagrado, que é o caldeirão do renascimento.”

O Senhor do Submundo se move em frente ao altar para sua extremidade ao Leste, e a Deusa se move em frente ao altar para sua extremidade ao Oeste. A Deusa segura o cálice com ambas as mãos, eles olham um para o outro, e ele coloca ambas as suas mãos sobre as dela.

“Eles se amaram, e se tornaram um; pois existem três grandes mistérios na vida do homem, e a magia controla todos eles. Para realizar o amor, vós deveis retornar novamente ao mesmo tempo e no mesmo local como os amados; e vós deveis vos encontrardes, e saberdes, e recordar-vos, e amá-los novamente.”

O Senhor do Submundo solta as mãos da Deusa, e ela recoloca o cálice sobre o altar. Ele pega o açoite em sua mão esquerda e a espada na sua direita e se mantém na Postura de Deus, antebraços cruzados sobre seu peito e a espada e o açoite apontando para o alto, de costas para o altar. Ela permanece ao lado dele na Postura da Deusa, pés separados e braços esticados para formar o Pentagrama.

“Mas para renascer, vós deveis morrer, e vos preparardes para um novo corpo. E para morrer, vós deveis ter nascido; e sem amor, vós não podeis nascer. E a nossa Deusa sempre se dispôs ao amor,  e ao júbilo, e à alegria; e ela cuidou e nutriu seus filhos ocultos em vida, e na morte ela ensinou o caminho para sua comunhão; e mesmo neste mundo ela os ensinou o mistério do Círculo Mágico, que é posicionado entre os mundos dos homens e dos Deuses.”

O Senhor do Submundo recoloca o açoite, a espada e a coroa sobre ou próximo ao altar. Isso completa a Lenda, e os atores se reunem ao resto do coven.

A Suma Sacerdotiza diz :

“Compartilhemos agora, como a Deusa nos ensinou, a festa de amor do vinho e dos bolos; e enquanto assim o fazemos, nos recordemos de nossa irmã ( nome ), com quem várias vezes nós a compartilhamos (2). E com esta comunhão, nós gentilmente entregamos nossa irmã às mãos da Deusa.”

 

(2) Se o Requiem fôr para um amigo não-bruxo, ou para um bruxo que não era membro do coven, a frase “com quem várias vêzes nós a compartilhamos” é naturalmente omitida.

 

Todos dizem :

“Assim Seja.”

O vinho e os bolos são consagados e circulam pelo coven.

Tão rápido quanto possível após o Requiem, os pedaços do prato são ritualmente jogados num córrego ou rio, com a ordem tradicional: “Retornai aos elementos dos quais tu viestes.”(3)

 

(3) Qualquer objeto ritualmente utilizado que tenha servido ao seu propósito e que não será necessário para trabalhos posteriores – especialmente se, como o prato do Requiem, ele tiver estado vinculado à um indivíduo – deve ser ritualmente neutralizado e descartado; é uma atitude irresponsável, e pode ser perigoso, permitir que este se prolongue. O método da água corrente é um ritual de despojamento satisfatório consagrado ao longo dos tempos.

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                                               Bibliografia

 

Seria impossível relacionar todos os livros que nos auxiliaram em nosso estudo dos Oito Festivais e os conceitos que jazem por trás dos mesmos; mas a seguir temos uma lista daqueles que achamos particularmente informativos, fontes de luz e mesmo provocativos. Também estãos incluidos todos os livros mencionados no texto. As edições listadas não são sempre as primeiras, mas são aquelas que temos usado ou acreditamos estarem atualmente disponíveis.

 

(Segue bibliografia)

 

                                               ÍNDICE

 

(O que vem a seguir, no original, é um índice por tópicos e as páginas de sua localização)

 

 

E finalmente, a partir do próximo arquivo...      a Parte 2.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                   Parte 2

 

            Princípios, Rituais e Crenças

                                        da Feitiçaria Moderna

 

também publicado separadamente como  O Caminho das Bruxas

 

com ilustrações de Stewart Farrar

Apêndice por Doreen Valiente

 

                                               Conteúdo

                                               Fotografias

                                               CRÉDITOS

                                               Figuras

(Nota: como estas partes dependem do original, não estão aqui incluídas, porém para efeitos de confecção de apostila, isso não afetará o conteúdo que realmente interessa. )

 

                                               Agradecimentos

 

Novamente prestamos nossos agradecimentos à Doreen Valiente por sua ajuda na preparação deste livro; por nos disponibilizar textos autênticos não publicados do Livro das Sombras de Gerald Gardner, ampliando os mesmos com seus conhecimentos pessoais sobre seus pontos de vista e práticas, por escrever o Apêndice A que é uma real contribuição à história da Wicca – e sempre por seu conselho construtivo.

Também somos gratos à Sociedade da Luz Interior pela permissão em utilizar passagens da obra de Dion Fortune A Sacerdotiza do Mar para nosso ritual da Praia.

Desejamos igualmente agradecer à Biblioteca de Dorset County por seu auxílio na localização e em seu fornecimento das fotografias do Teatro Rosacruciano do agora extinto Christchurch Times, reproduzidas aqui como Ilustrações 15 e 16.

Nosso agradecimento também para Penelope Shuttle e Peter Redgrove pela permissão em citar extensivamente seu livro A Sábia Ferida: Menstruação e Todas as Mulheres.

E para Geoffrey Ashe pela permissão em citar uma passagem de seu livro O Dedo e a Lua, ©Geoffrey Ashe 1973.

 

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Este livro é dedicado ao nosso próprio coven, aos nossos amigos bruxos em muitas terras – e em particular à memória de nosso querido amigo Gwydion Pendderwen, que cantou para todos nós.

 

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                                                           Introdução

 

Este livro foi idealizado como volume complementar ao nosso livro anterior,  Oito Sabás para Feiticeiras, e ele tem um duplo propósito.

Quando escrevemos o livro anterior, tivemos a boa sorte de sermos capazes de receber o auxílio de Doreen Valiente. Ela era uma das Suma Sacerdotizas do falecido Gerald Gardner, e ela foi ao-autora juntamente à ele da versão definitiva do Livro das Sombras, a antologia ritual que é copiada à mão por cada novo bruxo Gardneriano (ou Alexandriano) quando ele ou ela é iniciado(a), e que é atualmente a liturgia aceita (emprestando um termo cristão) por um número desconhecido mas certamente grande de covens através do mundo.

O Livro das Sombras nunca foi publicado; ele existe apenas em cópias manuscritas, que em tese são disponíveis apenas para bruxos iniciados. Mas o próprio Gardner revelou elementos deste, disfarçados em seu romance Auxílio à Alta Magia (1949), e disfarçado em seus livros de não-ficção Bruxaria Hoje (1954) e O Significado da Bruxaria (1959) (1). E desde a morte de Gardner em 1964, quase todo o remanescente tem sido vazado, plageado (geralmente sem agradecimentos) ou distorcido seja deliberadamente ou  por cópia não cuidadosa. Isso produziu a situação insatisfatória onde um documento teóricamente secreto se tornou propriedade pública, mas em um número de versões que variou de razoávelmente precisa até deturpada maliciosamente ou por ignorância.

Com a concordância de Doreen, portanto, ficamos satisfeitos em poder iniciar a tarefa de definir o que o Livro das Sombras de Gardner/Valiente realmente dizia.  Também, fomos capazes de identificar pelo menos algumas fontes das quais o Livro das Sombras foi compilado. Isso não foi sempre fácil, porque o próprio Gardner (talvez não prevendo o quão difundida e pública a revitalização que ele iniciou iria se tornar) nunca se importou em identificá-las,  exceto de vez em quando para Doreen de passagem. (Vide as notas sobre os Textos A, B e C abaixo). À parte das passagens genuinamente tradicionais, , alguns elementos, tais como o verso de Kipling no ritual de Bealtaine, ou as passagens de Crowley na declamação do Grande Rito, foram auto-identificados; outros, tais como os [textos] emprestados da Carmina Gadelica de Carmichael, eram mais obscuros; e as passagens que a própria Doreen escreveu, tal como o volume da versão em prosa da Investidura, ela poderia naturalmente nos contar sobre isso. A origem de algumas passagens permanece um mistério. Mas nós pudemos esclarecer um pouco essa ‘névoa’.

Em Oito Sabás para Bruxas, este processo de definição e esclarecimento apenas cobria os rituais relevantes ao nosso tema: nominalmente, aqueles para estabelecer e banir o Círculo, o Grande Rito e os rituais fragmentados do Livro das Sombras para os oito Festivais sazonais que nós incorporamos em nossas próprias expansões. No presente livro - novamente com a permissão e o auxílio de Doreen – nós continuamos o processo com outros elementos substanciais do Livro das Sombras: os rituais de iniciação do primeiro, segundo e terceiro graus, as consagrações e outros itens diversos.

Há apenas uma sobreposição necessária entre os dois livros. Em Oito Sabás para Bruxas nós fornecemos o ritual para estabelecer o Círculo na Seção I e para o banimento na Seção III, com explicações e notas. Uma vez que os rituais neste presente livro não podem ser trabalhados sem estabelecer e banir o Círculo, nós repetimos aqui os rituais de estabelecimento e banimento (Apêndice B), sem as explicações e notas e com instruções condensadas, para fazer este livro completo em si mesmo.

Gostaríamos de esclarecer uma ou duas coisas. Primeiro,ao assumir esta tarefa, nós não estamos estabelecendo o definitivo Livros das Sombras Gardneriano como Escritura Sagrada. A bruxaria moderna é algo que está crescendo e se desenvolvendo, e nós próprios partimos do original quando sentimos que tínhamos uma boa razão. Mas onde nós fizemos aquilo, nós sempre dissemos assim, e dissemos também o que era o original – ou numa nota de rodapé ou na explicação de abertura. Nós nem sugerimos que o corpo de rituais Gardneriano é ‘melhor’ do que outros sistemas de Wicca. O que sugerimos é que, para nós e milhares de outros, isso funciona; que isso é coerente e auto-consistente; e que se houver um padrão ao qual os rituais do movimento como um todo possam se relacionar, e que seja seguido por mais covens operativos do  que qualquer outro, [então] é este.  Novamente, uma vez que esta é a ‘liturgia’ que (se goste dela ou não – já se tenha passado muitos anos para discutir a seu respeito) se tornou a mais públicamente conhecida, existem mais e mais grupos auto-iniciados que estão baseando seus trabalhos em quaisquer rituais Gardnerianos que eles possam reunir – e alguns dos quais eles estão descobrindo estarem deturpados. Nós discutimos a questão da auto-iniciação, e o estabelecimento de covens sem auxílio externo, na Seção XXIII; mas quer se aprove isto ou não, isto está ocorrendo, e isto ocorrerá mais saudávelmente se eles tiverem o material genuíno com o qual trabalhar. Finalmente, o Livro das Sombras Gardneriano é um dos principais fatores no que se tornou um movimento muito maior e mais significativo do que Gardner possa ter visualizado; então o interesse histórico por si só seria razão suficiente para definí-lo enquanto a evidência em primeira mão é ainda disponível.

Neste livro, nós nos referimos aos Textos A, B e C do Livro das Sombras.  Nós próprios anexamos estas etiquetas às três versões do Livro das Sombras que estão em posse de Doreen Valiente. Estes são :

Texto A     Rituais originais de Gardner tal como copiados do coven de New Forest que o iniciou, e emendado, expandido ou anotado por ele mesmo.  Suas próprias emendas foram muito influenciadas pela OTO (2), da qual ele foi membro uma vez. Seu processo de fazer um todo coerente a partir do material tradicional fragmentado usado pelo coven de New Forest já havia começado.

Texto B      A versão mais desenvolvida que Gardner estava usando quando ele iniciou Doreen Valiente em 1953.

Texto C       Esta foi a versão final que Gardner e Doreen produziram juntos, e que era (e ainda está sendo) passada para os próximos iniciados e covens.  Ela eliminou muito do material da OTO e Crowley que Gardner havia introduzido; Doreen sentiu, e persuadiu Gardner,  que em muitos lugares ‘isto não era realmente adequado para a Antiga Arte dos Sábios, o quão belas as palavras possam ser ou o quanto alguém poderia concordar com o que elas diziam’. Passagens substanciais nela foram escritas pela própria Doreen, ou adaptadas por ela a partir de fontes mais apropriadas do que a OTO ou Crowley, tais como a Carmina Gadelica (vide Oito Sabás para Bruxas, pág.78).

As partes do Livro das Sombras que menos se modificaram entre os Textos A, B e C foram naturalmente os três rituais de iniciação; porque estes, acima de tudo, seriam os elementos tradicionais que seriam sido mais cuidadosamente preservados, provávelmente por séculos, e para os quais Gardner deveria descobrir pouco, caso houvesse algum, material para preencher partes faltantes.  Contudo, o rito do terceiro grau (vide Seção III) realmente inclui algum material de Crowley na declamação, onde ao menos uma vez este parece inteiramente adequado.

Uma nota a respeito da ramificação Alexandriana do movimento Gardneriano. Nos anos ’60, Alex Sanders, tendo falhado em ganhar admissão em qualquer coven Gardneriano (incluindo o de Patricia e Arnold Crowther), de alguma forma conseguiu uma cópia do Livro das Sombras Gardneriano e a utilizou para fundar seu próprio coven. Ele atraiu, e deu boas vindas, a um grande numero de publicidade e iniciou pessoas ‘por atacado’.  Ele e sua esposa Maxine foram muito criticados por Gardnerianos e outros bruxos devido à sua exibição, por sua auto designação como Rei dos Bruxos e pelo modo em que ele livremente adicionou quaisquer outros elementos ocultos ou mágicos que apelavam para sua fantasia no estrito canon Gardneriano. Ele tinha, como Aleister Crowley, um maldoso senso de humor, e nenhum escrúpulo em exercitá-lo, o que também não o tornou amável perante o resto [dos praticantes] da Arte. Mas como um Coringa num maço de cartas de baralho, ele tinha um papel a desempenhar. Ele e Maxine iniciaram centenas de pessoas que de outra forma poderiam não ter ouvido falar sobre a Arte até anos mais tarde; muitas destas pessoas naturalmente se desligaram ou de outra forma ficaram à margem, mas um numero substancial prosseguiu para então fundar seus próprios covens e alcançar seu próprio equilíbrio e assim estruturaram. Deve ser dito que existem muitos covens excelentes operando hoje que poderiam não existir se não fosse pelo Sanders.

Nós próprios fomos iniciados por Alex e Maxine no início de 1970, e fundamos nosso próprio coven em Yule daquele ano. Daquele coven de Londres, e do nosso posterior coven irlandês, outros tem se ramificado – e outros, por sua vez, destes últimos.

Alex e Maxine se separaram logo após os deixarmos.  Alex está em semi aposentadoria em Sussex, seus dias de manchete (?) atrás dele. Maxine permaneceu em Londres, onde ela trabalhou mais reservadamente e solidamente com seu com seu meio-irmão David Goddard como Sumo Sacerdote. Em Março de 1982 ela anunciou que se tornara uma Católica Liberal, mas adicionou: ‘Seria muita inverdade dizer que eu abandonei todas as minhas atividades anteriores’.  Isso pode muito bem ser verdade; nós conhecemos outros Liberais Católicos que são excelentes ocultistas.

O Livro das Sombras com o qual nós começamos a trabalhar era, naturalmente, copiado daquele de Alex. Ele é básicamente Texto C mas, como suspeitamos na ocasião e confirmamos depois, ele era incompleto e continha muitas emendas do próprio Alex – e muitos erros, pois ele não era um copista cuidadoso.

Nós apontamos várias emendas Alexandrianas neste livro; e para sermos honestos, achamos que um ou dois destes valiam a pena serem mantidos – embora novamente, onde nós fizemos isso nós sempre o dissemos,e colocamos em rodapé o original de Gardner.

A primeira parte do nosso livro, ‘Folhas do Livro das Sombras’,  consiste dos rituais Gardnerianos que discutimos acima (mais, na Seção V, algum material não ritualistico), com comentários. A segunda parte, ‘Mais Rituais Wicca’, oferece alguns dos nossos próprios que esperamos que outras bruxas possam considerar  úteis (como fizemos com os nossos rituais de Wiccaning, Handfasting e Requiem em Oito Sabás para Bruxas) e também uma Seção sobre rituais de proteção e talismãs.

A terceira parte, ‘O Caminho Wicca’, preenche o segundo propósito do nosso livro – nominalmente resumir os vários aspectos da feitiçaria moderna no que nós esperamos seja uma forma concisa e útil. Ela inclui Seções sobre a base lógica da feitiçaria, sua ética, os problemas da condução de um coven, feitiçaria e sexo, projeção astral, encantamentos, clarividência e advinhação, cura, nudez ritual, auto iniciação, o papel da Wicca no mundo moderno, e daí por diante.

Parece haver a necessidade de um compêndio para este gênero, tanto para a própria Arte como para aqueles que querem saber tudo a respeito do que ela é.  Stewart tentou algo nesse sentido em seu livro de 1971 O Que Fazem as Bruxas, e muitas bruxas tem sido boas o suficiente para elogiá-lo. Mas aqui tentamos entrar em mais razões além das razões e nos prolongarmos em algumas das coisas que aprendemos desde 1971. O Que Fazem as Bruxas, nós gostamos de pensar assim, tem um valor especial ao passo que registra as reações de uma nova bruxa explorando um terreno não-familiar, e há pouca coisa nisto que Stewart quisesse modificar. (Após muitos anos fora de impressão, ele foi publicado novamente por volta da mesma ocasião que este presente volume, com um novo Prefácio à Segunda Edição, pela Phoenix Publishing Co.. PO Box 10, Custer, WA 98240, USA).

Na terceira parte deste livro, nós não alegamos falar pela Arte como um todo, nem propomos qualquer ortodoxia autoritária; finalidade, autoridade, e o próprio conceito de ortodoxia são de qualquer forma desconhecidos ao Wicca.  Nós apenas colocamos as coisas como as vemos, como as temos experimentado e como as aprendemos dos amigos bruxos de muitos caminhos – como uma base para discussão, concordância e discordância, e (sempre) para estudos futuros.

Gostaríamos de pensar que estes dois volumes juntos, Oito Sabás para Bruxas e O Caminho das Feiticeiras, ofereçam uma ‘liturgia’ básica e um manual operativo sobre os quais qualquer coven possa construir sua filosofia e sua prática próprias exclusivas, dentro da tradição comum – e que aos não-feiticeiros interessados eles possam oferecer um quadro integral sobre o que estas pessoas estranhas em seu meio estão fazendo e acreditando, e porque; talvez os persuadindo de que as bruxas não são tão bizarras, mal orientadas ou perigosas afinal de contas.

 

Finalmente, estamos felizes por incluir um Apêndice pela própria Doreen Valiente entitulado “A Busca Pela Velha Dorothy’. Gerald Gardner alega ter sido iniciado em 1939 por Old Dorothy Clutterbuck, uma bruxa de New Forest. Alguns de seus difamadores sugeriram que a Velha Dorothy, e mesmo o coven de New Forest, eram uma ficção inventada por Gardner para dar credibilidade à sua ‘pretensão’ de ser um bruxo iniciado. Doreen atribuiu a si mesma a tarefa de provar o erro do difamador – e assim o fez. Deixamos para ela descrever sua busca e seus resultados, que constituem uma sólida contribuição para a história do reavivamento da Arte.

                                                                                                                      JANET FARRAR

                                                                                                                 STEWART FARRAR

Nota à Quarta Impressão

Dois anos após sua publicação, nós não achamos necessidade de alterações em nosso texto.  Entretanto, faríamos duas observações: nossos comentários sobre a cena da Arte irlandesa (pág.184) que foi ultrapassada pelos eventos. O reavivamento da Arte está em movimento na Irlanda, e nós certamente não somos mais os ‘únicos bruxos conhecidos’. Um sintoma disto é a pequena revista ativamente pagã Caminhos Antigos, produzida pelos nossos iniciados de Dublin que se ramificaram e fundaram seu próprio coven. (Isso pode ser obtido através do ‘The Alchemists’ Head’, 10 East Essex Street, Dublin 2.)

A segunda observação é que nós fizemos várias referências à nossa vida em Co.Louth. Nós nos mudamos desde então, mas permitimos que ficassem as referências.

Uma observação sobre a Investidura (Págs.297-8). Isso foi escrito antes da atual (e justificada) suscetibilidade sobre a tendência patriarcal da língua inglêsa, e usa as palavras ‘homem’ e ‘homens’ incluindo homens e mulheres. Nós deixamos o texto impresso como tal, mas a nossa própria prática é a de adicionar a Investidura em espaços para corrigir isso, e outros podem desejar fazer o mesmo. Por exemplo, nós dizemos ‘coração da humanidade’ ao invés de ‘coração do homem’, o que alguns podem não sentir como suficientemente radical. Mas ao fazer esta emenda, deve-se tomar a precaução de não destruir o ritmo e a poesia desta amável declamação.

Gostaríamos de agradecer às centenas de leitores ao redor do mundo que tem escrito para nós, e ainda o fazem; e se a pressão do trabalho, e o grande volume destas cartas, tiver nos impedido de responder à todas elas prontamente, esperamos que estes leitores compreendam.

 

Herne’s Cottage,                                                                                                                               J.F.

Ethelstown,                                                                                                                            S.F.

Kells,

Co.Meath,

Irlanda.

 

                                                           Fôlhas Do

                                               Livro das Sombras

 

 

                                   I          Iniciação do Primeiro Grau

 

Em um sentido formal, a iniciação do primeiro grau o torna um bruxo comum. Mas naturalmente ele é mais complicado do que isto.

Como toda bruxa experiente sabe, existem pessoas que são bruxos naturais por nascença – muitas vezes talvez de uma encarnações anterior. Um bom Sumo Sacerdote ou Suma Sacerdotiza costuma reconhecê-las.  Iniciar uma dessas pessoas não é ‘fabricar’ uma bruxa; muito mais, é um gesto de dupla direção de identificação e reconhecimento – e, naturalmente, um ritual de boas vindas à um valor adicionado ao coven.

Na outra extremidade, existem os ‘iniciantes vagarosos’ – muitas vezes pessoas boas, sinceras e trabalhadoras – que o iniciador sabe muito bem que terão um longo caminho a trilhar, e talvez um monte de sensações de frustração e falso condicionamento à superar, antes que estas possam ser chamadas de bruxas reais. Mas mesmo para estas, a iniciação não é uma formalidade vazia, se o iniciador(a) conhecer o seu trabalho. Isto pode lhes dar uma sensação de pertencer, uma sensação de que um importante marco foi percorrido; e simplesmente ao conceder a um aspirante sincero, não importa o quão aparentemente destituído de dotes, o direito de denominar-se como bruxo ou bruxa, voce estará encorajando ele ou ela à trabalhar duro a fim de estar em condições de merecer a denominação. E alguns prováveis iniciantes vagarosos poderão lhe surpreender com uma súbita aceleração de desenvolvimento após a iniciação; então voce sabe que ‘a coisa pegou’.

Na parte intermediária está a maioria, os candidatos de médio potencial e com a consciência despertando, que percebem mais ou menos claramente que o Wicca é o caminho pelo qual eles tem procurado, e o porque, mas que ainda estão começando a explorar suas implicações. Para estes, uma iniciação bem conduzida pode ser uma experiência muito forte e comovente, uma genuina virada dialética em seu crescimento psíquico e emocional. Um bom iniciador fará tudo para que isto aconteça assim.

Ao final, o(a) iniciador(a) não estará sozinho(a) em seus esforços (e não estamos nos referindo apenas ao apoio de seu/sua assistente de serviço e dos membros do coven). Uma iniciação é um rito mágico. Invocando poderes cósmicos, e deve ser conduzido na total confiança de que os poderes invocados irão se manifestar.

Toda iniciação, em qualquer religião ou fraternidade genuínas, é uma morte e renascimento simbólicos, conscientemente assumidos. No rito Wicca, esse processo é simbolizado pelo amarrar e pelo vendar os olhos, a ameaça, a ordália aceita, a remoção final das amarras e da venda, e a unção para uma nova vida. O iniciador(a) deve manter claro este significado em sua mente e se concentrar neste,e o próprio ritual deverá imprimir o mesmo significado na mente do postulante.

Em séculos mais primitivos, o imaginário da morte-e-ressurreição era sem dúvida muito mais vívido e explícito, e provavelmente encenado amplamente sem palavras. Patricia Crowther, a renomada bruxa de Sheffield, conta em seu livro Sangue de Bruxa (vide Bibliografia) como ela teve uma sugestão disto durante sua iniciação por Gerald Gardner. O ritual era o normal Gardneriano, básicamente o mesmo que nós apresentamos nesta Seção, porém antes do Juramento, Gardner se ajoelhou ao lado dela e meditou por um momento. A própria Patrícia, amarrada e aguardando, súbitamente entrou em transe (que depois ela descobriu ter durado uns quarenta minutos) e parece ter experimentado uma recordação de encarnação. Ela se encontrou sendo levada, amarrada e despida, numa procissão de tochas para dentro de uma caverna por um grupo de mulheres despidas. Elas se retiraram, deixando-a aterrorizada numa total escuridão cheia de morcegos. Gradualmente ela venceu seu medo e ficou calma, e no devido tempo as mulheres voltaram. Elas permaneceram em fileira com as suas pernas afastadas, e orderaram a ela que se contorcesse, amarrada como estava, através do túnel de pernas no formato de vagina, enquanto as mulheres se agitavam, gritavam e berravam tal como em trabalho de parto. Quando ela atravessou, foi puxada pelos seus pés e suas amarras foram cortadas. A líder, olhando para ela, ‘ofereceu-me seus seios para simbolizar que ela me amamentaria e protegeria como faria com seus próprios filhos. O corte de minhas amarras simbolizava o corte do cordão umbilical’. Ela teve que beijar os seios oferecidos, e então ela foi aspergida com água e contou que ela havia renascido dentro do sacerdotado dos Mistérios da Lua.

O comentário de Gardner, quando ela recobrou a consciência: ‘ Por um longo tempo, tive a idéia de que isso costumava ser realizado de alguma forma como voce descreveu, e agora eu sei que eu não estava tão errado. Isso deve ter acontecido há séculos atrás, muito antes de os rituais verbais serem adotados pela Arte’.

Morte e renascimento, com todos os seus terrores e promessas, dificilmente poderiam ser mais completamente dramatizados; e nós temos a sensação de que a recordação de Patrícia era genuína. Ela é óbviamente uma bruxa natural desde tempos passados.

Mas retornemos ao ritual Gardneriano. Para  isto, não tínhamos três textos de Gardner, mas quatro; em adição aos textos A, B e C (vide página 3), existe o romance de Gardner Auxílio à Alta Magia. Este foi publicado em 1949, antes da anulação dos Atos da Bruxaria na Bretanha, e antes de seus dois livros de não-ficção Bruxaria Hoje (1954) e O Significado da Bruxaria (1959). Neste, Gardner revelou pela primeira vez em forma impressa, disfarçado como ficção, uma parte do material que nós aprendemos de seu coven de origem. Por exemplo, no Capítulo XVII a bruxa(o_?) Morven conduz o herói Jan através de sua iniciação de primeiro grau, e o ritual é apresentado em detalhes. Nós achamos isso muito útil para esclarecer um ou dois pontos obscuros – por exemplo, a ordem “Pés nem amarrados nem soltos”, que conhecíamos da nossa própria iniciacão Alexandriana mas suspeitávamos que estava deslocada (vide nota 5 na página 301).

O rito do primeiro grau foi talvez aquele que menos se alterou na ocasião em que o Livro das Sombras alcançara o estágio do Texto C. Isso é porque, dentre o material incompleto de posse do coven de New Forest, esta seria naturalmente a parte que sobreviveu mais completamente em sua forma tradicional. Gerald Gardner portanto não teria necessidade de preencher vazios com material Crowleyano ou outros materiais não-Wicca, e Doreen Valiente portanto não teve que sugerir o tipo de re-escrita que seria necessário (por exemplo) com a Investidura.

Na prática Wicca, um homem é sempre iniciado por uma mulher, e uma mulher por um homem. E apenas um bruxo do segundo ou terceiro grau pode conduzir uma iniciação. Existe, portanto, uma exceção especial para cada uma destas regras.

A primeira exceção é que uma mulher pode iniciar sua filha, ou um homem seu filho, ‘porque eles são partes deles mesmos’. (Alex Sanders nos ensina que isso poderia ser feito apenas ‘em uma emergência’, mas o Livro das Sombras de Gardner não impõe tal condição).

A outra exceção se relaciona à única vez  quando um bruxo do primeiro grau (e um ‘novo em folha’ nesta ocasião) pode iniciar um outro. A Wicca deposita grande ênfase no trabalho de parceria masculino-feminino, e a maioria dos covens fica muito satisfeita quando um casal apropriado vem junto para iniciação. Um método mais agradável de conduzir tal iniciação dupla é exemplificado naquele de Patricia e Arnold Crowther (que eram então apenas noivos_?) por parte de Gerald Gardner.

Gardner iniciou Patrícia primeiro, enquanto Arnold aguardava do lado de fora do recinto. Então ele colocou o Livro das Sombras na mão dela e ficou em prontidão, induzindo-a, enquanto ela própria iniciava Arnold.  ‘Esta é a maneira em que isto é sempre feito’, Gardner contou a ela – mas devemos admitir que isso era desconhecido para nós até que lemos o livro de Patrícia. Nós o apreciamos; ele cria um vínculo especial, no sentido Wicca, entre os dois recém chegados desde o início de suas atividades no coven.

Doreen Valiente nos confirmou que esta era a prática frequente de Gardner, e adiciona: ‘Por  outro lado, contudo, nós mantivemos a regra de que apenas um bruxo do segundo ou terceiro grau poderia iniciar’.

Nós gostaríamos de mencionar aqui uma ou duas diferenças (em adição à pequenos pontos anotados no texto) entre o rito de iniciação Alexandriano e o Gardneriano que tomamos como nosso padrão. Nós não os mencionamos sob qualquer espírito de separativismo – todo coven fará e deverá fazer o que julgar melhor para si – mas apenas para registrar qual é qual, e para expressar nossas próprias preferências, ao que nós também estamos autorizados.

Primeiro, o método de trazer o Candidato dentro do Círculo. A tradição Gardneriana é a de empurrá-lo por trás para dentro , como descrito no texto. O Livro das Sombras não diz como isso é feito; após a declaração do Iniciador, “Eu te dou um terceiro (?) para passar a ti através desta terrível porta”, ele apenas adiciona de forma enigmatica ‘Dá [isto] (?)’.

O Auxílio à Alta Magia é mais específico: ‘Então segurando-o firmemente por trás com o braço esquerdo dela ao redor da cintura dele e puxando o braço direito dele ao redor do pescoço dela e seus lábios próximos aos dela (?), disse: “Eu te dou a terceira senha: ‘Um beijo’. Assim dizendo ela o empurrou adiante com seu corpo, através do portal, dentro do Círculo. Uma vez dentro ela o soltou, sussurrando: “Esse é o modo pelo qual todos são primeiramente trazidos para dentro do Círculo” ‘. (Auxílio à Alta Magia, Pág.292).

Puxar o braço direito do Candidato ao redor de seu pescoço naturalmente não é possível caso os pulsos dele estejam amarrados juntos; e inclinar a cabeça dele com sua mão, para beijá-lo por sobre seus ombros, é quase impossível se ele for muito mais alto do que ela. Eis o porque nós sugerimos que ela o beija antes de agarrá-lo pelas costas. Este é o empurrar-por-trás que é o essencial tradicional;  Doreen diz que o coven de Gardner sempre fez assim.

‘Acho que isto foi originalmente planejado como um tipo de teste’, ela nos conta, ‘porque um questionador poderia dizer, tal como em Auxílio à Alta Magia, “Quem o conduziu para dentro de um Círculo?” A resposta era, “Eles me conduziram por detrás.” ‘

A prática Alexandriana era de agarrar os ombros do Candidato de frente, beijá-lo e então empurrá-lo para dentro do Círculo, girando deosil. Eis como ambos fomos iniciados, e não nos sentimos pior por isso.  Porém não vemos razão, agora, para partir da tradição original, especialmente por isso ter um interessante significado histórico junto ao mesmo; de forma que voltamos para o método Gardneriano.

Quando Stewart visitou o Museu das Bruxas em Isle of Man em 1972,  (então sob os cuidados de Monique Wilson, para quem Gardner tinha deixado sua coleção insubstituível que ela mais tarde imperdoávelmente vendeu para a América), Monique contou à ele que, porque ele não foi empurrado por trás para dentro do Círculo em sua iniciação, ‘nenhuma bruxa verdadeira o tocaria com uma haste (?)’. Ela então se ofereceu para reiniciá-lo ‘adequadamente’.  Stewart a agradeceu educadamente porém recusou. A precaução quanto à pergunta ardilosa pode ter tido uma base válida nos dias da perseguição; insistir nisso hoje em dia é mero separativismo.

A segunda maior saída Alexandriana da tradição está na tomada da medida. Covens Gardnerianos mantém a medida; os Alexandrianos a deixam à cargo do Candidato.

No ritual Alexandriano, a medida é tomada com cordão vermelho, não barbante, apenas da coroa da cabeça até os calcanhares, omitindo as medidas da fronte, do coração e quadris. O Iniciador diz: ‘Agora nós vamos tomar as suas medidas, e nós o medimos da coroa da sua cabeça até as solas dos seus pés. Nos dias antigos, quando a sua medida era tomada, aparas de unha e cabelo teriam sido tiradas ao mesmo tempo do seu corpo. O coven manteria a medida e as aparas, e se voce tentasse deixar o coven, eles poderiam trabalhar [sobre este material] para trazê-lo de volta, e voce jamais teria escapado. Mas porque voce entrou em nosso Círculo com duas palavras perfeitas, perfeito amor e perfeita confiança, nós lhe devolvemos a sua medida, e o incumbimos de carregá-la no seu braço esquerdo’. A medida é então atada ao redor do braço esquerdo do Candidato até o fim do ritual, após o que ele poderá fazer o que quiser com ela. A maioria dos iniciados as destroem, alguns as mantém como lembrança, e alguns as colocam em pequenos estojos e as oferecem aos seus companheiros de práticas.

O simbolismo ‘amor e confiança’ do costume Alexandriano é claro, e alguns covens podem preferí-lo. Mas nós achamos que há muito mais a ser dito para o coven que mantém a medida, não como chantagem mas como uma recordação simbólica da responsabilidade do novo iniciado como relação ao coven. De outra forma pareceria não haver motivo algum para toma-la.

Doreen nos conta: ‘A idéia de devolver a medida é definitivamente, em minha opinião, uma inovação de Sanders’. Na tradição de Gerald, ela era sempre mantida pelo iniciador. Jamais, entretanto, houve qualquer sugestão de que esta medida seria usada na maneira de chantagem descrita pelo ritual Alexandriano. Pelo contrário, se alguem quisesse deixar o coven este estaria livre para fazê-lo, desde que respeitasse a nossa confiança e mantivesse os segredos. Por fim, qual seria o motivo em tentar manter alguém em um coven contra sua vontade ? Suas más vibrações iriam apenas estragar as coisas. Mas – nos dias antigos a medida era usada contra alguém que deliberada e maliciosamente traísse os segredos. Gerald me contou que “a medida era então enterrada num local pantanoso, com maldições, de forma que enquanto ela se deteriorasse também o traidor iria se deteriorar.“ Lembre-se, traição naqueles dias era caso de vida ou morte – literalmente !’

Nós enfatizaríamos novamente – pontos de vista sobre as diferenças dos detalhes podem ser fortemente mantidos, mas ao final é a decisão do próprio coven que pesa ao decidir sobre uma forma determinada, ou em elaborar sua própria. A validade de uma iniciação não depende das letras impressas (?), e nunca dependeu. Ela depende da sinceridade e da eficácia psíquica do coven, e da sinceridade e e do potencial psíquico do iniciado. Como a Deusa diz na Investidura: ‘E tu que pensais em buscar por mim, sabei que tua busca e desejo não te beneficiarão, à  menos que tu conheças o mistério; que se aquilo que tu buscas não podes encontrar dentro de ti, então jamais o encontrarás fora de ti. Pois prestai atenção, eu tenho estado contigo desde o começo; e eu sou aquilo que é alcançado ao  final do desejo.’

Smallprintitis [letras impressas, como referido acima] (se somos capazes de cunhar tal palavra) tem sido o mal, infelizmente, de todas as muitas liturgias cristãs, incluido aquelas que tiveram suas origens na beleza; as bruxas não devem cair nesta mesma armadilha. Se é tentado a dizer que as liturgias deveriam ser escritas por poetas, não por teólogos.

Uma palavra sobre os nomes Cernunnos e Aradia,  os nomes de divindades usados no Livro das Sombras de Gardner. Aradia foi adotado das bruxas de Tuscany (Toscana_?) (vide a obra de Charles G.Leland Aradia: o Evangelho das Bruxas); sobre suas possíveis ligações celtas, vide o nosso Oito Sabás para Feiticeiras, Pág.84. Cernunnos (ou, como Jean Markale o traduz em Mulheres dos Celtas, Cerunnos) é o nome geralmente dado pelos arqueólogos ao Deus Chifrudo celta, porque apesar de muitas representações dele terem sido encontradas, em todo lugar desde o Caldeirão Gundestrup até a Colina de Tara (vide a Ilustração 10), apenas uma destas porta um nome escrito – um baixo-relevo encontrado em 1710 sob o coral de Notre-Dame de Paris, e agora no Museu Cluny em Paris. O final ‘-os’ sugere que isto era uma Helenização de um nome celta; sabe-se que os Druidas eram familiarizados com o grego e usavam o alfabeto grego  para suas transações em assuntos comuns, embora neste caso as letras reais são romanas. Também o grego para ‘chifre’ é V (keras). Doreen Valiente sugere (e nós concordamos com ela) que o nome que então fora Helenizado era realmente Herne (como em Herne o Caçador, do Grande Parque Windsor). ‘Voce já ouviu o grito de um gamo no cio ?’ ela pergunta.  Voce ouve isso o tempo todo no cio dos gamos no outono em New Forest , e ele simplesmente soa como “HERR-NN ... Herr-rr-nn ...” repetido muitas e muitas vezes. É um som muito impressionante e nunca é esquecido. Agora, das pinturas de cavernas e estátuas que temos dele, Cernunnos foi preeminentemente um deus gamo. Assim de que modo melhor poderiam os mortais o nomearem? Seguramente a partir do som que mais vívidamente recorda alguém dos grandes gamos da floresta.’

À isso alguém poderia adicionar que o intercâmbio dos sons ‘h’ e ‘k’ é sugerido pelos nomes de locais Cerne Abbas em Dorset, local da famosa colina Gigante. Há um grande número de localidades chamadas Herne Hill na Bretanha, tanto quanto duas vilas Herne, uma Baía Herne, um Rebanho Herne, uma ponte Herne, um Terreno Herne, um Herne Pound, e assim por diante. Algumas vezes a Colina Herne é explicada como significando ‘colina garça’, mas, como assinala Doreen, as garças crescem próximo à rios e lagos, não em colinas; ‘para mim parece muito mais que a Colina Herne era consagrada ao Deus Antigo.’

No Livro das Sombras Alexandriano, o nome é ‘Karnayna’ – mas essa forma não aparece em mais nenhum outro lugar que nós ou Doreen tenhamos encontrado. Ela acha que ‘isso é provavelmente – embora não certamente – uma audição errônea do nome Cernunnos. O nome verdadeiro pode ter sido omitido no livro do qual Alex copiou, e ele teve que confiar na recordação verbal de alguém sobre isto.’ (Conhecendo Alex, nós diríamos ‘quase certamente’!)

No texto que segue, o Iniciador pode ser a Suma Sacerdotiza ou o Sumo Sacerdote, dependendo se o Candidato for homem ou mulher; então nós nos referimos ao Iniciador como ‘ela’ para simplificar, e ‘ao Candidato’(mais tarde ‘o Iniciado’) como ‘ele’, embora naturalmente possa ser de outra maneira. O assistente operacional do Iniciador, seja o Sumo Sacerdote ou a Suma Sacerdotiza, tem também certas tarefas a executar, e é referido como ‘o Assistente’.

 

                                                           A Preparação

Tudo é arrumado como para um Círculo normal, com os seguintes ítens adicionais também já preparados :

 

uma venda (para olhos)

uma extensão de cordão (pelo menos oito pés) ou corda fina

óleo para unção

um sininho de mão

três extensões de corda vermelha – uma de nove pés, e duas de quatro pés e seis [polegadas]

 

É também comum, embora não essencial para o Candidato, trazer seu próprio athame novo, e cordões vermelhos, brancos e azuiz, para serem consagrados imediatamente após a sua  iniciação (1). Ele deve ser avisado, tão logo ele saiba que está prestes a ser iniciado, para adquirir para si mesmo uma faca qualquer com cabo preto com a qual ele se sinta confortável. Muitas pessoas parecem [preferir elas próprias] comprar  uma faca comum com bainha (a bainha é de toda forma útil, para portá-la para o local de reunião ou para fora deste) e esmaltar o cabo de preto caso esse ainda não seja desta cor. Pode não haver tempo para ele gravar os símbolos tradicionais no cabo (vide Secção XXIV) antes de ela ser consagrada; isso pode ser feito mais tarde, num momento de folga. Algumas bruxas jamais gravam os símbolos no cabo, preferindo a tradição alternativa onde os instrumentos de trabalho de alguém nunca devem ser identificados como tal para qualquer estranho; (2) ou porque o padrão do cabo da faca escolhida não permite gravações neste. (o athame de Stewart, agora com doze anos, porta os símbolos; o de Janet, com a mesma idade mas com um cabo padronizado, não os porta; e nós temos um outro athame, feito à mão por um amigo artesão, que tem um cabo de pé de gamo óbviamente inadequado para fazer gravações). Nós sugerimos que as lâminas e pontas do athame sejam sem corte, uma vez que nunca são usados para cortar mas são usados para gestos rituais dentro do que pode ser um Círculo cheio de praticantes e todos vestidos de céu.

Os três cordões que ele traz devem ter o comprimento de nove pés cada um. Nós gostamos de evitar que as pontas desfiem usando Sellotape (marca comercial) ou atando-as (‘whipping’ / açoitando_? /, no linguajar dos marinheiros) com fios na mesma cor. Contudo, Doreen diz, ‘nós dávamos nós nas pontas para evitar que desfiassem, e a medida essencial era de nó em nó’.

Deve ser dito à ele também para que traga sua própria garrafa de vinho tinto – pelo menos para impressionar-lhe desde o início sobre o fato de que as despesas de suprimentos para o coven,  quer seja o vinho do Círculo ou qualquer alimento trazido antes ou após o Círculo, não recaiam totalmente sobre a Suma Sacerdotiza ou o Sumo Sacerdote !

Com relação aos ítens adicionais listados acima – qualquer cachecol servirá como venda, mas este deve ser opaco. E a escolha do óleo para unção está a cargo da Suma Sacerdotiza; o coven de Gardner sempre usou óleo de oliva puro.  O costume Alexandriano é de que ele deveria incluir uma pequena quantidade do suor da Suma Sacerdotiza e do Sumo Sacerdote.

                                                           O Ritual

Antes de o Círculo ser iniciado, o Candidato está em pé fora do Círculo na direção Nordeste, vendado e amarrado por bruxas do sexo oposto. A amarração é feita com as três cordas vermelhas (3) – uma com o comprimento de nove pés, o outro par com o comprimento de quatro pés e meio. Os pulsos são amarrados juntos por trás das costas com o meio da corda comprida e as duas extremidades são trazidas adiante por sobre os ombros e amarradas na frente do pescoço, deixando as pontas pendentes formando um tipo de ‘gancho’ pelo qual o Candidato possa ser conduzido (4). Uma corda curta é atada ao redor do tornozelo direito, a outra acima do joelho esquerdo – cada uma com as pontas trocadas (?) de forma que elas não o façam tropeçar. Enquanto a corda do tornozelo está sendo atada, a Iniciadora diz:

            ‘Pés nem atados nem soltos’. (5)

O Círculo é então iniciado, e o Ritual de Abertura procede como usual, exceto que o ‘portal’ na direção Nordeste não está fechado ainda, e a Investidura ainda não é falada. Após a Invocação da Lua (6), a Iniciadora faz a Cruz Cabalística (7), como segue : ‘Ateh’ (tocando a testa) ‘Malkuth’ (tocando o peito)  ‘ve-Geburah’ (tocando o ombro direito)  ‘ve-Gedulah’ (tocando o ombro esquerdo)  ‘le-olam’ (unindo as palmas ao nível do peito).

Após a Runa das Feiticeiras, a Iniciadora pega a espada, ou seu athame, do altar. Ela e seu auxiliar ficam de frente ao Candidato.

Elas então declamam a Investidura (vice Apêndice B, Págs.297-8).

A Iniciadora então diz :

‘Oh tu que permaneceis de pé no limiar entre  o agradável mundo dos homens e os terríveis domínios dos Senhores dos Espaços Exteriores, tens tu coragem para fazer a empreitada?’

Ela coloca a ponta da espada ou athame contra o coração do Candidato e continua :

‘Pois verdadeiramente eu digo, seria melhor precipitar-se sobre minha lâmina e perecer, do que fazer a tentativa com medo em teu coração.’

O Candidato responde :

‘Eu possuo duas senhas. Perfeito amor, e perfeita confiança.’(8)

A Iniciadora diz :

‘Todos os que as possuem são duplamente benvindas. Eu te dou uma terceira para te conduzir através desta terrível porta’.

Ela entrega a espada ou athame ao seu Auxiliar, beija o Candidato e dá a volta indo para trás dele. Abraçando-o por trás, ela o empurra adiante com seu próprio corpo para dentro do Círculo. Seu Assistente fecha ritualmente o ‘portal’ com a espada ou athame, que ele então repõe sobre o altar.

A Iniciadora conduz o Candidato pelos pontos cardeais ao redor e diz :

‘Prestai atenção, vós Senhores do Leste [Sul, Oeste, Norte] que ________ está devidamente preparado para ser iniciado como um sacerdote (sacerdotiza) e bruxo.’ (9)

 

 

 

 

A Iniciadora então conduz o Candidato ao centro do Círculo. Ela e o coven circulam ao redor dele em deosil, cantando :

                        ‘Eko, Eko, Azarak,

                         Eko, Eko, Zomelak,

                         Eko, Eko, Cernunnos, (10)

                         Eko, Eko, Aradia,’ (10)

 

repetindo várias e várias vêzes, enquanto eles empurram o Candidato para frente e para trás entre eles, algumas vezes fazendo-o girar um pouco para desorientá-lo, até que a Iniciadora ordene que cesse. O Assistente toca o sino de mão três vêzes, enquanto a Iniciadora vira o Candidato (que ainda está no centro) para que fique de frente ao altar. Ela então diz :

‘Em outras religiões o candidato se ajoelha, enquanto o sacerdote permanece acima deste. Porém na Arte Mágica somos ensinados à sermos humildes, e nós nos ajoelhamos para recepcioná-lo(a) e nós dizemos...’

A Iniciadora se ajoelha e aplica ao Candidato o Beijo Quíntuplo, como segue :

‘Benditos sejam teus pés, que trouxeram a ti nestes caminhos’ (beijando o pé direito e então o pé esquerdo).

‘Benditos sejam teus joelhos, que se dobrarão no altar sagrado’ (beijando o joelho direito e então o joelho esquerdo).

‘Bendito seja teu falo [útero], sem o qual nós não existiríamos’ (beijando logo acima do pêlo púbico).

‘Bendito seja teu peito, formado em força [seios, formados em beleza]’ (11) (beijando o peito direito e então o peito esquerdo).

‘Benditos sejam teus lábios, que pronunciarão os Nomes Sagrados’  (abraçando-o e beijando-o nos lábios).

O Assistente agora entrega o cordão à Iniciadora, que diz :

‘Agora nós vamos tomar suas medidas.’

A Iniciadora, com a ajuda de uma outra bruxa do mesmo sexo, estica o cordão desde o chão aos pés do Candidato até a coroa de sua cabeça, e corta esta medida com a faca de cabo branco (que seu Assistente traz para ela). Ela então o mede uma vez ao redor da cabeça na altura da testa e faz um nó para marcar a medida; uma vez (a partir da mesma ponta) ao redor do tórax na altura do coração, e faz um nó; e uma vez ao redor dos quadris, cruzando os genitais, e faz um nó. Ela enrola a medida e coloca sobre o altar.

A Iniciadora pergunta ao Candidato :

‘Antes que sejais consagrado, estais pronto para passardes pela ordália e serdes purificado ?’

O Candidato responde :

‘Estou’.

A Iniciadora e a outra bruxa do mesmo sexo ajudam o Candidato a se ajoelhar e a inclinar para frente sua cabeça e seus ombros. Elas desatam as pontas soltas das cordas de seu tornozelo e joelho e amarram seus tornozelos juntos e seus joelhos juntos. (12) A Iniciadora então pega o chicote do altar.

O Assistente toca o sino de mão três vêzes e diz ‘Três’.

A Iniciadora aplica no Candidato três golpes suaves com o chicote.

O Assistente diz ‘Sete’ . (Ele não toca o sino novamente.)

A Iniciadora aplica no Candidato sete golpes suaves com o chicote.

O Assistente diz ‘Nove’ .

A Iniciadora aplica no Candidato nove golpes suaves com o chicote.

O Assistente diz ‘Vinte e Um’ .

A Iniciadora aplica no Candidato vinte e um golpes suaves com o chicote. (o vigésimo primeiro golpe pode ser mais vigoroso, como uma lembrança de que a Iniciadora tem sido deliberadamente comedida).

A Iniciadora diz :

‘Tu passaste bravamente pelo teste. Estais pronto para jurar que sereis sempre verdadeiro para a Arte ?’

O Candidato responde : ‘Estou’.

A Iniciadora pergunta :

‘Estais sempre pronto para ajudar, proteger e defender teus irmãos e irmãs da Arte ?’

O Candidato responde : ‘Estou’.

A Iniciadora diz (frase por frase) :

‘Então diga depois de mim: “Eu, _______ , na presença dos Poderosos, por minha própria e livre vontade e acordo mui solenemente juro que eu sempre manterei secretos e jamais revelarei os segrêdos da Arte, exceto seja para uma pessoa apropriada, devidamente preparada dentro de um Círculo tal qual estou agora dentro; e que eu jamais negarei os segrêdos para tal pessoa se ele ou ela for adequadamente avalizado por um irmão ou irmã da Arte. Tudo isso eu juro pelas esperanças de uma vida futura, consciente de que minha medida foi tomada; e possam as minhas armas se voltarem contra mim se eu quebrar este meu solene juramento”.’

O Candidato repete cada frase após ela.

A Iniciadora e a outra bruxa do mesmo sexo agora ajudam o Candidato a ficar de pé.

O Assistente traz o óleo para unção e o cálice de vinho.

A Iniciadora umedece a ponta de seu dedo com o óleo e diz :

‘Com isto eu te assinalo com o Sinal Triplo. Eu te consagro com óleo.’

Ela toca o Candidato com o óleo logo acima do pêlo púbico, em seu peito direito, , em seu peito esquerdo e novamente sobre o pêlo púbico, completando o triângulo invertido do Primeiro Grau.

Ela umedece a ponta de seu dedo com vinho, diz ‘Eu te consagro (?) com vinho’, e o toca nos mesmos lugares com o vinho.

Ela então diz : ‘Eu te consagro com meus lábios’, o beija nos mesmos lugares e continua: ‘sacerdote[tiza] e bruxo[a]’.

A Iniciadora e a outra bruxa do mesmo sexo agora retiram a venda do Candidato e desamarram suas cordas.

O Candidato é agora um bruxo iniciado, e o ritual é interrompido para que cada membro do coven o congratule e dê boas vindas, beijando ou apertando as mãos como for apropriado. Quando tiver acabado, o ritual prossegue com a apresentação dos instrumentos de trabalho. Quando cada instrumento é nomeado, a Iniciadora o pega do altar e o entrega ao Iniciado com um beijo. Outra bruxa do mesmo sexo que a Iniciadora fica próxima, e quando acaba a apresentação de cada instrumento, ela o toma do Iniciado com um beijo e o recoloca sobre o altar.

A Iniciadora explica os instrumentos como segue :

‘Agora eu te apresento os Instrumentos de Trabalho. Primeiro, a Espada Mágica. Com esta, tanto quanto com o Athame, podeis formar todos os Círculos Mágicos, dominar, subjugar e punir todos os espíritos rebeldes e demônios, e mesmo persuadir anjos e bons espíritos. Com isto em tua mão, vós sois o regente do Círculo.

‘A seguir eu te apresento o Athame. Esta é a verdadeira arma do bruxo, e tem todos os poderes da Espada Mágica.

‘A seguir eu te apresento a Faca de Cabo Branco. Sua utilidade é formar todos os instrumentos usados na Arte. Ela pode ser usada apenas dentro de um Círculo Mágico.

‘A seguir eu te apresento a Var. Sua utilidade é invocar e controlar certos anjos e genios os quais não poderiam ser reunidos pela Espada Mágica.

‘A seguir eu te apresento o Cálice. Este é o recipiente da Deusa, o Caldeirão de Cerridwen, o Santo Graal da Imortalidade. Deste nós bebemos em camaradagem,e em honra da Deusa (13).

‘A seguir eu te apresento o Pantáculo. Seu propósito é o de invocar espíritos apropriados.

‘A seguir eu te apresento o Incensário. Ele é utilizado para encorajar e saudar bons espíritos e para banir maus espíritos.

‘A seguir eu te apresento o Chicote. Este é o sinal do poder e da dominação. É também usado para provocar a purificação e a iluminação. Pois está escrito, “Para aprender, deveis sofrer e serdes purificado”. Tu estás disposto a  sofrer para aprender ?’

O Iniciado responde : ‘Estou’.

A Iniciadora prossegue : ‘A seguir e por fim eu te apresento as Cordas. Elas são utilizadas para atar os sigilos na Arte; também a base material; também elas são necessárias no Juramento’.

A Iniciadora diz : ‘Eu agora te saúdo em nome de Aradia, recem consagrado(a) sacerdote(iza) e bruxo(a)’, e beija o Iniciado.

Finalmente, ela o conduz à cada um dos pontos cardinais ao redor, dizendo :

‘Ouvi oh vós Poderosos do Leste [Sul, Oeste, Norte]; _________ foi consagrado(a) sacerdote(iza), bruxo(a) e filho(a) oculto(a) da Deusa.’ (14)

Caso o Iniciado tenha trazido seu próprio athame novo e/ou cordas, ele poderá agora, como seu primeiro trabalho mágico, consagrá-los (vide Seção IV) – ou com a Iniciadora ou com a pessoa que será sua companheira de operações, se aquela já fôr conhecida, ou se (como no caso de Patricia e Arnold Crowther) ambos tiverem sido iniciados na mesma ocasião.

 

x – x – x – x – x – x – x                                                                     

 

                                   II         Iniciação do Segundo Grau

 

A iniciação do segundo grau promove um(a) bruxo(a) do primeiro grau à condição de Suma Sacerdotisa ou Sumo Sacerdote; não necessariamente, naturalmente, como líder de seu próprio coven. Se os nossos leitores não se incomodarem com um paralelo militar, a distinção é a mesma como entre ‘um’ Coronel e ‘o’ Coronel; o primeiro implica que se está falando de um titular daquela graduação em particular, seja qual for a sua função real; o último significa que se está denominando o comandante de uma unidade em particular.

Uma bruxa do segundo grau pode iniciar a outros – apenas, naturalmente, do sexo oposto, e apenas para o primeiro ou segundo graus.  (As duas exceções oficiais à esta regra já foram explicadas na página 11 [do original] ).  Nós estamos falando aqui da tradição normal Gardneriana ou Alexandriana. A auto-iniciação, e a fundação de covens onde nenhum auxílio externo é possível, é um outro caso, e discutiremos isso detalhadamente na Seção XXIII; mas até então nós sugerimos que, uma vez que tal coven auto-criado esteja devidamente estabelecido e operando, seria muito aconselhável adotar a regra Gardneriana/Alexandriana (ou equivalente em qualquer tradição em que esta tenha se baseado).

Necessitamos enfatizar fortemente que iniciar qualquer pessoa impõe uma responsabilidade sobre o iniciador, tanto em decidir se o candidato é adequado para tanto (ou, se potencialmente adequado, estiver preparado), quanto em assegurar que seu treinamento  prosseguirá. A iniciação pode ter profundas repercussões psíquicas e cármicas, e se esta for concedida de forma irresponsável, os resultados podem se tornar parte do próprio carma do iniciador. Os líderes do coven devem se lembrar disso quando estiverem decidindo se alguém está pronto para seu segundo grau. , e perguntar a si mesmos em particular se o candidato está maduro o suficiente para ser credenciado com o direito de iniciar a outros; se não, os seus erros podem muito bem repercutir em seu carma !

Se uma bruxa recém elevada ao segundo grau foi devidamente instruída e sabiamente escolhida, naturalmente ele ou ela não ficará ansioso(a) para sair às pressas e iniciar pessoas apenas porque as regras o permitem. A prática em nosso coven (e, estamos seguros, na maioria dos outros) tem sido sempre que bruxas do segundo ou terceiro grau exceto a Suma Sacerdotisa e o Sumo Sacerdote normalmente não conduzem iniciações à não ser por pedido, ou com a concordância, da Suma Sacerdotisa. Muitas vezes isso será feito caso o candidato seja um amigo apresentado pelo membro envolvido, ou caso eles desejem se tornar companheiros de trabalho. Ou isso pode ser feito para oferecer prática e auto confiança ao membro dentro do ritual.

Outra implicação em ser uma bruxa do segundo grau é que voce pode, com a concordância da sua Suma Sacerdotisa, deixar o coven e fundar o seu próprio junto ao seu companheiro de trabalho. Neste caso, voce ainda estará sob orientação do coven original até que seus líderes decidam que voce está pronto para completa independência; eles então lhe concederão a sua iniciação ao terceiro grau, após a qual voce será completamente autônomo. (Nós mesmos seguimos este padrão; Alex e Maxine Sanders nos concederam nosso segundo grau em 17 de Outubro de 1970; nós permanecemos em seu coven por mais uns dois meses, e então, com a concordância dos mesmos, pegamos três de seus estudantes que não tinham ainda sido iniciados, e fundamos nosso próprio coven em 22 de Dezembro de 1970, nós mesmos iniciando os três. Em 24 de Abril de 1971 os Sanders nos concederam nosso terceiro grau, e nós e nosso coven nos tornamos independentes.  Nós temos razão em acreditar que Alex, ao menos, desejou posteriormente que o cordão umbilical não tivesse sido cortado tão cedo. Mas ele foi, e – sem malícia – nós estamos preparados para os resultados).

A tradição, ao menos na feitiçaria Gardneriana, é de que a base ou ‘locação’ do coven deve ser de pelo menos uma légua (três milhas) a partir do antigo [coven], e que seus membros devem cortar todo contato com os membros deste coven anterior.  Qualquer contato necessário deve ser feito apenas entre a Suma Sacerdotisa e o Sumo Sacerdote dos dois covens. Esta prática é chamada de ‘anular o coven’ e óbviamente tem suas raízes nos séculos da perseguição. Seria muito difícil seguir isto à risca atualmente, particularmente em condições urbanas; a regra da légua, por exemplo, seria impraticável em lugares como Londres, Nova Iorque, Sidney ou Amsterdam. Mas ainda há muito a ser falado para ‘anular o coven’ no sentido de evitar deliberadamente qualquer coincidência de trabalhos entre o antigo coven e o novo.  Se isso não for feito, as fronteiras ficarão indistintas, e o novo grupo ficará obstruído em sua tarefa necessária de estabelecer sua própria identidade e em construir a sua própria mente-grupo. Pode até mesmo haver uma tendência, entre os membros mais jovens do novo coven, à ‘correr para a Mamãe’(?) com críticas de seus líderes – o que a Mamãe, se ela for sábia, desencorajará com firmeza.

Maxine impôs rigorosamente a regra de anulação do coven sobre o nosso jovem grupo; e, revendo o  passado, estamos felizes por ela ter feito assim.

Dois ou mais covens (incluindo covens matrizes e seus covens destes originados), podem sempre se reunir, por convite ou acôrdo mútuo, para um dos Festivais de sabá sazonais, e esses sabás combinados podem ser muito agradáveis; mas eles são mais ocasiões de celebração do que ocasiões de trabalho. Esbás de trabalho combinados, por outro lado, não são geralmente uma boa idéia, exceto para propósitos especiais e específicos (talvez sendo o exemplo clássico do famoso esforço das bruxas no tempo da guerra, ao Sul da Inglaterra, para frustrar os planos de invasão de Hitler – embora o ‘propósito específico’ não tenha sempre que ser tão significativo quanto aquele).

Bruxas do segundo e terceiro graus formam juntas os ‘mais antigos’ do coven. Simplesmente como, e o quão frequentemente, os mais velhos são denominados como tais, cabe à Suma Sacerdotisa.  Mas por exemplo, se surgir um caso disciplinar com o qual a Suma Sacerdotisa julgue que não deva lidar apenas com a sua autoridade, os mais antigos oferecem uma bancada ‘natural’ de magistrados. A Suma Sacerdotisa deveria ser a líder inquestionável do coven – e dentro do Círculo, absolutamente; se qualquer um tiver dúvidas honestas sobre suas regras, a questão pode ser calmamente levantada após o Círculo ter sido banido. Mas ela não deve ser um tirano autocrata. Se ela e seu Sumo Sacerdote tiverem respeito suficiente, e confiança, em membros particulares de seu coven a fim de denominá-los mais antigos, deve-se esperar que os mesmos valorizem seus conselhos sobre a condução de um coven e o trabalho à ser feito.

Tudo isso pode parecer estar divagando um pouco fora do assunto da iniciação do segundo grau para dentro de tópicos mais generalizados; mas isso é altamente relevante para a questão de decidir quem está, e quem não está, preparado para o segundo grau.

Com relação ao próprio ritual de iniciação : os Textos B e C do Livro das Sombras de Gardner são idênticos. A primeira parte deste segue um padrão similar àquele do rito do primeiro grau (embora com diferenças apropriadas): o ato de amarrar, a apresentação às Torres de Vigia, o açoitamento ritualístico, a consagração com óleo, vinho e lábios, o ato de desamarrar, a apresentação dos instrumentos de trabalho (mas desta vez para serem ritualmente usadas pelo Iniciado imediatamente) e a segunda apresentação às Torres de Vigia.

Entram três elementos no rito do segundo grau que não são parte do primeiro grau.

Primeiramente, é dado ao Iniciado um nome de bruxa, que ele ou ela tenha escolhido anteriormente. A escolha é inteiramente pessoal. Pode ser um nome de Deus ou Deusa expressando uma qualidade à qual aspire o Iniciado, tais como Vulcano, Tétis, Thoth, Posseidon ou Ma’at. (Os nomes mais elevados de um panteão em particular, tais como Ísis ou Zeus, deveriam, nós sugerimos, serem evitados; eles poderiam ser interpretados como implicando em arrogância ao Iniciado). Ou pode ser o nome de uma figura lendária ou mesmo histórica, novamente implicando um aspecto particular, tais como Amergin o bardo, Morgana a feiticeira, Orfeu o músico, ou Pythia o oráculo. Pode ser mesmo um nome sintético construído com as letras iniciais dos aspectos que criam um equilíbrio desejável ao Iniciado (um processo extraído de um certo tipo de magia ritual).  Mas qualquer que seja a escolha, ela não deve ser casual ou feita às pressas; uma consideração consciente antes da escolha é em si um ato mágico.

Segundo, após o juramento, o(a) Iniciador(a) transfere (?) ritualisticamente seu poder para dentro do Iniciado. Isso, também, não é mera cerimônia, mas um ato deliberado de concentração mágica, no qual o Iniciador coloca tudo o que for possível a fim de manter e conduzir a continuidade do poder psíquico dentro da Arte.

E terceiro, o uso ritual das cordas e do chicote é o momento para dramatizar uma lição sobre o que é muitas vezes chamado de ‘o efeito bumerangue’; isto é, que qualquer esforço mágico, seja benéfico ou malicioso, é passível de ricochetear triplamente sobre a pessoa que o fez.  O Iniciado usa as cordas para amarrar o Iniciador da mesma maneira que o próprio Iniciado foi amarrado anteriormente, e então aplica no Iniciador um açoitamento ritual com três vezes o número de golpes que o Iniciador usou. Tanto quanto sendo uma lição, isto é um teste – para ver se o Iniciado é maduro o suficiente para reagir às ações das outras pessoas com a necessária restrição controlada. Um aspecto mais sutil da lição é que, embora o Iniciador esteja no comando, este comando não é fixo e eterno mas é uma confiança -  o  tipo de confiança que está agora sendo concedido também ao Iniciado; para que ambos, Iniciador e Iniciado tenham finalmente igual estatura no plano cósmico, e que ambos sejam canais para o poder sendo invocado, e não sua fonte.

A segunda parte do ritual é a leitura, ou encenamento, da Lenda da Descida da Deusa. Nós o demos em detalhes completos, juntamente com os movimentos para encená-lo, na Seção XIV de Oito Sabás para Feiticeiras; então tudo o que nós faremos aqui é dar o próprio texto, como ele aparece nos Textos B e C  do Livro das Sombras. Doreen Valiente comenta que o nosso texto em Oito Sabás para Feiticeiras é um pouco mais completo do que este (e incidentalmente ressalta que a palavra ‘Controlador’ na Pág.171, linha 7, da primeira impressão deveria ser ‘Consolador’). Gardner oferece uma versão ligeiramente diferente no Capítulo III de Feitiçaria Hoje (1); mas aqui nós nos ativemos à escrita do Texto C (com duas pequenas exceções – vide Pág.303, notas 10 e 11).

Doreen nos conta que no coven de Gardner, ‘esta Lenda era lida após a Iniciação ao Segundo Grau, quando todos estavam sentados silenciosamente no Círculo. Se houvessem pessoas suficientes presentes, esta também poderia ser apresentada como uma peça dramática [com mímica], os atores realizando as ações enquanto uma pessoa lia em voz alta a Lenda.’

Em nosso coven nós sempre encenamos a Lenda enquanto um narrador a lê -  e se possível fazemos que os atores digam suas próprias falas. Nós achamos que a Lenda encenada, com o Iniciado no papel de Senhor do Submundo caso seja um homem, ou no papel da Deusa caso seja uma mulher, oferece um clímax muito mais eficaz ao ritual do que uma mera leitura. É uma questão de escolha; mas para aqueles que compartilham da nossa preferência por uma encenação é recomendado o Oito Sabás para Feiticeiras.

No ritual abaixo, uma vez que o Iniciado já é um bruxo, nós nos referimos à este como ‘o Iniciado’ até o fim; e novamente à Iniciadora como ‘ela’, o  Iniciado como ‘ele’, e ao Assistente como ‘ele’, para simplificar – embora como antes, pode ser ao contrário.

Nós salientamos que as bruxas americanas usam atualmente em caráter universal o pentagrama para cima – ou seja, com uma única ponta na parte mais alta – como o sigilo do Segundo Grau, porque na mentalidade americana o pentagrama invertido está associado ao Satanismo.  As  bruxas européias, entretanto, ainda usam o pentagrama invertido tradicional, com duas pontas na parte mais alta, mas sem quaisquer implicações sinistras.  O simbolismo europeu é que embora os quatro elementos da Terra, Ar, Fogo e Água estejam agora em equilíbrio, eles ainda dominam o quinto, o Espírito. O pentagrama de ponta para cima coroado do Terceiro Grau simboliza que o Espírito agora rege os outros.  Devido à diferença entre os usos europeu e americano, nós oferecemos dois procedimentos de unção alternativos no ritual que segue.

 

                                                           A Preparação

 

Tudo é preparado para um Círculo normal,  com os seguintes ítens adicionais também de prontidão :

 

uma venda

três extensões de corda vermelha – uma de nove pés, e duas de quatro pés e seis [polegadas]

óleo para unção

uma vela branca nova ainda não acesa

um sininho de mão

peças de joalheria             \

um colar sobre o altar  |____  caso a Lenda da Descida da Deusa seja encenada

um véu                         |           e não meramente lida

uma coroa                     /

 

As peças de joalheria são para a mulher representando a Deusa; assim, se o ritual for realizado sem roupas, estas devem obviamente ser coisas como braceletes, anéis e brincos, e não broches de espetar ! A coroa é para o homem representando o Senhor do Submundo e pode ser tão simples como uma armação de arame caso nada melhor esteja disponível.

A venda deve ser de algum material opaco, como aquela para o primeiro grau; mas o véu deve ser transparente e vistoso, e preferivelmente em uma das cores da Deusa – azul, verde ou prata.

 

                                               O Ritual

 

O ritual de abertura procede como de costume, até o final da invocação ‘Grande Deus Cernunnos’, com o Iniciado ocupando seu lugar normal no coven. Ao final da invocação de Cernunnos, o Iniciado fica em pé no centro do Círculo e é amarrado e vendado por bruxas do sexo oposto, exatamente como para a iniciação do primeiro grau.

A Iniciadora conduz o Iniciado ao longo dos pontos cardeais em círculo e diz :

‘Ouvi, vós Poderosos do Leste [Sul, Oeste, Norte], _______ (nome comum), um(a) Sacerdote(tiza) devidamente preparado(a) e Bruxo(a), está agora adequadamente preparado para ser feito um Sumo Sacerdote e Mago [Suma Sacerdotisa e Rainha  das Bruxas]’ (2)

Ela o conduz de volta para o centro do Círculo e olha para ele, de frente para o altar. Ela e o coven agora dão as mãos e circulam ao redor dele três vêzes. (3)

As bruxas que amarraram o Iniciado agora completam a amarração desenrolando as pontas soltas das cordas de seu joelho e tornozelos e amarrando seus joelhos juntos e seus tornozelos juntos. Elas então o ajudam à se ajoelhar de frente ao altar.

A Iniciadora diz :

‘Para obter este sublime grau, é necessário sofrer e ser purificado. Tu estás disposto a sofrer para aprender?’

O Iniciado diz :

‘Estou’.

A Iniciadora diz :

‘Eu te purifico para fazer este grande Juramento corretamente’.

A Iniciadora pega o chicote do altar, enquanto seu Assistente toca o sino três vêzes e diz: ‘Três’.

A Iniciadora aplica ao Iniciado três golpes leves com o chicote.

O Assistente diz: ‘Sete.’ (Ele não toca o sino novamente).

A Iniciadora aplica ao Iniciado sete golpes [leves] com o chicote.

O Assistente diz: ‘Nove.’

A Iniciadora aplica ao Iniciado nove golpes leves com o chicote.

O Assistente diz: ‘Vinte e um.’

A Iniciadora aplica ao Iniciado vinte e um golpes leves com o chicote. Ela então entrega o chicote ao seu Assistente (que devolve este e o sino ao altar) e diz :

   ‘Eu agora te concedo um novo nome, _________ [o nome de bruxo que ele escolheu] . Qual é o teu nome ?’  Ela lhe aplica um beijo [com estalo] suave assim que estiver perguntando. (4)

O Iniciado responde :

   ‘Meu nome é _______ .’  (Repetindo seu novo nome de bruxo).

Cada membro do coven então por sua vez aplica ao Iniciado um beijo suave ou empurrão (?) de leve, perguntando ‘Qual é o teu nome?’ e o Iniciado responde à cada vez ‘Meu nome é ________.’ Quando a Iniciadora decidir que isso já se prolongou o suficiente, ela faz sinal ao coven para terminar, e todos voltam para seus lugares.

A Iniciadora então diz (frase por frase) :

“Repita teu nome depois de mim, dizendo: “Eu, _______ , juro pelo útero de minha mãe, e pela minha honra entre os homens e meus Irmãos e Irmãs da Arte, que eu nunca revelarei, para ninguém, os segredos da Arte, exceto se for para uma pessoa justa, devidamente preparada, no centro de um Círculo Mágico tal como no que agora me encontro. Isto eu juro pelas minhas esperanças de salvação, minhas vidas passadas, e minhas esperanças das [vidas] futuras por vir; e eu devoto a mim mesmo e a minha medida à completa destruição se eu quebrar este meu solene voto.” ‘ O Iniciado repete cada frase após ela.

A Iniciadora se ajoelha ao lado do Iniciado e coloca sua mão esquerda sob o joelho dele e sua mão direita sobre a cabeça dele, para formar o Vínculo Mágico. Ela diz :

‘Eu transmito todo o meu poder para dentro de ti’.

Mantendo suas mãos na posição do Vínculo Mágico, ela se concentra por quanto tempo ela julgar necessário para transmitir todo o seu poder para dentro do Iniciado. (5) Após isso, ela fica de pé.

A bruxa que amarrou o Iniciado avança e desamarra seus joelhos e tornozelos e o ajuda a se levantar. O Assistente traz o cálice de vinho e o óleo para unção.

A Iniciadora umedece a ponta de seu dedo com o óleo e diz :

 ‘Eu te consagro com óleo’.

Ela toca o Iniciado com o óleo um pouco acima do pêlo púbico, em seu peito direito, em seu quadril esquerdo, em seu quadril direito, em seu peito esquerdo e novamente um pouco acima do pêlo púbico, completando o  pentagrama invertido do Segundo Grau. (6)

(No costume americano : garganta, quadril direito, peito esquerdo, peito direito, quadril esquerdo, e garganta novamente).

Ela umedece a ponta do seu dedo com o vinho, e diz ‘Eu te consagro com vinho’, e o toca nos mesmos lugares com o vinho.

Ela então diz ‘Eu te consagro com meus lábios’, o beija nos mesmos lugares e prossegue : ‘Sumo Sacerdote e Mago [Suma Sacerdotisa e Rainha das Bruxas]’.

As bruxas que amarraram o Iniciado agora avançam e removem a venda e as cordas restantes. O ritual é interrompido para que cada membro do coven parabenize o Iniciado, beijando-o ou apertando as mãos como for adequado. Quando isso terminar, o ritual continua com a apresentação e uso dos instrumentos de trabalho. Assim que cada instrumento é nomeado, a Iniciadora a pega do altar e a entrega ao Iniciado com um beijo. Outra bruxa do mesmo sexo da Iniciadora fica de prontidão, e assim que cada instrumento for finalizado, ela o toma do Iniciado com um beijo e o recoloca no altar.

Para começar, a Iniciadora diz :

‘Você agora usará os Instrumentos de Trabalho um por vez. Primeiro, a Espada Mágica.’

O Iniciado pega a espada e reconstrói o Círculo,  mas sem falar.

A Iniciadora diz ‘Segundo, o Athame.’

O Iniciado pega o athame e novamente reconstrói o Círculo sem falar.

A Iniciadora diz ‘Terceiro, a Faca de Cabo Branco.’

O Iniciado pega a faca de cabo branco e traz a vela branca nova e ainda não acesa do altar. Ele então usa a faca para gravar um pentagrama na vela, a qual ele recoloca sobre o altar. (7)

A Iniciadora diz ‘Quarto, a Vara.’

O Iniciado pega a vara e a move apontando para os quatro pontos cardeais à volta. (8)

A Iniciadora diz ‘Quinto, o Cálice.’

Iniciado e Iniciadora juntos consagram vinho no cálice. (9)

A Iniciadora diz ‘Sexto, o Pantáculo.’

O Iniciado pega o pantáculo e o apresenta aos quatro pontos cardeais à volta.

A Iniciadora diz ‘Sétimo, o Incensário.’

O Iniciado pega o incensário e o carrega em volta do perímetro do Círculo.

A Iniciadora diz ‘Oitavo, as Cordas.’

O Iniciado pega as cordas e, com o auxílio do Assistente, amarra a Iniciadora do mesmo jeito que ele próprio foi amarrado. Iniciado e Assistente então ajudam a Iniciadora a se ajoelhar de frente para o altar.

A Iniciadora diz :

 ‘Nono, o Chicote. Para aprender, na Feitiçaria voce deve sempre dar assim como recebe, mas sempre em triplo. Assim, onde eu te dei três, devolva nove; onde eu dei sete, devolva vinte e um; onde eu dei nove, devolva vinte e sete; onde eu  dei vinte e um, devolva sessenta e três.’

A bruxa que está em  prontidão entrega o chicote ao Iniciado com um beijo.

O Assistente diz: ‘Nove.’

O Iniciado aplica na Iniciadora nove golpes leves com o chicote.

O Assistente diz: ‘Vinte e um.’

O Iniciado aplica na Iniciadora vinte e um golpes leves com o chicote.

O Assistente diz: ‘Vinte e sete.’

O Iniciado aplica na Iniciadora vinte e sete golpes leves com o chicote.

O Assistente diz: ‘Sessenta e três.’

O Iniciado aplica na Iniciadora sessenta e três golpes leves com o chicote.

A Iniciadora diz :

‘Tu obedecestes a Lei. Mas prestai bem atenção, quando tu recebeis o bem, assim estarás obrigado a retornar o bem triplicado.’

O Iniciado, com o auxílio do Assistente,  ajuda a Iniciadora a se levantar e a desamarra.

A Iniciadora agora conduz o Iniciado à cada um dos pontos cardeais ao redor, dizendo : ‘Ouvi, vós Poderosos do Leste [Sul, Oeste, Norte]: ______ (nome de bruxo) foi devidamente consagrado Sumo Sacerdote e Mago [Suma Sacerdotisa e Rainha das Feiticeiras].’

O coven agora se prepara para a Lenda da Descida da Deusa. A Iniciadora nomeia um Narrador para ler a Lenda, se ela própria não for ler [o texto] . Se a Lenda fôr também encenada, ela nomeará atores para a Deusa, o Senhor do Submundo e o Guardião dos Portais. É comum para o Iniciado atuar como a Deusa ou o Senhor do Submundo,  segundo o sexo, e para o parceiro de trabalho seja da Iniciadora ou do Iniciado (caso haja algum) atuar como o outro. Na estrita tradição mitológica, o Guardião deveria ser masculino, mas isso não é essencial.  (Nos textos de Gardner, ‘Guardiões’ é plural, mas isso parece conflitar com a mitologia).

 

                        A Lenda da Descida da Deusa (10)

 

Até agora nossa Senhora a Deusa nunca tinha amado, mas ela resolveria todos os Mistérios, mesmo o mistério da Morte; e então ela viajou para o Submundo. (11)

Os Guardiães dos Portais a desafiaram: ‘Dispa-te de tuas vestes, retirai tuas jóias; pois nada podeis trazer contigo nesta nossa terra’.

Então ela retirou suas vestes e jóias, e foi amarrada, como o são todos os que entram no Reino da Morte, a Poderosa. (12)

Tal era a sua beleza, que a própria Morte se ajoelhou e beijou seus pés, dizendo: ‘Benditos sejam teus pés, que te trouxeram nestes caminhos. Morai comigo; mas deixai-me por minha mão fria sobre teu coração.’

Ela respondeu: ‘Eu não te amo. Por que tu fizeste com que todas as coisas que eu amo e com as quais me delicio decair e morrer?’

‘Senhora’, respondeu a Morte, ‘isso é o tempo e a decadência contra os quais nada posso fazer. O tempo faz todas as coisas decaírem; mas quando os homens morrem ao final do tempo, eu lhes dou descanso e paz, e força de forma que eles possam retornar. Mas tu! Tu és amável. Não retornai; morai comigo!’

Mas ela respondeu : ‘Eu não te amo.’

Então disse a Morte: ‘E [como] tu não recebeste a minha mão sobre teu coração, tu deves receber o açoite da Morte.’

‘É o destino – melhor assim’,  ela disse. E ela se ajoelhou e a Morte a chicoteou suavemente. E ela gritou, ‘Eu sinto a angústia do amor.’

E a Morte disse: ‘Bendita seja!’ e lhe aplicou o Beijo Quíntuplo, dizendo: ‘Apenas assim pudeste tu obter a alegria e o conhecimento.’ E ela a ensinou todos os Mistérios, e eles se amaram e foram um, e ela a ensinou todas as Magias.

(Nota Importante : Como em português a morte é um termo feminino, mantive assim na tradução, embora no contexto a morte seja representada por um ser masculino).

Pois existem três grandes eventos na vida do homem; Amor, Morte e Ressurreição no novo corpo; e a Magia controla todos eles. Pois para completar o amor voce deve retornar novamente no mesmo tempo e lugar que o amado, e voce deve lembrar e amá-los (?) novamente. Mas para ser renascido voce deve morrer e estar pronto para um novo corpo; e para morrer voce deve nascer; e sem amor voce não pode nascer; e isto constitui todas as Magias.

 

                                   III       Iniciação do Terceiro Grau

 

A iniciação do terceiro grau eleva uma bruxa ao mais alto dos três graus da Arte. Em um certo sentido, uma bruxa do terceiro grau é totalmente independente, responsável apenas perante os Deuses e à sua própria consciência. Ele ou ela pode iniciar a outros no primeiro, segundo e terceiro graus e pode fundar um coven totalmente autônomo o qual (diferente de um coven com líderes do segundo grau) não está mais sob a orientação do coven  matriz. Naturalmente, na extensão em que ele ou ela permanece como um membro do coven matriz, esta independência está em suspenso; todo membro do coven, seja de que grau for, deve de boa vontade aceitar a autoridade da Suma Sacerdotisa e do Sumo Sacerdote; se um membro do terceiro grau não mais o puder, é o momento de se desligar.

Como está escrito na Lei: (1) ‘Se eles não concordarem com seus Irmãos, ou se eles disserem, “Eu não trabalharei sob [a autoridade] desta Suma Sacerdotisa”, tem sido sempre conveniente a aplicação da Antiga Lei para a Fraternidade e para evitar disputas. Qualquer um do Terceiro [Grau] pode requerer [seu direito] à fundar um novo Coven ...”

O ritual de iniciação para o terceiro grau é aquele do Grande Rito. Nós apresentamos uma forma deste, para uso em todos os Festivais, na Secção II de Oito Sabás Para as Feiticeiras. Abaixo,  nós apresentamos a versão do Texto B de Gardner, mais a forma alternativa da declamação em verso do Texto C. (2) Cada uma dessas três formas podem ser ou ‘reais’ ou simbólicas. Todas essas formas de encenar o Grande Rito diferem, mas sua intenção e espírito são os mesmos; e necessitamos fortemente reenfatizar que qualquer outra forma ritual que seja adequada à um coven em particular seria igualmente válida desde que sua intenção e espírito sejam compreendidos e verdadeiramente expressos.

Em sua forma ‘real’, o Grande Rito é um ritual sexual, involvendo uma relação íntima entre o homem e a mulher participantes. Em sua forma simbólica ou teatral, ele pode ser chamado de ritual de gêneros, de polaridade masculino-feminino mas não envolvendo relação íntima.

Nós lidamos em profundidade com a atitude Wicca em relação ao sexo na Secção XV abaixo. Mas para evitar uma compreensão errônea, nós devemos enfatizar aqui que para a bruxa, sexo é sagrado – uma força polarizada bela e sem vexação que é intrínseca à natureza do universo. Ela deve ser tratada com reverência , mas sem puritanismo. A Arte não faz qualquer apologia para utilizar a relação íntima entre um homem e uma mulher adequados, na privacidade, como um profundo sacramento ritual, trazendo neste todos os elementos – físico, astral, mental e espiritual. A chave para o Grande Rito ‘real’ (e deveras para o simbólico) está na afirmação da declaração: ‘Pois não há parte alguma de nós que não seja dos Deuses.’

No ritual, o corpo da Sacerdotisa é considerado como o Altar da Deusa que ela representa, e para quem ela é um canal. Seu útero focal (?!) é reverenciado como ‘a fonte da vida sem a qual não existiríamos’; e nenhuma apologia é necessária também para este antigo e sagrado simbolismo.

A questão é, naturalmente, quem são o ‘homem e mulher adequados’ para encenar o Grande Rito ‘real’ ao invés do rito  simbólico ?

Nós diríamos categoricamente (e achamos que a maioria da Arte concordaria conosco) que deveriam ser apenas um homem e uma mulher entre os quais o relacionamento íntimo já é uma parte normal e amorosa de seu relacionamento; em outras palavras, marido e mulher ou amantes com relação estabelecida. E este deveria ser sempre encenado em privacidade. (3) Wicca é despojado de vexação, mas não promíscuo ou  partidário do voyeur. O Grande Rito ‘real’ deve invocar todos os níveis; e um total envolvimento [deste tipo], na atmosfera de ascensão de poder de um ritual solene, seria violento para com qualquer relacionamento que ainda não estivesse em sintonia com o mesmo.

Isto não deve implicar que o Grande Rito simbólico seja uma mera improvisação, ou ineficaz de qualquer forma. Ele pode ser um rito poderoso e transformador, quando sinceramente trabalhado por dois amigos harmoniosos que não sejam amantes. Ele, também, invoca todos os níveis, mas de uma forma que um Irmão ou Irmã maduros da Arte estejam muito capacitados à manipular.

Por que a Arte utiliza mesmo um ritual sexual, ou ritual de gêneros, para demarcar seu mais alto grau de iniciação ? Porque ele expressa três princípios fundamentais da Arte. Primeiro, que a base de todo trabalho mágico ou criativo é a polaridade, a interação de aspectos complementares. Segundo, ‘o que está acima é como o que está embaixo’; nós somos da natureza dos Deuses, e um homem ou uma mulher plenamente realizados é um canal para aquela divindade, uma manifestação do Deus ou da Deusa (e cada um de fato manifestando elementos de ambos). E terceiro, que todos os níveis do físico ao espiritual são igualmente sagrados.

Um homem e uma mulher que estejam prontos para o seu terceiro grau são bruxos que se desenvolveram até o estágio onde estes três princípios não são meramente reconhecidos em teoria mas foram integrados em sua total atitude com relação à vida e portanto em seu trabalho na Arte. Assim o Grande Rito, seja ‘real’ ou simbólico, expressa ritualmente seu estágio de desenvolvimento.

Então como o Grande Rito é aplicado na prática na iniciação do terceiro grau ?

Existem apenas dois participantes ativos no Rito; o resto do coven meramente o apoia através de sua presença silenciosa, quer seja para a totalidade de um Rito simbólico ou para a primeira parte de um Rito ‘real’. Estes dois podem ser ou o homem (já no terceiro grau) iniciando a mulher; ou a mulher (igualmente, já no terceiro grau) iniciando o homem; ou o homem e a mulher podem ser ambos do segundo grau, tomando sua iniciação do terceiro grau juntos sob a supervisão da Suma Sacerdotisa e/ou do Sumo Sacerdote. O último caso é particularmente adequado para uma parceria de trabalho, especialmente se eles estiverem se preparando para estabelecer seu próprio coven ou se já estiverem conduzindo algum na qualidade de bruxos do segundo grau sob a orientação do coven matriz (nós mesmos recebemos nosso terceiro grau juntos sob tais circunstâncias, como explicamos na página 22).

O ritual em cada um desses casos é o mesmo; assim no texto que segue, nós nos referimos à mulher e ao homem simplesmente como ‘a Sacerdotisa’ e ‘o Sacerdote’.

À menos que o Sacerdote seja de fato o Sumo Sacerdote, acostumado à encenar o Grande Rito em festivais ou em outras ocasiões, seria pedir muito esperar que ele saiba a longa declamação de cor. Então é um caso de escolher se ele a lê ou se o Sumo Sacerdote a declama enquanto ele atua. (Esta é a única situação em que uma terceira pessoa tem uma participação ativa). Se o Rito for ‘real’, ele naturalmente terá que ler ou aprender as passagens finais por si mesmo.

Os textos do Grande Rito de Gardner incluem três açoitamentos rituais sucessivos – o homem pela mulher, a mulher pelo homem, e novamente o homem pela mulher. Nós mesmos não utilizamos estes, mas os apresentamos abaixo para complementação, pois seu uso é opcional. Algumas bruxas sustentam que Gardner apreciava muito o açoitamento ritual, e muitos de seus caluniadores mantém [o argumento] que ele tinha uma inclinação psicologicamente doentia à flagelação. Muito longe do fato que uma pessoa notoriamente gentil como Gardner dificilmente pareceria ter tido quaisquer dessas propensões, tudo isso está baseado em um completo mal entendido. A técnica de amarrar não tão apertado e o açoitamento monótono suave não é nem mesmo um ‘sofrer para aprender’ simbólico como ele está nos ritos do primeiro e segundo graus; ele é um método deliberado e tradicional, cercado de precauções, para ‘ganhar a Visão’ influenciando a circulação sanguínea. Ele é descrito em detalhes em uma passagem não ritual do Livro das Sombras, que nós mostramos na íntegra nas páginas 58-60, com os comentários de Doreen Valiente e os nossos próprios.

 

                                               A Preparação

 

Nenhum dos Textos A, B ou C menciona ou descreve o ponto no qual a Sacerdotisa, após o Beijo Quíntuplo, deita-se sobre ou na frente do altar, onde ela tem que estar desde ‘Auxiliai-me à erguer o antigo altar’ (ou seu equivalente em versos) para frente. Porém Doreen Valiente nos diz que a Sacerdotisa ‘teria estado deitada atravessando o Círculo, assim posicionada ao lado do Sacerdote, com sua cabeça para o Leste e seus pés para o Oeste.  Ela estaria deitada ou realmente sobre o altar ou sobre um acolchoado ou esteira adequados colocado em frente à este, com uma almofada sob sua cabeça. O Sacerdote se ajoelharia ao lado dela, de frente para o Norte’.

Assim na preparação, ou o altar (se ele for grande o suficiente para a Sacerdotisa deitar sobre o mesmo) deverá estar sem suas velas e instrumentos normais e tornado adequadamente confortável, ou o acolchoado ou esteira devem estar prontos. Usar o próprio altar parece implicar no antigo costume de manter o altar no centro do Círculo ao invés de estar na sua extremidade ao norte (sendo prática costumeira hoje em dia, especialmente em uma sala pequena, deixar espaço para o trabalho) porque Doreen continua dizendo: ‘Nesta posição a vagina da Sacerdotisa realmente estaria nas proximidades do centro do Círculo – assim simbolizando seu significado focal como ‘o ponto dentro do centro’, tal como a declamação se refere à ela. Se, então, um acolchoado ou esteira forem usados, deveriam estar assim posicionados, ao longo do diâmetro Leste-Oeste.

Caso sejam incluídos os açoitamentos rituais, uma corda vermelha de nove pés deve estar ao alcance da mão para atar a fibra bruta (cable-tow _ ?).

O cálice cheio de vinho, e os bolos, devem estar prontos como costumeiro. Assim também deve estar o athame da Sacerdotisa e o chicote (caso seja incluído o açoitamento ou não, porque ela tem que segurá-lo em dois pontos na Posição de Osíris).

Se a Sacerdotisa não ficar deitada sobre o próprio altar no início do ritual, um trono adequado (uma cadeira revestida de pano) deverá ser posicionada em frente ao mesmo.

 

 

                                                           O Ritual

 

A Sacerdotisa toma seu assento sobre o altar (ou em um trono em frente ao altar), de costas para o Norte, segurando o athame em sua mão direita e o chicote em sua esquerda, na Posição de Osíris (punhos cruzados na frente do seu peito).

O Sacerdote se ajoelha diante dela, beija os joelhos dela e então deita seus antebraços ao longo das coxas dela. Ele baixa sua cabeça a fim de tocar sua testa nos joelhos dela, e permanece ali por um momento. (4)

Ele então se levanta e pega o cálice com vinho. Ele se ajoelha novamente erguendo o cálice para a Sacerdotisa.

A Sacerdotisa deita o chicote e , mantendo o cabo do athame entre as palmas de suas mãos, ela baixa [o athame] e mergulha a ponta dentro do vinho, dizendo :

‘Como o athame está para o masculino, assim o cálice está para o feminino; (5) e unidos, eles trazem santidade’.

Ela então deita o athame, toma o cálice, beija o Sacerdote e bebe. Ela beija o Sacerdote novamente e lhe devolve o cálice.

O Sacerdote bebe, se levanta e entrega o cálice para uma outra mulher com um beijo. O vinho é passado mulher-para-homem,  homem-para-mulher, com um beijo, até que todos tenham bebido, e o cálice é então devolvido para o altar.

O Sacerdote pega o prato (6) com bolos e se ajoelha novamente perante a Sacerdotisa, erguendo o prato para ela.

A Sacerdotisa toca cada bolo com a ponta umedecida de seu athame, enquanto o Sacerdote diz :

‘Oh Rainha mais secreta, abençoai este alimento em nossos corpos,  concedendo saúde, riqueza, força, prazer e paz, e aquela realização da Vontade, e Amor sob a Vontade, que é felicidade perpétua’. (7)

A Sacerdotisa pega um bolo e dá uma mordida nele, então beija o Sacerdote, o qual pega um bolo. Os bolos então são passados em círculo com um beijo da mesma forma que com o cálice, e o prato é então devolvido ao altar.

O Sacerdote novamente beija os dois joelhos da Sacerdotisa, deita seus antebraços ao longo das coxas dela e toca sua testa nos joelhos dela por um momento.

Ambos Sacerdote e Sacerdotisa se levantam.

(Se os açoitamentos forem omitidos, proceda diretamente para a apresentação às Torres de Vigia, e então ao Sacerdote dizendo, ‘Agora eu devo revelar um grande mistério’. Se não ... )

O Sacerdote diz :

‘Antes de  eu ousar prosseguir com este rito sublime,  devo suplicar a purificação por tuas mãos’.

A Sacerdotisa pega uma corda vermelha e amarra o Sacerdote, atando o meio da corda ao redor dos punhos dele atrás de suas costas, trazendo as duas metades da corda por sobre seus ombros para amarra-las em frente ao seu pescoço e deixando as extremidades penduradas sobre seu peito como um laço (?). Ela então o leva uma vez ao redor do Círculo, deosil, conduzindo-o pelo laço (cable-tow _ ?).

O Sacerdote então se ajoelha em frente ao altar. A Sacerdotisa pega o chicote e aplica à ele três (8) golpes leves com este. Ela deita o chicote sobre o altar.

O Sacerdote se levanta, e a Sacerdotisa o desamarra. Ele então a amarra do mesmo modo e a conduz uma vez deosil em volta do Círculo, levando-a pelo laço (?). Ela se ajoelha de frente ao altar. O Sacerdote pega o chicote, aplica nela três golpes leves com este e o devolve ao altar.

A Sacerdotisa se levanta, e o Sacerdote a leva pelo laço por cada um dos quadrantes em volta, dizendo :

‘Ouvi vós, Poderosos do Leste [Sul, Oeste, Norte]: a duas vezes [três vezes] (9) consagrada e santificada ___________, Suma Sacerdotisa e Rainha das Feiticeiras, está devidamente preparada, e procederá agora à erguer o Altar Sagrado.’

Ele então a desamarra e diz:

‘Agora novamente eu devo suplicar a purificação.’

A Sacerdotisa o amarra, o conduz em volta e aplica nele três golpes leves com o chicote, como antes. Ele fica de pé e ela o desamarra, recolocando o chicote e a corda sobre o altar.

O Sacerdote diz :

‘Agora eu devo revelar um grande mistério.’ (10)

A Sacerdotisa fica em pé de costas para o altar, na Posição de Osíris  (novamente tomando o chicote e o athame em suas mãos). O Sacerdote lhe aplica o Beijo Quíntuplo. (11)

A Sacerdotisa recoloca o chicote e o athame.

A Sacerdotisa agora deita com a face voltada para cima, ou realmente sobre o altar ou sobre o acolchoado ou esteira no centro do Círculo. Sua cabeça está voltada para o Leste e seus pés estão voltados para o Oeste.

O Sacerdote se ajoelha ao lado dela, de frente para o Norte através do corpo dela. (Na seguinte declamação, ‘[beijo]’ significa que ele a beija logo acima do pêlo púbico, exceto nos dois momentos onde isto é de outra forma descrito – isto é, os beijos nos seios e os beijos do Sigilo do Terceiro Grau.)

O Sacerdote diz :

 

‘Auxiliai-me à erguer o antigo altar, no qual em dias passados todos adoravam,

O Grande Altar de todas as coisas;

Pois nos tempos antigos, a Mulher era o altar.

Assim era o altar preparado e posicionado;

E o ponto sagrado era o ponto dentro do centro do círculo.

Como temos sido ensinados desde há muito tempo que o ponto dentro do centro é a origem de todas as coisas,

Desta forma nós devemos adorá-lo. [Beijo]

Portanto aquela a quem adoramos nós também invocamos, pelo poder da Lança Erguida.’

( Ele toca seu próprio falo e continua: )

‘Oh Círculo de Estrelas [beijo]

Do qual nosso pai é nada mais do que o irmão mais jovem [beijo]

Maravilha além da imaginação, alma do espaço infinito,

Perante quem o tempo está confuso e a compreensão obscurecida,

Não nos realizamos sob ti à menos que tua imagem seja amor. [beijo]

Portanto pela semente e a raiz, pelo caule e o botão, pela folha e flor e fruto,

Nós a ti invocamos,

Oh Rainha do Espaço, Oh orvalho de luz,

Contínua dos céus [beijo],

Que seja sempre assim, que os homens não falem de ti como uma, mas como nenhuma;

E que eles não falem de ti de forma alguma, uma vez que tu és contínua.

Pois tu és o ponto dento do círculo [beijo] que nós adoramos [beijo],

A fonte da vida sem a qual nós não existiríamos [beijo],

E desta forma são erguidos os Santos Pilares Gêmeos.’ (12)

(Ele beija seu seio esquerdo, e então seu seio direito.)

‘Em beleza e em força foram eles erguidos,

Para a maravilha e glória de todos os homens.’

 

Se o Grande Rito for ‘real’, todos exceto o Sacerdote e a Sacerdotisa agora saem do recinto, abrindo a passagem ritual e então a fechando atrás de si.

O Sacerdote continua :

 

‘Oh Segredo dos Segredos,

Que está oculto no sêr de todos os viventes,

Não a ti nós adoramos,

Pois aquilo que adoramos é também tu.

Tu és Aquilo, e Aquilo sou Eu. [Beijo]

Eu sou a chama que arde no coração de todo homem,

E no âmago de toda estrela.

Eu sou vida, e o doador da vida.

Ainda que dessa forma seja o conhecimento de mim o conhecimento da morte.

Eu estou só, o Senhor dentro de nós mesmos,

Cujo nome é Mistério de Mistérios.’

 

Ele então a beija no padrão do Sigilo do Terceiro Grau (o triângulo com a ponta para cima sobre o pentagrama com a ponta para cima) (13) como segue : acima do pêlo púbico, no pé direito, no joelho esquerdo, no joelho direito, no pé esquerdo, e sobre o  pêlo púbico novamente; então sobre os lábios, o seio esquerdo, o seio direito e finalmente os lábios novamente. (Vide Figura 1).

 

[ . . . Desenho no livro original . . . ]

 

Ele deita seu corpo gentilmente sobre o dela (14) e diz :

 

‘Abri o caminho da inteligência entre nós;

Pois estes realmente são os Cinco Pontos do Companheirismo –

Pé à pé,

Joelho à joelho,

Lança ao Graal, (15)

Peito à peito,

Lábios à labios.

Pelo grande e santo nome Cernunnos;

Em nome de Aradia;

Encorajai nossos corações,

Que a luz se cristalize em nosso sangue;

Realizando de nós ressurreição.

Pois não existe parte alguma de nós que não seja dos Deuses.’

 

O Sacerdote se levanta; a Sacerdotisa permanece onde ela está. O Sacerdote se dirige à cada um dos pontos cardeais ao redor, dizendo :

‘Vós Senhores das Torres de Vigia do Leste [Sul, Oeste, Norte]; a três vezes consagrada Suma Sacerdotiza vos saúda e vos agradece.’

 

                                               Versão Alternativa em Versos

 

A versão em versos da declamação do Sacerdote, que Doreen Valiente escreveu para o Texto C, é disponível como uma alternativa. Ele substitui a declamação desde ‘Auxiliai-me a erguer o antigo altar’ até ‘Lábios à lábios’ (ou, se preferido, a declamação inteira até ‘não dos Deuses’).

Os beijos são como na versão do Texto B, logo acima do pêlo púbico – exceto nos dois lugares indicados como ‘beijos nos seios’ e ‘beijos do Sigilo do Terceiro Grau’.

 

‘Auxiliai-me à erguer,

Como os Poderosos desejaram,

O Altar de Adoração

Desde o início dos dias.

Assim ele repousa

Entre (*) os pontos do firmamento,                    (*) ‘Twixt (Inglês arcaico, não consta no dicionário)

Pois assim ele foi colocado

Quando a Deusa abraçou

O Cornudo, seu senhor,

Que ensinou a ela a Palavra

Que avivou o útero

E conquistou a tumba.

Seja esta, como foi uma vez,

O santuário que nós adoramos, [beijo]

A festa sem falha,

O Graal doador da vida. [beijo]

Perante este se ergue

A Lança Miraculosa, [toca o próprio falo]

E invoca neste sinal

A Deusa Divina !  [beijo]

Tu que à meia noite reinas

Rainha dos reinos estelares acima,

Não nos realizamos sob ti

À menos que tua imagem seja de amor. [beijo]

Pelas flechas prateadas de poder dos raios da lua,

Pela folha verde surgindo do botão,

Pela semente que cresce em  flor,

Pela vida que corre  no sangue, [beijo]

Pelo vento agitado e fogo saltitante,

Pela água fluente e a terra verde,

Derramai-nos o vinho do nosso desejo

Do teu Caldeirão de Renascimento. [beijo]

Aqui possamos ver em clara visão

Teu estranho segredo desvelado finalmente,

Teus  maravilhosos Pilares Gêmeos sustentados

Erguidos em beleza e em força. (16) [beijos nos seios]

Altar de múltiplos mistérios,

O ponto central do Círculo Sagrado,

Assim eu te assinalo como antigamente,

Com beijos de meus lábios consagro [beijos do Sigilo do Terceiro Grau]

Abri para mim o caminho secreto,

O portal da inteligência

Além dos portões da noite e do dia,

Além das restrições do tempo e do sentido.

Contemplai o mistério corretamente;

Os cinco pontos verdadeiros do companheirismo,

Aqui onde a Lança e o Graal se unem,

E pés e joelhos e peitos e lábios.’

 

 

 

 

                                   IV        Consagrações

 

As bruxas fazem uma prática de consagração de seus instrumentos de trabalho e substâncias rituais tais como água, vinho e bolos ou biscoitos. A maioria das religiões faz o mesmo, de uma forma ou outra; mas no Wicca, existem duas diferenças notáveis. Primeiro, devido à ênfase Wicca sobre a polaridade masculino-feminino, a consagração geralmente é feita por um homem e uma mulher juntos. E segundo, no Wicca o direito de consagrar não está confinado ao sacerdotado como uma classe separada, porque toda(o) bruxa(o) é considerada(o) como um sacerdote ou sacerdotisa, e isso é declarado em cada um dos três rituais de iniciação. O poder de consagrar é considerado como inerente em todo ser humano, e como sendo efetivo se for conduzido com sinceridade. De fato nós (e sem dúvida outros covens) muitas vezes encorajamos neófitos que ainda não foram iniciados, mas que tem participado de Círculos por tempo suficiente para compreender o que eles estão fazendo, à conduzir consagrações (exceto de uma espada ou athame) dentro do Círculo do coven, e não lançamos quaisquer dúvidas sobre sua eficácia.

A consagração tem dois propósitos básicos. O primeiro é psicológico; para pôr o instrumento ou substância à parte como algo especial, e portanto para mudar a atitude do usuário com relação à este -  o que por sua vez reforça a confiança dele(dela), sua imaginação criativa e força de vontade para qualquer ritual em que este seja utilizado.

O segundo propósito pode ser chamado psíquico, mágico ou astral. As bruxas (e muitos outros) crêem que todo objeto material possui ‘corpos’ nos outros níveis; e que, assim como o próprio objeto material pode ser alterado, decorado, grafado, umedecido, seco, cozido, congelado, aplicar neste uma carga elétrica estática ou outra coisa que voce faça – tudo sem roubá-lo de sua identidade, algumas vezes até mesmo realçando-a – também (por exemplo) o seu ‘corpo’ astral pode ser alterado, carregado, tornado inócuo ou ativamente benéfico, e assim por diante, por meio de ação humana, seja deliberada ou involuntária. A ação deliberada desse tipo inclui consagração, exorcismo, a manufatura de talismãs, e muitos outros passos – mesmo o amor ou ressentimento conscientes com o qual um presente é ofertado.  A ação involuntária inclui um longo uso (ou curto porém intensivo) por uma pessoa em particular, o envolvimento do objeto em alguma situação emocionalmente carregada – ou novamente o amor espontâneo ou o ressentimento subconsciente que podem acompanhar um  presente. Todos estes afetam o astral invisível mas muitas vezes muito poderoso ou mesmo a carga espiritual carregada por um objeto material.

Não é sempre fácil separar estes dois efeitos – o psicológico e o astral – em compartimentos à prova d’água; deveras, eles se sobrepõe bastante, e algumas pessoas colocariam mais ênfase em um do que no outro, ou mesmo negariam o efeito [afirmando que] nada mais é do que psicológico. Por fim, se uma onda de confiança vêm de um católico segurando um rosário, um judeu tocando uma mezuzah, ou um peregrino em Meca circundando e beijando a Ka’ba – ou se um fazendeiro irlandês tem má sorte quando ele encontra um piseog (1) em sua propriedade – quem pode dizer em que extensão o efeito é psicológico, e o quanto dele é devido à carga não-material que fora introduzida no, ou acumulada pelo, objeto físico ?

Seja como for, uma forte confirmação da realidade da carga não-material é dada pela muitas vezes assustadora eficácia com a qual um experiente psicometrista pode contar a história e as associações emocionais de um objeto simplesmente segurando-o e se concentrando sobre o mesmo.

Muitas bruxas e ocultistas admitirão, se forem honestos, que eles começaram apenas estando realmente certos da eficácia psicológica da consagração, porém que a experiência os convenceu sobre a realidade do efeito carga psíquica, que naturalmente também fica mais forte enquanto o objeto consagrado continua dentro de uso ritual. (2)

Existem três formas de consagração ritual no Livro das Sombras: para água e sal, para uma espada ou athame, e para outros instrumentos. Todas elas se originam de A Clavícula Maior de Salomão, primeiramente publicada em inglês por Macgregor Mathers em 1888 (vide Bibliografia sob Mathers) que a traduziu de manuscritos medievais no Museu Britânico. No Texto A (e no Capítulo X de Auxílio à Alta Magia) as séries de Nomes de Poder hebraicos, gregos ou latinos foram mantidas como elas aparecem em A Clavícula de Salomão; mas no Texto B estas foram substituídas, em dois dos três rituais, pelos nomes Aradia e Cernunnos. No Texto C ocorre o mesmo como no Texto B.

Doreen Valiente nos conta: ‘Isso mostra como a mente do velho Gerald estava funcionando, como ele gradualmente modificou os rituais e encantamentos da Chave de Salomão hebaica para uma forma mais simples e mais pagã. Este importante trabalho mágico tornou-se disponível em geral primeiramente em 1888, então ele ficou circulando por um pouco de tempo entre estudantes do oculto. Contudo, Gerald também me contou que quando os judeus foram forçados à entrar na clandestinidade na Bretanha na Idade Média, alguns deles foram socorridos e protegidos pelas bruxas, que os consideraram como parceiros de infortúnio e companheiros refugiados de uma Igreja Cristã perseguidora. Consequentemente, houve uma certa quantidade de conhecimento Cabalístico (3) que encontrou seu caminho nas mãos das bruxas, que estimavam os judeus como poderosos magos cerimoniais. Ocultistas que não eram bruxos tinham a mesma opinião, e queriam estudar o conhecimento secreto de Israel; mas eles tinham que ser cautelosos, então eles fingiam estar estudando Hebraico de forma à converter os judeus ao cristianismo, e estar estudando a Cabala com o mesmo fim piedoso em vista. Como voces sabem, uma grande quantidade do conhecimento Cabalístico hebreu encontrou seu caminho na Tradição Ocidental; tanto que Dion Fortune (A Cabala Mágica, pág.21) diz que o Hebreu é a língua sagrada do Ocidente como o Sânscrito é a do Oriente. Auxílio à Alta Magia de fato retrata um relacionamento operativo entre um mago Cabalista e um bruxo, e como agora sabemos, (4) este livro foi publicado no tempo de vida da Velha Dorothy; portanto eu acho que ela e Gerald provavelmente usaram a escrita  da Clavícula de Salomão para estes rituais de consagração, que ele mais tarde reduziu e simplificou. Mas eu desejaria que nós soubéssemos o que as bruxas mais antigas usaram!’

Nós também; e pode muito bem ser que estas formas antigas, ou variações delas, tem sido preservadas por outros covens hereditários.  Pois está na hora de os críticos de Gardner que gostam de sustentar que ele ‘inventou’ seu sistema encararem o fato que os antigos rituais da Arte tem sobrevivido aos poucos e irregularmente; e que enquanto eles podem possuir genuinamente alguns deles, assim indubitavelmente fez o coven de New Forest – e não necessariamente os mesmos elementos. E que eles ou seus ancestrais, como o coven de New Forest, têm sem dúvida preenchido as lacunas com material de outras fontes ocultistas, ou de sua própria criação. Este foi um processo perfeitamente legítimo – deveras um processo necessário se a Arte tivesse que sobreviver, especialmente durante os anos fragmentados e secretos. A questão é isso funciona? – e o sistema Gardneriano, tanto quanto muitos outros, indubitavelmente funciona. Dado o espírito e a compreensão da Antiga Religião, as  formas são secundárias. As antigas formas tem que ser validadas,  naturalmente, porque elas representam nossas raízes e sabedoria sagrada as quais todos nós estamos nos esforçando para redescobrir.  Se nós pudermos abandonar o sectarismo, e bruxas de muitas tradições puderem se unir sem preconceito, a pesquisa e associação honestas de evidências poderiam nos oferecer um panorama geral mais claro sobre o que eram realmente as antigas formas. Até então, todos nós podemos estar sentados sobre diferentes peças de um jogo de quebra-cabeça mais importante.

Nós apresentamos abaixo a versão dos Textos B/C dos três rituais de consagração, mais uma forma baseada em elemento a qual nós mesmos utilizamos para outros objetos tais como jóias pessoais. Todos estes rituais devem naturalmente ser realizados dentro de um Círculo Mágico. Mesmo se a água e o sal estiverem sendo consagrados para um propósito simples tal como o ritual das Aberturas do Corpo (vide pág.85), voces devem ao menos lançar um Círculo mental ao redor de si mesmo antes de começarem.

Um outro ponto. No banimento do Círculo, um bruxo não deve se unir aos outros ao fazer os Pentagramas de Banimento, mas deve carregar quaisquer objetos que tenham sido consagrados durante o Círculo, e mover-se ao redor para estar atrás do coven enquanto eles ficam de frente para cada um dos pontos cardeais. Fazer um Pentagrama de Banimento na direção de um objeto recém consagrado poderia ter um efeito neutralizante.

 

Consagrando a Água e o Sal

 

Nosso próprio costume é que a Suma Sacerdotisa consagre a água, e o Sumo Sacerdote o sal; a Suma Sacerdotisa então ergue o vasilhame com a água enquanto o Sumo Sacerdote lança o sal dentro desta. Mas tudo isso naturalmente pode ser feito por uma pessoa.

A versão dos Textos B/C fornecida aqui é uma forma reduzida daquela fornecida em A Chave de Salomão, págs.93-4 (vide também Auxílio à Alta Magia, págs.144-5). A lista de nomes hebraicos e outros Nomes de Poder foi também reduzida – com a água de trinta e dois para cinco, e com o sal de dezenove  para seis. Como será observado, nos outros dois rituais de consagração, Gardner eliminou o hebraico e outros nomes completamente e substituiu aqueles de Aradia e Cernunnos (como nós mesmos fizemos), e ficamos um pouco confusos devido ao fato de que ele não fez o mesmo aqui.

 

                                               O Ritual

Coloque o recipiente com água sobre o pantáculo, mantenha a ponta de seu athame mergulhada na água, e diga :

‘Eu te exorciso, Oh Criatura da Água, que tu lances fora de ti todas as impurezas e máculas dos espíritos do mundo dos fantasmas. Mertalia, Musalia, Dophalia, Onemalia, Zitanseia.’

Remova o recipiente do pantáculo, substitua com o recipiente de sal, mantenha a ponta de seu athame [introduzida] no sal, e diga:

‘Que as bênçãos recaiam sobre esta Criatura do As; que toda malevolência e obstáculo seja lançados fora daqui, e que todo o bem aqui penetre. Por esta razão eu abençôo a ti e invoco a ti, que tu possas me auxiliar.

Trocando os recipientes novamente e derramando o sal dentro da água, diga:

‘Yamenton, Yaron, Tatonon, Zarmesiton, Tileion, Tixmion. Porém recordai sempre, a água purifica o corpo, mas o chicote purifica a alma.’

 

                        Consagrando uma Espada ou Athame

 

O Livro das Sombras diz que esta consagração deveria se possível ser feita por um homem e uma mulher, ‘ambos tão nus quanto espadas desembainhadas’. Se uma bruxa solitária não tem outra escolha à não ser faze-lo a sós, o abraço final poderia talvez ser substituído por erguer a espada ou athame recém consagrados por um momento em silêncio oferecendo ao Deus e à Deusa, visualizados como estando além do altar.

Se possível, a arma deve ser consagrada em contato com uma espada ou athame já consagrados – como coloca o Auxílio à Alta Magia (págs.159-60), ‘para comunicar poder intensificado’.

As palavras reais podem ser pronunciadas por qualquer um do casal que seja o dono da arma à ser consagrada. Se, no caso da espada, ela pertencer à ambos ou ao coven, qualquer um destes pode dizer as palavras, ou ambos juntos. Quando for oportuno, ‘Eu’, ‘mim’, ‘meu’ são substituídos por ‘nós’, ‘nosso’; ou se a arma estiver sendo consagrada para outro alguém, pelo nome da pessoa e por ‘ele’ ou ‘ela’, etc.

 As palavras originais deste ritual, como utilizadas no Texto A, podem ser encontradas nas páginas 101 e 118 da Chave de Salomão, e na página 160 de Auxílio à Alta Magia.

Nós apresentamos abaixo a versão dos Textos B/C, um pouco acrescida para tornar os movimentos mais claros. Após o próprio ritual, nós apresentamos literalmente a passagem de explanação de como seguem as palavras faladas nos Textos B/C. É interessante notar que nesse texto, ‘Bruxa’ [‘Witch’] significa a mulher bruxa e ‘Magus’ o homem bruxo.

 

                                               O Ritual

Deite a espada ou athame sobre o pantáculo, de preferência junto com, e tocando, outra arma já consagrada.  O homem as asperge com a mistura de água e sal. A mulher então pega a arma a ser consagrada, passa a mesma pela fumaça do incenso, e a recoloca sobre o pantáculo. Homem e mulher deitam suas mãos direitas sobre ela e pressionam para baixo. Diz(em):

‘Eu te conjuro, Oh Espada [Athame], por esses Nomes, Abrahach, Abrach, Abracadabra, que tu me sirvas para força e defesa em todas as operações mágicas contra todos os meus inimigos, visíveis e invisíveis. Eu te conjuro novamente pelo Santo Nome Aradia e pelo Santo Nome Cernunnos; Eu te conjuro, Oh Espada [Athame], que  tu me sirvas para proteção em todas as adversidades; assim ajude-me agora.’

(Esta é chamada a Primeira Conjuração.)

Mais uma vez, o homem bruxo asperge e a mulher bruxa incensa, e a arma é retornada ao pantáculo. Diga:

‘Eu te conjuro, Oh Espada [Athame] de Aço, pelos Grandes Deuses e Gentis Deusas, pela virtude dos céus, das estrelas e dos espíritos que presidem sobre estas, que tu possas receber tal virtude que eu possa obter o resultado que desejo em todas as coisas nas quais eu te usar, pelo poder de Aradia e Cernunnos.’

(Esta é chamada a Segunda Conjuração.)

Aquele que não é o proprietário então aplica o Beijo Quíntuplo ao dono. (Se eles a possuem em conjunto, ou se eles a estão consagrando para outro alguém, o homem aplica o Beijo Quíntuplo à mulher.) Para o beijo final na boca, eles pegam a espada ou athame e se abraçam com esta entre seus peitos com a superfície plana ao longo do peito, mantida fixa pela pressão entre seus corpos. Após o beijo, eles se separam (tomando o cuidado de segurar a espada ou athame pelo cabo antes de cessar a pressão sobre esta, pois se cair ela pode ser dolorosa tanto quanto ofuscar sua dignidade).

O dono, ou donos, da arma recém consagrada deve então imediatamente usá-la para reestabelecer o Círculo, mas sem palavras.

No texto B/C, o seguinte parágrafo explanatório é dado após o ritual :

‘Se possível, deite a espada junto à uma espada ou athame já consagrados. Ela deve, se possível, ser consagrada por uma mulher e um homem, sendo ambos iniciados, e ambos tão nus quanto espadas desembainhadas. Durante a consagração, pressione fortemente a espada com a espada ou athame já consagrados. Se possível, compartilhem Vinho e Bolos primeiro, então o Magus deve aspergir com a água, a Bruxa deve incensar na primeira Conjuração, então aspergir e incensar novamente e conjurar novamente com a segunda Conjuração. Se espada e athame reais estiverem disponíveis, uma espada e athame podem ser consagados ao mesmo tempo em cujo caso o Magus deve pressionar espada sobre espada e a Bruxa [pressiona] athame sobre athame, e a nova espada e athame devem se tocar. De qualquer forma, quando terminado a arma deve ser entregue ao novo dono com a Quíntupla Saudação, e deve ser pressionada contra o corpo por um tempo para obter a aura; e ela deve estar em contato próximo o tanto quanto possível ao corpo nu por pelo menos um mês, isto é, mantida sob o travesseiro, etc. Não permita à ninguém tocar ou manusear quaisquer de suas armas até que estejam completamente impregnadas com sua aura; digamos, seis meses ou o mais próximo possível. Mas um casal trabalhando junto pode possuir as mesmas armas (tooks_?), que serão impregnadas com a aura de ambos.’

 

                        Consagrando Outros Instrumentos de Trabalho

 

Esta forma é usada para qualquer instrumento ritual exceto uma espada ou athame. As palavras originais, tal como usadas no Texto A, podem ser encontradas na página 102 de A Clavívula de Salomãoe na página 155 de Auxílio à Alta Magia. Novamente, no Texto B/C os nomes de Aradia e Cernunnos foram substituídos.

Aqui, também, nós damos a versão do Texto, ligeiramente ampliada para tornar os movimentos claros, seguido textualmente pelo parágrafo explanatório do Texto.

Nesse parágrafo, uma vez mais as palavras ‘Bruxa’ e ‘Magus’ são usadas – mas aqui, nós achamos, elas não significam ‘mulher’ e ‘homem’. Nós fomos informados que a Bruxa pode sair ou re-entrar no Círculo livremente e seguramente, mas que é perigoso para o Magus fazê-lo – o que seria estranho se fosse uma discriminação sexual ! Nessa afirmação em particular, ‘Bruxa’ claramente significa o operador Wicca (homem ou mulher), e ‘Magus’ significa o magista cerimonial (homem ou mulher), e o que o Texto está fazendo é acentuar a diferença entre ‘Magia da Arte’ – isto é, o Círculo do magista cerimonial (que é puramente protetor, contra espíritos sendo reunidos fora dele) – e o Círculo das bruxas (que serve a priori para conter e ampliar o poder que está sendo criado dentro dele, e apenas secundariamente protetor). Nós discutimos esta diferença mais completamente na página 83. Tal mudança no significado das palavras entre passagens relativas não seria surpreendente; como Doreen comenta, ‘esta parte do livro de Gerald é muito difícil de elucidar ! Ele tinha o hábito encantador de copiar metade de algo para uma página e então copiar a outra metade em uma outra página misturado com uma outra coisa – embora isso possa ter sido deliberado no caso de acontecer de o livro cair nas mãos de uma pessoa não iniciada, a qual simplesmente não seria capaz de compreendê-lo.

                                               O Ritual

 

Homem e mulher colocam o instrumento sobre o pantáculo, e pousam suas mãos direitas sobre este. Diga :

‘Aradia e Cernunnos, dignai-vos a abençoar e consagrar esta Faca de Cabo Branco [ou qualquer outro instrumento] para que ela possa obter a virtude necessária por meio de vós para todos os atos de amor e beleza.’

O homem asperge o instrumento com a mistura de sal e água, e a mulher a passa através da fumaça do incenso e a recoloca sobre o pantáculo. Diga :

‘Aradia e Cernunnos, abençoai este instrumento preparado em vossa honra.’ No caso do Chicote ou as Cordas, adicione, ‘... que este(a) possa servir para um bom uso e  uma boa finalidade e para a vossa glória.’

Mais uma vez, o homem asperge e a mulher incensa.

Aquele que não é o dono então aplica  o Beijo Quíntuplo no dono.  (Caso eles sejam donos em conjunto, ou caso estejam consagrando para outra pessoa, o homem aplica o Beijo Quíntuplo na mulher.) Para o beijo final na boca, eles pegam o instrumento e se abraçam com o mesmo entre seus peitos, seguro ali pela pressão entre seus corpos. Após o beijo, eles se separam (de novo, cuidadosamente segurando o instrumento para não deixá-lo cair).

O dono, ou donos, do instrumento recém consagrado deve então usá-lo imediatamente, na forma sugerida pelo parágrafo explanatório no Texto B/C que segue:

‘ Todas estas armas devem ser apresentadas ao novo dono com Saudação. Se for uma Rainha das Bruxas : [no livro aparece um triângulo invertido] [tal como na iniciação do primeiro grau – vide página 19]. Termine a cerimônia com a Saudação Quíntupla. O novo dono deve usar imediatamente os novos instrumentos, isto é, formar o Círculo com a Espada, então o Athame, gravar alguma coisa com a Faca de Cabo Branco, exibir o Pantáculo aos Quatro Quadrantes, mover a Vara para os Quatro Quadrantes, incensar aos Quatro Quadrantes, usar as Cordas e o Chicote; e deve  continuar a usar todas elas  em um Círculo tão frequentemente quanto possível, por algum tempo. Para demarcar um novo Círculo, espete a espada ou o athame no chão, faça um laço na corda, e passe em volta; então, usando a corda, marque o um círculo, e depois demarque-o com a ponta da espada ou athame. Sempre renove o Círculo com espada ou athame quando estiver prestes à usá-lo, mas tenha-o marcado de forma que voce sempre o trace de novo no mesmo lugar.  Lembre-se que o Círculo

é uma proteção, uma guarda contra más influências, e para evitar que o poder gerado se disperse, mas a Bruxa, não sendo o mal, pode entrar e sair livremente. Mas na Arte Mágica, ela é uma barreira contra forças criadas, e uma vez estando dentro o Magus não pode sair sem um grande perigo. Se qualquer grande perigo se manifestar é aconselhável tomar refúgio no Círculo; mas normalmente a espada ou athame em mãos é uma proteção perfeita. Aqueles que constroem estas armas devem ser purificados, limpos e devidamente preparados. Quando não estiverem em uso, todos os instrumentos e armas devem ser guardados à parte em um local secreto; e é bom que este seja próximo ao seu lugar de dormir, e que voce os manipule à cada noite antes de ir para cama.’

                                   Consagrando Jóias Pessoais, Etc.

 

O Livro das Sombras não oferece ritual algum para isto. Nós descobrimos que um modo satisfatório é fazê-lo em termos dos quatro elementos – novamente nos nomes de Cernunnos e Aradia. Nós incluimos nosso ritual aqui para o caso de outros bruxos o considerarem útil.

Incidentalmente, seria dificilmente necessário destacar que os covens devem usar quaisquer nomes de Deus e Deusa os quais eles tenham o hábito de usar (neste e em outros rituais). Nós usamos os nomes Cernunnos e Aradia ao longo desta Seção porque estes são os que o Livro das Sombras fornece, e os quais nós mesmos utilizamos normalmente. Mas ‘todos os Deuses são um Deus, e todas as Deusas são uma Deusa’; e os nomes que se venham a usar são uma questão de escolha. Eles também podem ser variados para a ocasião. Por exemplo, nós poderíamos consagrar um broche celta pelos nomes de Lugh e Dana, uma coleira de cachorro pelos nomes de Pan e Diana, ou um anel de noivado pelos nomes de Eros e Afrodite. Adequar os nomes do Deus e da Deusa à natureza de um rito ajuda à enfatizar seu propósito.

Um livro valioso e enciclopédico sobre os significados dos nomes das Deusas é Juno Covella, Calendário Perpétuo da Fraternidade de Ísis, de Lawrence Durdin-Robertson.

 

                                               O Ritual

Homem e mulher posicionam o objeto sobre o pantáculo, e pousam suas mãos direitas sobre o mesmo. Digam:

‘Nós te consagramos no elemento da Terra.’

Eles aspergem o objeto com a mistura de sal e água, dizendo :

‘Nós te consagramos no elemento da Água.’

Eles passam o objeto através da fumaça do incenso, dizendo :

 Nós te consagramos no elemento do Ar.’

Eles passam o objeto por sobre a chama da vela (bem acima, se for algo que a chama possa danificar), dizendo :

‘Nós te consagramos no elemento do Fogo, pelos nomes de Cernunnos e Aradia.’

Eles então se abraçam e se beijam com o objeto entre seus peitos, do mesmo modo que para os instrumentos rituais.

Finalmente, se o objeto for algo que se possa usar imediatamente (obviamente não é possível por exemplo se for um broche e o dono estiver vestido de céu!), aquele que não for o dono coloca-o ao redor do pescoço, pulso, dedo ou outra parte do dono.

 

 

 

 

                                   V   O Restante do Livro das Sombras

 

Nós até agora apresentamos, neste livro e em Oito Sabás para Feiticeiras, as partes ritualísticas do Livro das Sombras de Gerald Gardner (Texto B), e da versão definitiva tal como compilado por Gardner e Doreen Valiente juntos (Texto C). Sempre que possível, e grandemente auxiliados pelo conhecimento de Doreen, nós apresentamos as fontes deste material.

Mas há também muito material não-ritualístico no Livro das Sombras; e alguns destes tem sofrido o mesmo destino que os rituais de serem mal citados, distorcidos e plagiados.  Como os rituais, seus dias de ‘segredo’ pertencem à um passado distante, quer se lamente o fato ou não.  Assim nós concordamos com Doreen que se chegou à um ponto onde, pelos interesses da Arte e para exatidão histórica, os textos autênticos dessas passagens não-ritualísticas também deveriam ser publicadas.

O trabalho que Doreen prestou à Garner em revisar o Texto B foi confinado aos rituais; na extensão em que se diga respeito às passagens não-rituais, os Textos B e C são idênticos.

Doreen nos conta : ‘Estas passagens não aparecem no Texto A, o livro mais antigo; mas vocês notarão um ponto curioso na passagem entitulada Das Chamadas, indicando que Gerald deveria tê-la copiado do livro de um outro alguém. Da velha Dorothy? Não sei. Minha impressão é que as pessoas copiaram dos livros uns dos  outros o que mais apelava à elas e o que consideravam importante, adicionando textos pessoais de tempos em tempos (encantamentos, receitas, e assim por diante) de forma que na prática não existiriam dois Livros das Sombras que fossem exatamente os mesmos.  Também, naquele tempo em que os livros de ocultismo não eram nada fáceis de se conseguir tal como o são hoje, eles copiaram passagens dos livros impressos os quais lhes foram emprestados, sobre assuntos que os interessavam. O velho Gerald faz isso extensivamente em seu livro antigo, com relação aos Cavaleiros Templários, a Kabala e assim por diante, intercalados com seus poemas favoritos.’

É portanto quase sempre impossível identificar as fontes no tocante ao que se refere à estas passagens. Como diz Doreen, elas são claramente de ‘importância e época variadas’.  A evidência da diferença em época está na variedade dos estilos de prosa; algumas passagens parecem genuinamente antigas, algumas comparativamente modernas (ou intercalada com modernismos), enquanto algumas são francamente pseudo arcaicas.

Para esclarecer, nós apresentamos os textos do Livro das Sombras em tipo itálico, e quaisquer comentários (nossos ou de Doreen) em tipo romanizado. O título de cada passagem está tal como aparece no Texto B.

 

                                               Prefácio ao Livro das Sombras

 

‘Mantenha um livro escrito por sua própria mão. Deixe os irmãos e irmãs copiar o que quiserem; mas nunca deixe o livro fora de suas mãos e nunca mantenha os escritos de outrem, pois caso descoberto na escrita deles eles podem muito bem serem capturados e torturados. Cada um guardará seus próprios escritos e os destruirá sempre que houver ameaça de perigo. Aprenda tanto quanto voce possa por memorização, e quando o perigo passar reescreva seu livro se for seguro. Por esta razão, caso qualquer um morra, destrua seu livro se ele não tiver sido capaz de fazê-lo, pois caso seja encontrado isto é prova clara contra ele, e “Voce não pode ser um bruxo sózinho”, desse modo todos os seus amigos estarão sob perigo de tortura. Portanto destrua tudo o que não for necessário. Se o seu livro for encontrado consigo esta será uma prova clara contra voce sózinho e voce poderá ser torturado. Mantenha todos os pensamentos sobre o culto fora de sua mente; diga que voce teve sonhos ruins, um demônio lhe fez escrever isto sem o seu conhecimento. Pense consigo mesmo, “Eu não sei nada. Eu não me lembro de nada. Eu esqueci tudo.” Transporte isso para sua mente. Se a tortura for muito grande para suportar, diga, “Eu confessarei, eu não consigo suportar este tormento. O que voces querem que eu diga? Conte-me e eu o direi.” Se eles tentarem fazê-lo falar de impossibilidades, tais como voar pelo ar, relacionar-se com o Demônio e sacrificar crianças e comer carne humana, para obter atenuação da tortura diga, “Eu tive um sonho mau, eu não estava em mim, eu estava enlouquecido.”

‘Nem todos os magistrado são maus. Se houver uma desculpa eles podem mostrar piedade. Se voce tiver confessado algo, negue-o mais tarde; diga que voce falou demais sob tortura, voce não sabia o que fez ou falou. Se voce for condenado, não tema; a Irmandade é poderosa. Eles podem lhe ajudar à escapar se voce se mantiver imperturbável. SE VOCE TRAIR ALGUÉM [?] NÃO HAVERÁ ESPERANÇA PARA VOCE NESTA VIDA OU NAQUELA QUE ESTÁ PARA VIR. Isto é certo, caso continue firme voce irá para a pira, drogas o ajudarão; elas chegarão até voce e voce não sentirá nada. E se voce for para nada mais do  que a morte, o que repousa além? O extase da Deusa.

‘O mesmo com respeito aos Instrumentos de Trabalho; que estes sejam como coisas comuns que qualquer um pode ter em sua casa. Que os pantáculos sejam de cera de forma que possam ser derretidos ou quebrados de uma vez. Não tenha espadas à menos que sua posição social lhe permita possuir uma, e não mantenha nomes nem sinais sobre nada. Escreva os nomes e sinais com tinta antes de consagrá-los e remova-os imediatamente após. Nunca se vanglorie, nunca ameace, nunca diga que voce desejaria o mal à alguém. Caso voce fale a respeito da Arte, diga, “Não me fale sobre tal coisa, isso me assusta, é de má sorte falar sobre isso”.

Comentário de Doreen: ‘Eu considero isto como sendo de autenticidade duvidosa, porque isto fala de ir “para a pira”, enquanto que na Inglaterra após a Reforma as bruxas não “iam para a pira” à não ser que elas tenham sido julgadas culpadas de assassinar seus esposos, o que era considerado como traição insignificante. A punição para as bruxas na Inglaterra era o enforcamento; era apenas na Escócia que elas eram queimadas na estaca. Muitos escritores sobre feitiçaria escorregam neste detalhe. Assim este “Prefácio” ou teria que ser pré Reforma, o que eu duvido muito, especialmente com sua referência aos magistrados, ou escocês, o que eu não vejo razão para pensar que o seja.’

Nós, também, temos sempre suspeitado do Prefácio. Na época em que a tortura era utilizada, a maioria das bruxas comuns seriam iletradas, e certamente não seria uma regra ‘manter um livro escrito por sua própria mão’; e mesmo se todas elas tivessem sido letradas, aprender a Arte ainda teria sido um processo de boca a boca por razões de segurança.  Se tais livros tivessem sido mantidos, durante os dois ou mais séculos de perseguição algum teria inevitávelmente sido capturado pelas autoridades e considerado importante, e para nosso conhecimento isso nunca aconteceu – o que sugere fortemente que não houve nenhum.

As instruções sobre como se comportar caso seja capturado, e sobre os instrumentos de trabalho, soam muito mais verdadeiras. Nos parece que o Prefácio é um comprometimento posterior (talvez do século dezenove) em papel de uma mistura de tradições e costumes repassadas verbalmente e práticas contemporâneas. O estilo de prosa, que tem o sabor do pseudo-arcaísmo que os Vitorianos adoravam e consideravam como ‘literário’, apóia em  muito este ponto de vista. E ‘ir para a pira’ seria uma confusão com o destino de outros mártires, compreensível em um tempo quando o conhecimento histórico da maioria das pessoas era elementar e altamente colorido.

 

                                               Os Modos de Fazer Magia

 

‘Se diz que o sinal ( vide livro ) sobre o Athame é para representar, entre outras coisas, todos os Oito Caminhos que levam ao Centro e os Oito Modos de Fazer Magia, e estes são :

 

‘1. Meditação ou concentração.

‘2. Cânticos, Encantamentos, Invocações, Invocar a Deusa, etc.

‘3. Projeção do Corpo Astral, ou Transe.

‘4. Incenso, Drogas, Vinho,etc. Qualquer poção que auxilie a liberar o Espírito.

‘5. Dança.

‘6. Controle do sangue. Uso das Cordas.

‘7. O Chicote.

‘8. O Grande Rito.

‘Voce pode combinar muitos destes modos  para produzir mais poder.

‘Para praticar a Arte com sucesso, voce necessita das cinco coisas seguintes :

‘1. Intenção. Voce deve ter a vontade absoluta para ser bem  sucedido, a crença firme que voce pode consegui-lo e a deterninação de vencer avançando através de todos os obstáculos.

‘2. Preparação. Voce precisa estar devidamente preparado.

‘3. Invocação. Os Poderosos devem ser invocados.

‘4. Consagração. O Círculo deve estar corretamente lançado e consagrado e voce deve possuir instrumentos devidamente consagrados.

‘5. Purificação. Voce deve estar purificado.

‘Eis aqui as 5 coisas necessárias antes que voce possa começar, e então 8 Caminhos ou Modos conduzindo ao Centro. Por exemplo, voce pode combinar 4, 5,6,7 e 8 juntos em um rito; ou 4,6, e 7 junto com 1 e 2, ou talvez com 3. Quanto mais modos voce puder combinar, mais poder voce produzirá.

‘Não é satisfatório fazer oferenda de menos de duas chicotadas à Deusa,  pois aqui existe um mistério. Os números afortunados são 3,7,9 e três vezes 7 que resulta 21. E esses números totalizam contagem de dois (?), assim um número menos perfeito ou afortunado não seria uma prece perfeita. Também que a Quíntupla Saudação seja 5, embora sejam 8 beijos; pois existem  dois  pés, 2 joelhos e 2 seios. E 5 vezes 8 seja contagem de dois (?).  Também existem 8 Instrumentos de Trabalho e que o Pantáculo seja 5; e cinco oitos  são contagem de dois.

‘(Nota: 8 mais 5 igual a 13.   8 multiplicado por 5 igual a 40.)’

Não resta dúvida que desde tempos imemoriais ambos  drogas e chicote tem sido usados (embora sob condições cuidadosamente controladas, e com conhecimento) para ‘liberar o Espírito’-  isto é, para expandir a consciência. Nas atuais circunstâncias, nós somos completamente contrários ao uso de drogas na Arte, de qualquer forma; pois nossos argumentos sobre isso, vide págs. 139-40. Sobre o uso controlado do chicote, existem opiniões divididas. Para nós próprios, nós o usamos apenas simbólicamente; mas aquilo é uma opção pessoal.  O açoitamento é tratado por completo na passagem Para Obter a Visão, nas páginas 58-9 abaixo, e nós adicionamos a estas os comentários de Doreen sobre seu uso construtivo.

O parágrafo sobre ‘números afortunados’ é interessante e vale a pena estudar.  Assim o fato é que ele está em um estilo de prosa um tanto diferente, e aparentemente mais antigo, do que os parágrafos precedentes.

 

                                                           Poder

‘O poder está latente no corpo e pode ser exteriorizado e utilizado em vários modos pelos mais experientes. Porém à menos que esteja confinado em um círculo este será rápidamente dissipado. Eis aqui a importância de um círculo adequadamente construído. O poder parece transpirar do corpo através da pele e possívelmente pelos orifícios do corpo; eis aonde voce deve estar devidamente preparado. A menor sujeira estraga tudo, o que demonstra a importância da limpeza completa.

‘A atitude da mente exerce grande efeito, sendo assim opera apenas com um espírito de reverência. Um pouco de vinho tomado e repetido durante a cerimônia, se necessário, auxilia à gerar poder. Outras bebidas fortes ou drogas  podem ser usadas, mas é necessário ser muito moderado, pois se voce estiver confuso, mesmo levemente, voce não poderá controlar o poder que voce evoca.

‘O modo mais simples é através da dança e o canto de cânticos monótonos, devagar a princípio e acelerando gradualmente o compasso até que resulte vertigem. Então as chamadas podem ser usadas, ou até mesmo gritos agudos impensados e sem significado produzem poder. Contudo este método inflama a mente e torna difícil controlar o poder, embora o controle possa ser obtido através da prática. O chicote é um modo muito melhor, pois ele estimula e excita a ambos corpo e alma, e ainda assim a pessoa retém o controle fácilmente.

‘O Grande Rito é de longe o melhor. Ele libera um enorme poder, entretanto as condições e circunstâncias dificultam a mente em manter o controle a princípio. Novamente é uma questão de prática e de força de vontade natural do operador e em um menor grau daquela de seus assistentes. Se, como desde os tempos antigos, houvesem  muitos assistentes treinados presentes e vontades adequadamente sintonizadas, ocorreriam milagres.

‘Feiticeiros utilizavam principalmente o sacrifício de sangue; e embora nós consideremos a isto como sendo mal nós não podemos negar que este método é muito eficiente. O poder lampeja do sangue recém derramado, ao invés de transpirar lentamente como pelo nosso método. O terror e a angústia da vítima adiciona intensidade e mesmo um pequeno animal pode gerar grande poder. A grande dificuldade está na mente humana em  controlar o poder da mente do animal menor. Mas os feiticeiros argumentam que eles tem métodos para efetuar isto e que a dificuldade desaparece quanto maior for o animal usado e quando a vítima é humana ela desaparece completamente. (A prática é uma abominação mas ela é assim),

‘ Os Sacerdotes sabem isto bem; e através de seus auto-da-fés, com a dor e terror da vítima (os fogos agindo muito da mesma forma que círculos), obtinham enorme poder.

‘Desde há tempos os Flagelantes certamente evocaram poder, porém ao não estarem confinado à um círculo a maior parte era perdida. A quantia de poder gerado era tão grande e contínua  que qualquer um com conhecimento poderia direcioná-lo e usá-lo; e é muito provável que os sacrifícios clássicos e pagãos eram usados do mesmo modo. Existem rumores de que quando a vítima humana era um sacrifício voluntário, com sua mente direcionada para a Grande Obra e com assistentes altamente experientes, aconteciam maravilhas – mas sobre isto eu não falaria.’

Esta passagem tem todas as características de uma fala ditada, ou de um ensaio individual anotado. (Velha Dorothy de novo?)  O ‘eu’ na última sentença isolada indica isso.  Tudo está em moderna fraseologia (século dezenove ou início do século vinte, nós diríamos), e isso nos ocorre como o trabalho de um cérebro perspicaz. Ele começa com conselhos úteis e práticos sobre os métodos Wicca de gerar poder, e prossegue para uma análise sagaz sobre a ‘abominação’ dos sacrifícios de sangue dos feiticeiros e as fogueiras da Inquisição, e do desperdício dos métodos dos Flagelantes Cristãos.

Os comentos sobre o Grande Rito, com seu ‘operador’ (masculino) e ‘assistentes treinados’, parecem mais em sintonia com a antiga magia sexual em público (tal como aquela realizada por um Sumo Sacerdote com uma virgem do templo escolhida no Festival anual de Opet em Tebas no Antigo Egito) do que com a prática atual. A moderna magia sexual pede por uma polaridade masculino/feminino equilibrada e é conduzida pelo casal em privacidade, vide páginas 170-2, na Seção XV, ‘Feitiçaria e Sexo’. Tal privacidade também foi observada no coven de Gardner, nos conta Doreen.

As observações sobre os efeitos de contenção e amplificação do Círculo Mágico enfatizam a idéia que fizemos sobre isto na página 46. A sugestão de que o fogo de um auto-da-fé tinha esse mesmo efeito de contenção é interessante.

 

                                               Devidamente Preparado

 

‘Despido, mas sandálias (não sapatos) podem ser calçadas. Para a iniciação, amarre as mãos atrás das  costas, puxadas para a parte baixa das costas e a amarração termina na frente da garganta, deixando um laço para se conduzir, pendurado à frente. (Os braços portanto formam um triângulo nas costas). Quando o iniciado estiver ajoelhado no altar, o laço é amarrado à um sino no altar. Uma corda curta é amarrada como uma liga ao redor da perna esquerda do iniciado acima do joelho, com as pontas dobradas para dentro como para ficar fora do caminho enquanto se movimenta. Estas cordas são usadas  para amarrar os pés juntos enquanto o iniciado está se ajoelhando no altare devem ser longas o suficiente para fazer isto firmemente. Os joelhos devem também ser firmemente atados. Isto deve ser feito cuidadosamente. Se o aspirante se queixar de  dor as amarras devem ser levemente afrouxadas; lembre-se sempre que o objetivo é retardar o fluxo sanguíneo o suficiente para induzir a um estado de transe. Isso envolve um leve desconforto; mas grande desconforto impede o estado de transe, então é melhor gastar um pouquinho de tempo afrouxando e apertando as amarras até que elas estejam no ponto certo. O próprio aspirante pode lhe dizer quando isso estiver certo. Isto, naturalmente, não se aplica à iniciação, quando então nenhum transe é desejado; mas para o propósito do ritual é bom que os  iniciados sejam amarrados firme o suficiente para sentir que eles estão absolutamente desamparados mas sem desconforto.

‘A Medida (no Primeiro Grau) é tomada assim :

‘Altura, em volta do pescoço, cruzando o  coração e cruzando os genitais. O antigo costume é que, se alguém fosse acusado de trair os segredos, suas medidas seriam enterradas à meia-noite em um local pantanoso, com maldições de que “enquanto as medidas vão se decompondo, assim também ele vai se decompor”.’

Estas instruções sobre amarração serão percebidas como se referindo à duas coisas diferentes: a amarração de um iniciado, onde o único propósito é uma devida sensação de desamparo, e amarrar para restringir o fluxo de sangue a fim de ajudar à uma condição de transe. Como o texto enfatiza, a segunda coisa deve ser feita muito cuidadosamente; à menos que as instruções sejam seguidas meticulosamente, isso pode ser perigoso.

Sobre tomar a medida – Doreen nos conta que a prática de Gardner era medir ao redor da testa, não ao redor do pescoço; vide página 18. Hoje, quando a segurança não é mais um caso de vida ou morte, a medida é mantida como um símbolo de lealdade ao coven, não como uma ameaça.

 

                                               A Dança do Encontro

 

‘A Donzela deve conduzir. Um homem deve colocar ambas as mãos em sua cintura, de pé atrás dela, e homens e mulheres alternados fazem o mesmo, a Donzela conduzindo e eles dançam seguindo-a. Ela finalmente os conduz em uma espiral horária (right-hand_?). Quando o centro for alcançado (e seria melhor se este fosse marcado com uma pedra) ela súbitamente se vira e dança de volta, beijando cada homem assim que vai passando por eles. Todos os homens e mulheres se viram igualmente e dançam de volta, homens beijando as garotas e garotas beijando os homens. Todos ao compasso de música (_?), isto é um jogo alegre, mas deve ser praticado para ser bem feito. Note, o músico deve observar os dançarinos e acelerar ou tornar mais lenta a música conforme for o melhor. Para os iniciantes ela deve ser lenta, ou haverá confusão. Isto é excelente para fazer as pessoas se conhecerem umas às outras em grandes reuniões.‘

Deveras um jogo alegre, e um comentário é dificilmente necessário –exceto para dizer que, enquanto a maior parte da música para Círculo nestes dias seja (tristemente, talvez) de fita magnética ou disco, esta é certamente uma das ocasiões para utilizar um músico caso voce tenha um. Em nosso coven, temos a sorte de ter três membros que podem tocar o bodhrán (o tambor de mão irlandês, ideal para esta dança do tipo Conga) e dois violonistas. Tais pessoas não devem ser dispensadas.

 

                                   Sobre as Chamadas

 

‘Desde há muito tempo existiram muitos cânticos e canções utilizados, especialmente nas danças. Muitas destas tem sido esquecidas por nós aqui; mas sabemos que eles usavam gritos de IAU, HAU, que parece muito com o grito dos antigos: EVO ou EAVOE. Muito depende da pronúncia caso seja assim. Em minha juventude quando eu ouvi o grito IAU isso parecia ser AEIOU, ou mais ainda HAAEE IOOUU ou AA EE IOOOOUU.  Isso pode ser nada mais do que um modo de prolongá-lo para adequar o mesmo para uma chamada; mas isto sugere que estas sejam as iniciais de uma invocação, como AGLA costumava ser. E de verdade todo o Alfabeto Hebreu é dito como assim sendo e por esta razão é recitado como um encantamento muito poderoso. Por fim é certo que, estes gritos durante as danças tem realmente um efeito poderoso, como eu mesmo tenho visto.

‘Outras chamadas são: IEHOUA e EHEIE. Também: HO HO HO ISE ISE ISE.

‘IEO VEO VEO VEO VEOV OROV OV OVOVO pode ser um encantamento, mas parece muito ser uma chamada. É como o EVOE EVOE dos Gregos e o “Heave ho!” dos marinheiros. “Emen hetan” e “Ab hur, ab hus” parecem chamadas; como “Horse and hattock, horse and go! Horse and pellatis, ho, ho, ho!”

“Thout, tout a tout tout, throughout and about” e “Rentum tormentum” são provavelmente tentativas mal pronunciadas de uma formula esquecida, embora eles possam ter sido inventados por algum infeliz sendo torturado, a fim de escapar de revelar a fórmula verdadeira.’

Doreen nos conta: ‘Eu copiei isso textualmente do livro de Gerald, como ele por sua vez parece ter copiado pelo menos a primeira parte de um livro mais antigo de outro alguem, porque Gerald não poderia ter falado sobre ter sido um bruxo “em minha juventude”.’

Tal como a passagem Poder, esta sugere uma mente inteligente falando ou escrevendo sobre material herdado, e especulando sobre suas fontes e significado. O estilo é moderno com intrusões pseudo-arcaicas – a última inserida, nós arriscaríamos, por um copista mais do que o escritor ou orador original.

 

                                               O Cone de Poder

 

‘Este era o método antigo. O círculo estava marcado e as pessoas paravam para chicotear os dançarinos. Um fogo ou uma vela estava dentro deste na direção onde o objeto do rito era suposto de estar. Então todos dançavam em volta até que achassem que tinham gerado poder suficiente. Se o rito fosse para banir eles iniciavam deosil e terminavam widdershins, com tantas voltas de cada.

Então eles formavam uma linha com as mãos dadas e se precipitavam na direção do fogo gritando o que eles queriam. Eles prosseguiam assim até que estivessem exaustos ou até que alguém caísse em fraqueza, quando então eles diziam ter enviado o encantamento para seu destino.’

Doreen comenta: ‘Gerald me contou que este era o modo pelo qual os ritos contra a invasão de Hitler foram conduzidos em New Forest durante a Segunda Guerra Mundial. Ele disse que havia uma tradição de que rituais similares foram conduzidos contra a Armada Espanhola e contra Napoleão.’

Nós ressaltamos que, embora esta passagem esteja entitulada O Cone de Poder, esta é apenas uma aplicação particular (embora certamente muito poderosa) do Cone, que é também imaginado como sendo erguido pela Runa das Feiticeiras e por tais coisas como a corda mágica (págs.239-40) e a magia das mãos unidas (págs. 239-40).

 

                                   Da Ordália da Arte Mágica

 

‘Aprenda sobre o espírito que vai com fardos que não tem honra, pois é o espírito que curva os ombros e não o peso. A armadura é pesada, embora seja um fardo orgulhoso e um homem se mantém erguido dentro deste. Limitar e constranger quaisquer dos sentidos serve para aumentar a concentração de outro. Fechar os olhos ajuda a audição. Assim a amarração das mãos do iniciado aumenta a percepção mental, ao passo que o chicote aumenta a visão interior. Então o iniciado passa por isto orgulhosamente, como uma princesa, sabendo que isto serve para nada mais do que aumentar a sua glória.

‘Mas isto pode ser feito apenas com a ajuda de outra inteligência e dentro de um círculo, para evitar que o poder assim gerado seja perdido. Os sacerdotes tentam fazer o mesmo com seus açoitamentos e mortificações da carne. Mas faltando o auxílio das amarras e sua atenção sendo distraída por seus próprios açoitamentos e qualquer pequeno poder que eles produzem sendo dissipado, como eles usualmente não trabalham dentro de um círculo, não é de se admirar que eles muitas vêzes falhem. Monges e ermitões fazem melhor, pois eles estão aptos à trabalhar em pequenas celas e cavernas, o que de alguma forma funciona como círculos. Os Cavaleiros do Templo, que costumavam se chicotear uns aos outros dentro de um octógono, fizeram ainda melhor; mas eles aparentemente desconheciam a virtude das amarras e fizeram mal, homem a homem.

‘Mas talvez alguns realmente sabiam? E sobre a acusação da Igreja de que eles usavam faixas ou cordas?’

Isso nos parece como material genuinamente antigo que tem sido copiado e recopiado (note o uso inconsistente do sufixo ‘-eth’ [no texto original, N.do T.], um erro que poderia fácilmente se alongar). As duas últimas sentenças parecem como uma nota de rodapé posterior do copista – talvez do próprio Gardner, uma vez que Doreen diz que ele era bem ilustrado sobre o estudo dos Cavaleiros Templários.

 

                                               Para Conseguir a Visão

 

‘A visão vem para diferentes pessoas em modos diversos; é raro que ela venha naturalmente, mas ela pode ser induzida de muitos modos. Meditação profunda e prolongada pode fazer isto, mas apenas se voce for natural, e geralmente um jejum prolongado é necessário. Há muito tempo os monges e freiras obtiveram visões através de longas vigílias, combinadas com jejum e flagelação até sair sangue; outras mortificações da carne eram praticadas tais que resultavam em visões.

‘No Oriente, isto é experimentado com várias torturas enquanto sentado em uma posição restrita, que retardava o fluxo de sangue; estas torturas, longas e contínuas, deram bons resultados.

‘Dentro da Arte, nos é ensinado um modo mais fácil, isto é, intensificar a imaginação, ao mesmo tempo controlando o suprimento de sangue, e isto pode ser feito melhor utilizando o ritual.

‘Incenso é bom para propiciar os ânimos, também para induzir o relaxamento ao aspirante e para auxiliar à construir a atmosfera necessária para a sugestionabilidade. Mirra, Goma de Mascar(?), Raízes de Junco Aromáticas, Casca de Canela, Almíscar, Juniper [uma árvore com frutos aromáticos – N.do T.], Sândalo e Âmbar Cinza[?], em combinação, são todos bons, mas o melhor de todos é o Patchouli.

‘O círculo sendo formado, e tudo devidamente preparado,  o aspirante deve primeiro atar e trazer seu tutor dentro do círculo, invocar os espíritos adequados à operação, dançar à volta até a vertigem,  no meio tempo invocando e anunciando o objetivo do trabalho, então ele deve usar o flagelo. Então o tutor deve por sua vez atar o aspirante – mas muito de leve, de forma à não causar desconforto – mas o suficiente para retardar o sangue levemente. Novamente eles devem dançar em volta, então no Altar o tutor deve usar o flagelo com golpes leves, regulares, vagarosos e monótonos. É muito importante que o pupilo veja os golpes chegando, pois isto tem o efeito de entrega[?],e ajuda grandemente à estimular a imaginação. É importante que os golpes não sejam duros, sendo o objetivo não mais do que trazer o sangue para aquela parte e afastando-o do cérebro; isto, com a amarração leve, desacelerando a circulação do sangue, e a entrega[?], logo induz à um estupor sonolento. O tutor deve observar isto, e tão logo o aspirante fale ou adormeça o flagelo deve cessar. O tutor deve também observar que o pupilo não fique frio, e se o  pupilo se debate ou parece aflito ele deve ser despertado de uma vez.

‘Não fique desencorajado caso nenhum resultado surja no primeiro experimento – os resultados geralmente acontecem após duas ou três tentativas. Será percebido que após duas ou três tentativas ou experimentos os resultados virão, e logo mais rápidamente; e também logo  muito do ritual poderá ser abreviado, mas nunca esqueça de invocar a Deusa ou de formar o círculo, e para bons resultados é sempre melhor fazer muito ritual mais do que muito pouco no início.

‘Foi descoberto  que esta prática muitas vezes de fato provoca o afeto entre aspirante e tutor, e isso é uma causa de melhores resultados caso seja assim. Se por alguma razão não for desejável  que haja grande afeto entre aspirante e tutor isso pode ser fácilmente evitado por ambas as partes desde o começo, resolvendo firmemente em suas mentes que se surgir algum afeto este será aquele entre irmão e irmã, ou pais e filhos, e é por esta razão que um homem pode ser ensinado apenas por uma mulher e uma mulher por um homem, e que homem e homem ou mulher e mulher nunca devem tentar estas práticas juntos, e que todas as maldições dos Poderosos possam estar sobre qualquer um que faça esta tentativa.

‘Lembre-se, o círculo devidamente construído é sempre necessário para evitar que o poder liberado seja dissipado; ele é também uma barreira contra quaisquer forças perturbadoras ou prejudiciais; pois para obter bons resultados voce deve estar livre de todos os distúrbios.

‘Lembre-se, escuridão, pontos de luz piscando em meio à escuridão em volta, incenso, e os golpes compassados de um braço branco[?], não são como efeitos de palco; eles são os intrumentos mecânicos que servem para iniciar a sugestão que mais tarde libera o conhecimento que é possível para obter o êxtase divino, e para obter o conhecimento e a comunhão com a Divina Deusa. Uma vez que  voce tenha conseguido isso, o ritual é desnecessário, pois voce pode alcançar o estado de êxtase à vontade, mas até então, ou se, tendo obtido ou alcançado isto por si mesmo, voce desejar trazer uma companhia até aquele estado de júbilo, [então] ritual é o melhor.’

 

                                               Para Deixar o Corpo

‘Não é sensato se esforçar para sair fora de seu corpo até que voce tenha obtido a Visão completamente. O mesmo ritual tal como para obter a Visão pode ser utilizado, mas faça uso de um acolchoado confortável. Se ajoelhe de forma que voce tenha suas coxas, barriga e peito bem apoiados, os braços esticados para frente e um para cada lado, de forma que haja um sentimento decidido de ser puxado para frente. Assim que o transe for induzido, voce deverá sentir um esforço  para se lançar para fora do topo de sua cabeça. Deve ser aplicada  uma ação de arrastar ao chicote, tal como para conduzir ou puxar voce para fora. Ambas as vontades devem estar inteiramente em sintonia, mantendo um esforço constante e igual. Quando vier o transe, seu tutor poderá ajudá-lo chamando-o suavemente pelo seu nome. Voce provavelmente se sentirá puxado para fora de seu corpo como se através de uma abertura estreita, e se encontrará de pé ao lado de seu tutor, olhando para o corpo sobre o acolchoado. Se esforce primeiramente para se comunicar com seu tutor; se ele tiver tido a Visão ele provavelmente o verá. Não se distancie da área no início, e é melhor ter ao seu lado alguém que já seja experiente em deixar o corpo.

‘Uma nota : Quando, ao ter conseguido deixar o corpo, voce desejar retornar, de forma a fazer coincidir o corpo espiritual e o corpo material, PENSE EM SEUS PÉS. Isso fará com que ocorra o retorno.’

Esta é a maior parte não-ritualística no Livro das Sombras de Gardner, e nós deduzimos que ele prescreve uma prática  que era fundamental para a tradição e atividades do coven de New Forest que o treinou. É explicado cuidadosamente, com meticulosa ênfase sobre o relacionamento tutor-pupilo e sobre as defesas práticas, psíquicas e inter-pessoais necessárias. O propósito da amarração não tão forte e o açoitamento leve deliberado são claros : ajudar à trazer à tona o que pode variavelmente ser chamado clarividência, expansão da consciência, abertura dos níveis, abertura do Terceiro Olho, ou comunhão com a Deusa; e, num estágio mais avançado, projeção astral. (É interessante que o texto não usa nenhum dos termos técnicos do ocultismo contemporâneo ou da pesquisa psíquica tais como ‘projeção astral’ou ‘corpo astral’; isso sugere fortemente uma tradição passada de pessoa a pessoa desde, pelo menos, antes da segunda metade do século dezenove). Distorcer isto em uma alegação de que o próprio Gardner tinha um ímpeto doentio pela flagelação, quer seja sádica ou masoquista (e o procedimento acima descrito claramente não é nenhum destes), é insensatez.

Podem haver diferenças de opinião sobre se o procedimento descrito poderia ser perigoso; o que não pode ser negado é que o texto explicitamente assegura que este será seguro,e para cessá-lo de uma vez caso haja alguma dúvida.

Comentário de Doreen : ‘A razão pela qual utilizamos o chicote é muito simples – ele funciona ! O que o velho Gerald descreveu é um modo muito prático de se fazer magia. Eu falo por experiencia quando digo que este faz o que ele afirmou que fizesse, e eu não ligo para o que qualquer um possa dizer sobre ser “esquisito” ou qualquer outra coisa. Talvez ele tenha sido associado com aspectos sexuais estranhos; porém muito antes disso ele era parte de práticas mágicas e místicas muito antigas. Voce pode encontrar menção sobre ele desde o Antigo Egito e desde a Antiga Grécia; e sem dúvida voce está familiarizado com a famosa cena da Vila dos Mistérios em Pompéia que mostra um recém iniciado sendo chicoteado – um ponto ao qual Gerald se refere em Feitiçaria Hoje. Embora a descrição em Para Obter a Visão particularmente se refira à obter clarividência, eu também a achei muito incentivadora à visualização mágica.’

O que achamos que deve ser enfatizado (como faz o Livro das Sombras) é que quando o chicote é usado na prática Wicca, não se deve  esperar por ou inflingir nenhuma dor; ele é sempre usado com suavidade. Seu propósito ou é simbólico (como por exemplo na Lenda da Descida da Deusa) ou é usado para induzir ao transe por uma leve hipnose e a redistribuição da circulação do sangue.

 

                                   Os Instrumentos de Trabalho

‘Não existem lojas de suprimentos mágicos, então à menos  que voce tenha sorte suficiente para ganhar de presente ou comprar intrumentos uma bruxa pobre deve improvisar. Mas quando feitas voce deve estar em condições de conseguir emprestado ou obter um Athame. Então tendo feito seu círculo, erga um altar. Qualquer mesa pequena ou baú servirá. Deve haver fogo sobre ele (uma vela será suficiente) e o seu livro. Para bons resultados incenso é melhor se voce puder obtê-lo, porém carvões dentro de  um prato queimando ervas de aroma doce é o suficiente. Um cálice caso voce tenha bolos e vinho e uma travessa com os sinais gravados dentro da mesma com tinta, mostrando um pantáculo. Um chicote é feito fácilmente (note, o chicote tem oito caudas e cinco nós em cada cauda). Consiga uma faca de cabo branco e uma vara (uma espada não é necessário). Corte as marcas com o Athame. Purifique tudo, então consagre seus instrumentos da forma adequada e esteja sempre devidamente preparado. Mas lembre-se sempre, as operações mágicas são inúteis à menos que a mente possa ser trazida para a atitude correta, estimulada até o último nível.

‘As afirmações devem ser feitas claramente, e a mente deve ser inflamada com desejo. Com este frenesi de vontade voce pode fazer muito com instrumentos simples tanto quanto com o kit de instrumentos mais completo. Mas instrumentos bons e especialmente antigos tem sua própria aura. Eles realmente ajudam à trazer aquele espírito reverencial, o desejo de aprender e desenvolver os seus poderes. Por este motivo as bruxas sempre tentam obter instumentos de feiticeiros, que  por serem homens experientes fabricam bons instumentos e os consagram bem, concedendo à eles um grande poder. Mas os instrumentos de uma grande bruxa também ganham muito poder; e voce deve sempre se esforçar em fazer quaisquer instrumentos que venha a fabricar a partir dos melhores materiais que voce possa obter, para a finalidade que eles possam absorver o seu poder o mais fácilmente. E naturalmente se voce puder herdar ou obter os instrumentos de outra bruxa, o poder fluirá a partir destes.’

A declaração de que ‘não existem lojas de suprimentos mágicos’ naturalmente não é mais verdadeira; e tem havido outros desenvolvimentos na prática Wicca desde que esta passagem foi escrita. Embora uma espada não seja estritamente necessária (o athame servindo para os mesmos propósitos), a maioria dos covens agora gostam de ter uma – um símbolo de identidade do coven em contraste com os athames, que são símbolos de cada identidade de bruxo em particular.

Também, para a maioria dos covens o copo ou cálice é um dos símbolos mais importantes (representando o princípio feminino e também o elemento da Água) e não um mero acessório ‘caso voce tenha bolos e vinho’, embora a aparente degradação do cálice nesse texto possa ter sido um ‘ocultamento’ deliberado, pelas razões que foram expostas à Gardner e as quais nós explicamos na página 258.

Mas à parte destes pontos menores, os princípios estabelecidos nessa passagem são tão válidos como nunca.

Nós consideramos interessante a implicação de que as bruxas podem ter estado em contato com ‘feiticeiros’ (significando o que nós hoje poderíamos chamar de ‘magos rituais’).

 

                                               Fabricando Instrumentos

‘É uma antiga crença de que as melhores substâncias para fabricar instrumentos são aquelas que uma vez tiveram vida dentro de si, em oposição à substâncias artificiais. Então, madeira ou marfim é melhor para uma vara do que metal, que é mais apropriado para espadas ou facas. Papel pergaminho virgem é melhor do que papel manufaturado para talismãs, etc. E coisas que tenham sido feitas à mão são boas, porque existe vida nelas.’

Não há necessidade de comentário.

 

                                               Para Fazer Ungüento Para Unção

‘Pegue uma panela vitrificada meio cheia de gordura ou óleo de oliva. Coloque dentro folhas esmagadas de menta doce. Ponha a panela em banho-maria. Agite de vez em quando. Após quatro ou cinco horas despeje em um saco de linho e faça transpassar a gordura, torcendo o pano, despejando-a de volta na panela e encha com folhas novas. Repita até que a gordura tenha sido impregnada com o aroma. Faça o mesmo com manjerona (marjoram_?), thyme (?) e folhas secas e trituradas de patchouli, e voce deve tê-las (pois elas são as melhores de todas). Quando estiverem fortemente impregnadas, misture todas as gorduras juntas e guarde em  uma jarra bem tampada.

‘Passe atrás das orelhas, na garganta, peito e [região do] útero. Em ritos onde “Bendito seja ...” possa ser dito, passe nos joelhos e pés, como também para ritos relacionados com jornadas ou guerra.’

Nosso velho amigo o pseudo arcaico copista esteve novamente em ação aqui; um par de seus clichês favoritos ressalta como engano (? _ sore thumbs) nesse texto óbviamente moderno. Mas a própria receita vale a pena de ser experimentada e é possivelmente muito mais antiga do que o texto presente.

‘Jornadas ou guerra’:  o aroma de menta, manjerona (?), thyme (?) e patchouli no Metrô de Londres, ou na linha frontal do Pelotão No.4, pode não ser a idéia de todos sobre magia prática. Mas voltando à seriedade – a elaboração e preparação de ungüentos corporais para adequar as personalidades individuais de bruxas, ou a ênfase de ritos particulares, é válida de se buscar, especialmente se voces tiverem um membro do coven que é dotado em tais coisas. Mas seu uso é melhor confinado ao Círculo Mágico,e (à menos que voces queiram gastar metade de seu tempo livre lavando robes) para prática vestidos de céu.

 

                                                     Várias Instruções

‘Uma nota sobre o ritual do Vinho e dos Bolos. É dito que nos dias antigos cerveja clara ou mead [bebida alcóolica feita com mel e água fermentados] foram muitas vezes utilizadas ao invés de vinho. É dito que bebidas alcóolicas destiladas  ou qualquer coisa, “desde que ela tenha vida”(isto é, tenha energia).’

Nós questionamos a moderna adição em parênteses. ‘Tenha vida’ nos parece significar muito mais ‘seja de origem orgânica’. Mead é uma bebida favorita das bruxas e poderia se adequar neste ponto por ser tanto vegetal como animal em  sua origem, já que ela é baseada no mel, que as abelhas produzem do néctar da flor. Cerveja era a bebida ritual dos antigos Egípcios.

‘Todos são irmãos e irmãs, por esta razão; que mesmo a Suma Sacerdotiza deve se submeter ao chicote.’

Quando ela está concedendo à alguem sua iniciação no segundo grau,  por exemplo.

‘A única exceção para a regra de que um homem só pode ser iniciado por uma mulher e uma mulher por um homem, é a de que uma mãe pode iniciar sua filha e um pai o seu filho, porque eles são partes de si mesmos.’

Nos ensinaram que as iniciações mãe-filha e pai-filho eram permissíveis ‘em uma emergência’. É interessante que o Livro das Sombras de Gardner não faz tal qualificação.

‘Uma mulher pode personificar seja o Deus ou a Deusa, mas um homem pode personificar apenas o Deus.’

Uma bruxa feminina assume um papel masculino ao empunhar a espada; vide página 78.

‘Lembre-se sempre, se for tentado à admitir ou se gabar de pertencer ao culto, voce estará pondo em perigo seus irmãos e irmãs. Muito embora as fogueiras da perseguição tenham agora desaparecido, quem é que sabe quando elas possam ser ressucitadas? Muitos sacerdotes tem conhecimento dos nossos segredos e eles sabem muito bem que muita intolerância religiosa tem desaparecido ou suavizado, que muitas pessoas poderiam desejar se unir ao nosso culto se fosse conhecida a verdade de suas alegrias e as igrejas iriam perder o poder. Dessa forma se nós fizermos muitos recrutas nós poderemos deflagrar as fogueiras da perseguição contra nós novamente. Assim guarde sempre os segredos.’

Isso pareceria ser uma honesta observação e alerta do período após os séculos de perseguição, mas antes do renascimento do oculto e da bruxaria no século vinte.  A situação tem mudado grandemente nas décadas recentes. Porém toda bruxa deve ter em mente que a perseguição, em uma forma ou outra, poderia sempre erguer sua cabeça monstruosa novamente. E mesmo agora, deveria ser uma regra absoluta que nenhuma associação do(a) bruxo(a) à Arte deveria ser revelada exceto por sua própria e livre opção.

‘Aqueles tomando parte num rito devem saber exatamente quais resultados estes desejam obter, e todos devem manter suas mentes firmemente fixadas no resultado desejado, sem devaneio.’

Novamente, não há necessidade de comentários.

 

Fazendo o melhor de nós para sermos imparciais – que impressão geral nós obtemos desses textos, e deveras do Livro das Sombras como um todo ?

Nós tivemos a firme impressão de uma tradição antiga e contínua mantida primeiramente de boca à boca, e mais tarde (talvez algum tempo no século dezenove) por escrito; reunindo interpretações, adições e os mal entendidos ocasionais assim que ia progredindo; no período escrito, algumas vezes anotado por um professor e algumas vezes anotado em ditados durante treinamento. A variedade de estilos, a declaração em primeira pessoa ocasional, a declaração obscura que se tornou confusa – mesmo nosso amigo o copista pseudo-arcaico – tudo nos parece confirmar este retrato humano. Mas o espírito básico, e a sabedoria consistente da mensagem, parece resplandecer através de tudo isso.

A única impressão que isto realmente não oferece, por qualquer esforço da imaginação, é a de uma total invenção de Gerald Gardner – ou, nesse raciocínio, da Velha Dorothy ou qualquer outro alguém.

 

 

 

                                   MAIS RITUAIS WICCA

 

                                   VI   Invocando (*) o Sol

 

(* _ Aqui, no sentido de atrair)

 

O Ritual de Invocar [atrair_?] a Lua (vide Oito Sabás para Feiticeiras, págs.40-42) é um elemento central na manutenção de um Círculo de coven. Através deste, o Sumo Sacerdote invoca o espírito da Deusa para dentro da Suma Sacerdotisa, usando sua polaridade masculina para invocar a divina essência para dentro da  polaridade feminina dela. Se o ritual for bem sucedido, então ela realmente se torna um canal da Deusa através da duração do Círculo (e muitas vezes o efeito da invocação pode perdurar nela após o Círculo ser banido). Alguns bruxos masculinos parecem possuir um dote natural para Invocar a Lua; nós conhecemos bruxos de primeiro grau, convocados para conduzir um Círculo pela primeira vez, que induziram um surpreendente ar de autoridade em uma parceira feminina igualmente inexperiente. Outros homens tem que trabalhar duro para desenvolver o dom. Porém dada a sinceridade e uma compreensão do significado do rito, este sempre está lá aguardando para ser desenvolvido.

Que isto realmente funciona, ninguém que participou de mais que uns poucos Círculos pode duvidar. A Invocação da Lua, no Ritual de Abertura normal (vide Apendice B, págs.296-7), é imediatamente seguida pela Investidura (págs. 297-8); então é aqui que o efeito primeiro se manifesta.

A Deusa realmente se manifesta, no tom e na ênfase da condução da Investidura – muitas vezes para surpresa da sacerdotisa que o conduz. Janet admite francamente que ela ‘nunca sabe como isso vai acontecer’.  Algumas vezes o próprio texto é completamente alterado, com um fluxo espontâneo que ela ouve com uma parte específica de sua mente. É como se a Deusa soubesse mais do que a sacerdotisa simplesmente qual ênfase, ou encorajamento, ou mesmo que advertência ou reprimenda, se aplica para aquele Círculo em particular, e controlasse a Investidura em conformidade.

Uma vez que a Wicca é uma religião orientada à Deusa, depositar uma ênfase particular  na ‘dádiva da Deusa’ (as faculdades intuitiva e psíquica) por causa da natureza de seu trabalho (1), o processo complementar de invocar o espírito do Deus dentro do Sumo Sacerdote ocorre menos frequentemente. O Sumo Sacerdote de fato invoca o aspecto de Deus em nome de todo o covenm durante o Ritual de Abertura, por meio da invocação ‘Grande Deus Cernunnos’; e nos ritos de Imbolg, Equinócio da Primavera, Meio do Verão, Equinócio de Outono, Samhain e Festival de Yule, a Suma Sacerdotisa invoca o espírito do Deus dentro do Sumo Sacerdote ou especificamente ou por implicação.  Porém descobrimos que existem ocasiões quando é adequado que esta invocação tenha um peso e solenidade comparáveis com a Invocação da Lua. Por exemplo, existem ocasiões quando o trabalho em mãos pede por uma ênfase no equilíbrio de polaridade entre sacerdotisa e sacerdote – na Dádiva da Deusa e na Dádiva do Deus em perfeita harmonia.

Para aqueles que já sentiram a necessidade por tal rito, nós apresentamos o seguinte – para o qual ‘ Invocando o Sol’ pareceria ser o título natural. Doreen Valiente acha que pode ter havido alguma vez um ritual para este propósito na Arte, mas que este foi perdido através dos anos.

Porque a Suma Sacerdotisa, representando a Deusa, está sempre à cargo do Círculo, nós sugerimos que Invocando a Lua deve sempre preceder Invocando o Sol. A Suma Sacerdotisa então invoca o aspecto de Deus em nome da Deusa.

                                                           A Preparação

 

Nenhuma preparação em particular é necessária para este ritual – exceto que se o coven possuir uma coroa de Sumo Sacerdote, ele deverá estar usando-a.

 

                                                             O  Ritual

 

Ao final de Invocando a Lua, após as palavras da Suma Sacerdotisa ‘Aqui eu te invisto, neste sinal’, a Suma Sacerdotisa e o Sumo Sacerdote trocam de lugares, movendo-se deosil, de forma que ele fique em pé com suas costas para o altar e que ela fique de frente para ele a partir do centro do Círculo.

O Sumo Sacerdote pega seu athame do altar e o segura em sua mão direita sobre seu peito esquerdo, apontando para cima.

A Suma Sacerdotisa lhe aplica o Beijo Quíntuplo, como segue :

‘Benditos sejam teus pés, que te trouxeram nestes caminhos’ – beijando seu pé direito em então seu pé esquerdo.

‘Benditos sejam teus joelhos, que se dobrarão no altar sagrado’ – beijando seu joelho direito e então seu joelho esquerdo.

‘Bendito seja teu falo, sem o qual nós não existiríamos’ – beijando-o logo acima do pelo púbico.

O Sumo Sacerdote abre seus braços na Postura Abençoada, ainda segurando seu athame em sua mão direita, apontando para cima.

A Suma Sacerdotisa continua:

‘Bendito seja teu peito, formado em força’ – beijando seu peito direito e então seu peito esquerdo.

‘Benditos sejam teus lábios, que pronunciarão os nomes sagrados.’  Eles se abraçam, por toda sua extensão e com os pés se tocando, e se beijam na boca.

A Suma Sacerdotiza dá um passo para trás e se ajoelha. Ela invoca:

 

‘Chamados profundos nas alturas, a Deusa sobre o Deus,

Sobre ele que é a chama que a vivifica;

Que ele e ela possam tomar as rédeas de prata

E conduzir como um só a carruagem do par de cavalos.

Que o martelo golpeie a bigorna,

Que o raio toque a terra,

Que a Lança incorpore o Graal,

Que a magia venha a nascer.’

 

Ela toca com seu dedo indicador direito a garganta dele, quadril esquerdo, peito direito, peito esquerdo, quadril direito, e garganta novamente (formando assim o Pentagrama de Invocação do Fogo). Ela então estende para fora suas mãos, palmas para frente. Nesse meio tempo ela continua à invocar:

 

‘Em nome dela eu te invoco,

Poderoso Pai de todos nós –

Lugh, Pan, Belin, Herne, Cernunnos –

Vinde em resposta ao meu chamado !

Descei, eu oro a ti, em teu servo e sacerdote.’

 

A Suma Sacerdotiza fica em pé e dá um passo para trás. O Sumo Sacerdote traça o Pentagrama de Invocação do Fogo na direção dela com seu athame (2), dizendo :

                                                                                                                     Fig. 2

____

Nota: Vide traçado do Pentagrama na página 70 do livro original – N.do T.

 

‘Que haja luz !’

 

 

                                               - = 0 = -

 

 

                                   VII   O Ritual das Três Deusas

 

Os rituais Wicca podem ser para adoração; para a geração e utilização de poder; ou para a dramatização de conceitos arquetípicos. Alguns (tais como iniciação, casamento e outros ritos de passagem) combinam mais de um desses elementos.  Mas aqui está um exemplo de ritual cujo intento central é a dramatização. Tais rituais servem à um propósito muito construtivo, porque eles ajudam quem toma parte à visualizar estes arquétipos vividamente como sendo reais, e à construir conexões saudáveis entre suas percepções inconscientes sobre estes, e sua compreensão consciente sobre estes.

O conceito da Deusa Tríplice é tão antigo quanto o tempo; ele cruza vezes e mais vezes através de mitologias muito diferentes, e seu símbolo visual de maior impacto é a Lua em suas fases crescente, cheia e minguante. O fato de que o ciclo da Lua é refletido no ciclo menstrual das mulheres toca em aspectos profundos e misteriosos do princípio feminino, e da própria Deusa. (Sobre isso, o livro de Shuttle e Redgrove A Sábia Ferida – vide Seção XV e Bibliografia – merece um estudo sério por parte de todo bruxo homem ou mulher.) Todas as Deusas são uma Deusa – mas ela se apresenta em vários aspectos, todos os quais se relacionam aos três aspectos fundamentais da Donzela (o encantamento, o começo, a expansão), da Mãe (a maturidade, a realização, a estabilidade) e a Anciã (a sabedoria, a atrofia, e repouso).  Toda mulher, e todas as formas da Deusa, contém todos os três – cíclicamente e simultâneamente. Nenhuma mulher que falhe em comprender isto pode compreender a si mesma; e sem compreender isto, ninguém pode compreender a Deusa.

Nós compusemos este ritual enquanto estávamos ainda morando na Inglaterra,e a primeira vez em que o encenamos foi  num ambiente ideal: a casa de um amigo às margens do rio em um campo isolado, com uma pequena ponte que levava à uma ilha privativa que ninguém mais conseguia alcançar. Naquela ilha, em uma clareira permeada por árvores finas, ao meio do som do rio que corria, nós pudemos acender nossa fogueira e conduzir nossos rituais vestidos de céu sem receio de interrupção. Infelizmente, casa e ilha foram há muito tempo vendidas para estranhos; mas nós nos lembramos do lugar com carinho.

Talvez devido àquela recordação, nós apresentamos nosso Ritual das Três Deusas aqui com o propósito de tradição a céu aberto – tochas flamejantes e tudo mais. Entretanto, embora aquilo seja o ideal, poderá ser adaptado para operação entre paredes.

 

                                               A Preparação

O Círculo é estabelecido na forma normal, mas com uma fogueira no centro. (Entre paredes, o caldeirão com uma vela dentro deste.) Fora do Círculo, preferivelmente na direção Nordeste, ficará uma passagem com três pares de tochas inflamáveis (velas caso seja entre paredes), prontas para que as três Deusas acendam assim que elas se aproximem por entre elas.  Material para acendê-las  deve ficar à disposição, e também alguns materiais para a Anciã apagá-las assim que ela partir; para as tochas flamejantes, nós usamos uma lata aberta em uma extremidade e pregada na extremidade de uma vara.

Um sino, gongo ou címbalo de som razoável estará pronto sobre o próximo ao altar.

Três bruxas mulheres são escolhidas para encenar a Donzela, a Mãe e a Anciã. Caso estejam portando vestes, as cores tradicionais são o branco para a Donzela, vermelho para a Mãe, e preto para a Anciã.  Mesmo se o ritual for vestido de céu, apenas a Anciã deve estar vestida de preto,  preferivelmente com um capuz  ou um lenço de cabeça dobrado como um capuz.  A imaginação deve ser usada ao adornar a Donzela e a Mãe, estejam vestidas de céu ou portando vestes, a fim de manifestar o frescor da primavera da Donzela e a maturidade do verão da Mãe.

O Sumo Sacerdote conduz o ritual; e já que a Suma Sacerdotiza poderá ser uma das Três, nós nos referimos ao seu parceiro de operações para a ocasião simplesmente como ‘a Sacerdotiza’.

Nomes de Deusa adequados devem ser escollhidos para a Donzela, a Mãe e a Anciã, segundo o próprio histórico ou tradição do coven. Aqui nós utilizamos três nomes irlandeses – Brid (pronunciado ‘Breed’) para a Donzela, Dana para a Mãe, e Morrigan para a Anciã. Brid ou Brigid, Deusa da Inspiração,  é aquela mais vezes referida como tríplice – ‘as Três Brigidas’ – na mitologia irlandesa e tem um ar de primavera ao seu redor; Dana é o nome irlandês predominante da Deusa-Mãe; e Morrigan, Deusa de batalhas e do destino, é o mais poderoso dos aspectos da Deusa negra.

 

                                                           O Ritual

 

O Sumo Sacerdote consagra o Círculo, com todos dentro deste exceto a Donzela e a Mãe, que estão na outra extermidade da passagem (fora de vista se possível). Os elementos são carregados ao redor e os Senhores das Torres de Vigia são invocados.

A Sacerdotisa permanece de costas para o altar. O Sumo Sacerdote e a Anciã olham um para o outro entre o altar e a fogueira, o Sumo  Sacerdote portando a vara. O resto do coven fica de pé ao redor do perímetro do Círculo olhando para o centro mas deixando livre a extremidade da passagem [que toca o Círculo].

O Sumo Sacerdote caminha ao redor da Anciã uma vez, deosil, olha para ela novamente e diz:

‘Dentro de cada homem e de cada mulher repousa o mistério da Mãe Negra de toda a criação, a governante dos oceanos, o centro estático ao qual todos devem retornar como seu prelúdio para renascer. Que ela venha à nós esta noite, mas de forma à não criar desequilíbrio nesta nossa Sacerdotisa ________ [nome de bruxa] que irá representá-la;  pois nenhum humano pode suportar o poder concentrado da Grande Mãe em seu aspecto negro; ao passo que no equilíbrio de seus Três Aspectos, todos estão seguros. Representes tu, _____ , portanto seu aspecto negro sem receio,sabendo que seus outros aspectos também estão presentes dentro de nosso Círculo. Com esta vara eu deveras te protejo e fortifico para tua tarefa.’

O Sumo Sacerdote então gesticula ritualmente na direção de cada uma das treze aberturas do corpo da Anciã por vez (vide página 85) com sua vara. Ele então usa a vara para fazer uma abertura no Círculo em frente à passagem. A Anciã deixa o Círculo ao longo da passagem para se reunir com a Donzela e a Mãe, e o Sumo Sacerdote fecha a abertura com a vara (1). Ele repõe a vara sobre o altar.

O Sumo Sacerdote então aplica o Beijo Quíntuplo na Sacerdotiza (mas a Invocação da Lua não é encenada, e a Investidura não é dada). Ele então conduz as invocações ‘Bagabi laca bachahe’ e ‘Grande Deus Cernunnos’.

Sumo Sacerdote, Sacerdotisa e coven circulam para a Runa das Feiticeiras.

O coven retorna ao perímetro.

Sumo Sacerdote e Sacerdotisa consagram o vinho (com apenas um pouco de vinho no cálice). A Sacerdotisa ergue o cálice e diz:

‘Dana, Terra antiga de incontáveis verões, Terra amada e útero do milho dourado, quente pulsar do coração da mata verde, nutrindo dentro de nós teu calor e teu amor; Senhora da Colheita e Mãe de todos nós – segurai-nos agora próximos ao teu peito, e preenchei-nos com tua generosidade, tu que sois a fonte de toda a vida.’

Ela então esvazia o cálice sobre o solo em fronte ao altar.

O Sumo Sacerdote preenche o cálice e o repõe sobre o altar.

O Sumo Sacerdote então olha para a passagem e invoca com uma voz clara:

‘Brid da Lua crescente, filha da Primavera, suave Deusa das Flôres, nós te chamamos. Vinde ao nosso Círculo e trazei-nos o hálito da Primavera . Preenchei-nos com tua música e risos prazeirosos.  Que haja o desabrochar de sob teus pés, e que o cantar da água seja a tua voz. Vinde ao nosso Círculo, Brid da Lua crescente.’

A Sacerdotisa golpeia o sino três vezes.

A Donzela se aproxima do Círculo ao longo da passagem de tochas, e acende o par mais próximo ao Círculo. Ela então caminha deosil por fora do Círculo e fica em pé atrás da vela do Leste.

O Sumo Sacerdote, ainda olhando para a passagem, invoca:

‘Dana da Lua cheia, tu Grande Mãe, mui maravilhosa Senhora das Terras do Verão;  nós te chamamos. Vinde no vento do Verão, trazendo-nos grãos maduros e frutas doces. Preenchei-nos com o prazer da maturidade; ensinai-nos a sabedoria da realização; banhai-nos na glória refletida de teu consorte, o Sol. Vinde ao nosso Círculo, Dana da Lua cheia.’

A Sacerdotisa golpeia o sino sete vezes.

A Mãe se aproxima do Círculo ao longo da passagem de tochas, acendendo o par do meio. Ela então caminha deosil  por fora do Círculo e fica em pé atrás da vela do Sul.

O Sumo Sacerdote, ainda olhando para a passagem, invoca:

‘Morrigan da Lua minguante, tu a face mais secreta da Deusa; nós te chamamos. Trazei-nos o  conhecimento da Roda da Morte e Renascimento; concedei-nos teu poder, e a sabedoria para utilizá-lo corretamente, pois nós sabemos que utilizá-lo errôneamente é envenenar a alma. Ensinai-nos à utilizá-lo, não para prejudicar, mas para curar. Vinde ao nosso Círculo, Morrigan da Lua minguante.‘

A Sacerdotisa golpeia o sino nove vezes.

A Anciã se aproxima do Círculo ao longo da passagem de tochas, acendendo o último par. Ela então caminha deosil ao redor da parte externa do Círculo e fica em pé atrás da vela do Oeste.

Quando a Anciã estiver em seu lugar, o Sumo Sacerdote pega a vara e abre o Círculo ao lado da vela do Leste. Ele diz:

‘Brid, Deusa-Donzela da Lua crescente – seja benvinda dentro de nosso Círculo.’

A Donzela dá três passos para dentro do Círculo, e o Sumo Sacerdote fecha o Círculo atrás dela. Ele então a beija nos lábios, toma sua mão e a conduz deixando-a em pé em frente ao altar em sua extremidade Ocidental.

O Sumo Sacerdote vai para o Sul, abre o Círculo ao lado da vela do Sul e diz:

‘Dana, Deusa-Mãe da Lua cheia – seja benvinda dentro de nosso Círculo.’

A Mãe dá três passos para dentro do Círculo, e o Sumo Sacerdote fecha o Círculo atrás dela. Ele então a beija na mão direita e, ainda segurando sua mão, a conduz deixando-a em pé em frente ao altar em seu centro, ao lado da Donzela.

O Sumo Sacerdote vai para o Oeste, abre o Círculo ao lado da vela do Oeste e diz:

‘Morrigan, Deusa-Anciã da Lua minguante – seja benvinda dentro de nosso Círculo.’

A Anciã dá três passos para dentro do Círculo, e o Sumo Sacerdote fecha o Círculo atrás dela. Ele então a beija no pé direito, toma sua mão, a conduz deixando-a em pé em frente ao altar em sua extremidade Oriental, ao lado da Mãe.

O Sumo Sacerdote deixa a vara sobre o altar e pega a espada. Ele caminha deosil ao redor da fogueira e olha para a Deusa Tríplice através desta. Ele as saúda com a espada (o cabo em frente ao rosto com a ponta para cima, move-a para baixo e na direção da fronte direita, cabo novamente à frente do rosto com a ponta para cima). Ele então reverte a espada de forma que sua ponta fique sobre o chão bem em frente aos seus pés, e repousa ambas as mãos sobre o cabo (ou apenas uma mão caso ele tenha que ler o texto). Ele diz:

 

‘Contemplai a Deusa de Três Formas;

Ela que é sempre Três -  Donzela, Mãe, e Anciã.

Ainda assim ela é sempre Uma;

Pois sem Primavera não pode haver nenhum Verão;

Sem Verão, nenhum Inverno;

Sem Inverno, nenhuma nova Primavera.

Sem nascimento, nenhuma vida;

Sem vida, nenhuma morte;

Sem morte, nenhum repouso e nenhum renascimento.

A escuridão dá nascimento à luz,

A luz à escuridão,

Cada um necessitando do outro tal como o homem necessita da mulher, e a mulher do homem.

Assim é

Que se ela não fosse Donzela, Mãe, e Anciã,

A própria Deusa poderia não existir –

E tudo seria inexistência,

Silêncio sem começo ou fim.

 

‘Contemplai a Deusa de Três Formas;

Ela que é sempre Três -  Donzela, Mãe, e Anciã.

Ainda assim ela é sempre Uma;

Ela em todas as mulheres, e todas elas nela.

Contemplai-a, recordai-a,

Não vos esquecei de nenhuma de suas faces;

Com cada alento, mantenha estas três em teu coração –

Donzela, Mãe e Anciã;

Observai estas Três, que são Uma, com um amor destemido,

Que voces, também, possam ser completos.’

 

O Sumo Sacerdote então caminha deosil ao redor da fogueira até que ele alcance a passagem, onde ele abre o Círculo com sua espada. Ele diz para as Três:

‘Saudações à todas, e benditas sejam.’

 

 

                                   IX   Rituais de Proteção

 

O ritual mais básico, útil e protetor de todos para as feiticeiras é o Círculo Mágico;  sendo uma razão pela qual ele é consagrado no início de toda reunião de coven, e não é banido até que a reunião tenha terminado. Nós fornecemos os procedimentos completos para consagrar e banir o Círculo em Oito Sabás para Feiticeiras, e no Apêndice B ao presente livro.

Vale a pena ressaltar, ainda assim, que para uma reunião de coven, proteção não é o único propósito  do Círculo. De fato, pode-se argumentar que este não é nem mesmo seu propósito principal. A principal função de um Círculo de coven é ‘preservar e manter o poder que iremos gerar dentro de ti’ – em outras palavras, , concentrar e ampliar o esforço psíquico do grupo. As bruxas se reunem para cultuar e gerar poder para trabalho útil; e para estes propósitos ‘uma fronteira entre o mundo dos homens  e os reinos dos Poderosos’é estabelecida, uma cápsula astral intermediária entre os níveis, na qual o Cone de Poder pode ser construído e se evitar que seja dispersado até que chegue o momento de descarregá-lo para o propósito de trabalho decidido de antemão. A partir deste ponto de vista, o Círculo é muito parecido com um cilindro em um motor de automóvel.  Um jornal encharcado de gasolina, se incendiado, meramente se queimará; mas contenha a mesma quantidade de gasolina, na forma de vapor e sob controle dentro do cilindro, e provoque ignição fase a fase, e esta produzirá energia explosiva suficiente para se dirigir o carro por uma milha ou mais.

Há uma diferença de ênfase com relação ao Círculo do mago medieval; o poder que ele esperava isolar era aquele dos espíritos invocados dentro do Triângulo fora do Círculo, e seu Círculo era consagrado puramente para protegê-lo em tal encontro perigoso. Qualquer ponto fraco neste poderia destruí-lo  tão seguramente como um furo em uma roupagem de astronauta.

As bruxas não invocam o tipo de perigo que os magos medievais esperavam controlar como domadores de leões; elas invocam a divindade, ou algumas vezes elementais da natureza – os últimos cuidadosamente porém solidáriamente , não com cadeira e chicote. E o poder é gerado dentro do Círculo. Assim, a inclusão, muito mais do que exclusão, é a principal função de seu Círculo.

Eis o porque as bruxas em operação muitas vezes se tornam conscientes das entidades não desejadas que ‘tiram um partido’, mas elas tendem à lidar com estas entidades de forma confiante assim que se manifestam, ao invés de alterar a ênfase do Círculo de forma à torná-lo inacessível em primeiro lugar.

Isso não quer dizer que o Círculo das bruxas não tenha quaisquer funções protetoras; é declarado, entre outras coisas, como sendo ‘um escudo contra toda crueldade e todo mal. Entretanto nós sugerimos que para a maioria das reuniões operativas a função protetora (diferentemente daquela do Círculo do mago) seja secundária.

Contudo, as bruxas podem e de fato consagram Círculos puramente protetores quando surge a necessidade; ao redor da casa à noite quando se sente que o plano astral está turbulento, ao redor de suas camas quando um convidado da casa (muitas vezes sem querer) possui tendências vampirescas, (1) ou mesmo ao redor de uma mesa quando houver trabalho a ser realizado o qual requeira concentração sem distúrbios. E assim por diante.

Com isto em mente, é importante ter uma idéia muito clara sobre o que é de fato um Círculo Mágico, e como ele ‘se parece e como se sente com respeito à ele’ no plano astral. (Esta idéia clara é simplesmente muito importante para um Círculo normal de concentração e ampliação, naturalmente).

Em primeiro lugar, isto não é apenas um Círculo, mas uma esfera; e ela deve ser sempre visualizada deste modo. O Cïrculo é meramente o seu equador, a linha onde a esfera corta o solo. Quando alguém o estiver consagrando, este deve imaginar um eixo ereto no centro,  com um arco semi circular partindo de seu topo, atravessando o solo na extremidade do Círculo pretendido, e assim seguindo para baixo até o seu fundo. Enquanto alguém consagra o Círculo com espada ou athame, este deve sentir que está puxando este arco semicircular em volta como a borda de uma cortina, construindo a esfera segmento a segmento como uma laranja reconstruida, até que se retorne ao ponto de partida e a esfera esteja completa. Isso pode parecer complicado, mas a Figura 3 (do livro) deve tornar isso claro; e isso é uma prática de visualização que vale a pena exercitar até que se torna automática com a consagração de qualquer Círculo.

 

                                               (vide Fig.3 no livro)

 

A própria esfera deve ser visualizada como um globo brilhante, transparente, azul-elétrico [sic] ou violeta, brilhanto em uma linha ígnea da mesma cor onde ele corta o solo.

Quanto ao texto da consagração, se o Círculo tiver que ser puramente protetivo, as palavras ‘uma fortaleza e proteção que preservará e manterá o poder que nós vamos gerar dentro de ti’ devem ser omitidas, porque nenhum poder será gerado; e ao invocar os Senhores das Torres de Vigia, as palavras ‘para testemunhar nossos ritos e’ devem ser omitidas,  porque nenhum rito será realizado.

Em situações de necessidade de proteção (que podem surgir muitas vezes, por exemplo, em público ou em companhia de não-bruxos) pode-se desejar consagrar um Círculo mentalmente, muitas vezes sem mostrar qualquer sinal externo de que a pessoa está assim operando.

Isso não é difícil, com prática; o que é exigido, tal como com o rito fisicamente encenado, é imaginação poderosamente concentrada e força de vontade; ações físicas certamente tornam tal concentração mais fácil, mas elas nunca podem torná-la menos necessária, e a operação puramente mental ocasional é um modo muito bom de desenvolvê-la. Consagrar um Círculo mental pode envolver qualquer coisa desde uma rápida ‘construção’da esfera azul-elétrico até uma completa visualização do ritual por inteiro, incluindo o aroma do incenso imaginado enquando voce o carrega ao redor, e a sensação familiar do cabo do seu athame na sua mão; o que depende das circunstâncias e do tempo disponível. Em uma emergência, o ‘construir’ instantâneo, visualizado com uma enxurrada deliberada de esforço psíquico, pode ser exatamente eficaz. Mas se voce  tiver tempo, e não estiver sendo perturbado, visualizar o ritual por inteiro é uma boa disciplina, e evitá-la pode denunciar indolência, o que enfraquece o efeito.

Uma coisa para se lembrar ao consagrar um Círculo protetivo: assegurar-se de incluir todos nas proximidades que estejam vulneráveis. Se voce espera um ataque psíquico de fora, um Círculo que meramente cerque o seu quarto pode protegê-lo, mas o ataque frustrado poderá se lançar sobre um membro inocente da família em um outro quarto. Ou se, como nós, voce possuir aves e poneis nas dependências externas da casa, eles podem tomar o impacto. Isso pode parecer paranóico ou super-imaginativo, mas isto é pura experiência prática – sofrida por nós mesmos e por outras pessoas.

 

( ilustração da página 85 do livro ) – Acendendo a vela do Oeste: As decorações do templo podem enfatizar o caráter elemental das Torres de Vigia.

 

( ilustrações da página 86 do livro ) – (acima) Altar com imagens da Deusa e do Deus por Bel Bucca, e o próprio Livro das Sombras de Gerald Gardner aberto no Juramento do Primeiro Grau.

(abaixo) Doreen Valiente próximo ao ‘The Naked Man’ (O Homem Nu), um local tradicional de reuniões de bruxas em New Forest.

 

( ilustrações da página 87 do livro ) – (acima) Gerald Gardner em sua casa em Isle of Man.

(abaixo) A casa na extremidade de New Forest onde Dorothy Clutterbuck iniciou Gerald Gardner.

 

( ilustração da página 88 do livro ) – Invocando o Sol, no nosso Templo do Jardim.

 

( ilustração da página 89 do livro ) – Ao abençoar o vinho, a mulher segura o símbolo ativo, o athame, porque dela é a polaridade positiva nos planos internos.

 

O texto escrito mais antigo do encantamento ‘Bagahi’ (vide Apêndice B), do manuscrito do décimo-terceiro século do trovador francês Rutebeuf na Biblioteca Nacional, Paris.

 

Os bruxos americanos Oz (esquerda) e Wolf (direita) visitando a Lia Fáil (Pedra do Destino), considerada um dos Quatro Tesouros do Tuatha Dé Danann, em Tara Hill, Co. Meath.  Com eles estão Janet e nossa Donzela do coven, Virginia Russell

 

Gravura na pedra identificada por arqueologistas como uma imagem de Cernunnos, no terreno da igreja em Tara Hill.

 

Encantamento da vela e agulha (vide Seção xxii, ‘Encantamentos’)

 

Ritual das Aberturas do Corpo

 

Um método consagrado para a proteção psíquica de uma pessoa é o Ritual das Aberturas do Corpo. Deveras, ele sela a alma em seus pontos mais vulneráveis. (2) ele pode ser usado pelos seguidores de qualquer tradição, meramente alterando os Nomes de Poder; nos recordamos de uma vez o termos recomendado para uma amiga cristã que era sensitiva o suficiente para estar consciente de um perigo psíquico para ela própria, e ela usava-o com sucesso em nome de Cristo, e com água da fonte de sua igreja.

Nós aqui apresentamos, naturalmente, a forma Wicca.

O Ritual das Aberturas do Corpo pode ser realizado ou por si mesmo ou por seu parceiro de trabalho. A pessoa a ser protegida deve estar nua, por razões práticas óbvias.

Primeiro, consagre água e sal na maneira normal (vide páginas 43-4), e despeje o sal dentro da água. Os nomes de Deus e Deusa podem ser aqueles normalmente usados ou podem ser escolhidos especialmente para a situação; por exemplo, se nós acabamos de escrever algo que possa provocar uma reação malévola, nós podemos invocar o Deus dos Escribas (digamos o deus egípcio Thoth ou o deus celta Oghma Grianaineach), com uma Deusa consorte apropriada (nesses casos, Isis, ou Brid ou Dana, respectivamente).

Molhe o dedo indicador da mão direita com a mistura de água e sal, e toque cada uma das aberturas do corpo por vez, dizendo à cada vez: ‘Sede tu selado contra todo mal’. Visualize fortemente os selos que voce está criando. Molhe novamente seu dedo quando necessário, de forma que cada abertura receba a mistura consagrada.

As aberturas são como segue:

Em um homem: Olho direito, olho esquerdo, orelha direita, orelha esquerda, narina direita, narina esquerda,  boca, mamilo direito, mamilo esquerdo, umbigo, extremidade do pênis, ânus (doze aberturas no total).

Em uma mulher: Olho direito, olho esquerdo, orelha direita, orelha esquerda, narina direita, narina esquerda,  boca, mamilo direito, mamilo esquerdo, umbigo, uretra, abertura vaginal, ânus (treze aberturas no total).

Qualquer mamilo excedente também deve ser selado; estes são mais comuns do que é geralmente percebido, usualmente sendo pequenos porém genuínos  mamilos rudimentares posicionados na ‘linha do leite’ correndo abaixo dos mamilos comuns. Se voce acha que tem um, um médico confirmará se ele é genuíno ou se é uma mera mancha da pele. (Elas costumavam, naturalmente, ser consideradas como ‘sinais da bruxa’ inquestionáveis, e por estranho que pareça Janet, uma outra de nossas bruxas mulheres e um de nossos bruxos homens todos possuem uma).

Se voce tiver qualquer tipo de ferida ainda não curada ou machucado em seu corpo, este também deve ser selado.

Tal como consagrando o Círculo, o Ritual das Aberturas do Corpo pode, quando a situação exige, ser realizada mentalmente ou astralmente, sem movimento físico. Em mais de uma ocasião Stewart, sentindo que Janet poderia estar sob ataque psíquico enquanto estava dormindo a seu lado, elaborou mentalmente todo o processo para ela, desde a consagração da água e do sal em diante – algumas vezes em substituição, e outras em adição à consagração de um Círculo mental.

Isso levanta a questão: quando o Ritual das Aberturas do Corpo deve ser usado ao invés (ao tanto quanto) da consagração de um Círculo protetor? A reposta é: quando a pessoa em questão está especificamente sob ataque, ou por alguma razão especialmente vulnerável (se ele ou ela estiverem doentes ou cansados, por exemplo). Isto também é útil quando a pessoa estiver fisicamente a caminho, ou prestes a ter seu corpo físico exposto à uma situação psiquicamente perigosa. Isso novamente é um auxílio para a imaginação e a força de vontade. Um Círculo consagrado pode ser carregado com voce enquanto se movimenta (temos muitas vezes consagrado um Círculo a redor de um carro em movimento, por exemplo), mas isso exige visualização deliberada e constante. Se a proteção ritual foi aplicada ao seu próprio corpo, todavia, sua mente aceita automaticamente que aquela proteção acompanhará o seu corpo por onde quer que ele vá, como uma armadura; assim um efeito maior é obtido com menos esforço.

 

                                                           Talismãs

 

Um talismã não é exatamente um ritual, embora a confecção e consagração de um talismã seja um ato ritual, então eles podem ser adequatdamente mencionados aqui.

Um talismã é um objeto criado, ou adaptado, para um propósito mágico particular – um tipo de condensação física portátil de um encantamento, para ser vestido ou portado que se tenciona beneficiar. O propósito pode ser o sucesso em alguma atividade específica, porém frequentemente ele é proteção contra um perigo específico. Exemplos populares dos dois tipos são um pé de coelho carregado no bolso de um apostador, para sucesso, e um medalhão de São Cristóvão no painel de um carro, para proteção.

Talismãs mágicos verdadeiros, contudo, são sempre confeccionados sob medida, ambos para o usuário e para o propósito pretendido, mais do que o pé de coelho ou o emblema de São Cristóvão. Um talismã é desenhado e confeccionado para simbolizar precisamente o propósito e o usuário, e para conectar à ambos. Ele é então consagrado,  com a intenção por trás de sua confecção firmemente em mente, e carregado (simplesmente como o pé de coelho!) sempre que seu efeito for necessário.

Uma forma comum de talismã é feita recortando-se dois discos de papel ou pergaminho unidos por uma articulação. Isso oferece quatro superfícies sobre as quais símbolos podem ser desenhados ou escritos, e todo o material pode ser fechado como um livro dentro de um simples formato de disco.

Suponha, por exemplo, que Stewart estivesse negociando com um editor a respeito de um de seus manuscritos, e quisesse proteção contra uma possível astúcia ou armadilhas ocultas entre as letras miúdas do contrato. (Uma suposição puramente hipotética, nos apressamos à adicionar, porque temos um excelente agente literário, e nenhuma dúvida sequer a respeito de nossos atuais editores!) Ele poderia desenhar um talismã como aquele da Figura 4 e carregá-lo em seu bolso quando ele se sentasse à mesa para negociar.

 

            (Figura 4 do livro – talismãs)

 

O simbolismo é o seguinte:

Lado 1   O nome de Stewart gravado sobre o quadrado mágico de Mercúrio que é o Deus (e planeta) das Comunicações, e também o rapidamente sagaz que descobre o Às na manga.

Lado 2   O nome de Oghma, Deus celta da Sabedoria e dos Escribas, gravado na escrita Ogham da qual ele recebe o crédito de ter inventado.

Lado 3   Primeiro, a ferradura com as extremidades para baixo, símbolo dos ferreiros e farriers(?) – e o nome Farrar significa ‘farrier’ [talvez forma arcaica de ferreiro_N.doT.]. Ferreiros e farriers são sempre considerados como magos naturais, e apenas à eles foi permitido posicionar as extremidades da ferradura para baixo, para derramar poder sobre a forja. (Ferreiros ainda pregam ferraduras em suas portas [de oficina] desta maneira). A ‘forja’ de Stewart é naturalmente a sua máquina de escrever, assim neste símbolo a sua ferradura hereditária está derramando poder sobre as letras de um teclado de máquina de escrever.

Lado 4   A pena vermelha de Ma’at, Deusa egípcia da Justiça e Negociação Honesta. Devido á um afortunado duplo simbolismo, isto pode também ser considerado como a pena [de ave] para escrever, emblema tradicional do escritor.

Nosso diagrama está em preto e branco, mas tintas coloridas poderiam naturalmente serem usadas para realçar ainda mais o simbolismo. Por exemplo, o Lado 1 poderia estar em laranja, a cor Cabalística de Hod/Mercurio. O Lado 2 poderia estar em verde, uma vez que Oghma Grianaineach é o aspecto celta-irlandês do Deus dos Escribas. O Lado 3 poderia estar em preto, a cor do ferro e das fitas de máquina de escrever. E o Lado 4, naturalmente, em vermelho, a cor da pena de Ma’at.

E no caso em que alguem possa se queixar de que este talismã mistura simbolismo romano, celta, egípcio, astrológico, tecnológico moderno e Cabalístico, nós responderíamos – e daí ? Nós nunca misturaríamos assim símbolos de sistemas em um ritual; mas um talismã é uma coisa pessoal, e nesse caso, o que importava seria a própria ressonância de Stewart com is símbolos que ele escolheu. Se ele estava satisfeito com aquele complexo particular de símbolos, esta seria toda a justificativa que ele necessitaria. (Sendo um bruxo, nós poderíamos adicionar, ele também estaria feliz de que ambos os aspectos de Deus e Deusa foram invocados).

Os quadrados mágicos dos planetas são muito úteis para desenhar talismãs porque, como no exemplo acima, um nome pessoal pode ser conectado diretamente à qualquer qualidade planetária apresentada. Esses quadrados são formados com quadrados menores, como um tabuleiro de xadrez, com números nos quadrados menores. Aqui estão os sete quadrados :

 

(vide na Pág.88 do livro os quadrados de Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e Lua)

 

Em cada quadrado, os números em qualquer fileira, horizontal ou vertical, apresenta a mesma somatória de valores. Estas somatórias são: para Saturno 15, para Júpiter 34, para Marte 65, para o Sol 111, para Vênus 175, para Mercúrio 260 e para a Lua 369.

Outros símbolos planetários úteis na confecção de talismãs são apresentados, juntamente com os próprios quadrados, em muitos livros; por exemplo na obra de Barrett The Magus, que foi publicada em 1801 e está disponível em reimpressões modernas. The Magus, um compêndio fascinante de magia cerimonial tradicional, inclui uma seção inteira sobre magia talismânica.  Mas o livro mais facilmente acessível sobre o assunto é a obra de Israel Reardie Como Fazer e Usar Talismãs, um dos pequenos livretos da série Caminho Para os Poderes Internos.

Incidentalmente, existe um erro na versão de Barrett do Quadrado de Vênus, que Regardie infelizmente repetiu. O terceiro número a partir da esquerda na segunda fileira para baixo deveria ser 48, não 43; voce pode confirmar isso checando as somatórias das fileiras.

Nomes são transformados em sigilos convertendo as letras em números, e então traçando uma linha contínua de número em número através do quadrado mágico escolhido. Aqui está a tabela de conversão:

 

1          2          3          4          5          6          7          8          9

 

A         B         C         D         E          F          G         H         I

 

J          K         L          M        N         O         P          Q         R

 

S          T          U         V         W        X         Y         Z

 

Tomando nosso exemplo – o nome STEWART FARRAR então se converte para 1255192619919.

Outro livro útil para fabricantes de talismãs é o 777 de Crowley; suas volumosas tabelas de correspondências podem ser muito úteis para selecionar símbolos para expressar os conceitos  que voce deseja incorporar.

Voce pode fazer um talismã tão simples ou tão complicado da forma que quiser; a velha e boa regra básica se aplica, que o objeto finalizado deve lhe causar a impressão de ‘sentir que está certo’ com relação à voce. Mas no caso dos talismãs, há uma vantagem da complexidade; a pesquisa, a habilidade de pensar e projetar envolvidas de fato lhe ajudam à enraizar o propósito do talismã firmemente em sua mente, e à construir a forma-pensamento robusta que é a verdadeira ‘peça que funciona’; o talismã físico é, por assim dizer, uma bóia à qual a forma-pensamento pode se firmar.

Uma vez que o talismã esteja completado, ele deve ser consagrado. Nós sugerimos a forma elemental de consagração apresentada nas páginas 47-8.

 

                                                           Proteção do Lar

A melhor proteção psíquica da sua casa é uma saudável atmosfera psíquica dentro da própria casa, que (à parte de ser desejável de qualquer forma) lida automaticamente com a maioria das influências externas indesejáveis através do Efeito Bumerangue. (Vide página 24). Você também deve se recordar sempre da regra oculta básica: ‘A única coisa a temer é o próprio medo.’ Uma confiança tranquila é a melhor armadura psíquica do mundo; e num lar que está infectado pelo medo, não é de se supor que tensões pessoais ou outras atitudes negativas possam ser invulneráveis à infecção externa. Um homem com resfriado é mais suscetível à pneumonia do que um homem são, e o mesmo princípio se aplica à todos os níveis.

Isto sendo dito – não há problema em erguer barreiras psíquicas com propósito ao redor de sua casa a princípio, ou como uma defesa específica num momento de provável perigo; da mesma forma que um homem saudável e sensível toma razoáveis precauções para não pegar um resfriado, sem se tornar paranóico a respeito disso.

A forma real do ritual de proteção que voce usará depende de muitas coisas e deve ser sempre elaborado sob medida para sua própria situação; assim nós não propomos oferecer um ritual detalhado, apenas surgerir uns poucos métodos mágicos básicos que voce pode adaptar, combinar ou desenvolver para satisfazer o seu próprio sentido sobre o que lhe faz ‘sentir-se bem’. 

O método mais simples de todos é, naturalmente, o Círculo Mágico ao redor da casa.  Para uma ênfase melhor, ele deve ser consagrado de forma concreta, usando seus instrumentos mágicos físicos, mais do que de forma mental quando for possivel. Se voce tiver sorte o suficiente para estar morando em uma casa isolada, voce poderá caminhar do lado de fora ao redor para consagrá-lo. Se mora numa casa semi isolada ou geminada, ou num apartamento, voce poderá caminhar dentro do perímetro interno, mas projetando o Círculo mentalmente para  fora das paredes.

Mas o importante à se lembrar com respeito à um Círculo  Mágico é que ele é uma medida temporária a menos que seja deliberadamente mantido. Um Círculo de coven é muito vigorosamente mantido pelo ritual realizado dentro deste, e pelo senso de união em conjunto da mente-grupo do coven; e ele é banido quando a reunião se dispersa, dessa forma até então o conhecimento de que ‘nós ainda não banimos’ carrega em si um efeito psicológico de conservação. Um Círculo não’frequentado’, entretanto, se dissipa por si próprio assim que as horas passam. A opinião geral é que sua média de vida é de cerca de vinte e quatro horas.

Então para um efeito de maior duração algo a mais é necessário. A diferença é basicamente psicológica (e portanto mágica); voce sabe que voce tenciona que a proteção seja efetiva por uma semana ou um mês, ou qualquer outra duração – e o mero fato de que voce está usando uma técnica que tem aquele intento, e que não é propositadamente a mesma como o seu Círculo Mágico usual, ajuda à estabelecer sua longevidade desejada no plano astral.

Um bom começo é consagrar água e sal, misturá-los e andar ao redor da casa ungindo cada peitoril de janela, entrada de chaminé, ventilação e degrau externo da porta com esta mistura. Enquanto o fizer, declare: ‘Nenhum mal pode entrar aqui’ – e visualize a realidade astral da marca (sua estrutura molecular astral, por assim dizer) realmente se modificando para atender às novas requisições. Faça isso com toda a força de vontade que voce puder reunir.

Depois, circule por todos estes lugares novamente com seu athame em sua mão, e trace o Pentagrama de Banimento da Terra (vide Figura 5) na direção de cada um. Enquanto o fizer, declare: ‘Todo o mal é mandado de volta!’. (3)

 

(vide Fig.5 no livro)

 

Objetos físicos ou símbolos expressando a idéia de proteção, em locais adequados, podem ajudá-lo à construir uma consciência de proteção contínua. Por exemplo, existe um pentagrama de aço inoxidável na porta do nosso templo, e um pentagrama colorido transparente em sua janela; eles foram colocados lá porque são atraentes e apropriados, não pela ansiedade – mas eles de fato incrementam a atmosfera de segurança do templo. Novamente, caso voce esteja em sintonia com símbolos egípcios, uma gravura de Anubis sobre uma porta é dramaticamente eficaz. E assim por diante.

Contudo nós enfatizaríamos novamente – aquilo que executa o trabalho é a forma-pensamento construída nos planos astral e mental; qualquer objeto físico é apenas ‘uma bóia à qual a forma-pensamento pode se fixar’, e voce deve estar consciente disto em todo o seu trabalho.

Uma das mais tradicionais dentre estas bóias de ancoragem psíquica é a garrafa da bruxa enterrada sob o degrau externo da porta (não tão fácil em um apartamento na cidade ou uma entrada cimentada, mas fixá-la sobre ou ao lado do batente da porta tem o mesmo efeito mental e astral). Tais garrafas tem sido usadas para muitos propósitos através dos tempos, e preenchidas com muitas substâncias desde o exótico até o nauseante. Para o nosso propósito atual de proteção doméstica, nós sugeriríamos encher a garrafa com uma pequena coleção de ervas que possuem qualidades protetoras tradicionais, e então lacrá-la firmemente. Ela poderia, por exemplo, conter o seguinte. (Nós damos os nomes botânicos em latim também porque estes são universais, ao passo  que nomes locais diferem; acônito, por exemplo, é chamado wolfsbane, monkshood, capuz de frade ou foguete azul em muitos lugares, mas Aconitum napellus sempre irá identificá-la).

Sempre-viva  (Sempervivum tectorum) contra raios, relâmpagos.

Alho (Allium sativum) contra vampirismo psíquico.

Erva de São João (Hypericum perforatum) contra ‘fantasmas, demônios, diabinhos e raios com trovões’ ou demônios em geral;  seu antigo nome em latim era Fuga daemonum devido à sua reputação.

Pennyroyal (?) (Mentha pulegium) contra ‘agitação mental’(?) e histeria – isto é, desorientação mental ou ‘anormalidade’(?).

Fumitory (?) (Fumaria officinalis) que na linguagem das flores elaborada na era Vitoriana significava ‘eu expeli voce de meus pensamentos’;  nada de errado em adicionar uma pitada de humor.

Espinho Negro (?) (Prunus spinosa), uma das plantas da Deusa em seu aspecto negro, protetivo.

Carvalho (Quercus robur ou Quercus petraea) e holly (?) (Ilex aquifolium), simbolizando os aspectos de Ano Crescente e Ano Minguante do Deus, para equilibrar o blackthorn, e também para expressar a idéia de proteção ao longo do ano.

Uma pequena pesquisa na literatura do herbalismo logo o ajudará à elaborar uma lista adequada às suas próprias necessidades. Por exemplo, se voce tiver formação celta, poderá se sentir satisfeito com uma garrafa contendo as sete ervas sagradas dos Druidas: mistletoe(?) (Viscum album), verbena (Verbena officinalis), henbane (Hyoscyamus niger), prímula (Primula vulgaris), pulsatilla (Anemone pulsatilla), trevo (Trifolium pratense) e acônito (Aconitum napellus).

Deve-se notar que henbane e acônito são ambas plantas venenosas; elas são inofensivas o suficiente dentro de uma garrafa lacrada, mas elas não podem ser usadas de forma medicinal exceto sob recomendação de um expert.

 

De plantas para animais: Michael Bentine, aquele autor, comediante, sensitivo e pesquisador paranormal altamente inteligente, em seu livro A Porta Marcada Versão (pag.34), dá uma indicação útil que a nossa própria experiência confirma. ‘Nenhum gato ou cão com respeito próprio, ou neste contexto qualquer animal domesticado, permanecerá por mais do que alguns instantes onde qualquer “Interesse com o Demônio”ou outras práticas negativas estejam sendo realizadas, e deixarão rapidamente a cena do crime. Gosto de ter um animal à minha volta quando estou abrindo o campo de força paranormal, para me dar um aviso de confirmação sobre qualquer coisa negativa sendo atraída para o foco de poder ao qual estou sintonizado. Isso eu aprendi de meus pais, que sempre aceitaram bem a presença de um cão ou gato enquanto conduziam suas investigações.’

O uso dos familiares das bruxas como radar psíquico é mais importante do que algumas das funções bizarras atribuídas à estes pelo folclore.

Incidentalmente, A Porta Marcada Verão deve ocupar o topo da lista de leitura de qualquer bruxa; um livro entusiasmante porém equilibrado, é uma mina de informações úteis a partir de experiências em primeira mão dentro de todo o campo psíquico. Outra citação perspicaz deste (pág.36) sobre o assunto de defesa: ‘O mal ou as forças negativas abominam o som da gargalhada legítima, não a gargalhada maliciosa, sarcástica e zombeteira, mas aquela gargalhada maravilhosa que vem do fundo do ventre que sacode o plexo solar e espanta a alma da escuridão. O ódio, em particular, se dissolve instantaneamente na presença de uma boa e velha gargalhada de fazer cair no chão.’ (O que torna o próprio Bentine um notável cruzado contra as forças obscuras).

 

Todos estes métodos mágicos de proteção são instrumentos úteis quando são necessários. Contudo nenhuma bruxa deve desenvolver uma atitude de ‘cinto e braçadeiras’ (?) para defesa psíquica. Bruxas paranóicas, passíveis de hipocondria psíquica, são pouco úteis para si próprias e para os outros. A consciência de possível perigo psíquico deve sempre ser equilibrada com uma auto-confiança tranquila, mesmo prazeirosa. Um conjunto de armadura é muito prático na ocasião certa, mas portada vinte e quatro horas ela evita que o sol e o ar cheguem até a sua pele.

Isto não pode ser repetido muitas vezes: a única coisa à temer é o próprio medo.

E finalmente – para um estudo mais aprofundado sobre todo o assunto, o livro de Dion Fortune Auto-Defesa Psíquica deveria ser leitura obrigarória para qualquer bruxa e ocultista.

 

                                    X   Um Ritual da Praia

 

Como destacamos em Oito Sabás para Feiticeiras, o romance de Dion Fortune A Sacerdotisa do Mar é uma mina de outro de material para rituais elaborados. Lá, usávamos uma passagem deste como parte de nosso ritual de Casamento, e muitas pessoas a tem considerado comovente e muito adequada.

Aqui está um Ritual da Praia o qual baseamos em muitas ocorrências de A Sacerdotisa do Mar. O romance é disponível em duas edições, a edição de texto completo em capa dura e uma versão resumida em capa mole (vide Bibliografia para detalhes).

As passagens que nós extraímos para nosso ritual serão localizadas nas páginas 189-90, 214, 217-20 e 315 na edição capa dura, e nas páginas 102-3, 118, 121-4 e 173 da edição de capa mole. Mas toda bruxa deve ler todo o livro, que tem tido um profundo efeito sobre muitas pessoas.

Com relação ao nosso ritual de Casamento, nós utilizamos este material sob a gentil permissão da Sociedade da Luz Interna, que detém o copyright das obras de Dion Fortune – e nós repetimos o que dissemos lá : ‘A responsabilidade pelo contexto no qual elas possam ser usadas é, naturalmente, inteiramente nossa e não da Sociedade; mas nós apreciamos pensar que, se a falecida Srta.Fortune fosse capaz de estar presente, teríamos recebido sua bênção.’

Em sua carta de permissão, a Sociedade nos solicitou à dizer ‘que Dion Fortune não era uma Bruxa e que não tinha qualquer relação com um coven, e que esta Sociedade não está de forma alguma associada com a Arte das Bruxas’. Nós atendemos à solicitação deles; e quando este livro for publicado,  nós lhes enviaremos uma cópia com nossos cumprimentos, na esperança de que isso possa levá-los à cogitar sobre outras considerações se a filosofia Wicca é estranha àquela de Dion Fortune (à quem as bruxas consideram com grande respeito) como eles parecem imaginar. Com toda amabilidade, devemos admitir que às vezes nós nos perguntamos se a Sociedade não tem se afastado demasiadamente do ensinamento predominante de Dion Fortune mais do que tiveram as bruxas. Mas aquilo, naturalmente, é da conta deles próprios.

A parte central deste ritual é o Fogo de Azrael, que consiste de três madeiras  - cedro, sândalo e juniper(?). Azrael é o Anjo da Morte, entretanto no sentido amável de ‘o Consolador, o Confortador’ – o Psicopompos que suaviza a transição da encarnação corporal para as Terras do Verão (Summerlands_?). Porém este Fogo não é um fogo funeral; ele é muito mais um meio de clarividência para o passado,  em particular o passado do local no qual ele é queimado. Vivian Le Fay Morgan explica seu propósito à Wilfred Maxwell em A Sacerdotisa do Mar (capa dura, pág.133,capa mole, pág.66): ‘Ela me perguntou se um dia eu gostaria de olhar nos carvões do Fogo de Azrael, e eu lhe perguntei o que isto significava; e ela disse que alguém fez uma fogueira com certas madeiras, e contemplou as brasas enquanto estas se extinguiam e por meio destas viu o  passado que estava morto. Nós faríamos isto, ela disse, um dia, e então nós veríamos todo o passado do alto mar (?) e o terreno vazio dos charcos reconstruindo a si mesmo.

A reação de clarividência ao Fogo de Azrael depende do indivíduo, assim discuti-la aqui poderia colocar preconceitos na mente do experimentador. Mas o Fogo também pode ser utilizado como um foco de invocação, tal como Morgan e mais tarde Molly o utilizaram em A Sacerdotisa do Mar; e é com esta ênfase que nós montamos o nosso ritual.

Incidentalmente, várias vezes nós fizemos um incenso baseado no Fogo de Azrael, misturando pedacinhos de sândalo, óleo de cedro e frutos de juniper esmagados.  Nós achamos isso muito compensador – mas novamente, deixamos o experimento para o leitor. (Vide página 261 para nossa receita).

Não existe motivo, naturalmente, porque este Ritual de Praia não deva ser encenado com uma fogueira feita com outras madeiras, caso voce tenha dificuldade em pôr suas mãos  em quantidades suficientes de cedro, sândalo e juniper. O significado da invocação é o mesmo, e o cenário deve ter o mesmo efeito sobre a psiquê. Mas há algo especial sobre o Fogo de Azrael que vale a pena ser descoberto por voce mesmo, assim o colocamos para frente como o ideal.

Informações sobre o Fogo de Azrael, seus materiais e usos, serão encontrados em A Sacerdotisa do Mar nas páginas 136-40, 143-7, 154, 185-6, 288-9, 302-3 e 311 da edição capa dura, e páginas 68-70, 75, 99-100 e 155-7 da edição capa mole.

Mas voltemos ao ‘significado da invocação’, com ou sem o Fogo de Azrael. Seu propósito é invocar Ísis Desvelada através de Ísis Velada. Ísis Velada é a Natureza manifesta, que é a vestimenta da Deusa; Ísis Desvelada é a guardiã dos Mistérios Internos. No Taro, Ísis Velada é a Imperatriz, e Ísis Desvelada é a Suma Sacerdotisa. Lua e mar evocam a sobreposição entre os dois aspectos; em um sentido esta fronteira é simbolizada no Taro pela Estrela, que é sempre mostrada como estando ela própria despida e ainda assim em unidade com ambos Natureza e Céu – e, significativamente, se ajoelhando sobre uma praia e derramando sua influência sobre ambas água e terra. Dessa forma ao conduzir nosso ritual em uma praia sob a luz da lua nós nos sintonizamos com esta mesma fronteira e a penetramos psiquicamente e avançamos para além dela.

Nós repetimos novamente: o ritual tal como o apresentamos é o ideal, e nem sempre será possível conseguir todos os seus elementos – uma praia deserta com uma coincidência de lua cheia refletida na água e uma maré crescente, para não mencionar uma noite quente. Assim nós não inserimos ‘preferivelmente’ ou ‘se possível’ em cada sentença. Quanto mais dos elementos ideais puder ser conseguido, melhor; mas toda bruxa sabe que mesmo um ritual improvisado (se o improviso for inevitável e não mera preguiça) pode ter resultados animadores se forem assumidos dentro do sentido correto.

Uma coisa pode sempre ser feita, e vale a pena fazer: que todos devem aprender suas palavras de cor – ainda mais assim porque ler em campo aberto sob a luz da lua é dificilmente praticável. Para facilitar (e também para oferecer à todos uma parte ativa, mesmo que pequena), nós dividimos as declarações em prosa entre vários membros do coven.

Uma nota de advertência ligeiramente cínica: para aquelas bruxas que tem horror de se ‘contaminar’ com nomes Cabalísticos ou Egípcios (vide nota 3, pág.312) é melhor pular este ritual, porque Dion Fortune utiliza ambos [os nomes] ! Mas nós os consideramos perfeitamente sintonizados com o estilo do rito, e com o espírito da Antiga Religião.

 

                                                           A Preparação

 

Encontre um trecho de praia, tão deserta quanto possível, onde a maré venha suavemente e não impetuosamente.  Estude as tábuas das marés e observe as marés na praia, de forma que voce saiba bem quando a maré virá e cobrirá seu lugar escolhido para a fogueira. Este lugar pode ser ou na areia ou sobre a borda de uma pedra conveniente, desde que esta última não seja pesadamente respingadas pelas ondas ao se chocarem nas rochas.

Escolha uma noite quando a maré estiver crescendo em um horário conveniente, e faça preparações para iniciar seu ritual  uma hora ou mais antes que a maré alcance sua  fogueira. A lua cheia deve estar o mais próximo possível de sua plenitude.

É de certa forma improvável que um ritual com todos vestidos de céu seja possível mesmo com uma fogueira, à menos que sua praia seja deveras muito privativa, e a noite muito quente. (Trajes de banho, calções de banho ou bikinis podem ser utilizados).  Assim a Suma Sacerdotisa, como os outros, provavelmente estará trajada.  As cores apropriadas são um robe prateado com uma capa azul escuro.

À parte da madeira para a fogueira e os meios para acendê-la, os únicos materiais ou instrumentos requeridos são um cálice para o vinho, alguma ‘comida de lua’, de cor branca, e um athame para consagrar à ambos. O menu de comida de lua de Dion Fortune consistia de : ‘coalho de amêndoa tal como fazem os chineses; e vieiras (um tipo de molusco) em suas conchas; e pequenos bolos de mel em forma de crescente como marzipan para sobremesa – todas coisas brancas.  E esta pálida mesa de jantar curiosa era atenuada por um monte de romãs.’ (A Sacerdotiza do Mar,capa dura pág.204, capa mole pág.111. ) Contudo a sua própria comida de lua depende do seu  paladar, recursos e imaginação.

Finalmente – cães são sagrados para a Deusa da Lua, então se voce tiver cães que sejam confiáveis para ficarem nas proximidades, de toda forma leve-os (e a comida deles).  E nunca exija uma disciplina rígida da parte dos animais em um ritual, porque a Deusa certamente não exigirá !

 

                                                           O Ritual

 

A Suma Sacerdotisa se afasta do coven tanto quanto razoavelmente ela puder, enquanto puder ainda ver e ouvir o que está acontecendo. Se ela puder se esconder atrás de uma rocha ou na virada de um morro ou uma duna de areia, tanto melhor; mas em todo caso o coven a ignora até que chegue o momento para ela se aproximar deles.

O coven prepara o Fogo de Azrael no lugar escolhido. Quando tudo estiver pronto, o Sumo Sacerdote e a Donzela olham um para o outro através da fogueira ainda não acesa, em uma linha paralela à margem do mar. O resto do coven se posiciona em um semi círculo entre eles, olhando para o fogo e o mar.

A Donzela diz:

‘Afasta-te de nós, Oh tu profano, pois estamos prestes à invocar a descida do poder de Isis. Entrai em seu templo com as mãos limpas e um coração puro, de outra forma estaríamos profanando a fonte da vida.’

Um bruxo masculino diz:

‘Aprendei agora o segredo da teia que é tecida entre a luz e a escuridão; cujo arco envolve a vida em tempo e espaço, e cuja trama é tecida das vidas dos homens.’

Uma bruxa feminina diz:

‘Contemplai a nós ascendendo com o alvorecer do tempo desde o mar cinza e nevoento, e com o crepúsculo nós mergulhamos no oceano ocidental, e as vidas de um homem estão enfiadas como pérolas no cordão de seu espírito; e jamais em toda sua jornada vai ele sózinho, pois aquilo que é solitário é estéril.’

Um bruxo masculino diz:

‘Aprendei agora o mistério das marés vazante e flutuante (cheia_?). Aquilo que é dinâmico no externo é latente no interno, pois aquilo que está acima é tal como aquilo que está embaixo, porém sob um outro modo.’

Uma bruxa feminina diz:

‘Nos céus a nossa Senhora Ísis é a Lua, e os  poderes da lua pertencem à ela. Ela é também a sacerdotisa da estrela de prata que se ergue do mar do crepúsculo. Dela são as marés magnéticas da lua controlando os corações dos homens.’

Um bruxo masculino diz:

‘No interior ela é toda poderosa. Ela é a rainha do reinado do sono. Todos os trabalhos invisíveis pertencem à ela, e ela rege todas as coisas ainda antes de estas nascerem.’

Uma bruxa feminina diz:

‘Ainda que através de Osiris seu companheiro a terra cresça verde, assim a mente do homem concebe através do seu poder.’

O Sumo Sacerdote diz:

‘Vamos apresentar em um rito a natureza dinâmica da Deusa, que as mentes dos homens possam ser tão férteis quanto os seus campos.’

A Donzela se vira para olhar o solo, e ergue seus braços para o alto. Ela diz:

‘Afasta-te de nós, Oh tu profano, pois a revelação da Deusa está próxima.’

A Donzela então caminha deosil ao redor da fogueira e se reúne ao Sumo Sacerdote. O Fogo de Azrael é então aceso. Quando estiver queimando satisfatoriamente, o coven e a Donzela sentam-se em seu semi círculo. O Sumo Sacerdote permanece de pé.

 

‘O tu que existias antes de a terra ser formada –

     Rhea, Binah, Ge. (1)

Oh mar sem maré, silencioso, ilimitado, amargo,

Eu sou teu sacerdote; Oh respondei a mim.

 

‘Oh céu arqueado ao alto e a terra em baixo,

Doadora da vida e aquela que traz a morte,

     Perséfone, Astarte, Ashtoreth,

Eu sou teu sacerdote; Oh respondei a mim.

 

‘Oh dourada Afrodite, vinde a mim !

Flor da espuma, ergue-te do mar amargo.

A hora da maré da lua cheia se aproxima,

Ouvi as palavras de invocação, ouvi e aparecei –

     Ísis Desvelada, e Rhea, Bina, Ge.

Eu sou teu sacerdote; Oh respondei a mim.

 

‘Oh Ísis, velada na terra, mas brilhando clara

No céu noturno agora [que] a lua cheia se aproxima,

Ouvi as palavras de invocação, ouvi e aparecei –

     Shaddai el Chai (2), e Rhea, Binah, Ge.

 

Na última linha, o Sumo Sacerdote ergue seus braços ao alto num gesto largo.

A Suma Sacerdotisa emerge de seu esconderijo e caminha para a margem do mar oposta ao fogo, continuando até que a água realmente alcance seus pés. (3) Ela ergue seus braços ao alto num gesto largo por um momento enquanto olha para o mar; então ela abaixa os braços e se vira, e caminha de uma maneira lenta e majestosa até o fogo. Quando ela o alcança, fica em pé olhando o Sumo Sacerdote através do fogo.

O Sumo Sacerdote abaixa os braços e curva-se à ela.

A Suma Sacerdotiza ergue seus braços formando uma curva como os Cornos de Isis (que também podem representar a Lua crescente) com as  palmas das mãos para dentro. Ela os mantém nesta forma enquanto canta:

 

‘Eu sou aquela que existia antes de a terra ser formada

   Era Rhea, Binah, Ge.

Eu sou aquele mar silencioso, ilimitado, amargo,

De cujas profundezas a vida flui eternamente.

 

‘Astarte, Afrodite, Ashtoreth –

Doadora da vida e aquela que traz a morte;

Hera no Céu, na terra, Perséfone;

Levanah das marés e Hecate –

Todas estas eu sou, e elas são vistas em mim.

 

‘Eu sou aquele mar silencioso, ilimitado, amargo.

Todas as marés são minhas, e atendem à mim.

Marés dos ares, marés da terra interior,

As marés secretas, silenciosas da morte e nascimento.

Marés das almas, e sonhos, e destino  dos homens –

     Ísis Velada, e Rhea, Binah, Ge.

 

‘A hora da lua cheia alta se aproxima;

Eu ouço as palavras de invocação, ouço e apareço –

     Ísis Desvelada e Rhea, Binah, Ge.

Eu venho ao sacerdote que me invocou.’

 

Terminada a canção, sem pressa o Sumo Sacerdote se ajoelha,  e a Suma Sacerdotisa abaixa seus braços. O coven sentado passa para a se ajoelhar. Prosseguindo deosil, a Suma Sacerdotiza caminha ao redor e coloca suas mãos sobre cada cabeça ao redor, começando com a do Sumo Sacerdote. Assim que ela se afasta de cada pessoa, ela ou ele reassume a posição sentada. (Caso hajam quaisquer cães com o coven, ela os abençoa do mesmo modo, mas também afagando-os ou dando palmadinhas de leve para relaxá-los).  Finalmente ela se senta olhando para o Sumo Sacerdote através do fogo.

O Sumo Sacerdote diz:

‘Comunguemos agora com os segredos do fogo.’

Todo o coven, incluindo a Suma Sacedotisa, contemplam agora o fogo e falam sobre o que estes vêem.  A Suma Sacerdotisa conduz esta parte do ritual, encorajando e acalmando quando necessário.

Quando ela sentir que isto se prolongou o tempo suficiente, ela pede pela comida de lua, que é trazida e compartilhada, assim também com o vinho – ambos sendo consagrados na maneira normal por ela mesma e o Sumo Sacerdote. Um pouco da comida é mantida separada.

O coven permanece com o fogo até que a maré que vai se aproximando o apague. Quando estiver apagado por completo, a Suma Sacerdotisa diz:

‘Consummatum est. Aqueles que receberam o Toque de Ísis receberam a abertura dos portais da vida interior. Para eles as marés da lua crescerão e  diminuirão e crescerão e nunca cessarão em seu ritmo cósmico.’

A Suma Sacerdotisa então traz sua comida que foi mantida à parte, e ela a lança sobre a água como uma oferenda ao mar.

Finalmente ela estica seus braços por sobre o mar. Após um momento ela os abaixa novamente e se vira, e ela e o Sumo Sacerdote levam embora o coven.

 

 

                                                           O CAMINHO WICCA         

 

             XI  A Base Lógica da Bruxaria

 

As bruxas não são tolas, nem escapistas nem supersticiosas. Elas estão vivendo no século vinte , não na Idade Média, e elas aceitam o fato sem reservas; se elas tendem à manter um senso mais profundo de continuidade histórica, e uma tela do tempo mais ampla do que a maioria das pessoas, aquilo torna sua consciência sobre o presente mais vívida, não menos. Muitos bruxos são cientistas ou técnicos, e por nossa experiência várias vezes encontramos [estes] bons profissionais. Se a bruxaria moderna não tivesse uma base lógica coerente, tais pessoas estariam indo em frente apenas devido à um tipo deliberado de esquizofrenia, sem qualquer compartimento à prova d’água em suas vidas particularmente feliz – e não temos visto nenhum sinal daquilo.

A bruxaria moderna deveras possui uma base lógica, e uma bem coerente. Isso pode surpreender alguns de nossos leitores, que sabem apenas que a bruxaria provém da coragem (*). Assim isto é, até onde vão a motivação e a operação. O potencial de trabalho e o apelo da Arte crescem a partir das emoções, intuições, da ‘vasta profundidade’ do Inconsciente Coletivo. Seus Deuses e Deusas tomas suas formas a partir dos Arquétipos numinosos [sic] que são as poderosas pedras de fundação da psiquê racial humana.

Mas a Consciência é humana também. A mente consciente individual é um recém chegado comparado à cena evolucionária deste planeta, e – ao menos na extensão em que os animais da terra são considerados (1) – ela é o dote exclusivo do homo sapiens. Nenhum outro animal da terra físicamente manifestado a possui, embora um ou dois dentre os mamíferos superiores aparentem possuir seus primeiros movimentos embrionários. Os sentimentalistas conferem esta faculdade à seus animais prediletos até um grau quase humano, mas isto é pura projeção (e uma compreensão errônea da natureza da consciência) colorida pelo fato de que alguns dos padrões instintivos dos animais, reflexos condicionados e capacidade de aprendizado se sobrepõe cognitivamente com relação aos padrões, reflexos e capacidades humanos. Donos de animais de estimação compreenderiam e aprenderiam com as criaturas que estes amam muito melhor caso abandonassem esta fantasia e vissem (por exemplo) um gato como um gato, com a dignidade de sua própria natureza, e não como um humano peludo.

 

(* guts; coragem, fortaleza, no sentido de gíria segundo o The American Heritage Dictionary. Foi o sentido mais aproximado)

 

A consciência não é apenas uma dádiva, é uma responsabilidade.  Ela concede ao homem o ‘domínio sobre ps peixes do mar, e sobre as aves do ar, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre toda coisa rastejante que se arraste sobre a terra’.  Domínio neste sentido não significa o direito de explorá-los; isto significa que, desde que a crescente complexidade do homem o torna, para melhor ou pior, a ponta de lança da evolução da Terra, ele tem a grande responsabilidade (deveras, dele é a única espécie com responsabilidade consciente) com relação à totalidade da Natureza manifesta. As bruxas estão especialmente conscientes disto; a Wicca como tal é não-política, abraçando votantes e ativistas de muitos matizes; mas todas as bruxas tendem à saltar para cima de uma caixa de sabão (*) quando as coisas partem para a questão ambiental.

(* no sentido figurado, quando um manifestante sobe numa ‘caixa de sabão’ para fazer seu discurso)

 

Contudo a consciência carrega o homem com uma responsabilidade consigo mesmo, para com sua própria raça também. Ele deve integrar o consciente com o inconsciente, intelecto com intuição, cabeça com coração, cérebro com intestinos. Se ele não o fizer, seu conflito o paralisará ou até mesmo o destruirá, e possivelmente a Terra também; ele terá traído a confiança de seu ‘domínio’.

Então é incumbência das bruxas, cuja religião e Arte se originam das profundezas internas, ser realmente o Povo Sábio e mostrar que a Wicca também satisfaz o intelecto. Elas tem que demonstrar a si mesmas e para o mundo que sua fé está de acordo com a realidade e portanto não contém (o quão bonita esta aparente na superfície) as sementes da auto-destruição.

A base lógica da Wicca é uma estrutura filosófica dentro da qual todo fenômeno, da química à clarividência, de logaritmos ao amor, pode ser razoavelmente ajustado.  E uma vez que o Wicca é um movimento que cresce velozmente, atuante em um mundo real, este deve (sem jamais perder ou enfraquecer sua preocupação com as profundezas psíquicas) constantemente explicar, examinar, desenvolver e aprimorar aquela filosofia.

 

A base lógica do Wicca, como o observamos, repousa sobre dois princípios fundamentais: a Teoria dos Níveis, e a Teoria da Polaridade.

 

A Teoria dos Níveis sustenta que a realidade existe e opera sobre muitos planos (físico, etérico, astral, mental, espiritual, para dar uma lista simplificada porém geralmente aceita) (2); que cada um destes níveis tem suas próprias leis; e que estes conjuntos de leis, enquanto que especiais para seus próprios níveis, são compatíveis uns com os outros, com sua mútua ressonância governando a interação entre os níveis.

A Teoria da Polaridade sustenta que toda atividade, toda manifestação, surge da (e é inconcebível sem) interação dos pares e opostos complementares – positivo e negativo, luz e trevas, conteúdo e forma, masculino e feminino, e assim por diante; e que esta polaridade não é um conflito entre ‘bem’ e ‘mal’, mas uma tensão criativa como aquela entre os terminais positivo e negativo de uma bateria elétrica. Bem e mal são gerados apenas através da aplicação construtiva ou destrutiva do resultado daquela polaridade (novamente, como em relação aos usos para os quais uma bateria pode ser empregada).

A Teoria dos Níveis descreve a estrutura do universo; a Teoria da Polaridade descreve sua atividade; e estrutura e atividade são inseparáveis. Juntas, elas são o universo.

Examinemos cada uma delas com maiores detalhes.

A Teoria dos Níveis (mesmo se super-simplificada para matéria, mente, espírito e Deus) era mais ou menos tida como concedida até cerca de uns dois séculos atrás, quando a avalanche da Revolução Científica (e sua obscura descendência, a Revolução Industrial) realmente começou seu movimento.  A Revolução Científica, quase exclusivamente preocupada com o nível físico da realidade, era um estágio necessário ainda que várias vezes temporariamente confuso no desenvolvimento do homem; havia chegado o tempo para ele compreender e conquistar a matéria e suas leis.

O problema foi que ele fez isto tão brilhantemente, com tal sucesso tão admirável e obstinado, que ele iludiu a si próprio ao pensar que a matéria fosse o único nível de realidade. Ele veio a crer que a mente era meramente um epifenômeno, uma atividade eletroquímica do cérebro físico; e que ‘espírito’ era uma fantasia, uma projeção simbólica dos conflitos mentais ou mesmo glandulares e incertezas do homem, ou no melhor de sua necessidade de perfeição, a chave verdadeira [cujo caminho] para a qual (era acreditado) se encontrava no progresso material.

Pensava-se que a religião organizada teria levado adiante uma significativa correção para tudo isso; mas de fato sua voz era dificilmente ouvida à clamar no deserto do materialismo triunfante. Em todas as arenas ativas de idéias humanas, a religião foi relegada às margens da ética ou das doações de caridade, ou à racionalizações morais das consequências sociais da industrialização.  Considerada na mesma extensão que a filosofia, a interpretação da realidade cósmica somente poderia combater ações de retaguarda. O materialismo era a força dinâmica real da época.

E ainda assim, para aqueles com olhos para ver, as descobertas da ciência eram cheias de indicações sobre a verdade maior. Dentro de seus próprios limites, a ciência refletia a Teoria dos Níveis. As leis de cada uma de suas disciplinas – matemática, física, química, biologia e assim por diante – eram diferentes, embora compatíveis. Um botânico, analisando a estrutura e o metabolismo de uma folha, tinha que reconhecer e fazer uso das fórmulas da química, matemática e física tanto quanto as suas próprias. Cada conjunto de leis da ciência tinha suas próprias características e relevância exclusivas; embora todas elas interagissem, e não haviam dois conjuntos de leis que estivessem em conflito mútuo. Onde eles pareciam contradizer um ao outro, os cientistas sabiam que isto era devido ao fato de que eles não haviam ainda compreendido os mesmos perfeitamente, e muito corretamente eles os estudaram e reavaliaram até que o conflito aparente fosse resolvido.

Tem sido apenas ao longo da nossa vida [atual_?] que os cientistas mais sábios começaram, em alguma escala significativa, à ter dúvidas sobre a visão definitiva do século dezenove sobre um universo como um mero (embora complexo) mecanismo físico.

Estas dúvidas, também, são um desenvolvimento natural. Se alguém empurrar a investigação desde o plano físico para suas fronteiras máximas, a verdadeira natureza daquelas fronteiras trarão a pessoa face a face com as áreas de interação com outros planos; este continua obtendo vislumbres enigmáticos ao longo da parede fronteiriça – e fica cada vez mais difícil ignorar o que se encontra além. (3)

O e=mc2 de Einstein e as sutilezas transcendentais da física subatômica (na qual os cientistas se encontram usando palavras tais como ‘indeterminância’, ‘estranheza’ e ‘encanto’ como termos técnicos) são dois dos campos mais óbvios nos quais a visão mecanicista do universo está esgarçando sua malha.  (4)

Até muito recentemente, seria suicídio profissional para um respeitável cientista investigar o ‘paranormal’ (PES, telepatia, telecinesia, precognição e daí para frente) ou mesmo admitir que havia qualquer coisa para investigar. Mas hoje, mesmo nos EUA tão dedicados aos dólares e na URRS oficialmente materialista (*), universidades e departamentos de defesa estão transferindo um bom dinheiro e cérebros de primeira classe para tal pesquisa. (5)

(* Este livro foi impresso antes do fim da União Soviética – N.do T.)

E indo ainda mais além no apoio à Teoria dos Níveis, Sir Bernard Lovell, o pai da radioastronomia, pode dizer para aquela augusta corporação a Associação Britânica para o Avanço da Ciência: ‘Nós nos iludimos que através da ciência pudéssemos encontrar o único caminho para a verdadeira compreensão sobre a natureza e o universo... A simples crença no progresso automático por meios da descoberta científica e aplicação é um trágico mito da nossa era. A ciência é uma atividade humana poderosa e vital; mas esta confusão de pensamento e motivo é desconcertante.’ (The Times, 28 de Agosto de 1975).

Alguns dos ouvintes eruditos de Sir Bernard provavelmente tomaram aquelas palavras como sendo um mero chamado aos cientistas para estarem conscientes sobre suas responsabilidades moral e ética perante a comunidade – importante o suficiente em toda consciência.  Contudo suas implicações filosóficas são mais profundas, as quais pelo menos uma minoria deve ter compreendido e com as quais indubitavelmente concordado.

Ou a declaração de Sir Bernard significa que os níveis não-físicos da realidade existem e devem ser levados em conta, ou por outro lado isto é um chavão vazio. E nós achamos que o homem que provavelmente tem feito tanto para expandir nosso conhecimento real sobre o universo físico como qualquer indivíduo desde Galileu (6) com seus telescópios ópticos, não é dado à chavões vazios.

Confirmado, como uma hipótese operativa, que a realidade é multi-nivelada – quais são as implicações práticas ?

Se as bruxas pudessem citar a Escritura Marxista para seu próprio propósito (e nosso desejo de ver a humanidade perceber que seu potencial completo é tão forte quanto o dos Comunistas muito embora nossos objetivos e métodos sejam muito diferentes do deles), nós citaríamos a declaração de Marx e Engels em O Manifesto Comunista: ‘Os filósofos meramente interpretaram o mundo de muitas formas; o ponto central, contudo, é modificá-lo’, e o dito mais sucinto de Lênin :  ‘A teoria sem prática é estéril; a prática sem teoria é cega.’

As bruxas são pessoas práticas; filosofia para elas não é apenas um exercício intelectual – elas tem que colocá-la em prática em suas vidas diárias, e em seu trabalho, se é que a filosofia tem qualquer significado. Similarmente, na extensão em que elas confiam no instinto, elas não fazem apenas cambalear adiante em resposta aos imediatismos destes instintos sem qualquer referência à lógica – elas preferem compreender o que estão fazendo, e porquê.  Assim no relacionamento entre teoria e prática (mesmo se em pequena variação) elas concordam com Lenin.

As bruxas conhecem na teoria, e tem comprovado na prática, que existem pontos e áreas de interação entre os níveis; situações em que o plano mental age poderosamente sobre o plano astral e afeta seus fenômenos – ou o espiritual sobre o físico, e assim por diante. Cada plano está afetando os outros o tempo todo; mas parece existir o que pode ser chamado de pontos de inter-ressonância onde este efeito é particularmente impressionante e claramente definido o suficiente para ser utilizado na prática. (7)

É a descoberta e a compreensão destes pontos de inter-ressonância que constituem uma grande parte do que as bruxas denominam como ‘abrindo os níveis’;  e é a sua exploração, em trabalho construtivo, o que constitui o lado operacional da Arte.

Para esclarecer isto, tomemos um exemplo da ciência prática: a saber, televisão. Um evento envolvendo movimento e som toma lugar no estúdio de televisão. Através de equipamento adequadamente projetado, este evento é transformado em um evento em um plano muito diferente – o plano das vibrações eletromagnéticas no que os cientistas costumavam chamar de o ‘éter’.

(Eles não mais usam o termo, porque o conhecimento ampliado tem demonstrado que isto é uma super simplificação; mas isto é ainda um pedaço útil de taquigrafia para ajudar o leigo à compreender o que está se passando.)

Este evento no ‘éter’, como permanece, não pode ser detectado pelos sentidos humanos. Nós não podemos vê-lo ou ouvi-lo, no céu ou passando através das nossas paredes; mas ele está lá, real e coerente.

Em nossa sala de estar, outro equipamento adequadamente projetado toma este evento ‘etérico’ e o transforma, como que por mágica, de volta em um evento de movimento e som.  Nós vemos e ouvimos uma recriação notávelmente acurada do que está acontecendo no estúdio.

No momento em que escrevemos isto, esta recriação é meramente em luz, matizes, cores e som monoaural (não estéreo) bidimensionais; mas já não existem razões técnicas (apenas razões econômicas) porque isso não deva ser em visão tridimensional e som estereofônico. E no futuro, os cientistas da televisão poderão muito bem serem capazes de nos oferecer aroma, gosto e toque também.

Os cientistas aqui tem feito, entre os sub-planos de sua própria realidade conhecida, precisamente o que as bruxas estão fazendo entre os planos maiores de sua realidade conhecida; descobrindo e compreendendo os pontos e técnicas de inter-ressonância entre eles, e pondo seu novo conhecimento em uso prático. Em outras palavras, ‘abrindo os níveis’.

Neste sentido, a televisão é mágica; pois isto é exatamente o que a magia é – nas palavras de Aleister Crowley, ‘a Ciência e Arte de fazer [uma] Alteração ocorrer em conformidade com a Vontade’. Ele continua dizendo: ‘A natureza é um fenômeno contínuo, embora nós não saibamos em todos os casos como estas coisas estão conectadas.’ (Magia em Teoria e Prática, Introdução – pags, XII e XV.)

A descoberta destas conexões é o objetivo dos cientistas (no plano físico) e o da bruxa (em todos os planos). O uso daquelas descobertas é ‘magia’. A magia não quebra as leis da Natureza; quando ela parece fazer assim, é  porque está obedecendo a leis que o observador não compreendeu ainda. Um cientista do século dezesseis, por exemplo, não importa o quão inteligente e bem informado, se ele tivesse visto a televisão poderia muito bem tê-la rotulado como sobrenatural.

Como dissemos, muitos cientistas modernos estão se tornando conscientes de (e alguns deles estão investigando) fenômenos que podem ser explicados apenas com base em que existem outros níveis de realidade além do físico. As tentativas de explicar estes fenômenos em termos de leis da física ainda não descobertas continuam tropeçando sobre recentes paradoxos.  Por exemplo, se a telepatia existe (e apenas incrédulos obstinados a respeito desta evidencia podem ainda negar que ela existe) e é devida à algum tipo de radiação gerada no cérebro – por que toda evidência mostra que ela não está sujeita à lei do quadrado inverso (8) pela qual toda outra forma de radiação conhecida pela ciência física é governada ?

Poder-se-ia alongar a questão sobre pesquisa recente sobre tais assuntos tais como telepatia, telecinesia, a influência do pensamento no crescimento das plantas, a análise estatística dos tipos dos signos natais do Zodíaco e assim por diante; mas este não é o lugar para fazê-lo.  Para uma revisão geral  sobre este campo, nós recomendamos a obra de Lyall Watson Supernature; e sobre telepatia em particular, a obra de Targ e Puthoff Mind Reach (ambas em Bibliografia).

Nós teremos mais a dizer sobre a Teoria dos Níveis nas Seções posteriores. Nesse ínterim, daremos uma olhada mais próxima na Teoria da Polaridade.

Esta teoria não é nova, tampouco; ela é comum à muitas filosofias, tanto religiosas como materialistas.

A armadilha na qual as religiões monoteístas (9) caíram tem sido a de equalizar polaridade com [a noção de] bem-vesus-mal. Elas reconhecem que a atividade do mundo ao redor delas é engendrada pela interação dos opostos; mas elas percebem esta interação apenas como a batalha entre Deus e Satã. Quando esta batalha terminar com a vitória total de Deus no Último Trunfo [sic] , eles assumem que a atividade continuará – mas sobre que base? À parte dos coros das missas, e um uso arquitetônico excessivo de ouro, o prognóstico é vago. Mesmo as visões inspiradas do Paraíso por parte dos poetas e visionários dotados são realmente apenas descrições apaixonadas de males contemporâneos que não estarão lá.

O exemplo mais citado, em Revelações xxi e xxii, exulta na ausência de lágrimas, morte, pesar, choro, dor, medo, descrença, abominação, assassinato, prostíbulos, feiticeiros, idólatras, mentirosos, templos, portões trancados, noite, mar, maldições, velas, Sol e Lua na Nova Jerusalém. Porém a descrição positiva é puramente estática: aproximadamente 1.500 milhas de largura, extensão e altura (!) com paredes de 216 pés de altura, e fundações e portões de pedras preciosas. As únicas menções à qualquer tipo de atividade ou movimento são as dos justos caminhando dentro dela (xxi:24), o rio da vida ‘prosseguindo’ (xxii:1), a árvore da vida produzindo fruto todo mês (sem nenhuma Lua?) (xxii:2), e os servos de Deus servindo-O (xxii:3). Verso após verso sobre males excluídos e sobre (para ser honesto, indubitavelmente simbólico) dimensões e materiais, mas efetivamente nada sobre o que acontece lá.

Nosso objetivo não é zombar da arquitetura de arranha-céu de São João, nem mesmo lamentar pela sua abolição do Sol, Lua, mar, noite e velas, mas sugerir que sua descrição estática, negativa, não é apenas seu estilo pessoal mas é intrínseca ao ponto de vista monoteístico, não polarizado. Sob a regra não desafiada de um Criador não-polarizado, nada pode acontecer.

O Paraíso do Islã é muito mais interessante, ainda que devido ao fato que Maomé era sexualmente sadio e não deixou em legado aos seus seguidores quaisquer das inibições e neuroses que o odiador das mulheres Paulo de Tarso impôs sobre o cristianismo.  Assim a polaridade, em sua forma humanamente mais prazeirosa, traz o Paraíso Muçulmano à vida. Para o muçulmano, a mulher é inferior, mas projetadas por Allah para ser a doadora e recebedora do deleite. Para a cristandade Paulina, a mulher não é apenas inferior, ela é uma tentação ao pecado, e ela própria moralmente fraca senão realmente pecaminosa (uma visão da qual a Igreja nunca se livrou inteiramente – embora não possamos encontar nenhuma autoridade para esta nas palavras ou feitos de Jesus _*).  A visão Muçulmana, embora naturalmente inaceitavelmente machista-chauvinista, (10), de fato aceita o sexo no Paraíso; então na presença de pelo menos um aspecto da polaridade, alguma coisa realmente acontece lá – e homem ou mulher, alguém poderia fazer um pouco pior.

O budista vai para o outro extremo; seu Nirvana é francamente estático, mas ao menos é consistente. Ele aspira por uma Existência  pura, livre de polaridade, livre de atividade, dentro da inalterável Mente Eterna; assim ele não disfarça sua aspiração atrás de portões de pérola, nem planta árvores frutíferas no Nirvana.

O Paraíso – seja coral, sexual ou imóvel – pode ser um longo caminho à frente para o crente individual; mas ao estudar suas visões sobre este, pode-se avaliar diretamente sua atitude quanto à polaridade.

O Céu na Terra do materialista (onde mais ele poderia colocá-lo?) varia do paraíso capitalista da riqueza individual, defendendo-se da morte, traças e ferrugem o tanto quanto possível, até o paraíso comunista da sociedade sem classes. Ambos reconhecem a polaridade pelo menos sob a forma da luta de classes – o primeiro pregando a mesma, o último praticando-a vigorosamente. Mas é apenas o marxista, no todo, que possui uma filosofia consistente sobre a polaridade materialista.

Karl Marx não reivindicava que seu Materialismo Dialético era original, pelo menos em seu aspecto dialético (atividade-polarizada). Ele reconheceu seu débito para com a dialética de Georg Hegel (1770-1831), que desenvolvera uma elegante teoria da ação da polaridade em termos de Tese-Antítese-Síntese e a Interpenetração dos Opostos.  Marx encampou este sistema em sua integridade. Mas Hegel era um idealista – o que no sentido filosófico não significa um ‘bonzinho’ [???] ou um sonhador otimista mas alguém que crê que mente ou espírito é a realidade básica, com a matéria meramente refletindo-a; em oposição ao materialista filosófico (como Marx) que vê a matéria como a realidade básica, com mente e espírito meramente refletindo-a. Pela própria metáfora de Marx, a dialética de Hegel, em sua visão, estava com os pés sobre sua cabeça; e ele reivindica tê-la colocado sobre seus pés. Assim ele produziu o Materialismo Dialético, ou Marxismo – agora a filosofia oficial (e obrigatória) de cerca de um terço da população mundial.

Em termos filosóficos estritos, as bruxas são idealistas; pois enquanto crêem que toda entidade ou objeto no plano físico tem suas contrapartes nos planos não-materiais, elas também crêem que existem entidades reais nos planos invisíveis que não possuem suas formas físicas próprias.  Para as bruxas, os planos invisíveis são a realidade fundamental, da qual a realidade material é uma manifestação.

Mas rotular as bruxas como idealistas, embora correto, talvez seja enganador; talvez ‘pluralistas’ seria melhor. Devido à matéria ser muito real para elas; elas estão afetuosamente enraizadas na Natureza, ‘o Véu de Ísis’, vibrante com sobretons de todos os outros níveis. A Natureza tangível é sagrada para elas. Eis o porque sua Deusa tem dois aspectos principais. Ela é tanto a Mãe Terra, cuja fecundidade as faz nascer e as nutre durante a encarnação física , e a Rainha da Noite, ‘aquela em cujo pó de seus pés estão as hostes dos Céus, e cujo corpo circunda o Universo’,  cujo símbolo mais vívido é a Lua. A Mãe Terra é a soberana da Natureza fisicamente manifestada, Ísis Velada; a Deusa da Lua é a regente dos níveis invisíveis, Ísis Desvelada; embora para a bruxa, as duas são uma só e inseparáveis. Elas permanecem uma, muito embora a complexidade dos níveis invisíveis seja alem disso simbolizada pelos aspectos cíclicos da Deusa da Lua, de Donzela, Mãe e Anciã – crescente, cheia e minguante. E em sua multiformidade ela é estimulada e fertilizada por seu Consorte multiforme; pois o Deus das bruxas também é simbolizado ao mesmo tempo pela figura cornuda de Pan da floresta e da montanha e pelo brilhante Sol dos céus. A visão das bruxas de seu Deus e sua Deusa expressa globalmente sua crença na realidade de todos os níveis, incluindo a matéria.

Então as bruxas percebem as falhas das visões dominantes sobre os Níveis, e sobre a Polaridade, como segue:

A visão do materialista (e, em particular, o Marxista) tem uma compreensão basicamente lógica sobre o trabalho real da Teoria da Polaridade mas a distorce e empobrece ao negar a Teoria dos Níveis.

A visão do religioso monoteísta aceita (de uma forma ou outra) a Teoria dos Níveis mas a distorce e empobrece ao rebaixar a Teoria da Polaridade à um mero conflito entre Bem e Mal.

Religiões pagãs, politeístas, tem sempre aceito a ambas Teoria dos Níveis e Teoria da Polaridade, sem distorcer qualquer uma destas para se enquadrar em um conceito inadequado (ou mesmo negação) do outro. Basta apenas estudar os panteões do Egito, Grécia, Roma e Índia, com seus Deuses e Deusas criadores e destruidores, seus eternos ciclos de tornar-se e cessar e tornar-se novamente, sua interação dialética, para perceber o quão ricamente estas atitudes tem sido simbolizadas.

A filosofia Wicca está nesta tradição direta.

 

Toda religião é única, mesmo quando ela é parte de uma herança maior. Wicca, como todas as outras religiões, tem suas formas próprias, suas próprias preocupações, sua própria atmosfera. E ela é uma Arte também; para adotar as categorias de Margaret Murray, ela abraça à ambas Bruxaria Ritual e Bruxaria Operativa.

Wicca inclui ritual, encantamentos, clarividência, advinhação; ela está profundamente envolvida em questões de ética, reencarnação, sexo, o relacionamento com a Natureza, psicologia e atitudes para com outras religiões e caminhos ocultos.

Nas Seções seguintes, nós examinaremos estes aspectos e ver como eles se relacionam com a base lógica do Wicca.

 

 

                                    XII  Reencarnação

 

Quase todas as bruxas acreditam em reencarnação. (1) é provavelmente correto dizer que elas compartilham esta crença com uma maioria da raça humana (ou daqueles membros da mesma que crêem na sobrevivência após a morte sob qualquer forma), porque o conceito de uma única vida seguida de um julgamento unilateral levando à céu ou inferno é peculiar às religiões patriarcais monoteístas do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo – embora a crença judaica talvez seja mais obscura do que as outras duas, e a reencarnação está certamente implícita no pensamento Cabalista hebraico.

A crença na reencarnação foi muito difundida entre os cristãos primitivos, e era generalizada entre os Gnósticos. São Jerônimo (AD 340-420) diz que uma forma desta era ensinada para uns poucos seletos na Igreja Primitiva. (2) Mas ela foi declarada como anatema pelo Segundo Concílio de Constantinopla em 553, por razões óbvias. A Igreja se tornara uma máquina disciplinadora do Estado, com sua estrutura inseparável daquela do serviço civil Imperial; e a promessa do céu ou a ameaça do inferno, como uma recompensa ou punição pelo comportamento nesta vida imediata, era então uma arma essencial do Establishment. As versões gnósticas dos ensinamentos de Jesus (algumas delas provavelmente com tanta reivindicação à autenticidade quanto os Evangelhos oficiais) tiveram que ser banidas, caçadas e destruídas pelas mesmas razões; elas viam a salvação em termos de iluminação individual, ao passo que a Igreja oficial a via em termos de obediência ao bispado.

A teoria da reencarnação sustenta, brevemente, que cada alma ou essência humana individual é reencarnada novamente e novamente, numa série de encarnações corpóreas nesta terra, aprendendo suas lições e enfrentando as consequências de suas ações, até que esteja suficientemente avançada para progredir ao próximo estágio (qualquer que este possa ser). A formulação real da teoria está intimamente ligada com a Teoria dos Níveis, uma vez que ela envolve a estratificação da entidade humana em seus planos componentes, que correspondem àqueles do Cosmos como um todo.

Estes planos são interpretados de vários modos, conforme a escola de pensamento oculto que é seguida. Porem a tabela com estes planos apresentada na página 117 pode ser aceita como um padrão aceito em geral. A numeração e definições são aqueles usados por Dion Fortune em A Filosofia Esotérica do Amor e Casamento, págs. 17-19, e A Doutrina Cósmica, pág. 96. Ela não lista o Etérico como um plano separado, mas isso é puramente um caso de nomenclatura; muitos outros escritores (e mesmo a própria Dion Fortune em outra parte) falam muitas vezes sobre o Plano Etérico, e é razoável fazê-lo, porque isso é de grande importância prática no trabalho psíquico. Esta é, por exemplo, a substância da faixa mais interna da aura humana como percebida pelos sensitivos, e há razões para crer que esta é responsável pelos fenômenos registrados através da fotografia Kirlian.

Os sete (ou oito, se incluído o Etérico) níveis ou ‘corpos’ de uma entidade humana estão divididos em dois grupos, geralmente chamados de a Individualidade e a Personalidade.  A Individualidade (Espiritual Superior, (3) Espiritual Inferior e Mental Superior) é a parte imortal, que sobrevive de encarnação em encarnação. A Personalidade (Mental Inferior, Astral Superior, Astral Inferior, Etérico e Físico) é a parte transitória, construída durante uma única encarnação e descartada quando esta termina.

A Individualidade é bissexual – o que não significa assexuada porém significa que ela contém as essências criativas masculina e feminina, em equilíbrio dinâmico. A Personalidade, por outro lado, é ou masculina ou feminina; cada um de nós tem que experimentar as encarnações tanto masculina quanto feminina, aprendendo as lições de cada polaridade, de forma que o equilíbrio dinâmico da Individualidade possa se tornar totalmente desenvolvida.

O conceito é perfeitamente expresso no símbolo chinês do Yin-Yang (Vide figura 6). A parte branca representa o aspecto Yang masculino, positivo, claro, fertilizante e pode ser tomado como um símbolo da Personalidade em uma encarnação masculina; será notado que ela contém a semente (o ponto negro) de seu oposto complementar, o aspecto Yin. A parte negra representa o aspecto Yin feminino, receptivo, escuro, formativo e pode ser tomado como um símbolo da Personalidade em uma encarnação feminina; será notado que ele também contém a semente (o ponto branco) de seu complementar oposto,  o aspecto Yang. O símbolo Yin-Yang completo representa a Individualidade imortal, com ambos os aspectos em perfeito equilíbrio.

 

(Figura 6 - símbolo Yin-Yang)

 

 

 

OS NÍVEIS COMPONENTES DE UM SER HUMANO

 

Sétimo Plano            ESPIRITUAL SUPERIOR

   Espírito Puro ou Abstrato. A ‘Centelha Divina’. Substância e energia diretas do Grante Imanifesto. Símbolo astrológico:   o Sol.

        A INDIVIDUALIDADE

A Unidade de Evolução. Imortal ao longo de todas as encarnações.Sexto Plano               ESPIRITUAL INFERIOR

   Espírito Concreto. Tendência para um dos’Sete Raios’predominar e ajustar a tônica. Símbolo astrológico:   Júpiter.

Quinto Plano            MENTAL SUPERIOR

   Mente Abstrata. Qualidades diferenciadas em Tipos. Símbolo astrológico:   Mercúrio.

Quarto Plano           MENTAL INFERIOR

   Mente Concreta. Definição, forma, memória. Símbolo astrológico:   Saturno.

                A PERSONALIDADE

A Unidade de Encarnação.Dura por apenas uma encarnação; cada encarnação constrói uma nova Personalidade.Terceiro Plano         ASTRAL SUPERIOR

   Emoções Abstratas. Atração, desejo por união. Símbolo astrológico:   Vênus.

Segundo Plano         ASTRAL INFERIOR

   Instintos e Paixões. Desejo de atrair ou possuir. Símbolo astrológico:   Marte.

ETÉRICO  - 

   A tênue teia de energia de quase-matéria que liga o Físico com os planos mais sutis e o mantém no sêr. Símbolo astrológico:   a Lua.

 

Primeiro Plano         FÍSICO

   Matéria Densa, o corpo material. Símbolo astrológico:   a Terra.

[NOTA: No esquema acima, a coluna à direita apresenta o texto no sentido vertical, o que poderá ser visto

clicando-se Exibir / Lay out on-line => creio que em seu computador seja algo similar.]

 

Outro símbolo que representa o processo em seu sentido serial é o colar âmbar-e-jet (*) da Suma Sacerdotiza Wicca que é o círculo do renascimento – as contas âmbar (solar) representando encarnações masculinas, e as contas negras (lunar) representando as encarnações femininas. (Embora tais vidas não se alternam necessáriamente).

(Neste contexto, jet é um tipo de pedra negra trabalhada e utilizada como jóia – N.doT.)

 

Contudo, a formulação ‘masculino-positivo, feminino-negativo’ está super simplificada – e aqui novamente os níveis se apresentam dentro desta. O masculino tende a ser positivo nos planos físico e mental, e negativo no astral e espiritual; ao passo que o feminino tende a ser positivo nos planos astral e espiritual, e negativo nos planos físico e mental.  Ou talvez seria melhor dizer ‘ativo-fertilizante’ ao invés de ‘positivo’ e ‘receptivo-formativo’ ao invés de ‘negativo’, em cada caso. Este padrão cruzado de funções entre masculino e feminino é um dos significados do símbolo do caduceu com as serpentes entrelaçadas em volta de um bastão ereto (vide Figura 7); é interessante que ele é o emblema de Hermes/Mercúrio, o mais bissexual dos deuses Clássicos, cujo símbolo astrológico (vide figura no livro) é por si uma combinação dos símbolos masculino e feminino (4).

Um exemplo familiar desta alternância de polaridades com os diferentes planos é aquele da mulher-Musa e o homem-artista. Beatriz fertiliza Dante, e Dante dá nascimento ao resultado;  um paralelo exato à impregnação de um homem por uma mulher no plano físico (5). Como Wilfred  diz em A Sacerdotisa do Mar de Dion Fortune: ‘Então eu percebi porque deve haver sacerdotisa tanto quanto sacerdote; pois existe um dinamismo em uma mulher que fecunda a natureza emocional de um homem tão seguramente quanto ele fecunda o corpo físico dela; isto era uma coisa esquecida pela civilização moderna que estereotipa e convenciona todas as coisas e se esquece da Lua. Nossa Senhora do Fluxo e Refluxo’.

Mas retornemos ao que pode ser chamado de a mecânica da reencarnação. Na ocasião da morte física, a primeira das ‘conchas externas’ é solta: o corpo físico. O corpo etérico se desintegra, quebrando o elo vital entre o corpo físico e os corpos astral, mental e espiritual. Desligado dos principais, por assim dizer, o corpo físico não é mais uma parte da entidade total e começa à decair.

 

(Fig.7 o caduceu de Mercúrio)

 

O foco da consciência se torna, em primeiro lugar, o corpo astral. Por este período de tempo, se está em um estado contínuo equivalente à projeção astral.

A taxa de retirada para cima dos planos depende de cada pessoa. Alguns (particularmente aqueles com as obsessões mais grosseiras, tal como alcoolismo e uma libido sexual doentia) resistem ao processo, ou levando um longo tempo para compreender que estão fisicamente mortos, ou se recusando à aceitar o fato como tal; esta é a explicação para muitas ‘assombrações’ ou sensações de vampirismo psíquico sentidas pelos ainda encarnados. Um exorcismo eficaz, por um sensitivo experiente que sabe o que ele ou ela está fazendo, é muitas vezes um caso de confrontar a entidade astral e persuadi-la da necessidade de uma retirada normal. Um caso típico foi relatado para nós por nosso amigo o Reverendo Christopher Neil-Smith , um dos melhores exorcistas da Inglaterra; ele foi chamado por uma família que não podia manter duas garotas juntas [au pair_?], porque elas estavam todas aterrorizadas pelo quarto (pelo que foi visto, era muito agradável) que lhes foi dado para ocuparem. Christopher contatou a causa – uma assombração lésbica! Ele disputou com ela, usando suas próprias palavras de poder cristãs, e a persuadiu sobre o erro de suas perturbações astrais. O problema cessou daí por diante.

(Sobre esta questão de palavras de poder: sua eficácia depende da sua realidade e significado para o exorcista, e naturalmente para a entidade astral. Neste caso, as palavras cristãs eram óbviamente as eficazes; uma bruxa, um Hindu ou um Judeu poderiam usar palavras diferentes com efeito igual -  embora as crenças do ‘fantasma’ sejam também significativas. Pode-se lembrar da estória do vampiro desafiado com um crucifixo, que replicou: ‘Oy, oy, oy – voce pegou o vampiro errado!’ – que não é uma piada tal como ela parece).

No outro extremo da escala, almas bem integradas e avançadas podem por sua própria escolha atrasar a retirada completa de forma à ajudar amigos ainda encarnados. Nós acreditamos, em boa evidência, que os pais de Stewart exemplificam este caso. Seu pai faleceu fisicamente em 1953, e sua mãe em 1958; e Stewart e Janet não se conheceram até 1970. Ainda assim em muitas ocasiões de importância em anos recentes, a mãe de Stewart, com seu pai em segundo plano, parece ter estado em contato conosco usando Janet como uma medium, comunicando-se por escrita automática e de outras formas, incluindo algumas ‘coincidências importantes’ assustadoras, e fazendo uso de fraseologia absolutamente característica, referências e conceitos sobre os quais Janet possivelmente não poderia ter tido conhecimento. Recuando um pouco, a fim de ser cético, poder-se-ia admitir telepatia inconsciente entre Stewart e Janet como uma explicação; mas em todas as circunstâncias, podemos apenas achar que a comunicação direta de Agnes Farrar é acreditável.

O estágio intermediário entre a separação do plano físico e a completa absorção da Individualidade parece ser um período de duração variável no que são geralmente chamados de Summerlands (terras do verão_?). As Summerlands tem uma existência real no plano astral e ainda são auto-criadas em alguma extensão, seja em uma base individual ou grupal. Em outras palavras, o tipo de Summerland no qual voce se encontra, e a companhia que lá voce encontra, depende do seu próprio estágio de desenvolvimento e na força de suas conexões com as outras entidades pertinentes. Partes da Personalidade de sua última encarnação, nos planos astral e mental inferior, óbviamente ainda estão envolvidos. No geral, este parece ser um período de repouso e recuperação necessários, e da absorção (e discussão com amigos ?) sobre as lições da encarnação recém experimentadas.

No devido curso, voce se retira das Summerlands também; tudo o que é deixado é sua Individualidade, seu self imortal, existindo em um nível de consciência sobre o qual nós, por fim, não estamos preparados para sermos dogmáticos, porque sua natureza dificilmente pode ser compreendida exceto talvez durante lampejos de intuição, ou descrito na linguagem do nível no qual nos encontramos no momento. Mas pode ser dito que este, também, é um período de absorção de experiência, no nível fundamental do Indivíduo; e talvez, em proporção ao grau de desenvolvimento da pessoa, da consideração e escolha das circunstâncias da próxima reencarnação da pessoa.

Assim que o tempo para aquela reencarnação se aproxima, o Indivíduo começa à reunir em torno de si as matérias primas das ‘conchas externas’ requeridas para uma nova Personalidade. Elas podem ser apenas as matérias primas, porque uma Personalidade completamente desenvolvida é a criação gradual das circunstâncias da nova encarnação, e das reações da pessoa à isto.

O passo final é a reencarnação física, quando a entidade (Individualidade mais matérias primas da nova Personalidade) confere uma alma à um feto no momento da concepção. Sobre as implicações disso para os pais, mais [informações] serão apresentadas  na Seção XV, ‘Feitiçaria e Sexo’.

 

O que a Individualidade acumula de encarnação em encarnação, à parte de ‘experiência’? Ela acumula karma. Este termo Hindu se tornou a palavra ocidental aceita para o conceito, porque não existe nenhum equivalente exato nas línguas européias. Seu significado literal original é meramente ‘ação’, ou ‘causa-e-efeito’.

O meio mais simples de conceber o karma é como um tipo de saldo bancário espiritual das boas e más ações da pessoa, e dos resultados da sabedoria e da estupidez da pessoa, sobre a totalidade das vidas da pessoa. Mas para obter um quadro nítido sobre seu significado, não se deveria pensar tanto em ‘alguém ali’ calculando o saldo e nos recompensando ou punindo em conformidade, mas como o significado radical de causa-e-efeito. O conceito é que tudo o que nós fazemos deflagra uma reação em cadeia de efeitos, tão inevitavelmente como um pedregulho lançado num poço provoca ondulações, e que nós temos que conviver com os resultados. Uma ondulação (ou onda de maré) pode não rebater sobre nós até muitas vidas depois – mas irá rebater, devido à natureza da estrutura totalmente interconectada do nosso universo. Esta interconexão nos compele, mais cedo ou mais tarde, à restaurar o equilíbrio que nós perturbamos, para colher os frutos que nós semeamos (incluindo os bons), para pagar os débitos nos quais incorremos e para sacar os juros sobre nossos sábios investimentos. Atividade criativa ou desvio moral igualmente voltam ao lar para se alojar. Voltando à analogia do saldo bancário – o computador do banco kármico é à prova de fraude, inexorável e equipado com memória infinita.

O processo da reencarnação repetida, portanto, é uma das formulações do equilíbrio kármico até que um equilíbrio permanentemente saudável seja alcançado. (Um equilíbrio dinâmico, não estático, perceba-se).

O Indivíduo imortal, liberto por seus próprios esforços da necessidade de futuras reencarnações neste plano, pode então se mover para o próximo estágio. A natureza daquele estágio podemos apenas visualizar fracamente, em nosso presente nivel de desenvolvimento; se nós pudéssemos compreender sua essência e seus detalhes, nós não deveríamos estar ainda aqui.

E ainda assim há uma exceção para aquela regra, também: o bodhisattva. Esta é uma outra palavra Hindu que entrou no uso ocidental na ausência de um equivalente europeu. Um bodhisattva é uma Individualidade aperfeiçoada que não mais necessita reencarnar mas escolhe fazer assim por sua própria livre vontade de modo à auxiliar e guiar mortais menos desenvolvidos. Pode-se de forma razoável deduzir, por exemplo, que Jesus (6) e o Buddha eram bodhisattvas; e sendo a natureza humana o que é, o impacto de tais entidades sobre as pessoas de seu tempo muitas vezes levou à sua deificação em memória póstuma. Pode muito bem ser, por exemplo, que tais figuras de Deus como Isis, Osíris, Zeus, Atena, Dana e Brid foram construídos sobre a memória reverenciada de bodhisattvas humanos. A deusa Aradia, herdada pelo Wicca da tradição Toscana (Tuscan _ ?) , a nós parece portar os marcos de tal desenvolvimento, e talvez mais claramente do  que muitos; a lenda a descreve como trazendo aos humanos os ensinamentos ‘de minha mãe Diana’; ela se representa como o canal da sabedoria divina, não sua fonte, e isto seria típico de um boshisattva. Então caso estejamos certos, nem mesmo as bruxas estão imunes da tendência de transformar um destacado professor pouco relembradoem um Deus ou uma Deusa. (Não que isso deva intimidar qualquer pessoa à parar de usar Aradia como um nome de Deusa se, como nós, esta pessoa já estiver fazendo assim. A forma pensamento tem sido poderosamente construída através de gerações, de forma que Aradia se tornou um efetivo sinal de chamada, e um canal,  para a Própria Deusa. O que basicamente o que todas as formas de Deus e formas de Deusa são; mais [informação] sobre isto na Seção XIV, ‘Mito, Ritual e Simbolismo’).

Nem todos os bodhisattvas tem tido tal impacto recordado como estas grandes figuras, naturalmente. Depende da natureza e da escala da tarefa que eles tem encarnado para realizar. Muitos deles trabalharão de forma não intrometida, deliberadamente não se deixando ser reconhecidos como algo mais além do que seres humanos notáveis; e aquilo, naturalmente, é o que eles são. A divindade que brilha através deles não significa uma perda de humanidade, mas sua perfeição.

E ao seguir em frente na direção daquele objetivo,  o firme exercício do karma é a tarefa consciente de todos os iniciados, incluindo aqueles cujo caminho é o Wicca., esta tarefa, e não a mera curiosidade, é o propósito de esforços deliberados no recordar da encarnação, com o qual estaremos lidando em um minuto. Uma vez que se alcança um certo estágio de desenvolvimento consciente, quanto maior for a visão que se tem sobre o significado do próprio karma, e sobre os fatores que o geraram ao longo de uma série de vidas, de uma forma mais inteligente poder-se-á assumir o controle do caminho à frente.

Existem técnicas mágicas para acelerar o karma (ou, para desacelerá-lo) mas estas não são fácilmente ensinadas até que os iniciados estejam preparados para elas. Iniciados bem intencionados que mergulham de forma entusiasmada em tais técnicas, na esperança de se desenvolverem tão rápido quanto possível,  muitas vezes descobrem que eles morderam mais do que poderiam mastigar;  o ritmo dos eventos pode correr além de sua compreensão, deixando-os num estado pior do que quando começaram. O mero fato da genuína iniciação, ou do envolvimento oculto de qualquer  tipo, incluindo a bruxaria, tende a acelerar o karma em qualquer caso, por causa dos níveis adormecidos que estão sendo acordados; e aquilo é o tanto que a maioria de nós pode aguentar.

Deve-se observar mais um ponto sobre o karma, antes de irmos à questão dos fenômenos de reencarnação em grupo. Nós falamos sobre karma como um processo quase impessoal, atrelado pelas leis inexoráveis de causa e efeito. E isto é o princípio básico da ação. Mas isto não significa que não haja intervenção ou que os que são algumas vezes chamados de ‘os Senhores do Karma’ sejam meros observadores. Entidades superiores de muitos tipos de fato existem e operam nos planos não-materiais, intermediários entre a humanidade e a derradeira força criativa, como toda religião tem reconhecido. Somos apenas uma parte de um Cosmos complexo, multi nivelado e interdependente. E estas entidades superiores tem suas próprias regras para atuar na vida evolutiva do todo.  Assim seria arrogante imaginar que suas ações não nos afetam, ou que eles nunca intervém ou nos desvia para uma direção requerida. O mais importante, eles podem ser atraidos pelo processo de auto harmonização conhecido como invocação.

Eles podem ser comparados, se voce gostar, com fazendeiros. Um bom fazendeiro não ignora ou tenta sabotar as leis da natureza; ele trabalha com elas para uma máxima produtividade e uma ecologia equilibrada. Da mesma forma, os Senhores do Karma não passam por cima das leis de causa e efeito; mas eles podem e de fato, caso o desejemos, nos auxiliam à não cairmos nos enganos destas (?).Eles podem nos ajudar à fazer uso de processos naturais ao invés de batalhar contra eles para nos ferirmos à nós e aos outros. Coopere com eles deliberadamente, tentemos nos colocar em sintonia com seu propósito, e algumas vezes nos encontraremos empurrados em direções de cujo significado imediato não podemos compreender. Em nosso próprio jargão profissional, algumas vezes chamamos a isto de ‘o Roteiro’; e para nós pessoalmente, como para muitas outras pessoas, ‘o Roteiro’ pode se mover por caminhos misteriosos que acabam por fim sendo úteis.

Para resumir: o exercício do karma, como a vida do fazendeiro, é uma combinação de processos naturais inexoráveis, e a manipulação inteligente daqueles processos por sêres com propósitos que estão conscientes do programa integral.

(Se voce escolher por chamar aquelas entidades de anjos e arcanjos e assim por diante, por que não?  Se voce acha as palavras aceitáveis isso depende do quão carregadas com associações elas estiverem a partir de sua própria criação [desde seu nascimento]. Caso aquelas associações lhe incomodem, use outras palavras. Quando voce as trata com seriedade, os conceitos são os mesmos. Mas não há motivo para arranhar velhas feridas apenas pela diversão em fazê-lo.)

Tão logo se começa à investigar a reencarnação, e ao se obter as primeiras experiências de recordação, vem-se de encontro ao fenômeno da reencarnação de grupo; descobre-se que se tem conhecido e interagido com certas pessoas antes, em outras vidas, talvez em muitas vidas. Este conhecimento pode variar desde um súbito (e talvez mútuo) flash de reconhecimento quando se encontra com um completo estranho (o flash tendo muitas vezes sobretons emocionais positivos ou negativos que parecem um tanto desproporcionais em termos de sua situação nesta vida), até a percepção que um relacionamento nesta vida é meramente a continuação, desenvolvimento e exercício de um relacionamento de muitas vidas, talvez envolvendo muitas pessoas.  O pesquisador cauteloso [com relação] à sua própria história (e deve-se ser cauteloso em tais assuntos) provavelmente dirá a si mesmo que tal  flash ou percepção é talvez a crença ilusória, a projeção de emoções não resolvidas, ou fácil racionalização de elementos enigmáticos em um atual relacionamento. Ele pode muito bem estar certo, em qualquer caso particular; todo ocultista sabe o quão tentadoramente fácil é esquivar-se do árduo trabalho de analisar uma situação pessoal encolhendo os ombros e dizendo ‘isso é provavelmente karmico’!  Mas não importa o quão dificilmente ele se desvie para evitar tais ciladas, assim que o quadro de suas encarnações passadas vai sendo construído e é confirmado por evidências externas, ou pela recordação de outros independentemente notada, ele vai achar mais e mais impossível escapar do fato de que certas pessoas que ele conhece hoje tem estado associadas à ele em vidas passadas.

E quando voce pensa nisso, tais relacionamentos contínuos devem ser logicamente esperados, em vários campos.

O mais óbvio é o karmico. Os débitos karmicos que alguem deve, ou que devem à este, mais cedo ou mais tarde devem ser pagos individualmente pelo devedor ao credor, se aquele equilíbrio rumo ao qual todo desequilíbrio karmico se esforça [por seguir] deva ser alcançado; eles não podem ser desviados pela morte física (7). Se em uma vida, por exemplo, eu deturpei seu desenvolvimento devido ao meu próprio egoísmo, o equilíbrio não será restaurado até que eu tenha positivamente contribuído (ou a despeito de mim mesmo ou por minha própria compreensão melhorada) às condições para o seu desenvolvimento natural numa vida posterior. Tais débitos, naturalmente, podem ser mais complexos do que um direto ‘pessoa-a-pessoa’: A, B e C podem ter criado uma situação distorcida entre si em uma vida e que só poderá ser consertada por A, B e C se encontrando novamente nas novas circunstâncias de uma vida posterior.  Ou A, B, C, D e E . . .

Os fatores que tendem à tais reencontros não são sempre negativos, naturalmente. Um trabalho criativo em grupo para o qual uma vida não foi suficiente naturalmente origina um impulso karmico positivo, um ímpeto (tanto dentro de cada uma das Individualidades em desenvolvimento envolvidas e em campos de energia kármica mais amplos) para o grupo recombinar e levar adiante o que foi frutiferamente começado.

Tais ‘pontas soltas’ positivas e negativas tendem à reunir as pessoas em vida após vida, tão naturalmente como a gravidade atrai rios afluentes através ou em volta de todos os obstáculos geológicos, buscando por um leito de vale em particular combinando-se em um rio que não é igual à nenhum outro rio, muito embora por fim ele flua para o mesmo oceano (de equilíbrio karmico, ao procurar uma metáfora para este fim).

Ambas experiência e lógica confirmam que a natureza de um relacionamento pode mudar de vida em vida; de fato isto deve ser esperado, para desequilíbrios serem resolvidos ou para desenvolvimento dinâmico. A e B podem ser irmão e irmã em uma vida, e se reencontrar em vidas posteriores como mãe e filho, marido e mulher, colegas, rivais, amantes, conhecidos casuais ou irmã e irmão outra vez no ciclo.

Nem necessita a importância do relacionamento ser a mesma (ou mesmo surgir por fim) em qualquer vida subsequente em particular. Isso depende da natureza das lições à serem aprendidas, ou os equilíbrios à serem exercitados, numa vida particular.

Tomemos um exemplo pessoal. Janet e Stewart sabem que tem se encontrado em muitas vidas; mas duas tem sido vívidamente recordadas em especial (e com muita confirmação) nesta vida, provavelmente devido à sua relevância com relação à esta. A primeira foi no Egito por volta dos tempos de Ramses II, e a segunda na Segóvia nos tempos de Ferdinando e Isabella. Em ambas as encarnações, nós estávamos associados com pessoas que nós conhecemos ou tivéramos conhecido em nossa presente encarnação. E ainda assim (na extensão que estabelecemos até agora) apenas uma daquelas pessoas estava envolvida em ambas as encarnações, a egípcia e a espanhola; e mesmo aquela pessoa era conhecida apenas por Stewart no Egito, tendo nascido após a morte egípcia de Janet, embora na Espanha ele estava envolvido conosco. A implicação, que corresponde ao que nós conhecemos sobre aquelas duas vidas, é que elas envolviam diferentes lições e diferentes problemas, que apenas seriam relevantes para certos de nossos ‘companheiros de viagem’ em cada caso.

Isto, naturalmente, explicaria o fenômeno de intensa porém passageira recognição de um estranho. Ele ou ela pode ter estado profundamente envolvido na ‘agenda’ central de alguma encarnação passada, mas nesta vida voce pode estar exercitando agendas muito separadas, e portanto serem irrelevantes um ao outro no presente estágio. Porém a súbita recordação de uma emoção agora irrelevante (embora, na maior parte dos casos, ela seria apenas relembrada subconscientemente) pode ser severa e enigmática na ocasião. Uma súbita embora inconsciente recordação desse tipo pode nem sempre ser irrelevante à esta vida; isto pode ser o início de um importante reencontro. Casos genuínos de ‘amor à primeira vista’ podem muitas vezes serem explicados dessa forma – sendo, de fato, não ‘à primeira vista’ afinal de contas, embora o casal pense que o seja.

O que nos traz à um dos mais poderosos dentre os motivadores de reunião vida-após-vida: o amor que verdadeiramente envolve a interação de duas Individualidades imortais, e não meramente de suas Personalidades em qualquer encarnação (feliz o suficiente embora tal amor-Personalidade possa muitas vezes existir).  É este tipo de amor que está implicado pelo termo ‘almas companheiras.  Talvez ‘estrelas binárias’ seria uma descrição ainda mais apta; duas entidades únicas, cada uma com sua própria natureza, que formaram um todo complementar revolvendo em órbita fechada ao redor de um centro comum de gravidade, de forma alguma se isolando de suas estrelas vizinhas – deveras muitas vezes as afetando mais poderosamente do que elas fariam como duas estrelas solitárias, por causa da energia gerada por sua órbita mútua apertada, e portanto rápida. (8)

Dion Fortune escreve em profundidade sobre almas companheiras (ou, como ela as chama, ‘almas gêmeas’) em A Filosofia Esotérica do Amor e Casamento, Capítulos XVII e XVIII.

 

 

 

Dion Fortune escreve em profundidade sobre almas companheiras (ou, como ela as chama, ‘almas gêmeas’) em A Filosofia Esotérica do Amor e Casamento, Capítulos XVII e XVIII.

 

(O parágrafo acima é apenas para orientação – é o último parágrafo do Wicca11)

 

como ela diz (ibid pág.83), é a ‘emoção não exaurida que forma o Vínculo Kármico’;  e tais vínculos podem ser estabelecidos em muitos níveis menos intensos e todo-envolventes do que aquele que existe entre almas gêmeas. Qualquer amor ou amizade do qual alguma coisa ainda permaneça na ocasião da morte física deixa uma ligação, de força variável, que tende à unir as pessoas em vidas posteriores de forma que as emoções possam ou serem ‘exauridas’ ou desenvolvidas. Como interpreta a Lenda da Descida da Deusa, das bruxas, (Oito Sabás para Feiticeiras, págs.172-3): ‘Para completar o amor, voces devem retornar novamente na mesma hora e no mesmo local que a pessoa amada; e voces devem se encontrar, e saber, e recordar, e amá-los novamente’.  A atitude das bruxas neste caso é deliberada; elas trabalham para ‘saber e recordar’, não meramente para reagir à memória inconsciente.

Deve-se adicionar que qualquer emoção não exaurida estabelece um vínculo kármico – e isto inclui o ódio. Isto, também, pode ser tratado deliberadamente; simplesmente da mesma forma que alguém pode trabalhar para perpetuar  uma ligação de amor ou amizade, da mesma forma este alguém pode (e deveras seria bem informado para fazê-lo) trabalhar para resolver uma ligação de ódio, mais do que fazê-la crescer novamente como um assunto não finalizado numa vida posterior.

 

Qual é a mecânica da atração entre pessoas que tem estado associadas entre si em vidas passadas ? Por fim,  pode-se aceitar o princípio mas ainda assim achar difícil engolir o fato que a ‘emoção não exaurida’ deva arranjar uma série de coincidências aparentes de residência, emprego, encontros fortuitos e assim por diante, que trazem tais reuniões à concretização na prática. Por exemplo, nós tomamos a decisão consciente de nos mudarmos de Londres para a Irlanda em 1976 pelo que nos parecia uma razão puramente econômica – que a República não aplica impostos à escritores. E ainda assim por um lado isto foi um profundo ponto de mudança em nosso desenvolvimento Wicca e nosso trabalho, e por outro lado isso nos trouxe à um contato íntimo com várias pessoas de cujo envolvimento crucial em nossas vidas passadas não temos quaisquer dúvidas. E sobre tudo isso, como meros refugiados dos impostos, não tínhamos a menor possibilidade de precognição.  Os Senhores do Karma registraram os nossos bilhetes de entrada ? Como disséramos, eles podem nos cutucar [conduzindo-nos para] a direção requisitada quando necessário; mas seguramente haveria pouco progresso kármico alcançado transformando-nos em meros bonecos.

Nós sugeriríamos que a explicação para a maior parte de tais ‘coincidências’ é muito mais que natural. Isto é, que almas intimamente envolvidas se comunicam e chamam uma à outra no nível da Individualidade em formas sobre as quais suas Personalidades não estão conscientes. Á nível de alma gêmea isso seria particularmente intenso, remontando-se à diálogo contínuo; mas isso também poderia ser esperado entre todos os ‘colegas de viagem’ em graus variados. Assim uma decisão totalmente inconsciente (tanto quanto se refere à Personalidade) poderia induzir uma pessoa à comprar o bilhete de passagem necessário, ou efetuar o encontro necessário, através de uma mensagem da Individualidade para a Personalidade, que então age num modo que parece ser à mente consciente como razões práticas ou temperamentais muito diferentes.

 

Uma coisa que intriga muita gente sobre a reencarnação é a explosão demográfica. Se a reencarnação é um fato, eles argumentam, seguramente o número de humanos encarnados na Terra em diferentes períodos deveria se manter relativamente estático ?

A nós parece haver várias respostas possíveis para isso. A primeira é simplesmente a de que, por razões conhecidas apenas pelo Planejador Cósmico (de qualquer forma que você o[a] defina), novas almas estão sendo criadas o tempo todo, e hoje em dia mais rapidamente do que nunca. A maioria dos sensitivos conhece a sensação de que fulano ou ciclano é uma ‘alma jovem’ ou uma ‘alma velha’, não importando a idade cronológica dele ou dela nesta encarnação; e esta sensação pode muito bem ser válida

Mas isto pode não ser tão simples como ‘criação’ comum. A essência da consciência é individualização. Animais não humanos em geral (novamente talvez excluindo os cetáceos – vide nota XI, 1, pag.307) não são auto conscientes; eles estão apenas diminutamente conscientes, se estiverem, de sua própria individualidade separada. Fisicamente, cada um deles é parte de uma alma grupal  (9). Uma teoria (que faz sentido – por fim, é difícil acreditar em um inseto, roedor ou um arenque individualmente reencarnante) é a de que na morte física os elementos não físicos em um animal são reabsorvidos dentro da alma grupal da espécie, a qual ‘faz brotar’ novos indivíduos a partir da piscina comum para a manifestação física. Apenas em alguns dos maiores mamíferos, sugere a teoria, alguns indivíduos (com ‘i’ minúsculo) de fato desenvolvem um ‘separatismo’ suficientemente forte (o primeiro passo em direção à Individualidade com ‘I’ maiúsculo) para persistirem como tal numa encarnação posterior; e diz-se que isto acontece em particular entre espécies que são mais aproximadamente associadas com os seres humanos.

Apenas recentemente de forma comparativa, em termos evolucionários, é que a humanidade emergiu de um estágio onde a consciência de grupo dominava a vida, e a auto-consciência (exceto em membros destacados da tribo) era uma coisa muito vaga. Poder-se-ia razoavelmente deduzir que naquele estágio, a reencarnação também operava (novamente, com destacadas exceções) sobre o princípio da alma grupal, diferenciando a princípio, enquanto a evolução do homem progredia, em almas raciais, tribais e de clãs, e apenas se separando em Indivíduos únicos reencarnantes gradualmente, com o crescente desenvolvimento da mente consciente e auto-consciência pessoal. (10)

Nesta base, o pequeno numero de almas ‘enfileiradas’ para reencarnação individual teria aumentado grandemente nos milênios recentes, e meteóricamente no ultimo ou dois últimos séculos. E hoje, quando povos ainda primitivos estão sendo forçados (por bem ou por mal) ao contato regular com as culturas auto conscientes altamente ‘avançadas’, o numero de Indivíduos (com o ‘I’ maiúsculo, embora em vários níveis de desenvolvimento) deve ser sem precedentes.

E também, naturalmente, nós estamos em um período de evolução cultural e psíquica muito rápida; tudo está acelerando. Uma década presencia mais mudanças, em quase toda esfera, do que um século no tempo dos nossos avós, ou mil anos nos tempos neolíticos. A vida é um todo interconectado, em todos os níveis; assim não parece ser que esta mesma aceleração, esta mesma compressão da escala do tempo, deva ser aplicada ao karma, também, e à frequência da reencarnação ? Nós somos uma parte integral de Gaia, o Organismo da Terra, em seus planos de existência espiritual, mental, astral, etérico e físico; e se alguns dos seus ritmos estão acelerando, nós também somos afetados em todos os níveis. Especialmente por sermos nós amplamente responsáveis pelas mudanças e pelo menos estamos começando a nos preocupar a respeito de seus resultados. Assim, não poderia um senso aumentado de urgência, uma compulsão para estar ‘de volta ao trabalho’, estar influenciando Indivíduos que alguma vez agiram no seu ritmo entre encarnações ?

A explosão demográfica, naturalmente, tem sido um tópico de importância mundial por algum tempo. Pensadores responsáveis em muitas terras tem apontado para a situação ecologicamente, economicamente e politicamente calamitosa na qual esta ameaça atingir nosso planeta caso não seja estudada como um caso de urgência. Algumas nações estão tomando atitudes práticas para encorajar programas racionais de controle de natalidade.  O maior e único obstáculo à tais políticas sensatas é infelizmente o Vaticano, cujas condenações à contracepção nos parece ser (e deveras para milhões de católicos) socialmente e teológicamente insuportáveis, mesmo em terrenos cristãos; contudo vide mais sobre isto na Seção XV, ‘Feitiçaria e Sexo’.      

Pode muito bem ser que a raça humana como um todo, pela sua indiferença irresponsável e sua atitude de ‘enfiar a cabeça na areia’ com relação ao problema da população, está de fato pervertendo o ritmo natural da reencarnação – falando francamente, chamando almas para encarnar mais rápido , e em números maiores, mais do que a Mãe Terra pode cuidar delas ou que seu progresso karmico saudável requer. Se for assim, estamos acumulando perigosamente para nosso karma racial negativo; e a Mãe Terra tem meios drásticos de dizer ‘Basta!’ quando tais problemas fugirem ao controle.

Muitas dessas idéias anteriores são nada mais que teoria e não necessariamente seriam aceitas por todos os que acreditam na reencarnação.  Porém temos esperança de que elas provoquem a reflexão.

 

Como começar à recordar vidas passadas ?

Antes de discutirmos técnicas, gostaríamos de destacar três regras que são absolutamente essenciais para um trabalho sério sobre recordação de encarnações:

Mantenha registros escritos (e quando possível, gravados em fita).

Tenha uma mente aberta, saudavelmente cética e ainda assim receptiva (temporariamente) para todas as impressões que cheguem.

Verifique tudo o que for possível contra o fato conhecido (por exemplo, registros paroquiais, livros de história, trajes de época, detalhes da vida diária da suposta ocasião, e assim por diante – particularmente com respeito a coisas sobre as quais voce não poderia  ter conhecimento na ocasião em que sua impressão foi registrada).

Como é ressaltado por Christine Hartley (Um Caso De Reencarnação, pág.80): ‘Não cometa enganos sobre isso, mesmo que voce tenha o dom para ler os registros existem perigos no caminho – o perigo do pensamento carregado de desejo é provevelmente o mais pronunciado; a pessoa está tão ansiosa para “ver” que se pode facilmente ser levado em vôos de imaginação descontrolada pela razão crítica e discriminação.  Já que um pouco de imaginação cuidadosamente controlada é necessária em todas as ocasiões para elevar a mente de uma pessoa a partir da base enraizada no mundo material, é altamente importante que deva existir grande disciplina em todos os experimentos de forma que os resultados possam ser confiáveis.’

Considerando a Regra 1. Sempre que voce achar que deve ter tido uma experiência de recordação, anote (ou grave numa fita) imediatamente, antes de discutir isso com outra pessoa e antes de aplicar a Regra 3. Conserve a anotação escrita ou a gravação; mesmo se voce tiver transcrito uma impressão gravada para o papel, conserve a gravação original também, porque as hesitações, o tom de voz e outras coisas podem vir a apresentar um significado não percebido na ocasião. Inclua esboços, mapas, plantas ou salas e outras coisas se voce puder. Conserve todos estes registros permanentemente – não elimine o que parece irrelevante em qualquer estágio, porque desenvolvimentos posteriores (às vezes anos depois) poderão lançar novas luzes sobre isto.  Gravações em fita são valiosas quando vem a recordação sob hipnose ou transe; gravadores cassette são muito baratos hoje em dia e são o maior presente da moderna tecnologia para a pesquisa sobre reencarnação (e muitos outros campos do psiquismo).

A Regra 2 é a chave para a abordagem completa. Christine Hartley está certa:  imaginação é o processo essencial; mas a imaginação descontrolada pode sabotá-lo. O ceticismo não pode inibir a imaginação naquele momento, porém posteriormente este deve verificar de forma desapaixonada sobre o que a imaginação produziu. Isto é particularmente importante com relação aos fragmentos de recordação espontâneos os quais podem ou não serem meros devaneios: o truque é deixá-los fluir sem censura, gravá-los, então pensar sobre eles criticamente, mas conserve o registro com uma mente aberta e verifique se o conhecimento posterior o confirma ou o destroi.  (11) (E mesmo que ele pareça destruido, não o jogue fora; ele poderá ainda um dia ter algo para ensiná-lo).

A Regra 3 é trabalho direto de detetive. Se um nome, um lugar e uma data puderem ser reunidos aos registros do Escrivão Geral, ou um detalhe da prática agrícola na Anglia Oriental do século dezoito parecer errado para voce mas for confirmado no devido curso por um especialista no assunto, voce terá forte evidencia de recordação genuína.

Outra forma de confirmação, menos concreta mas igualmente encorajadora, são os registros de impressões mantidos pelos amigos que possam ter estado envolvidos na mesma encarnação. Novamente, registros escritos feitos antes das discussões provam o seu valor, porque eles reduzem grandemente o perigo de um pensamento desejoso ou uma alteração inconsciente ‘se encaixarem’. (Embora com amigos tão prováveis de estarem psiquicamente em sintonia uns com os outros, tenha sempre em mente a possibilidade da telepatia involuntária. Isto pode usualmente ser diagnosticado, ou controlado, examinando-se a ‘sensação’ dos registros, verificando se o material em comum é percebido a partir dos pontos de vista convincentemente pessoais ao invés de um ‘imitar como papagaio’ ao outro,e examinando se cada um contém seu próprio material de forma que eles se sobreponham ao invés de meramente coincidirem).

Uma das peças de confirmação mais inesperadas em nossa experiência própria veio de um garoto de cinco anos de idade, quando o conhecemos e a seus pais pela primeira vez, desde que ele era recém nascido. Ele olho para Janet e disse de uma vez: ‘Eu conheço você’.  Janet replicou: ‘Eu vi você quando você era um bebezinho’, mas ele interrompeu impacientemente: ‘Oh, não nessa época – eu quero dizer no outro tempo – quando voce costumava ter aquelas coisas que faziam ruídos em suas mãos’ (imitando castanholas). ‘Mas seu cabelo devia ser preto . . . Onde está o outro homem ?’  ‘Que outro homem ?’ Ele virou de lado e continuou: ‘Você era a minha Mamãe. Mas você não era a esposa de Papai, você era amiga dele.’ Ele se saía com tudo aquilo – muito espontaneamente, Janet evitando deliberadamente de incitar – restringida com o que nós já acreditávamos saber sobre a encarnação de Janet como uma cortesã na Segovia por volta de 1500; isso também identificou um de seus filhos ‘desaparecidos’. Ele parecia conduzir a tudo muito naturalmente e prosseguiu falando de outras coisas como se ele já tivesse esquecido; mas ele permaneceu muito próximo a Janet até a hora de a família partir. Não havia maneira em que ele, ou mesmo seus pais, pudessem ter sabido qualquer coisa sobre a convicção de Janet que ela teria tido uma encarnação na Segovia.

O material sobre reencarnação mais impressionante tem sido obtido através da regressão hipnótica. Em muitos casos, psiquiatras profissionais tem tropeçado sobre o fenômeno praticamente por acidente e tem começado a estudá-lo sistematicamente. Regredir um paciente sob hipnose, liberar experiências de infância e desenterrar traumas que podem então serem tratados adequadamente, é uma técnica psiquiátrica normal. Mas muitos psiquiatras, ao regredirem pacientes à um estágio mais e mais anterior, tem ficado atônitos ao descobrirem os pacientes voltando não meramente ao nascimento ou à impressões uterinas mas aparentemente à recordação de vidas passadas. E muitos desses médicos, examinando os dados inesperados com um saudável ceticismo profissional, tem investigado à fundo, finalmente se convencendo [do fato].

O livro de Arthur Guirdham Os Cátaros e a Reencarnação, o de Joan Grant e Denys Kelsey Muitas Vidas e o da Dra. Edith Fiore Voce Esteve Aqui Antes, são todos descrições fascinantes deste processo de descoberta profissional. A colaboração de Grant e Kelsey tem sido particularmente produtiva. Ela recebeu o dom da recordação aparentemente integral de vidas passadas, o que ela colocou no formato de livros em tais romances (ou autobiografias) como Faraó Alado e Vida Como Carola; ele era um psiquiatra à quem aconteceu sob evidência de reencarnação do modo que descrevemos. Eles começaram a trabalhar juntos em 1958, e no devido curso se casaram. Muitas Vidas é um clássico do gênero. (12)

Outro livro interessante sobre o assunto é Encontros com o Passado, de Peter Moss com Joe Keeton; ele inclui dois discos gravados durante sessões autênticas de regressão. Mais Vidas do que Uma, de Jeffrey Iverson, descreve as famosas Fitas Bloxham, gravadas em mais de duas décadas de trabalho do hipnoterapeuta Arnall Bloxham.

O caso que atraiu a maior publicidade (embora muitos outros sejam ainda mais convincentes) está descrito no livro de Morey Bernstein A Busca por Bridey Murphy.

Hipnotismo, então, é talvez o mais poderoso de todos os métodos para lembrança de encarnação. O empecilho é que ele também pode ser o mais perigoso nas mãos de amadores. Podem emergir traumas com os quais o operador não tem o conhecimento ou a experiência para lidar. As sugestões pós-hipnóticas podem ser desapercebidamente plantadas, as quais podem ter resultados desastrosos. Este e outros riscos são a razão pela qual todo hipnoterapeuta profissional com quem temos conversado desaprova veementemente a hipnose de palco ou na televisão; estes profissionais podem muitas vezes serem chamados para desfazer o mal que um hipnotista de palco fizera, e sobre o qual ele sem sombra de dúvida ignorava.

Existe um outro perigo, dentro do campo oculto – o da manipulação deliberada. A primeira recordação de Janet sobre a nossa vida egípcia em comum foi obtida sob hipnose por parte de um ocultista extremamente experiente em quem nós (sendo então muito inexperientes) confiávamos. Nós percebemos mais tarde que ele era inescrupulosamente ‘negro’. A recordação foi suficientemente genuína, mas ele deturpou a interpretação da mesma para seus propósitos pessoais, e o problema que ele causou para nós dois levou um ano ou mais para ser eliminado. Isso nos ensinou uma amarga lição.

Hipnotismo – particularmente a hipnose profunda – deve apenas ser usada para recordação ou qualquer outro propósito quando o hipnotista é devidamente experiente, de preferência um profissional (embora Bloxham, por exemplo, seja um amador experiente), e quando sua responsabilidade está além de questionamento.

Um método muito mais seguro, que pode ser muito proveitoso para uso amador é o que pode ser chamado de meditação guiada. O guia leva a pessoa ou o grupo através de uma viajem simbólica, descendo uma escadaria, atravessando uma porta, subindo até um planalto – e calma e conscientemente exercitando a imaginação que detém o controle do fluxo do pensamento linear-lógico (função cerebral esquerda) e atinge o modo de percepção intuitiva (função cerebral direita). Isso pode deflagrar a luz, ou até mesmo um transe profundo; se isto acontecer, o guia conversa com a pessoa em transe, porém meramente para extrair informações e para tranquilizar – não para implantar idéias ou sugestões. Uma das qualidades essenciais de uma Suma Sacerdotiza ou um Sumo Sacerdote experientes é saber quando retirar uma pessoa do transe delicadamente, ao primeiro sinal de aflição ou exaustão. (Janet é uma médium que opera em transe, e Stewart teve que aprender muito cedo como tomar conta dela e quando retirá-la do transe).

Uma excelente forma para meditação guiada deste tipo é conhecida como a Experiência Christos tal como descrita em Janelas da Mente, de G.M.Glaskin. Nós a utilizamos várias vezes com resultados interessantes, e a consideramos muito inofensiva. Técnicas similares estão descritas na obra de Marcia Moore Hipersenciência.

Como uma segurança adicional, é uma boa idéia conduzir estes experimentos dentro de um Círculo devidamente estabelecido e fortemente visualizado. (Vide Seção XIV para maiores considerações sobre a função protetora do Círculo).

Sonhos podem ser outra fonte para informações sobre encarnação. Mas para fazer um uso adequado e confiável destes, se deveria manter o hábito de registrar os sonhos – mesmo se apenas em fita – imediatamente ao despertar, e cuidadosamente aderindo às Regras 1,2 e 3 as quais nós já descrevemos. É também útil aprender algo sobre o mecanismo básico dos sonhos; por exemplo, aprender a distinguir o que Freud chama de o ‘conteúdo manifesto’ (o material óbvio do sonho, muitas vezes retirado dos eventos do dia anterior) (13) do ‘conteúdo latente’ (o que o sonho está realmente tentando dizer). Mas sobre a compreensão dos sonhos, como a de muitas outras coisas, para bruxas e ocultistas é Carl Jung que se projeta além de todos os outros professores de psicologia; e muito de sua escola, tal como Esther Harding (Mistérios da Mulher) e Erich Neumann (A Grande Mãe), tem seguido nobremente seus passos. A melhor introdução ao pensamento Junguiano é o Homem e Seus Símbolos, uma antologia editada pelo próprio Jung.

Uma vez que voce tenha desenvolvido o hábito de registrar sonhos, eles emergem mais prontamente na consciência, e é de nossa experiência que três tipos de sonho logo emergem como pertencendo à uma classe própria. Primeiro, o sonho no qual voce está consciente de que está sonhando. A maioria das pessoas conhece este tipo, porém poucos tomam deliberadamente o controle sobre eles e os estuda enquanto eles estão acontecendo – o que pode ser um experimento muito revelador.

Segundo, o sonho no qual voce está se projetando astralmente. Com um controle crescente, isto se torna um caso especial do primeiro tipo. Mais sobre isto na Seção XX.

E terceiro, o sonho da recordação da encarnação.  Com experiência, voce passa à reconhecer a qualidade especial de tal sonho; mas voce ainda seria sensato para aplicar seu conhecimento do mecanismo dos sonhos à este conteúdo. (Seria tal ou tal pessoa no sonho um personagem genuíno da vida passada? Ou um arquétipo personalizado? Ou meu próprio animus ou anima? Ou uma tela para alguém que eu não quero reconhecer? ... e assim por diante). Mesmo uma recordação de sonho genuína pode ser contaminada por outros elementos.

A recordação de encarnações em sonho (à parte de qualquer contato onírico telepático, sobre o qual mais será falado na Seção XX) é um processo solo; e o maior desenvolvimento da recordação solo deliberada é o que Christine Hartley chama de ‘mediunidade consciente’. Ela escreve, ‘O estado é alcançado por disciplina, silêncio e perseverança. Ela é em alguns aspectos a técnica aplicada por várias escolas de meditação profunda, neste sentido apenas a pessoa não está se retidando do mundo externo mas de certa forma revertendo o processo e retornando ao mesmo’. Ela descreve a técnica em seu livro Um Caso para Reencarnação, página 85 em diante. E embora nesta operação isto seja  uma técnica solo, ela adverte fortemente (págs.87-9) para que haja uma segunda pessoa com voce, ‘preferivelmente alguém também familiarizado com a técnica, embora não necessariamente um vidente’, pelo menos ‘até que voce esteja completamente consciente do que voce pode ou não pode ou não deveria fazer.’

O mais famoso de todos os clarividentes americanos, o falecido Edgar Cayce, usava uma técnica muito diferente – sonho hipnótico auto induzido – para dar leituras psíquicas para mais de seis mil pessoas por mais de quarenta e três anos. Ele descobriu o Dom por acidente em 1923, e isso foi um grande choque para ele como protestante fundamentalista ortodoxo, mas isso o convenceu da verdade da reencarnação. Seus feitos estão resumidos na obra de Hans Stefan Santesson Reencarnação, pág. 126 em diante, e descritas a fundo na obra de Noel Langley Edgar Cayce sobre Reencarnação.

Assim que a pessoa vai se tornando mais experiente em recordação, descobre que esta pode não apenas recordar suas próprias vidas passadas; pode-se ‘ler os registros’ para outras pessoas também. A parte principal da obra de Edgar Cayce era desse tipo, e Muitas Vidas oferece repetidos exemplos do uso de Joan Grant deste dom – muitas vezes de forma bem sucedida evocado por si mesmo e Kelsey no diagnóstico de problemas de pacientes. Janet também possui esta habilidade, embora esta geralmente se manifeste espontaneamente; na ocasião destes escritos, ela ainda não alcançou o estágio onde ela possa sempre exercitá-la à vontade.

Para um guia compacto relativo aos vários métodos de recordação de encarnação, o pequeno livro de J.H.Brennan Cinco Chaves para Vidas Passadas é uma leitura que vale a pena – embora achemos que ele pouco enfatiza os perigos da hipnose amadora.

As últimas poucas páginas podem parecer sobrecarregadas com referências à livros; mas o fato real é que as várias técnicas de recordação são muito complexas para um único capítulo que não poderia fazer mais do que esboçá-los. Para fazer uso completo deles, voce seria muito bem aconselhado ou à localizar um professor experiente ou à ler os livros especializados. Ou ambos de preferência.

Mas seja de que forma voce proceder – nunca se esqueça das Regras 1,2 e 3.

 

 

                                    XIII  A Ética da Bruxaria

 

‘Oito palavras a Rede (?) Wicca complementa: E ela não fere nenhuma, faz o que tu queres’.

A Wicca é um credo prazeiroso; e também é um credo socialmente e ecologicamente responsável. As bruxas se deliciam no mundo e em seu envolvimento com este, em todos os níveis.  Elas se regozijam com suas próprias mentes, suas próprias psiques, seus próprios corpos, seus sentidos e suas sensibilidades; e elas se deliciam em se relacionar, em todos estes planos, com suas criaturas companheiras (humanas, animais e vegetais) em com a própria Terra.

A ética Wicca é positiva, muito mais que proibitiva. A moralidade da feitiçaria é muito mais relacionada com ‘bendito é aquele que’ do que ‘tu não podes’. (1) Os extremos do ascetismo masoquista por um lado, ou do materialismo grosseiro por outro, parecem à bruxa como sendo as duas faces da mesma moeda, porque ambos distorcem a plenitude humana ao rejeitar um ou mais de seus níveis. As bruxas crêem num equilíbrio prazeiroso de todas as funções humanas.

Esta perspectiva está perfeitamente expressa na Investidura (vide págs. 297-8): ‘Que minha adoração seja através do coração que regozija; pois prestai atenção, todos os atos de amor e prazer são meus rituais. E portanto que hajam beleza e força, poder e compaixão, honra e humildade, gargalhadas e reverência dentro de ti’. Vale a pena organizar estas qualidades em seus pares polarizados:

                                                     beleza e força

   poder e compaixão

    honra e humildade

gargalhadas e reverência

- e meditar sobre estas como um modelo para uma ética equilibrada, enquanto se recorda que cada uma das oito qualidades é positiva, não restritiva. Compaixão significa empatia e não condescendência; humildade significa uma opinião realista sobre seu próprio estágio de desenvolvimento, não auto degradação; reverência significa um senso de maravilha-se (aquele atributo essencialmente Wicca), não apenas se lembrar de tirar o chapéu dentro de uma igreja ou de colocá-lo dentro de uma sinagoga. E a bruxa está sempre consciente que a compaixão deve estar acompanhada do poder, humildade pela honra, e reverência pela gargalhada.

A Investidura continua: ‘E tu que pensaste em me buscar [a Deusa] sabei que tua busca e teu anseio não te servirão, à menos que conheçais o mistério; que se aquela bruxa que tu buscaste não a tiveres achado dentro de ti, então tu nunca a encontrarás fora de ti. Pois prestai atenção, eu tenho estado contigo desde o início; e eu sou aquela que é alcançada ao final do desejo’.

Isto, também, é uma declaração ética. Para a feiticeira, auto desenvolvimento e a total realização do potencial único embora multi-aspectado de uma pessoa constituem um dever moral. Aquilo que ajuda a evolução à prosseguir é bom; aquilo que a obstrui é mal; e cada um de nós é um fator no processo evolutivo cósmico. Assim deve-se não meramente a si mesmo, mas ao resto da humanidade e ao mundo, buscar dentro de si, descobrir e liberar aquele potencial (2).

Evolução, neste sentido, não significa meramente Darwinismo (embora Darwin certamente definiu um dos caminhos, em um dos níveis, no  qual a evolução cósmica se expressa). Este é o processo contínuo através do qual a força criativa básica do universo se manifesta ‘para baixo’ através dos níveis, com uma crescente complexidade, e é enriquecida a si mesmo pela experiência daquela complexidade. (Em termos cabalísticos,  o ciclo Kether-à Malkuth-à Kether). Isto é um assunto muito profundo, merecendo uma vida (ou muitas vidas) de estudo; para uma primeira aproximação à ele nós recomendamos o livro de Dion Fortune A Doutrina Cósmica e A Qabala Mística (3). Mas enquanto  muitas bruxas de fato estudam esta vasta filosofia, a maioria delas (e todas elas na maior parte do tempo) está mais preocupada com um guia literalmente ‘pé-no-chão’ para suas atividades diárias.

Para este relacionamento vivo com o processo cósmico, numa escala na qual possa ser prontamente percebido o como ele nos afeta, as bruxas se dedicam ao conceito da Terra como um organismo vivo. E esta atitude – física, mental, psíquica e espiritual – é o coração e a alma da Antiga Religião.

A Mãe Terra é concebida precisamente como aquilo. Ela nos produz, nos alimenta, faz o possível para vivermos (em todos os níveis desde o simplesmente biológico até o fantástico criativo), nos recompensa quando nós sensivelmente a amamos, se vinga quando nós abusamos dela, e reabsorve nosso componente material quando morremos. Ela nos recorda que todas as criaturas vivas são nossos irmãos, criações diferentes porém relacionadas do mesmo útero.

O conceito de Mãe Terra pode ser visualizado de várias maneiras, desde a teoria cientificamente sofisticada da Hipótese Gaia (4) até a adoração dela como Deusa. E deveras muitas bruxas consideram a Hipótese Gaia como uma validação posterior de sua imemorial abordagem à Deusa. Como destacamos na Seção XI, a vanguarda inteligente da ciência moderna está se aproximando mais e mais de muitos dos conceitos que as bruxas e os ocultistas  tem sempre mantido; e as bruxas observam este processo com satisfação e simpatia, embora com um ocasional sorriso irônico.

Aqueles conceitos de Deus e Deusa são emocionalmente e psiquicamente necessários para a humanidade, e uma justificável abordagem à realidade, será discutida na Seção XIV, ‘Mito, Ritual e Simbolismo’. Mas aceitando-os no momento (e poucos leitores teriam avançado além neste assunto caso não o tenham feito), ninguém pode negar que a Deusa Terra é o conceito de Deusa mais imediatamente vital para nós, mais facilmente compreendido e mais determinante do ritmo das nossas vidas. Ela é o segundo plano e o primeiro plano da nossa própria existência. Mesmo aquele outro grande aspecto da Deusa que é simbolizado pela Lua seria difícil de se conceber separadamente separadamente da Mãe Terra pela qual ela orbita, cujas marés ela controla e cujas criaturas ela afeta em tudo desde a menstruação das mulheres até o crescimento das plantas. A Mãe Lua é o outro Self misterioso da Mãe Terra; qualquer conceito de Deusa que se situe fora do domínio daquela poderosa sororidade é muito mais sutil e abstrato, e de menor preocupação imediata para os mortais comuns.

Como, então, as bruxas expressam sua devoção à Mãe Terra, em termos éticos ? As implicações são óbvias. A obrigação moral com relação ao processo evolucionário que nós mencionamos anteriormente é visto, pela bruxa, como uma responsabilidade pessoal perante os ritmos e necessidades naturais da Terra como um organismo vivo,e perante as necessidades, ritmos e desenvolvimento evolucionário  de suas criaturas constituintes. Aquelas criaturas – humanas, animais e vegetais – são as células individuais, o sistema nervoso, os pulmões, os órgãos dos sentidos da Mãe Terra, assim como o reino mineral é seu tecido corporal e esqueleto vivos, os mares e os rios são seu fluxo sanguíneo, e seu envoltório de atmosfera é o ar que ela respira como nós o fazemos. 

Eis o porque os cuidados e ações ambientais tem um papel tão importante na ética Wicca. Eis o porque as bruxas ficam zangadas – e ativas – quando as árvores que produzem oxigênio são cortadas mais rápido do que são plantadas, quando baleias e focas são massacradas para lucros comerciais, quando fertilizantes químicos e pesticidas são usados sem levar em conta seu impacto ecológico, quando indústrias indiferentes poluem a atmosfera, os rios e os mares com seus produtos inúteis, e quando a selva de concreto (muitas vezes com mais preocupação comercial do que habitacional) se espalha como uma urticária sobre a pele da Terra.

(Felizmente, não são apenas as bruxas que tem começado à perceber que a violação do planeta está alcançando um estágio crítico; um sintoma desta preocupação pública é que muitos países tem agora um Ministério do Meio Ambiente. Sua eficácia pode ser inadequada ao problema, mas o  próprio termo teria sido sem sentido à uma geração atrás. )

Simplesmente como a ética ambiental das bruxas é traduzida em ação é algumas vezes um assunto complexo; há poucas respostas fáceis, e as bruxas, como qualquer outro que leva o problema a sério, pode trazer respostas diferentes. Por exemplo, algumas bruxas são vegetarianas, enquanto outras percebem que o homem como um onívoro é parte do equilíbrio da natureza, e se concentram nos métodos humanos de produção de carne. Algumas bruxas encaram a revolução do micro-chip com horror, enquanto outras creem que devidamente manipulado ele pode significar desurbanização, comunicação humana barata e simples, lazer incrementado, a eliminação dos empregos sem utilidade, e o redirecionamento dos esforços do homem para a criatividade essencialmente humana. Algumas se recolhem em comunas auto-suficientes, enquanto outras se envolvem profundamente na estrutura existente na esperança de transformá-la.  Algumas escavam o passado para inspiração, enquanto outras fixam seus olhos determinadamente no futuro.

Agora todas estas atitudes, embora elas possam algumas vezes se conflitar umas com as outras, podem bem contribuir com algo construtivo. Mas o ponto principal sobre delas é que todas elas estão motivadas pela mesma ética; amor e respeito pela Mãe Terra e todas as suas criaturas. Esta é a razão, por exemplo, porque as bruxas tanto rurais como urbanas dedicam bastante consideração e esforços aos Oito Festivais, como um método deliberado e sustentado de se manterem em sintonia com o ciclo natural da Mãe Terra em um nível tanto espiritual quanto psicológico. Elas sabem que se os Festivais não alcançarem aquele propósito, serão meras festas.

Esta é também uma das razões pelas quais o herbalismo desempenha um papel tão importante na prática Wicca. Poucas bruxas negariam, ou desejariam depreciar, os progressos genuínos da ciência médica moderna; de fato, muitas bruxas são elas próprias médicas(os) ou enfermeiras(os). (Nosso coven inglês incluía três enfermeiras, um técnico de sala de operações(?) e uma esposa de cirurgião dentista). Mas muito à parte da tradição (bruxas herbalistas eram as curandeiras da vila quando a maioria dos ‘médicos’ eram parasitas ignorantes), as bruxas praticam o herbalismo porque seu estudo as coloca em contato direto com a flora natural da Terra, literalmente, ‘nas raízes da grama’. Existem poucas outras disciplinas mais generalizadas para a observação e a compreensão de seu próprio ambiente natural do que estudar, caçar e usar ervas.

Descobrimos também que muitos médicos aceitam e respeitam herbalistas bem informados, desde que eles não estejam tratando de forma irresponsável os sintomas por ignorância das causas. Quando alguém vem até nós para solicitar cura (seja herbal ou psíquica), nossa primeira pergunta é sempre: ‘Voce já foi ao seu médico, e o que ele está fazendo?’ Se o paciente não foi ao médico, por receio, preconceito ou superstição, nós lhe solicitamos para fazê-lo imediatamente. E se ele o fez, nós gostaríamos de saber sobre o tratamento, para nos assegurar de que qualquer auxílio que tenhamos oferecido não tenha conflitado com este. Esta é uma área muito delicada, a ser abordada com sabedoria; uma bruxa deve ser a aliada do médico, não sua rival. Muitos médicos são curandeiros dedicados – e vale a pena lembras que muitos deles, em adição ao seu conhecimento adquirido, possuem um dom interno que é psíquico em natureza e que os atraiu para a profissão em primeiro lugar; muitas vezes este dom atua sem eles mesmo estarem conscientes de que o possuem, exceto talvez intuitivamente.

 

Com relação às drogas psicodélicas, alucinógenas e similares – nós não as tomamos, e nós as banimos absolutamente de nosso coven. Este banimento inclui a cannabis, embora percebamos que pontos de vista divergentes são sinceramente mantidos sobre a questão de se esta deva ser legalizada.

As drogas, em um sentido, realmente expandem a consciência – mas da mesma forma que alguém que não sabe nadar mergulhando nas profundezas se molha e também está sujeito a se afogar. A expansão da consciência é o objetivo central do desenvolvimento psíquico, porém através de treinamento passo-a-passo e sob total controle do indivíduo. As drogas são um atalho altamente perigoso, lhe dando a ilusão, se voce tiver sorte, de ter os níveis sob o seu comando. (Caso não tenha sorte, ela pode lhe conduzir para qualquer coisa desde trauma até psicose). Eles não estão sob o seu comando, nem as entidades que os habitam, para cujas atividades voce está completamente vulnerável no estado drogado. Voce é como um adolescente que brinca com uma prancheta Ouija apenas por brincadeira – e, como o adolescente, voce pode se apavorar durante o processo, ou sofrer danos reais.

É verdade que no passado (e ainda em algumas culturas) religiões xamãnicas tem usado drogas para propósitos divinatórios. Mas aquilo era feito por sacerdotisas e sacerdotes treinados, sob rígidas sanções sociais e religiosas. Tais sanções não existem mais em nossa cultura, nem é provável que elas sejam funcionalmente re-estabelecidas. É verdade, também, que ocultistas sérios tem atualmente experimentado com drogas psicodélicas sob observação de peritos e em condições cuidadosamente controladas; Lois Bourne em [A] Bruxa Entre Nós (págs.176-82) relata tal experimento controlado com mescalina. Contudo, muito à parte do fato que tais experimentos são necessariamente ilegais, sejamos honestos e admitamos que ninguém dentre mil ‘ocultistas’ entusiastas que usam estas drogas o fazem em tal maneira controlada.

Deve-se também encarar o fato de que, se voce usa estas drogas, voce estará inevitavelmente apoiando as poderosas redes do crime que as utilizam. Estas redes (muitas vezes com amigos em altos postos) enriquecem através da ruina de mentes e corpos, incluindo, numa escala sempre crescente, as crianças que frequentam escolas. Suas atividades se entrelaçam com qualquer outra forma de atividade criminal, de chantagem até corrupção cívica, e eles são provavelmente o elemento mais vicioso e anti-social na comunidade atualmente. Alguns deles estão ativamente interessados no cenário oculto, tanto como um mercado quanto para abusar de seu poder para seus próprios fins. Adicionando-se ao que, no momento em que seu produto chega às suas mãos, sua pureza é, falando por baixo, duvidosa.

Compre drogas e voce estará mantendo a existência de tais pessoas.

Mesmo se voce preparar seus próprios alucinógenos, tais como a Amanita muscaria, voce estará correndo graves riscos físicos e psicológicos – e sua psique estará ainda tentando um atalho perigoso, para lhe dar a ilusão de controle sobre os níveis.

Bruxas inteligentes deixarão absolutamente as drogas,  e alcançarão sua expansão de consciência pelo método difícil – o que a longo e curto prazo é o único jeito.

 

Seria um desperdício de palavras, aqui, reiterar os códigos éticos básicos ‘normais’ que são comuns para todo cristão, judeu, muçulmano, hindu, budista, pagão ou ateu decente ou quem quer que seja – as regras que dizem respeito à sua vizinhança, responsabilidade cívica, cuidados dos pais, da credibilidade e honestidade, da preocupação com os não privilegiados, e assim por diante. Estes são padrões humanos fundamentais que a vasta maioria reconhece e tenta com sucesso variável praticar. Não é preciso dizer que as bruxas fazem o mesmo.

O que nos preocupa aqui são as regras de conduta que são especiais para as bruxas, ou sobre as quais elas depositam uma ênfase especial, devido à natureza da filosofia e suas atividades.

Talvez a mais importante de todas estas áreas especiais seja a magia.

Se voce deliberadamente começar à desenvolver suas habilidades psíquicas  voce estará despertando uma faculdade através da qual voce pode influenciar outras pessoas, com ou sem seu conhecimento; uma faculdade através da qual voce pode obter informação por meios que elas não esperariam ou não permitiriam; uma faculdade através da qual voce pode ou aumentar a energia vital destas ou enfraquecê-las. Por meio da qual voce pode ajudá-las ou prejudicá-las.

Óbviamente, voce está assumindo uma grande responsabilidade sobre si mesmo e esta responsabilidade pede por um conjunto de regras voluntariamente aceitas. E estas regras são todas as mais importantes porque muitas vezes apenas voce sabe se voce está obedecendo-as honestamente.

A observância ou não destas regras é precisamente o que distingue um trabalho ‘branco’de um trabalho ‘negro’. (5)

Todas estas regras estão resumidas na frase: ‘E que isto não prejudique ninguém’. Um(a) bruxo(a) jamais deve usar seus poderes de uma forma que cause danos à outrem – ou mesmo assustar alguém declarando poder fazer [tais coisas]. Outra regra Wicca diz: ‘Nunca se vanglorie, nunca ameace, nunca diga que voce desejaria mal à alguém’.

Há duas situações nas quais, à primeira vista, pareceria que observar a regra de ‘não causar dano’ significaria deixar um malfeitor impune, ou deixar-se a si próprio indefeso contra ataques. Porém existe um meio aceitável de se lidar com cada um desses problemas.

Caso se saiba que alguém está agindo maldosamente e causando danos aos outros, as bruxas são plenamente justificadas para impedi-lo. O método usado é a operação mágica conhecida como ‘amarrar’, que é descrito na Seção XXII (págs.235-7). O objetivo bem específico de um encandamento para ‘amarrar’ é o de tornar as más ações impotentes – não causar danos ou punir o malfeitor; a punição pode ser seguramente deixada para para os Senhores do Karma. O encantamento é contra o feito, não contra quem o faz – e ele funciona.

A Segunda situação é aquela de defesa contra um ataque psíquico deliberado. A maioria dos bruxos e covens brancos estão familiarizados com isto. Suas atividades podem fazer crescer a inveja ou ressentimento dos operadores negros – particularmente quando eles são chamados para resgatar as vítimas daqueles operadores. Isso também pode acontecer quando um membro que teve de ser banido de um coven branco por boas razões, o que felizmente é raro mas algumas vezes inevitável; é muito provável que o bruxo banido venha a expressar seu ressentimento atacando violentamente por meios psíquicos. E naturalmente qualquer coven eficiente estará rapidamente consciente de tal agressão no plano astral.

Um encantamento para ‘amarrar’ também pode ser usado aqui, naturalmente; mas algumas vezes pode-se estar consciente do ataque astral sem se estar certo da sua fonte; ou a fonte pode ser um grupo; sendo que uma ‘amarração’ para este seria mais complicado porque a ‘amarração’ efetiva depende de uma clara visualização da pessoa sendo ‘amarrada’. O meio de defesa mais direto e poderoso, quando voces como indivíduo ou grupo está(estão) sob ataque, é confiar no ‘Efeito Bumerangue’. Este é o princípio, comprovado inúmeras vezes, de que o ataque psiquico que vem de encontro à uma defesa mais forte ricocheteia triplamente sobre o atacante. Então o seu remédio é preparar fortes defesas psiquicas (vide capítulo IX) enquanto voce próprio não contra-ataca deliberadamente. Voce invoca o Deus e a Deusa, no firme conhecimento de que eles são mais poderosos do que qualquer mal que possa ser direcionado contra voce. O ‘bumerangue’ então retorna para quem o arremessou, e se ele sofrer danos, isso será inteiramente devido ao ato dele, não o seu.

Uma linha definida deve sempre ser traçada entre influenciar outras pessoas e manipulá-las.  A cura, ou a solução dos problemas pessoais de outrem que haja lhe pedido por auxílio é um ato legítimo e é deveras necessário influenciar. Manipulação, no sentido de interferir com o direito individual de decisão e escolha de uma pessoa, não é.

Para tornar clara a distinção, tomemos o exemplo dos encantamentos de amor (que são popularmente supostos como sendo a maior parte do “estoque de vendas” de uma bruxa). Utilizar meios mágicos para compelir A à se apaixonarpor B, sem considerar as inclinações naturais dele(a), está completamente errado, e se isto for conseguido, muito provavelmente acabará sendo desastroso para ambos A e B. Tais pedidos podem ser muito mais insensíveis do  que aquele; um homem nos ligou repentinamente e se ofereceu para nos pagar para operar magicamente e fim de conseguir uma garota que ele gostou para levá-la para cama ‘só por uma noite’.  Ele desligou com raiva quando nós lhe dissemos o que ele deveria fazer com seu dinheiro.

Por outro lado, quando Janet era uma bruxa muito nova, ela conheceu duas pessoas as quais ela percebia estarem fortemente atraídas uma pela outra mas ambas eram muito tímidas para dar o primeiro passo. Janet observou a situação se arrastando e finalmente (sem nada dizer para qualquer um dos dois) ela trabalhou num encantamento para acabar com a timidez de ambos e traze-los unidos se eles fossem o certo um para o outro. No dia seguinte o homem propôs namoro à garota. Aquilo foi à doze anos atrás; eles, mais três crianças maravilhosas estão agora ocupados vivendo mais alegremente que antes.

Aquele ‘encantamento de amor’ foi perfeitamente legítimo e útil; não foi manipulação, mas a remoção de obstáculos que estavam obstruindo um desenvolvimento que era natural em si mesmo. E ele continha o tipo de cláusula que toda bruxa com princípios inclui em seus encantamentos caso haja alguma dúvida: ‘se eles forem certos um para o outro’, ‘desde que ninguém seja prejudicado’,  ou qualquer outra frase que seja apropriada. Tal cláusula como parte do texto de um encantamento (e encantamentos, como questões divinatórias, devem sempre ser precisamente formuladas e sem ambiguidade) torna-se parte de sua  intenção, e portanto de seu efeito mágico. Mas como o próprio encantamento, voce deve realmente sentir seu significado – não apenas jogá-lo como uma sopa dentro da sua consciência; de outra forma voce poderá muito bem encontrar por si mesmo o Efeito Bumerangue.

 

Todos estes padrões éticos de não causar mal à ninguém, e de confiar no Efeito Bumerangue ao invés de contra-atacar, pode parecer como se as bruxas fossem pacifistas desqualificadas. Elas não o são. Existem situações na vida ‘comum’ quando uma ação vigorosa é exigida com quaisquer armas disponíveis. Se voce passar por uma velha senhora sendo assaltada, voce não vai fazer pregação para o assaltante – voce o colocará fora de combate se puder.  Se aviões bombardeiros estiveram atacando a sua cidade, voce tentará atirar neles e lançá-los em terra antes que eles soltem suas bombas. Se voce estiver sendo violentada, voce usará o seu joelho com toda força que voce puder reunir, sem se preocupar por quanto tempo o estuprador possa ficar no hospital.

Dar a outra face está muito bem – mas até mesmo Jesus usou da força em uma ocasião, quando ele expulsou os vendilhões do Templo com um chicote de cordas. Eles pediram por isso, eles levaram isso, e eles não teriam respondido por nada mais.

Situações similares de fato surgem dentro da esfera da magia, quando voce tem que agir sem quaisquer restrições,e voce tem que decidir muito rapidamente. Mas, como na vida ‘comum’, uma bruxa bem treinada e conscienciosa sabe que ele(a) terá que tomar a responsabilidade pela decisão, e arcar com as consequências. Arcar com as consequências de não ter agido, quando a ação era necessária, pode ser algo ainda mais sério.

 

A Lei diz: ‘Nunca aceite dinheiro pelo uso da arte, pois o dinheiro sempre mancha aquele que o pega’. É um princípio universal entre as bruxas brancas que não se deve receber pagamento pelo trabalho mágico. A aceitação de honorários de fato ‘mancha’ aquele que os recebe; com a melhor boa vontade do mundo, isso encoraja uma tendência subconsciente de ‘adquirir um hábito’ e a produzir resultados impressionantes através de um pequeno e silencioso encadeamento; convocar o cliente para mais sessões do que o estritamente necessário; e daí a pouco aceitar tarefas que não sejam exatamente negras, apenas um pouco cinza. E daí por diante.  Mais de uma bruxa, ou médium espiritualista, que chegaram à isto, vieram a descobrir que seus poderes originalmente genuínos esvaneceram após ‘se tornarem profissionais’, porque ambos, sinceridade e julgamento se deterioraram.

É geralmente aceito, entretanto, que honorários sejam aceitos para coisas tais como leitura de Taro. Estas são consultas, não operações e dependem mais da intuição do que da magia no sentido estrito. A tentação à produzir espetáculo é pequena, e é facilmente resistida por parte de qualquer tarólogo honesto. E cobrar uma taxa razoável realmente diminui o número de meros visitantes curiosos, que podem se tornar um fardo sério e que provoca perda de tempo uma vez que sua reputação se espalha. Janet teve que abandonar leituras de Taro de ‘portas abertas’ por esta mesma razão.

Nós conhecemos muitos tarólogos bons e incorruptíveis que o fazem para um meio de vida modesto, e nós os temos recomendado sem hesitação. Mas nós nunca conhecemos uma bruxa ou um mago que cobrasse por trabalho mágico e que mantivesse sua integridade.

Artesãos profissionais que entregam suprimentos para satisfazer as necessidades de bruxas e ocultistas são naturalmente um outro caso. Nós conhecemos e lidamos com muitos artesãos que trabalham com metal, fabricantes de incenso, joalheiros, e outros que trabalham em tempo integral dentro desta categoria, e com relação à um pelo menos nós continuamos dizendo que ele cobra muito pouco por seus amáveis produtos. (E por fim, nós somos pagos pelos nossos livros, embora nós dificilmente fiquemos ricos através deles!) Mesmo dentro do coven, se algum entusiasta habilitado produz intrumentos para outros membros por amor à arte, todos nós insistimos em pagar pela sua matéria prima. O ponto essencial é que nenhum desses pagamentos é para trabalho mágico.

Em nossa opinião, seria errado para qualquer artesão reivindicar e cobrar por algum suposto elemento mágico em seus produtos, ou vendê-los como ‘magicamente carregados’ ou ‘já consagrados’. É talvez uma questão de opinião, mas nós sentimos fortemente que consagração e a carga [de energia] são de responsabilidade do usuário – ou, no máximo, aquelas bruxas que dão instrumentos para outras bruxas como presentes podem aplicar aos mesmos uma carga ou consagração inicial como um sinal do amor com o qual o presente é feito. Mas as consagrações nunca devem estar à venda.

Incidentalmente, quando nós fomos iniciados nos ensinaram que nunca se deve barganhar com respeito à instrumentos mágicos; deve-se pagar o preço pedido ou se dirigir à outro lugar. Dion Fortune (Moon Magic, pág. 67) tem as suas reservas: Éxiste um velho ditado [que diz] que o que é procurado para propósitos mágicos deve ser comprado sem pechinchar, mas há um limite para este tipo de coisa’. Doreen Valiente sente ainda mais fortemente. Ela nos conta: ‘Em vários grimórios antigos também se encontra esta declaração; mas eu creio que ele foi inventado por algum esperto comerciante de acessórios mágicos. Não nos ensinaram nada sobre este ponto no tempo de Gerald, talvez porque ele também pensava que esta suposta lei mágica foi inventada por aqueles que tinham algo para vender, e que os estudantes da Arte Mágica tem sido enganados desde então. Contudo, se voce estivesse comprando de um irmão ou uma irmã da Arte, e voce não pudesse pagar o preço que eles pediram, então eu realmente acho que voce não deveria tentar pechinchar com eles. Mas com relação aos comerciantes, procure ter mais força de argumento a seu favor quando for o caso de pechinchar, eu digo!’ Ela adiciona que naturalmente qualquer objeto deve ser limpo tanto física quanto psiquicamente antes de ser posto em uso mágico, e que isto é ‘mais importante do que pechinchar ou não pechinchar’.

 

Mais um pedacinho referente à estes pensamentos sobre ética : uma oração indígena americana (Sioux, nos contaram) que apela fortemente à nós e que nós sempre procuramos ter em mente. ‘Oh Grande Espírito, não permiti que eu julgue meu vizinho até que eu tenha caminhado uma milha usando seus mocassins’. 

 

 

 

                         XIV  Mito, Ritual e Simbolismo

 

Mito, rituais e símbolos ocupam um papel principal na prática Wicca – particularmente em seu aspecto religioso, embora o aspecto da Arte (bruxaria operativa) também está relacionada com os últimos dois pelo menos, uma vez que todo encantamento é de fato a manipulação ritual de símbolos.

Toda religião, naturalmente, está profundamente envolvida com todos os três, embora com vários graus de conscientização. Algumas religiões tentam aprisionar os mitos dentro da camisa de força da história factual – tal como aqueles cristãos fundamentalistas que insistem em que toda palavra na Bíblia é literalmente verdadeira, do Jardim do Éden em diante. Esta abordagem não apenas desvaloriza seriamente uma das mais ricas antologias de mito e simbolismo que nós possuímos; isso também leva os teólogos à algumas controvérsias absurdas. (Adão e Eva tinham umbigos? Como todos os animais entraram na Arca? – e assim por diante). Alguns rebaixam o ritual á um rígido padrão de ortodoxia que perde totalmente de vista o seu significado interior, enquanto outros reagem contra isso minimizando o ritual à um ponto onde o significado é também perdido. Alguns perderam totalmente de vista o papel psicológico dos símbolos, meramente categorizando-os em ‘nossos’ (e portanto sacros) e ‘deles’ (e portanto diabólicos), e falhando em compreender que um símbolo pode ter diferentes significados em diferentes contextos.

Toda religião, naturalmente, inclui indivíduos que possuem  uma compreensão genuína sobre mito, ritual e simbolismo e que estão capacitados à utilizá-los criativamente dentro da estrutura de sua própria fé.  Porém muitas e muitas vezes, se eles tentam expressar esta compreensão para os outros, eles são olhados de  modo inquisidor como prováveis hereges por parte de seus semelhantes religiosos cuja ‘fé’ é uma rígida estrutura de reflexos condicionados.

A Wicca, por outro lado, tenta apreender tal compreensão deliberadamente e desenvolvê-la entre seus membros. Em outras palavras, compreender e ser honesto a respeito das funções psicológicas e psíquicas do mito, ritual e simbolismo, e fazer uso deles com plena consciência, de acordo com as necessidades e exclusividade de cada indivíduo. Isso é muito mais fácil para uma religião não-hierárquica e não-autoritária como a Wicca, que consegue não apenas ser flexível, mas realmente valoriza a flexibilidade.

Tentemos definir estes três cada um por sua vez.

‘O mito [é composto] pelos fatos da mente tornados manifestos em uma ficção de substância.’ (Maya Deren, Divinos Cavaleiros, pág.29). Ou mais especificamente : ‘Os mitos poderiam ser definidos como símbolos estendidos descrevendo vívidamente os padrões típicos e sequências das forças da vida, trabalhando no Cosmos, na Sociedade, e no indivíduo... Porque todo mito surgiu diretamente da psique humana, cada um está repleto de sabedoria e compreensão sobre a natureza e a estrutura da própria psique. Mitologia é  psicologia dramatizada’.  (Tom Chetwynd, Um Dicionário de Símbolos, pág.276).

Agora o propósito da Wicca, como uma religião, é o de integrar aspectos conflitantes da psique humana entre si, e o todo com a Psique Cósmica; e como uma Arte, desenvolver o poder e o auto-conhecimento da psique individual (e num coven, o grupo co-operante das psiques individuais) de forma que ela possa alcançar resultados que estão além do alcance de uma psique não desenvolvida e não auto-consciente – na extensão como um atleta desenvolve, e aprende sobre, sua potência muscular e o controle para realizar feitos impossíveis para os não-atletas.

Os mitos (e seus descendentes folclóricos, os contos de fadas) devem sua durabilidade, e seus poderosos efeitos sobre as mentes dos homens, ao fato de que eles dramatizam verdades psíquicas que a mente inconsciente reconhece de uma vez, mesmo enquanto a mente consciente possa achar que ela está meramente sendo entretida por uma estória bem contada. Ambos os níveis da mente são satisfeitos ao mesmo tempo, e o conhecimento deste fato é  filtrado até a mente consciente na forma de um senso de prazer estranhamente acentuado. Ficção meramente para propósitos de entretenimento, não importa o quão boa, logo morre. Onde a obra de um contador de estórias com genialidade realmente incorpora verdades psíquicas fundamentais, esta sobrevive ou (em dias anteriores à literatura) sendo absorvida no corpo do mito e talvez alterando sua forma embora não seu conteúdo, ou (em tempos posteriores com contadores de estórias tais como Shakespeare ou Goethe) tornando-se consagrada em uma categoria própria, num meio termo entre o mito reconhecido e a ficção reconhecida. Hamlet, A Tempestade e Fausto, por toda sua sofisticação da Renascença ou Idade-da-Iluminação, são fundamentalmente mitos puros, que é o que assegura sua imortalidade.

Nós falamos sobre os aspectos conflitantes da psique humana. Esta é a base de todo desenvolvimento de caráter. Isto é certamente um processo essencial e contínuo para toda provável bruxa – não apenas para alcançar felicidade e equilíbrio como um ser humano mas para liberar e canalizar aqueles poderes psíquicos potencialmente ilimitados que uma bruxa espera por em funcionamento.

Seria muito bem recomendado à toda bruxa estudar as obras de Carl Gustav Jung, o grande psicólogo suiço que desenvolveu [seu trabalho] a partir do pensamento de Freud, transcendendo à este. As idéias de Jung entrem em imediata sintonia com toda bruxa que presta séria atenção às mesmas. (Um pequeno resumo útil destas, com um prefácio do próprio Jung, é a obra de Jolande Jacobi a Psicologia de C.G.Jung.)  Seus conceitos sobre o Ego, a Sombra (tudo na psique que esteja à parte do Ego consciente), a Anima (o lado feminino oculto do homem), o Animus (o lado masculino oculto da mulher), o Inconsciente Pessoal, o Inconsciente Coletivo, a Persona (a ‘capa em volta do Ego’), as quatro funções do Pensamento, Intuição, Sentimento e Sensação (que em qualquer indivíduo podem ser divididas em dominante e inferior), os tipos de atitude de Extroversão e Introversão, e o Self (‘o centro e a última fundação do nosso ser psíquico’) – tudo isso nos parece indispensável para uma compreensão criativa de nós mesmos e de outras pessoas. E em uma escala maior, seu conceito do Inconsciente Coletivo fornece uma chave para a compreensão da telepatia e da clarividência, e aquele da Sincronicidade (ou ‘coincidência significativa’) faz o mesmo para a advinhação e magia em geral.

A idéia central à ser trazida para nossa presente discussão é que a maior parte da psique é inconsciente, fora do alcance do nosso Ego consciente, mas influenciando fortemente o comportamento do Ego sem que o percebamos. O Inconsciente é primordial – o que não significa que ele seja inferior ou que nós devamos super valorizá-lo. Pelo contrário, ele está em contato mais direto com o tecido do Cosmos do que o  Ego, e ele muitas vezes sabe melhor quais são nossas necessidades reais.  Ele também é parte do Inconsciente Coletivo – um prolongamento individual deste, por assim dizer – de forma que ele é essencialmente telepático com relação à outros ‘prolongamentos individuais’, e tem uma percepção de situações gerais além do alcance imediato do Ego, de uma forma que parece ao Ego quase sobrenaturalmente clarividente.

O Ego, por outro lado, possui dons dos quais o Inconsciente carece: a habilidade de analisar e categorizar os dados que chegam, pensar através de passos lógicos e de se comunicar com outros Egos pelo meio preciso e sutil da fala.

Os dois grupos de dons são complementares, e assim o Ego e o Inconsciente necessitam um do outro, tanto para a vida diária quanto para a libertação definitiva do Self essencial, integrado. Mas muitos poucos de nós tem alcançado o estágio onde os dois trabalham tranquilamente juntos.

Quando a comunicação entre os dois departamentos é falha (tal como é em um grau maior ou menor em todos nós exceto nos maiores adeptos), surgem os conflitos. Ego e Inconsciente lutando em direções opostas podem causar o surgimento (em ordem ascendente de gravidade) à tensão, neurose, psicose e o aparecimento da esquizofrenia. Quando o Ego emite ordens impossíveis ao Inconsciente, podem surgir conflitos dentro do próprio Inconsciente – sob a forma de Complexos, centros autônomos que agem quase como entidades independentes; e estas, por sua vez, causam distúrbios no funcionamento do Ego. Igualmente, anseios inaceitáveis do Inconsciente podem ser empurrados de volta pelo Ego abaixo do portal da consciência, quando eles inflamam e eventualmente irrompem de uma forma ou outra.

O que é necessário, obviamente, é a comunicação grandemente melhorada entre o Ego consciente e o Inconsciente. O Ego precisa desenvolver técnicas, primeiro para se conscientizar do fato de que o Inconsciente tem mensagens para ele, e segundo para interpretar estas mensagens, que o Inconsciente pode expressar apenas através de símbolos. O Inconsciente apenas está muito ávido para se comunicar. Existe uma velha piada em que os pacientes Freudianos tem sonhos Freudianos, pacientes Junguianos tem sonhos Junguianos, e pacientes Adlerianos tem sonhos Adlerianos. De fato, isso não é piada mas uma prova de que, se o Inconsciente for presenteado com um código de símbolos passível de ser trabalhado o qual o Ego está aprendendo a compreender, ele irá voluntáriamente se apegar àquele código para fazer atravessar as suas mensagens.

Essa comunicação não provada entre o Inconsciente e o Ego é uma grande parte do que é compreendido como ‘abrindo os níveis’ ou ‘expandindo a consciência’. O conteúdo integral do Inconsciente não pode jamais (pelo menos no nosso presente estágio de evolução) ser tornado diretamente disponível ao Ego; mas uma grande parte deste pode, certamente o suficiente para remover todos os maiores conflitos e enriquecer significativamente o grau de eficácia do Ego – tanto através do aumento da quantidade e variedade dos dados de entrada sobre os quais ele pode agir, quanto também ensinando-o a lição (à qual muitos Egos resistem violentamente) de que ele não é a única, ou mesmo a mais importante função da psique total. Quanto mais o Ego aprende esta lição, e age sobre esta, mais próximo ele chega para ativar o Self central e passar o controle para este.

Registrar os seus sonhos, e aprender a interpretá-los, é uma técnica para se tornar consciente do que o seu Inconsciente está tentando dizer para o seu Ego. Uma outra é o estudo dos mitos, e sua encenação.

Devido aos mitos, como temos visto, incorporam verdades psíquicas universais e as dramatiza de um modo que apela à imaginação, eles não apenas concedem ao Ego uma compreensão mais saudável daquelas verdades (mesmo se apenas inconscientemente)  - eles também abrem canais para o Inconsciente transmitir as verdades mais sutis e pessoais, e posicionar o Ego em uma estrutura mental adequada para absorvê-las. Isto, também, pode ser subconsciente; voce pode partir do prazer em ouvir ou encenar um mito, e então agir mais apropriadamente no mundo diário – achando (ou nem mesmo se preocupando em pensar nisso) que isso se deve à decisão consciente do Ego, enquanto que na verdade isso é devido tanto a mensagem universal do mito quanto as mensagens pessoais que fluiram ao longo dos canais que o mito abriu, influenciaram os critérios sobre os quais o Ego atua.

Muitos mitos e contos de fada dramatizam por si este processo de integração – o confronto por parte do herói com os aparentes perigos do Inconsciente, e a transformação de seu relacionamento com eles. Por exemplo, a mulher velha e feia que se transforma numa bela princesa quando o herói persiste em sua busca ordenada. Aqui o Ego chega à um acordo com sua Anima, que se não for reconhecida ou for rejeitada será uma fonte de conflito. A recompensa do herói é que ele se casa (isso é, se integra com) com a princesa e se torna herdeiro do reino de seu pai (isso é, o destino final do Ego, o reino do Self unificado). E assim por diante (1). Em um sentido, a Lenda da Descida da Deusa das bruxas pode ser vista como a estória do confronto de uma mulher com seu Animus; neste processo, a repulsa inicial é transformada em compreensão e integração, dos quais ambos emergem enriquecidos.

Isso nos traz naturalmente à uma consideração da função do ritual.

Citando novamente Tom Chetwynd: ‘Ritual é a encenação dramática do mito, projetado para produzir uma impressão suficientemente profunda sobre o indivíduo a fim de alcançar seu inconsciente’. (Um Dicionário de Símbolos, página 342).

Isso pode parecer, à primeira vista, ser mais uma curta definição de ritual; mas se pensarmos nela, ela permanece verdadeira referente à todo ritual. O ritual da Missa é uma encenação do mito da atitude simbólica de Jesus com o pão e o vinho. Quer a Última Ceia tenha sido ou não um evento histórico real, ou mesmo que não haja existido nenhum Jesus histórico (como algumas pessoas muito improvavelmente sustentam), isso não afeta o ponto central. Um mito poderoso pode ser uma ficção histórica expressando uma verdade psiquica – ou um ato psiquicamente significativo na história real pode se tornar a semente de um mito subsequente, ou de uma nova versão de um antigo (tal como os mitos poderosos de Hamlet e Fausto tiveram autores historicamente existentes). Mesmo simples rituais ‘supersticiosos’ podem estar baseados em mitos; por exemplo, fazer negócios com seu dinheiro quando voce vê a Lua Nova pela janela (isso é, de dentro da sua casa) não se relacionaria à mitos nos quais a Lua simboliza a Deusa Mãe cujo crescimento encoraja a fertilidade (e portanto a prosperidade doméstica)?

Buscar pelas origens míticas de um ritual  pode ser interessante, mesmo algo iluminante; mas o sucesso ou a falha em rastreá-los não altera a validade da definição. Um ritual é uma verdade psíquica encenada; um mito é uma verdade psíquica falada ou escrita; assim ambos são da mesma natureza – assim como a mesma estória pode ser contada em um romance ou filme, ou um baseado no outro.

De fato, um mito pode se originar em um ritual tanto quanto vice versa. Como Chetwynd ressalta: ‘Os mitos comunais eram as palavras rituais dos grandes festivais de culto do mundo antigo, e as características típicas da mitologia deram forma simbólica à vida do homem, seus desejos, suas necessidades’. (Um Dicionário de Símbolos, pág.276).

O ritual então realiza a mesma função psíquica que o mito, mas com o impacto adicional sobre o indivíduo da participação pessoal. Ouvir ou ler um mito pode ter um efeito poderoso; tomar parte nele voce mesmo, ao desempenhar um dos papéis, pode ser ainda mais poderoso.

Tomemos o exemplo da Lenda da Descida da Deusa novamente. Uma bruxa que atua no papel da Deusa visitando o Submundo vai através de todo o processo; seu Ego é despido de sua Persona, sua imagem confortável porém inadequada de si mesma; nua ela confronta o Senhor do Submundo (seu próprio Animus) e o acusa de ser destrutivo; enquanto ela persiste em considerá-lo como um inimigo, ela tem que sofrer em suas mãos; mas porque ela não foge do confronto, nasce a iluminação, e ela compreende a verdadeira função dele. ‘Eles se amaram, e se tornaram um’. A integração alcançada, eles aprendem  um  do outro, e o Ego retorna ao mundo diário mais sábio e mais eficaz, o suposto inimigo, o Animus, tendo sido transformado em aliado.

Mas a Lenda tem mais de um significado, e o homem que atua como o Senhor do Submundo também se beneficia. Sua Anima faz sua presença percebida, e primeiramente ele tenta se esquivar do assunto simplesmente apelando à ela para ser boa para ele (como Édipo, implorando à sua Anima para se identificar com  sua mãe?). Ela não vai permitir que ele se saia com esta; ela replica, ‘Eu não te amo’ – até que ele continue com a parte dolorosa do confronto. Sabiamente, ele não a ataca; ele ‘a chicoteia suavemente’ – em outras palavras, ele continua sondando para descobrir o que deveria ser o verdadeiro relacionamento deles.  Sua Anima o conhece parcialmente, apesar das dores da tentativa na integração: ‘Eu conheço as angústias do amor’. Agora eles iniciam o intercâmbio construtivo que os enriquece a ambos.

Cada  uma dessas lições se relaciona à psique individual da persona  que atua no personagem. Mas existe também uma lição interpessoal; cada um é lembrado vívidamente que a polaridade dos aspectos masculino e feminino é a mais poderosa de todas as ‘baterias’ psíquicas.

Agora todas estas lições, caso fossem meramente colocadas no papel como um tratado psicológico, apelariam apenas ao Ego consciente. Se o Ego fosse convencido, ele teria então a tarefa de descobrir como aplicá-las em cooperação com o Inconsciente. Mas quando elas são encenadas em forma dramática, elas apelam diretamente ao Inconsciente – e se o ator tiver compreendido o significado do que ele ou ela está fazendo, também [apelam] ao Ego consciente. A tarefa de por as lições em prática é então tornada muito mais simples.

Nos sonhos, a comunicação necessária entre Inconsciente e Ego é iniciada pelo Inconsciente. No ritual, ela é iniciada pelo Ego. Assim sonho e ritual realmente se complementam um ao outro.

Mito, ritual e sonhos, todos falam através de símbolos. Todos os três podem usar palavras, mas os símbolos são o seu real vocabulário. As  palavras do mito podem descrever factualmente eventos ou criaturas impossíveis; as palavras do ritual podem parecer paradoxais; e as palavras dos sonhos podem ser surrealistas e aparentemente não relacionadas à ação. Ainda assim em cada caso, os símbolos envolvidos falam a verdade.

Um símbolo é a incorporação de um conceito, destilado, condensado e destituído de suas [partes] não essenciais. Ele pode ser de muitos tipos. Ele pode ser um artefato físico (ou representação pictográfica), tal como a cruz do Calvário, um ankh, um pentagrama ou uma bandeira nacional. Ele pode ser uma criatura imaginária, tal  como uma sereia ou um centauro. Sobrepondo-se com o último, ele pode ser uma imagem visual conferindo uma forma compreensível para uma entidade não-física, tal como um anjo com um corpo humano e asas ou um Deus Chifrudo. Ele pode ser um objeto natural do nosso meio ambiente cujo comportamento evoque o conceito que ele veio a simbolizar, tal como o Sol como um Deus fertilizador e doador de luz e a Lua como uma Deusa multi aspectada que ilumina o lado escuro da psique; ou  como o lótus que simboliza a psique integrada por ter suas raízes na lama escura e sua flor no ar brilhante. Ele pode ser uma peça de música, como um hino nacional ou uma canção revolucionária. Ele pode até mesmo ser uma pessoa viva, através do processo conhecido como ‘projeção’ – ou comunitariamente, como quando uma comunidade projeta seu senso de identidade nacional sobre um soberano ou seu senso de missão sobre um líder carismático, ou individualmente, como quando voce projeta seu próprio desprezo sobre um conhecido e o trata dessa forma com desgosto irracional, ou quando um marido projeta sua Anima sobre sua esposa (ou uma esposa projeta seu Animus sobre seu marido) e assim trata a parceira de forma não realista. Ele pode ser uma cor, tal como o vermelho para sangue, perigo ou vida, ou preto para morte, o Inconsciente, magia maliciosa ou direitos civis na América (a cor é talvez o exemplo supremo de como os símbolos podem ser ambivalentes, seu significado se modificando conforme o contexto). Ele pode ser um simples sinal como um ponto de exclamação ou o sinal do Dólar, que começaram meramente como um fragmento conveniente para taquigrafia elaborada por humanos, mas que através do longo uso se tornaram ‘numinosos’ – isso é, carregados com significado emocional, que é o que distingue um símbolo de um mero sinal. Ele pode ser um número, ; no pensamento cristão, 3 representa puro espírito abstrado, enquanto que em todas as culturas o 4 representa plenitude psíquica, puro espírito aperfeiçoado e preenchido pela manifestação; e significativamente, números ímpares aparecem repetidamente como símbolos masculinos, e os pares como femininos.

Todos estes, e muitos mais, são símbolos – alguns óbvios ao Ego consciente, e alguns mais sutis e difíceis de interpretar; e o mito, rituais e sonhos, ao dramatizar sua interação, podem apresentar mensagens complexas e vitalmente importantes.

Os símbolos mais poderosos de todos são aqueles que conferem significado aos Arquétipos – outro termo Junguiano. Primeiramente Jung os chamou de ‘imagens primordiais’ ou ‘dominantes do inconsciente coletivo’, mas posteriormente ele adotou a palavra grega (arkhetupiai), equivalente do termo latino de Sto.Agostinho ideae principales ou ‘idéias principais’. Como Sto.Agostinho coloca em seu Liber de Diversis Quaestionibus: ‘Pois as principal ideas são certas formas, ou razões estáveis e imutáveis de coisas, elas próprias não formadas, e assim continuamente eternas e sempre da mesma maneira, que estão contidas na compreensão divina. E embora elas próprias não pereçam, ainda assim por meio de seu padrão diz-se que é formado tudo o que é capaz de vir a existir e perecer, e tudo que de fato vem à existir e perecer. Contudo é afirmado que a alma é incapaz de contemplá-las, salvo se ela for a alma racional’. (tradução de Alan Glover).

Os Arquétipos são elementos do Inconsciente Coletivo – que é aquela parte da psique que é universal à todos os períodos e culturas, e comum para todos os indivíduos. Nós o herdamos da raça humana como um todo, não sendo modificado através do filtro de nossos pais. Os símbolos através dos quais nós nos tornamos conscientes dos Arquétipos podem ser condicionados culturalmente ou individualmente até um certo ponto, mas os próprios Arquétipos não o são; eles ‘continuam eternos e sempre da mesma maneira’. Como Jung diz, o termo Arquétipo ‘não se destina à significar uma idéia herdada, porém muito mais um modo herdado de funcionamento psíquico, correspondente àquele caminho inato segundo o  qual o pintinho sai do ovo; o passarinho constrói seu ninho; um certo tipo de vespa ferroa os (gânglios do_?) nervo motor da lagarta; e as enguias encontram o seu caminho para as Bahamas. Em outras palavras, ele é um “padrão de comportamento”. Este é o aspecto biológico do Arquétipo – é o objeto de estudo da psicologia científica. Mas o quadro se altera subitamente quando observado de dentro, que vem através do reino da psique subjetiva. Aqui o arquétipo se apresenta como numinoso, isto é, aparece como uma experiência de importância fundamental. Sempre que ele se veste com símbolos adequados, o que não é sempre o caso, ele toma conta do indivíduo de um modo alarmante, criando uma condição de ser “profundamente movido” cujas consequências podem ser imensuráveis (2). É por esta razão que o arquétipo é tão importante para a psicologia da religião. Todas as religiões e conceitos metafísicos repousam sobre fundações arquetípicas e, na extensão em que somos capazes de explorá-los, nós conseguimos ganhar pelo menos uma olhadela superficial por trás das cenas da história mundial, e podemos levantar um pouco o véu de mistério que oculta o significado das idéias metafísicas’.  (Introdução de Jung à Mistérios da Mulher de Esther Harding, págs.ix-x).

Uma boa idéia do pensamento de Jung sobre os Arquétipos pode ser obtida de seu livro Quatro Arquétipos – Mãe, Renascimento, Espírito, Trapaceiro. Como será notado neste título, pode-se dar nomes-rótulos de forma útil à muitos Arquétipos. E tomando apenas um desses Arquétipos, a Mãe: você pode obter um conceito de quão vastas e complexas são as ramificações de um simples arquétipo ao ler Mistérios da Mulher de Harding e A Grande Mãe de Erich Neumann. Nenhum desses autores declararia  ter exaurido o assunto, pois por sua natureza um Arquétipo nunca  pode ser completamente definido. Isso é muito fundamental. Ele pode se relacionar à consciência apenas através de símbolos, e mesmo eles, como ressalta Jung, podem nem sempre serem adequados.

Os Arcanos Maiores do Taro devem seu poder, e sua eficácia em mãos sensitivas, ao fato de que cada um deles é um símbolo arquetípico. Ainda aqui, a natureza ilusória das definições arquetípicas se faz sentir. Tomemos os quatro exemplos do Quatro Arquétipos de Jung e tentemos correlacioná-los  com os trunfos do Tarot: a Mãe corresponde mais prontamente à Imperatriz, embora aspectos dela lancem matizes na Suma Sacerdotisa, a Estrela e outros; Renascimento sugere Morte, a Torre e o Julgamento para começar; e o Trapaceiro é razoável e obviamente o Mago – mas ele não é o Diabo também ? Como um exercício, nós lhe deixamos tentar correlacionar o quarto Arquétipo, Espírito, com um trunfo do Tarot.

Nós próprios fizemos um experimento. Stewart escreveu o parágrafo acima e, sem mostrá-lo à Janet, perguntou por suas próprias correspondências. Ela respondeu com: Mãe, a Imperatriz e a Estrela; Renascimento, a Estrela, Morte, a Imperatriz, o Universo, Julgamento, a Roda da Fortuna e a Lua; Trapaceiro, o Mago, a Lua e a Roda da Fortuna.

Como voce pode perceber, nossas respostas se sobrepuseram mas se diferenciaram, o que não significa que qualquer um de nós estava ‘certo’ ou ‘errado’. Isso simplesmente sublinha o fato que, enquanto os próprios Arquétipos são imutáveis, os símbolos por meio dos quais nós os abordamos (ou a ordem na qual nós organizamos um complexo de símbolos) podem se diferenciar de acordo com nossa composição, sexo e experiências pessoais.

 

A consideração sobre os Arquétipos nos traz à um dos problemas mais importantes dentre todos: o das formas-de-Deus [God-forms].

Uma God-form – a imagem mental na qual um crente [no sentido apenas de acreditar] se reveste, e através da qual ele se esforça para se relacionar com um Deus ou Deusa em particular – é inquestionavelmente um símbolo arquetípico; pois igualmente de forma inquestionável, Deuses e Deusas são por si próprios Arquétipos, fundamentais para a natureza do Cosmos. Eles são incognoscíveis diretamente, como todos os Arquétipos (‘Tu não podeis ver minha face: pois nenhum homem poderá me ver, e continuar vivo’ – Êxodo xxxiii:20); mas quando se aproxima deles através de God-forms adequadas e vívidamente experimentadas – na frase de Jung, as consequências podem ser incomensuráveis.

Para a antiga pergunta ‘Os Deuses são reais?’ (ou como um monoteísta a formularia, ‘Deus é real?’), a bruxa responde com confiança ‘Sim’. Para a bruxa, o Princípio Divino do Cosmos é real, consciente e eternamente criativo, manifestando-se através de Suas criações, incluindo a nós mesmos. Esta crença é naturalmente compartilhada pelos seguidores de todas as religiões, que diferem apenas nas God-forms (ou única God-form) que eles constróem como um canal de comunicação com os Seus aspectos. E mesmo estas várias God-forms diferem menos do que pareceria à primeira vista. Por exemplo, a Isis dos antigos egípcios, a Aradia das bruxas e a Virgem Maria dos católicos são todas formas de Deusas essencialmente concebidas pelo homem relacionando-se à, e extraindo seu poder, do mesmo Arquétipo. Nós dizemos ‘concebidas pelo homem’, mas a construção de uma forma de Deus ou forma de Deusa é naturalmente um processo de mão dupla; mesmo um símbolo parcialmente adequado concebido pelo homem melhora a comunicação com o Arquétipo incognoscível, que por sua vez reage proporcionando uma melhor compreensão de sua natureza e assim melhora a adequação da God-form. 

Um psicólogo não religioso provavelmente responderia ‘Não’ para a mesma questão. Ele sustentaria que os Arquétipos, embora vitais para a saúde psíquica do homem, são meramente elementos no Inconsciente Coletivo humano e não (no sentido religioso) cósmicos por natureza.

Nós nos mantemos à nossa visão do Cosmos, isto é, a visão religiosa, que é para nós a única que por fim faz sentido. Porém do ponto de vista do valor psíquico do mito, ritual e simbolismo, a resposta algo surpreendente à questão é, ‘Não importa’. Cada homem e cada mulher pode se preocupar por si mesmo(a) se as God-forms arquetípicas foram originadas dentro do Inconsciente Coletivo humano ou lá fizeram morada (e em outros lugares) como pieds-à-terre (francês: pés-no-chão [?] ) a partir de sua morada cósmica – sua importância para a psique humana está para além da dúvida em qualquer um dos casos e as técnicas para chegar à termos saudáveis e frutíferos com eles podem ser utilizadas tanto por crentes como por não-crentes igualmente.

Voltaire disse: ‘Se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo.’ Esta observação pode ser tomada como cínica; mas ela pode ser refeita: ‘Se as God-forms arquetípicas são cósmicamente divinas, ou meramente as pedras de fundação vivas da psique humana, seria sábio de nossa parte buscar relacionamento com elas como se elas fossem divinas’.<